
Nasci no mês de setembro do ano de 1970. E, para mim, antes de existir salas de projeção de filmes, havia o televisor na sala-de-estar.
De várias boas lembranças que tenho da minha infância, muitas estão associadas ao televisor Telefunken, que ocupava um espaço nobre na vida de toda a família.
Através dele assistimos ao último capítulo da novela Escrava Isaura, acompanhávamos o programa Boa Noite Brasil, com Flávio Cavalcanti, e víamos todo santo domingo o futebol, às 17h; Os Trapalhões, às 19h; e o Fantástico - o show da vida, às 20h. Pois bem, estes, basicamente, eram os programas que a família assistia reunida.
Para mim, óbvio, havia mais, muito mais. Além de acompanhar toda programação infantil, em particular o Globo Cor Especial, e séries como O Homem do Fundo do Mar, Mulher Maravilha, SWAT, O Homem de Seis Milhões de Dólares, O Túnel do Tempo, entre tantas outras, assistia a filmes, muitos filmes. Produções para a TV e cinema.
À época, na cidade de Araguari, no estado de Minas Gerais, só existiam duas emissoras. Uma retransmissora da Rede Bandeirantes de Televisão e outra da Globo. Admito que devorava filmes na mesma medida em que eles iam passando na telinha.
Dos programas desse período, sempre que possível, acompanhava a Sessão da Tarde, durante a semana e, principalmente nas férias, quando a Globo apresentava ciclos de filmes protagonizados por Elvis Presley, Jerry Lewis e o quarteto trapalhão comandado por Renato Aragão.
As comédias estreladas por Lewis, como Bancando a Ama-Seca (Frank Tashlin, 1958), O Mensageiro Trapalhão (Jerry Lewis, 1960), O Terror das Mulheres (Jerry Lewis, 1961), Errado Pra Cachorro (Frank Tashlin, 1963) e O Bagunceiro Arrumadinho (Frank Tashlin, 1964), estão armazenadas em minha memória bem próximas das aventuras românticas do rei do rock Ama-me Com Ternura (Robert D. Webb, 1956), Feitiço Havaiano (Norman Taurog, 1961), Garotas! Garotas! e Mais Garotas! (Norman Taurog, 1962), O Seresteiro de Acapulco (Richard Thorpe, 1963) e Amor a Toda Velocidade (George Sidney, 1964).
Havia, ainda, os filmes estrelados pela dupla Jerry Lewis e Dean Martin, O Rei do Circo (Joseph Pevney, 1954), O Meninão (Norman Taurog, 1955), "Artistas e Modelos (Frank Tashlin, 1955) e O Rei do Laço (Norman Taurog, 1956). E por Rock Hudson e Doris Day, Confidências à Meia-Noite (Michael Gordon, 1959), Volta Meu Amor(Delbert Mann, 1961) e Não Me Mandem Flores (Norman Jewison, 1964).
Como durante a semana o horário para dormir era sempre às 21h30, logo após a novela das oito, aos sábados eu abusava. Ainda na Globo, assistia em sequência à Primeira Exibição, Sessão de Gala e, quando o sono ainda não havia me dominado por completo, Coruja Colorida.
Outras sessões de cinema bem marcantes para mim foram o Cineclube, Campeões de Bilheteria, Classe A, Festival de Sucessos, Faixa-Preta, Supercine, Festival Nacional, Segunda Sem Lei, Sexta Mistério, Cine Trash, Cinema em Casa e Sessão das Dez.
Apesar da maioria dos filmes ter sido editada para a televisão e, ainda, exibida com cortes, a combinação de todos esses programas, durante toda a década de 80 e a primeira metade dos anos 90, foi essencial à formação de qualquer fã de cinema, em uma realidade em que não havia a TV por assinatura, o aparelho de DVD, o Blu-ray e a internet. Só possuíamos o bom e generoso videocassete.
Ter acesso a filmes como Doutor Jivago, ... E o Vento Levou, Lawrence da Árabia, A Casa da Noite Eterna, Armadilha Para Turistas, O Expresso do Horror, Houve Uma Vez Um Verão, Um Homem, Uma Mulher e Love Story - Uma História de Amor, só me foi possível porque a TV, um dia, fez um bonito papel divulgando o cinema. Hoje, porém, tudo não passa de história.
Abaixo, algumas pérolas assistidas por mim, pela primeira vez, na televisão:
1- Benji (Joe Camp, 1974)
Este simpático cãozinho me foi apresentado em Primeira Exibição. Desde então, me tornei fã de filmes com animais. A sequência, Pelo Amor de Benji (Joe Camp, 1977), foi exibida, salvo melhor juízo, na semana seguinte. A franquia rendeu, ainda, mais três longas.
2- Destino do Poseidon, O (Ronald Neame, 1972)
O mérito do filme, lá em casa, foi ter reunido quase toda a família diante da TV. O drama vivido por Shelley Winters naquelas águas geladas jamais foi esquecido por aqueles que o acompanharam. Apenas mais um filme-catástrofe conseguiu a proeza: Inferno na Torre.
3- Ensina-me a Viver (Hal Ashby, 1971)
Somente quando tive a oportunidade de rever o filme é que pude absorver toda sua beleza. Pois é, a infância tem destas coisas. Às vezes, não estamos maduros o suficiente para compreender tudo o que vemos.
4- O Homem-Cobra (Bernard L. Kowalski, 1973)
Saído diretamente da Sessão das Dez, em uma época em que o filme realmente começava às 22h, estamos aqui diante de um típico exemplar do cinema B que amo de todo coração. Recordo-me de quase ter chorado quando a heroína do filme reconhece o seu amado na figura daquela criatura meio-homem, meio-cobra. Dos mesmos produtores de Tubarão. Um clássico inegável do gênero.
5- Digby - O Maior Cão do Mundo (Joseph McGrath, 1973)
Nem sei o que dizer deste filme tantas vezes exibido na Sessão da Tarde. O que posso afirmar é que toda vez que a Rede Globo o exibia, eu o assistia.
6- The Land That Time Forgot (Kevin Connor, 1975)
Depois de tantos anos já nem me lembro mais do título em português deste filme. O mesmo vale para a sua continuação, The People That Time Forgot, de 1977. Mas que ninguém se engane, estes dois filmes mais Os Titãs Voltam à Luta na Atlântida, tornaram o nome Doug McClure tão essencial ao cinema de aventura quanto Harrison Ford. E não vá, você, dizer que não sabe quem é Doug McClure?
7- Grizzly - A Fera Assassina (William Girdler, 1976)
Assisti a este filme em uma Sessão de Gala e, por pelo menos duas semanas, não pensei em outra coisa. Hoje, provavelmente, não sobreviveria a uma segunda olhada. Mas o que importa a avaliação crítica do encanto de uma criança diante de seu primeiro filme de monstro?
8- Keoma (Enzo G. Castellari, 1976)
Sou suspeito para falar sobre o western spaghetti. Gosto muito do gênero e Keoma é um de seus melhores representantes. Da trilha sonora bem característica até o visual meio hippie de Franco Nero, tudo é harmonioso neste filme. Imperdível para os apreciadores.
9- O Carro - A Máquina do Diabo (Elliot Silverstein, 1977)
Um dos mais famosos filmes de suspense da época, este eficiente filme produzido para a TV, saiu-se tão bem junto ao público que acabou sendo exibido nos cinemas. O diretor é o mesmo de Um Homem Chamado Cavalo, de 1970.
10- Amante de Lady Chatterley, O (Just Jaeckin, 1981)
Com Sylvia Kristel no elenco, foi um dos primeiros dramas com doses generosas de erotismo "soft" assistidos por mim pela televisão. Acostumado à nudez, parcial ou total, feminina nas telas, admito ter ficado surpreso com a desenvoltura da câmera diante do corpo nu do ator Nicholas Clay. Para voyers de plantão.
4 comentários:
Sylvia Kristel, Nicholas Clay, ah, os meus sonhos de moça jovenzinha!
Adorava assistir TV deitada no chão frio de minha casa. Quanta saudade você me trouxe.
Lázaro, menino, o seu HD é fortíssimo, é do babado!
Revivi todo esse panorama televisivo. Um luxo.
E parabéns pelo texto, e pelo seu aniversário neste setembro (você tinha mesmo que ser virginiano - uma forte ligação com a família, detalhista ao extremo)!!!
Uau! Recordar é viver. Só você mesmo para desencavar tantas pérolas, Lázaro. Eu aqui fiquei lembrando dos musicais, gênero que adorava quando era criança e que hoje tenho paciência zero para ver.
Pessoal, muito obrigado por compartilhar comigo momentos tão especiais em nossas vidas. Um abraço a todos.
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