quarta-feira, 27 de maio de 2009

Tristes Trópicos

Dia desses, estava o rádio do meu trabalho ligado numa dessas estações que tocam o melhor da música brasileira, quando escuto a versão de uma canção que já devia ter sido sepultada para sempre.

O tal cover era de Um Dia de Domingo, sucesso bregoso interpretado originalmente por Gal Costa e Tim Maia. Pois não é que a música foi regravada por uma das figuras mais nefastas da atual cena pop brasileira, Ana sou bi e daí Carolina.

Ana não é nada burra e deu aquela roupagem voz e violão que muita gente acha o máximo do despojamento e sofisticação sonoros e, pronto, lá está a onipresente mineira berrando para quem quiser ouvir que tudo vai ficar por conta da emoção (argh!!!!!!!!!!!).

Na verdade, Ana Carolina não é o grande problema da música brasileira de grande consumo. O problema é a indústria querer vendê-la como ótima cantora e compositora, são as rádios que executam suas canções de hora em hora, é a televisão que a promove incessantemente.

É uma massificação do gosto raso da maioria, que só encontra paralelo na baiana Ivete Sangalo, essa, sim, um caso criminoso de imposição de uma estética burra, que privilegia somente o entretenimento e coloca a música em último lugar.

Não à toa, os espetáculos de Sangalo são cada vez mais superproduzidos, uma imitação grosseira de grandes shows internacionais. Nada contra música como pura diversão, mas há um sério risco para a cultura de um país quando toda arte se resume a mero passatempo.

Sei que não sou exatamente um entusiasta da nossa música. Acho que os grandes luminares do cancioneiro brasileiro são, em sua grande parte, pedantes e pretensiosos, mas reconheço a importância de Chico Buarque, de Caetano Veloso, de Gilberto Gil e de João Gilberto. E até tenho um grande afeto pela fase jovem guarda de Roberto Carlos, além de achar a produção de Rita Lee, na década de 70, fantástica.

Bem ou mal, toda essa geração, que hoje se encontra com mais de 60 anos de idade, deixou um legado. O mesmo se pode dizer, com certas ressalvas, da galera do rock oitentista.

Quanto a essa gentalha que anda sugando o resto de energia da agonizante indústria fonográfica nacional, penso que seu legado será a destruição de toda fagulha de criatividade e originalidade que ainda possa existir pelos rincões deste imenso País.

Talvez, a luz no final do túnel esteja no underground, nas grandes festas populares e nas pequenas manifestações artísticas, que se mantém à parte da mídia.

Está mais do que na hora de um levante.

9 comentários:

Amanda Cecilia disse...

Olá...vi que vc decidiu seguir o meu blog e fiquei muito feliz, quando entrei aqui e vi do que se tratava o seu, fiquei mais feliz ainda...música é paixão!!!
Um abraço!

Anônimo disse...

perfeito, perfeito, perfeito. direto ao ponto, prezado luis valcácio. ana carolina regravando "um dia de domingo", logo do domingo? francamente. até quando essa moça irá prostituir seu talento? onde está a comunidade lésbica desse país para promover um "beijaço" em prol da arte "gay" brasileira. que arte? amei, luis, amei. deixe-me agora voltar à minha crise existencial por ter nascido quase preto e quase pobre nesse quase país. o haiti, definitivamente, é aqui. e viva bárbara ... bem, aquela senhora, amiga de zé celso.
lázaro luis lucas
brasília-df

Luis Valcácio disse...

Que arte gay, meu caro? Pelo que me consta, este país somente teve dois artistas assumidamente gays: Renato Russo e Cássia Eller. O resto se esconde atrás de mil e uma metáforas covardes com ares de "poesia". Triste mas verdadeiro...

Walkyria Suleiman disse...

Ah Luís, eu sou fã de MPB, por isso posso concordar com seus exemplos de mão cheia. Ana Carolina e Ivete, tenha dó.... é muito ruim.
Eu citaria mais uma penca de cantoras novas, que a crítica insiste em "enraizar" na MPB.

Laguardia disse...

Tenho saudades do tempo em que a musica não era apenas som. Tinha poema. Era uma poesia cantada que fazia sentido, que tinha beleza.

Hoje muita música que se ouve não tem sentido. São palavras sem pé nem cabeça.

Fernando disse...

Olá Luis, parabéns pelo blog. Falar sobre música é falar do meu passatempo preferido: ouvir música. É quase um vício. Mas infelizmente nem tudo são rosas na mpb (do qual não sou estritamente fã): Anas, Ivetes, Cláudias etc na minha humilde opinião são meramente produtos comerciais. Não que sejam péssimas cantoras, óbvio, mas são apenas famosas pq dão lucro, especialmente pra tv (diga - se Globo) e gravadoras, que as transformam em mitos, mas não passam apenas de mero produto.
Abraço

Fernando

Tata Marques disse...

"Talvez, a luz no final do túnel esteja no underground, nas grandes festas populares e nas pequenas manifestações artísticas, que se mantém à parte da mídia".
E não foi sempre assim? Quer dizer, sempre que a coisa parecia não ter mais solução, não era o underground que vinha salvar todo mundo? Talvez estejamos prestes a uma grande revolução sonora. Vá saber.
Na minha opinião, mídia é uma coisa que inventaram e que a gente acreditou. Basicamente, a verdade ainda está no underground.
Bjos.

Luis Valcácio disse...

Tata, acho que a música que se faz à margem é sempre a mais criativa, porque não tem compromissos ou amarras, mas, ao lado disso, acho fundamental que um país tenha uma cultura de massa. Bons filmes, bons livros e bons discos. O Brasil tem falhado miseravelmente em produzir tais coisas nos últimos tempos. Ou alguém acha que "Se Eu fosse Você" é um bom filme?

Luis Valcácio disse...

Fernando,
vc falou tudo. Quando vejo as citadas cantoras só consigo visualizar um grande cifrão. Ainda bem que temos as eternas divas da música para nos confortar. Quando quero escutar uma grande voz feminina corro para Aretha Franklin e Nina Simone. É alegria certa!