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domingo, 20 de setembro de 2009

Baladas de Loucos

No final do documentário Loki, de Paulo Henrique Fontenelle, o guitarrista Sérgio Dias questiona os limites entre sanidade e loucura e pergunta: "Quem é o louco, o Van Gogh ou nós?" Obviamente que, quando fala do grande pintor holandês, está, na verdade, se referindo a seu irmão e parceiro musical, Arnaldo Baptista, tema principal do longa de Fontenelle.

Gênio incompreendido, pioneiro musical, compositor ousado e a frente do seu tempo, Arnaldo é uma lenda viva não só do rock nacional mas também de toda a história do rock mundial. Que sua obra seja mais reconhecida e admirada lá fora do que aqui é sintoma da nossa eterna falta de visão e sensibilidade.

Muito mais que gênio musical, Arnaldo foi, entre nós, a personificação do artista como ser iluminado e, como tal, condenado a visões partilhadas por bem poucos. A loucura e a alienação mental são, para pessoas como ele, fantasmas que sempre estão a espreitar por trás da porta.

A associação entre loucura e arte é tão longa quanto a própria história da arte. Imagino que mesmo quando os artistas eram seres anônimos e sem reconhecimento, quantos não devem ter enlouquecido em meio a vitrais góticos que filtravam magicamente a luz exterior e criavam, em igrejas monumentais, imagens assombrosas.

O espaço que separa criação e desvario é bem curto. Cruzá-lo revela-se, no mais das vezes, fatal.

Miguel de Cervantes, em seu monumental Don Quixote, cria um protagonista que, de tanto ler novelas de cavalaria, sai pelo mundo combatendo monstros imaginários e salvando donzelas nem tão donzelas assim. Talvez seja o primeiro relato do poder mitificador das artes e também um retrato entre o cômico e o trágico de alguém que transforma a vida em arte e, neste processo, se afunda na loucura completa.

Artista loucos e loucos artistas existiram e existem aos montes.

Aqui no Brasil, o sergipano Arthur Bispo do Rosário quebrou as tênues fronteiras do artístico e do puramente lunático, com uma obra que até hoje desperta o interesse a fascinação de público e crítica. Tendo passado por várias instituições psiquiátricas, Bispo do Rosário deixou uma obra inclassificável, na qual o lixo, a sucata e tudo rejeitado por nossa sociedade se incorporam em painéis de uma plasticidade única.

Na mesma instituição que abrigou o hoje reconhecido artista plástico, o escritor Lima Barreto amargou o inferno de uma vida marcada pelo alcoolismo, a depressão e o preconceito. Autor do brilhante Triste Fim de Policarpo Quaresma, Barreto morreu aos 41 anos, um tanto ridicularizado por suas ideias nacionalistas e sem ver sua obra literária devidamente valorizada.

No terreno da música, a grande associação entre criatividade artística, marginalidade e drogas foi responsável pelo afundamento de muitas mentes excepcionais.

Não consigo deixar de pensar em Syd Barrett, o fundador do Pink Floyd e um dos talentos mais intensos surgidos na época da psicodelia britânica. Após gravar junto ao Floyd o mágico The Piper At The Gates Of Dawn, Barrett entrou numa viagem sem volta e mergulhou, enfim, num mundo próprio e num isolamento melancólico até o fim de sua vida, em julho de 2006. Deixou, ao menos, um álbum solo imprescindível, o magnífico The Madcap Laughs.

Caso similar, encontra-se em Brian Wilson, o arquiteto por trás da edifício sonoro dos Beach Boys. Autor de incontáveis clássicos do rock americano, Wilson comecou a pirar na final da década de 60, movido por muita droga, traumas familiares e crises de pânico. Sua obra abortada Smile, de tão ousado e revolucionário,viraria um disco perdido que só veria a luz do dia em 2004, confirmando seu imortal talento e sua grande visão artística.

É ao lado destes "doidos de pedra" que o doce e iluminado Arnaldo Baptista orgulhosamente se posta. Sua obra permance, nestes tempos de mediocridade e marasmo criativo, um farol em meio à neblina.

A quem tiver juízo - ou não - cabe redescobri-la.