segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Que Terá Acontecido a... The Mission

Em 1962, o diretor Robert Aldricht lançou um filme marcante não só por sua história de sordidez, fracasso e relações familiares doentias, mas sobretudo pelo duelo de interpretações das duas protagonistas, Bette Davis e Joan Crawford. Supostamente, as duas atrizes se odiavam de verdade, e isso acaba transparecendo na dinâmica sufocante desenvolvida diante das câmaras.

O nome do filme é O que teria acontecido a Baby Jane e se trata, sem dúvida, de uma das obras-primas do cinema americano, daqueles que não perdem sua atualidade e importância nunca.

Inspirado por esse filme, resolvi criar uma nova série: O que terá acontecido a..., sobre artistas sumidos ou longe dos holofotes.

A banda de estréia é o The Mission, também conhecido como The Mission UK.

Formado por Wayne Hussey e Craig Adams, após deixarem o Sisters of Mercy – outra banda que poderia dar as caras por aqui –, o The Mission integrou um lote de grupos que ficaram conhecidos como góticos ou dark.

Lançaram o primeiro trabalho em 1986. E logo alcançaram o sucesso com a música Severina – e só imagino as chateações que as muitas Severinas espalhadas Brasil afora tiveram que aguentar por conta dessa canção.

Na época, a molecada incorporou roupas pretas, maquiagem pesada e um pessimismo totalmente falso, numa importação meio forçada de um movimento que já dava claras mostras de exaustão na Inglaterra – país berço de muitos modismos que passaram como uma nuvem.

Acontece que as ilhas britânicas são realmente um lugar meio para baixo: chove horrores, faz um frio lascado praticamente o ano inteiro e, na primeira metade da década de 80, ainda vivia sob o astral nefasto dos anos da administração Thatcher.

Além do mais, há uma tradição literária que remonta às peças mais sombrias de Shakespeare, passa pelo ultra-romantismo e pela própria literatura gótica, ou seja, toda a onda dark pode parecer meio ridícula, mas faz um grande sentido para eles. Já no Brasil...

Seja como for, o The Mission fez um sucesso doido por estas plagas. Sucesso que durou até o disco Children, de 1988, que contou com o auxílio luxuoso do ex-baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones. Depois disso, o grupo sumiu e nunca mais ouvi falar nada dos moços.

Em julho de 2008, numa loja em Portugal, encontrei um disco deles e, de certa forma, revivi um pouco da inocência com que eu absorvia tudo que vinha de fora, quando tinha uns 15 anos.

O The Mission continua sendo um símbolo de uma época de muitas descobertas e de formação de gosto pessoal.

Uma pena que se perderam em meio às trevas que eles próprios enalteciam...

6 comentários:

Sergio disse...

Ah os defenestrados 80's... Lembro de uma cena tudo a ver com o seu texto: uma turma festejando o aniversário da aniversariante numa pizzaria no Bar Lagoa (Rodrigo de Freitas) numa noite daquele típico verão pegajoso no Rio, quando a mesma menina, dark de carteirinha pede licença para sair da mesa (tipo "vou ao banheiro um instantinho e ja volto, tá?") e resurge em roupas negras, maquiagem à Edward Mãos de Tesoura (ou Robert Smith), feliz da vida - ó o contraste! - pq iria esticar a comemoração do aniversário numa boate nova de Copacabana, o Crepúsculo de Cubatão! Mais 80's do que isso, não há.

Celijon Ramos disse...

A idéia devasculhar nas gavetas da memória em busca dessas pérolas que, de certa forma, marcaram épocas e depois sumiram é genial. Faz-nos reviver um tempo que não foge de nós. Só estavamos um pouco esquecidos dele.
Obrigado pela visita ao Soblonicas. Fique à vontade, a casa é sua.
Um abraço!

Luis Valcácio disse...

Acho que todo mundo que viveu os hoje lendários anos 80 tem uma história parecida com essa para contar. Eu, por exemplo, tenho um amigo que aparece por aqui, de vez em quando, que só andava de preto. Isso em pleno calor do cerrado brasiliense...

Sergio disse...

Êita ferro! "o aniversário da aniversariante" foi de doer. A pressa é amigona da redundância!

Mas a garota era de brasília tbm. Acho q foram eles q trouxeram essa onda dark pra cá.
Valeu Luis

Luis Valcácio disse...

Bem capaz, Sérgio. Não podemos esquecer, afinal de contas, que os brasilienses dominaram a cena dos anos 80.

L. disse...

Nossa. Adorava aquele refrãozinho de "Severina".
Uma delícia.
Beijo,
L.