quinta-feira, 9 de julho de 2009

No Centro de um Planalto Vazio

O inverno em Brasília é, para mim, a estação mais bonita do ano.

A seca ainda não castiga tão severamente, faz um friozinho agradável de noite e, durante o dia, a luz atinge uma plenitude impressionante. Fora o céu, que vai do azul mais absurdo aos meios tons que adornam o entardecer. Um espetáculo.

Gosto da cidade, que, ao contrário do que dizem os não locais, não é impessoal e fria. É preciso cuidado para descobrir os pequenos encantos de Brasília.

Cuidado que tiveram alguns compositores, que elegeram a capital federal como musa inspiradora.

Renato Russo talvez seja o mais célebre deles. É dele, por exemplo, Música Urbana, famosa na gravação do Capital Inicial, e que fala de pontos marcantes da cidade como a torre de TV e a plataforma da Rodoviária.

Mais brasiliense, então, é Eduardo e Mônica, com a letra mencionando o Parque da Cidade, a galera da universidade e a tchurma alternativa. E o que dizer de Faroeste Caboclo, verdadeiro épico glauberiano passado sob o sol do cerrado?

Toda vez que me lembro dessa música, fico pasmo com a popularidade da Legião à época do lançamento do disco Que País É Esse (1987). Somente Renato e seus legionários poderiam ter lançado uma música de quase 10 minutos, com referências a Brasília, que somente quem mora aqui consegue entender, e fazer um sucesso descomunal.

Outro grupo que é a cara de Brasília é o Plebe Rude. Embora não tenha resistido às pressões do sucesso, o grupo – considerado por muita gente boa um dos melhores do rock brasileiro – trouxe uma raiva e uma energia muito necessárias para a cena nacional.

O Capital Inicial também tinha uma marca muito brasiliense em seu som. Não por acaso, o baixista e o baterista da banda, os irmãos Flávio e Fê Lemos, foram companheiros de Renato Russo, no seminal Aborto Elétrico. Daí, que o primeiro disco do Capital, de 1986, é um meio termo entre o punk politizado do Aborto e o som mais pop que o grupo acabaria adotando no futuro.

Agora, para quem tem entre 35 e 45 anos (como é o meu caso), nada é mais Brasília que o mala Oswaldo Montenegro. Lá no início da década de 80, ele arrastava multidões aos teatros da cidade para assistir seus musicais.

Mérito lhe seja dado, algumas músicas resistiram ao passar do tempo e até hoje se pode escutar com certo prazer a Léo e Bia e Bandolins.

Ele já era um chato, mas, sem dúvida, soube traduzir em música e letra o clima místico e isolado de uma cidade que foi construída no meio do nada, com um lago artificial e uma arquitetura do futuro.

E presenteada com um céu como nenhum outro no mundo.

10 comentários:

L. disse...

Moço Inteligente,

Todas as vezes que estive em Brasília sofri bastante por causa da seca. Mas sempre a vejo como uma cidade poética, de bandas e arquitetura "revolucionárias" ou melhor dizendo: inovadoras!

Sou filha de arquitetos que são apaixonados por música. Foram pais aos 20 anos em 1980, ou seja super jovens e respirando também coisas novas! Nasci e cresci com isso tudo: respirando esse bom rock nacional e aprendendo a amar os traços e curvas de Brasília.

Um beijo,
L.

Lídia Borges disse...

Muito interessante esta viagem pela cidade através da música.

Obrigada!


L.B.

Dan disse...

Também acho o Oswaldo um chato, super chaterrimo, mas de vez ele acerta:
"Numa tarde quente eu fui me embora de Brasília
Num submarino do lago Paranoá
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro namorando Madalena na beira do mar
Qualquer dia, mãe, você vai ter uma surpresa
Vendo na TV meu peito quase arrebentar
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro namorando Madalena na beira do mar
Quem quiser que faça o velho jogo da política
Na sifilítica maneira de pensar
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro namorando Madalena na beira do mar
Eu tenho o coração vermelho
E o que eu canto é o espelho do que se passa por lá"

Como você disse o velho cantador de Brasília, mas Renato Russo e nosso Renato ele sim o verdadeiro cowboy daí...

Circe Araújo disse...

Adorei!

Luis Valcácio disse...

Dan, tinha me esquecido dessa música... Tem tudo a ver com a Brasília da década de 80!
Obrigado pelos comentários, pessoal!
Ah, L., agora descobri porque uma moça tão jovem tem um gosto tão refinado. São as boas influências paternas.
Beijos!

Eliana f.v. - Li Andorinha - disse...

Interessante a sua visão musical
Luis Valcácio...informação em sinfonia é uma Maravilha mesmo!
Grata por compartilhar

Agradeço por estar como seguidor do
meu blog

abraços mais carinho
Eliana

Luis Valcácio disse...

Obrigado pela visita, Eliana. Volte sempre.

Cris disse...

Ola meu amigo, que viagem heim! e quanta banda boa...também acho Osvaldo meio mala, mas Bandolin e Metade ainda me fascinam...gosto da letra de Metade...mas senti saudades dessa época das bandas de Brasília florescendo...Fatima, foi um dos hits do Capital que eu adorava..

Anônimo disse...

curioso. leio sobre música e penso em filmes. penso em "o sonho não acabou" e "a concepção" e em outros mais. obras, no geral, inexpressivas e filmadas no distrito federal. como brasília às vezes me parece. por isso que quando penso no que acabo de ler duas músicas da legião urbana me vêm a mente: "por enquanto" e "o mundo anda tão complicado". verdadeiros clássicos. pode não se estar falando de brasília, nem se passando por aqui. mas poderia.

lázaro luis lucas
brasília-brasil

Danitza disse...

Só Renato Russo fez uma geração inteira cantar 10 minutos de uma estória (deixo registrado, odeio esta palavra - gosto mesmo é de história).
O pior e o melho de tudo é que em qualquer canto, cantamos Brasília...

Abraços, boas férias!

A Seguidora fajuta!!!! rs