domingo, 18 de outubro de 2009

Tanto Tempo Longe de Você...

Foi necessário que se passassem quase 40 anos para que eu admitisse abertamente e, principalmente, para mim mesmo, que eu sou um dos milhões de apaixonados pela música de Roberto Carlos.

Durante toda minha infância, nenhum artista foi tão presente na minha casa quanto ele. Eu tinha a clássica tia hipocondríaca que só parava de falar em doença quando tocava alguma coisa de Roberto no rádio, as primas que colecionavam recortes de revistas, a irmã que sabia todas as letras, um primo que tocava no violão as canções que ele fez para a gente, outro que o imitava horrivelmente, enfim, tinha fã de todas as espécies por perto.

Mas chegou a adolescência e Roberto virou, para mim, o símbolo de tudo que estava errado com a música brasileira. Pô, o cara já havia sido o rei do rock no Brasil e, de repente, grava uma "coisa" como Caminhoneiro!

Para quem estava mergulhando de cabeça em Led Zeppelin e Rolling Stones, não havia mais sentido em ficar babando por uma figura que fazia especiais pavorosos todo final de ano na Rede Globo, lançava discos a cada natal como se fosse um burocrata batendo o ponto e ia se tornando um católico mais fanático a cada ano que passava - nada contra católicos, mas tudo contra fanáticos.

Só mais recentemente, com o Acústico MTV, é que eu fui redescobrir pérolas como Todos Estão Surdos e Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos. Que muito além das músicas sobre mulheres gordas ou de óculos, havia experimentos com a soul music americana no final da década de 60 e início da de 70, que originaram temas até hoje bastante regravados como Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo e Não Há Dinheiro Que Pague. E que nunca se escreveram versos tão bonitos em nosso cancioneiro como os de Detalhes e Cavalgada.

Na última sexta-feira, dia 16 de outubro, eu fiz de vez as pazes com esse passado mal resolvido, indo assistir ao meu primeiro espetáculo ao vivo do Rei.

Acho que só quem já esteve num show de Roberto pode entender plenamente o que é essa celebração emotiva, a comunhão de milhares de pessoas em torno de uma figura muito simples, de gestos comedidos e carisma gigantesco.

Ao longo de um set list que englobava desde sucessos da jovem guarda até o auge de suas músicas românticas, passando também pela fase mais brega de sua carreira, me peguei várias vezes com lágrimas aflorando aos olhos.

Voltei a ser menino sem dó nem piedade. Lembrei do meu avô, que morreu quando eu tinha 10 anos e de como minha mãe se emocionava quando ouvia Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo. Lembrei da Escola Classe da 304 Norte e de uma Brasília que não existe mais.

E isso tudo foi muito bom. Anos de terapia não teriam resolvido tão bem o que esse senhor fez por mim em apenas 2 horas!

Do alto de seus 50 anos de vida artística, Roberto Carlos permanece um caso de popularidade e paixão único em nosso país. Vendo-o, ao vivo, pude compreender tal fenômeno em sua totalidade.

Afinal, como já disse Caetano Veloso, não é à toa que a gente o chama de Rei...

6 comentários:

Afonso C. disse...

Amo.

L. disse...

Luis,
Você conseguiu traduzir o que eu sentia em relação a ele.
Ainda não assisti um show do Rei, mas desde que fiz as "pazes", ou melhor, desde que passei a vê-lo com outros olhos, corro ansiosamente atrás de ingressos!
Um beijo,
L.
P.S - O que acho mais engraçado é me pegar cantarolando-o várias vezes ao dia.

Solange Maia disse...

risos....

Adoro o Roberto, e vem lá da infância também...

Gosto de Insensatez.
Mas amo mesmo é Cavalgada.

Ele já foi fundo musical da vida de muita gente...

beijo

Luis Valcácio disse...

Ah, minhas caras e caro, desde sexta que as músicas dele não me saem da mente. E o pior é que se canto Detalhes, vem um nó na garganta...
Beijos

Alberto de Oliveira disse...

Parece que carisma e talento são características comuns aos fanhos... Não tenho sequer um disco do Roberto mas voltei a ser seu súdito ao passar a fase do caminhoneiro, mulher de ócilos e adjacências. Não se é rei à toa, como disse Caetano!

Robson disse...

Luís,
este post fui eu que escrevi, ou melhor, queria ter escrito, assim como você,na infância eu o adorava e na fase roqueira, eu o detestava, digo mais odiava, até que fui lentamente fazendo as pazes com o Rei. Ele tem pelo menos cinco discos fundamentais para a MPB (os da fase black)e standards ao nível de Jobim, Porter e Gershwin.
Comentei dois DVDs dele no meu blog, e foi mais ou menos a mesma sensação que você teve.

Rei é Rei, como diria Wally Salomão, "Ultimamente ele tem feito umas coisinhas fracas, mas no começo, ele foi tão moderno que virou eterno".