Sua carreira contempla estilos diferentes, indo do cinema de temática social fortemente influenciado pelo neo-realismo, até adaptações de clássicos da literatura e de tragédias gregas.
Entre estes últimos, estão sua releitura muito pessoal de Medeia – estrelado pela cantora lírica Maria Callas – e de Édipo Rei.
A história de Édipo – o filho que mata o pai e se casa com a própria mãe –, é uma das mais conhecidas da tragédia clássica, muito graças às teorias de Freud, que se apropriou do mito grego para fundar a Psicanálise.
Justamente por isso, é interessante conhecer a visão de Pasolini.
Sem um respeito exagerado por um texto tão caro ao inconsciente coletivo do Ocidente, mas, ainda assim, mantendo-se fiel à trajetória do herói helênico, Pasolini nos apresenta um Édipo intenso, vivo e real.
É também curiosíssima a opção da transposição da Grécia Clássica para um deserto bárbaro, onde profecias terríveis acontecem em meio a danças tribais e assassinatos sangrentos são presenciados por deuses mudos.
A profunda compreensão do cineasta de que o terreno da tragédia é, na verdade, a alma humana, se traduz em imagens de grande impacto.
Daí, talvez, o deserto, o ermo, o horizonte perdido em que Édipo vaga desesperado ao final de seu drama.
Cego, humilhado e perdido para sempre, Édipo é nós todos: seres ridículos tateando no escuro da existência.
3 comentários:
Que abordagem mais verdadeira, mais intensa.
Bonita escrita, meu caro Luis.
Parabéns.
luis valcácio comentando pasolini, o cineasta, em Édipo Rei (1967) e Medéia (1969). maravilha! texto enxuto e preciso, um prefácio apropriado para aqueles que pretendem se aventurar no universo de um dos mais inquietos diretores de cinema do século 20. sei que o blogue é sobre o mundo da música - sinto que ivete sangalo irá a qualquer momento levantar a poeira por aqui - mas adoro suas palavras sobre cinema e literatura, afinal toda arte é, de certo modo, musical. a sétima arte em particular.
lázaro luis lucas
brasília-df
"Poeira, Poeira", delícia cremosa de encanto baiano em paragens valcacianas. Não vejo a hora de tais bombásticas abordagens. Treimei, meu jovem Lázaro Luis, tremei...
E viva o Cid Moreira ao piano alternativo...
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