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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Prazeres Secretos

Existem alguns discos que são como um segredo pessoal, daqueles que você mantém para si mesmo, guardadinho para um dia chuvoso. Nos momentos de nostalgia, tristeza ou simplesmente indolência, você corre para eles e, magicamente, se sente reconfortado e feliz.

Um desses tesouros na minha vida é o primeiro disco da banda inglesa The House Of Love, lançado em 1988 e que eu só viria a descobrir em 1990, numa viagem ao Rio de Janeiro.

Comprei o cassete num daqueles camelôs que, muitos anos atrás, vendiam fitinhas piratas pelas calçadas. Acho que, na época, quase destruí a fita de tanto ouvir.

Não sei explicar com exatidão o que me apaixonou tão imediatamente. Eles, de fato, não apresentavam nada de novo. O som era meio Velvet Underground via The Jesus And Mary Chain, ou seja, muita guitarra, microfonia, vocais sonolentos e letras depressivas. Mas era tudo tocado com uma sinceridade e uma delicadeza raras.

Canções como Christine, Man to Child e Salome viraram verdadeiros hinos de final de adolescência, para mim.

Muito bem. O tal pirata perdeu-se em uma das minhas muitas mudanças e eu fiquei na saudade.

Em todas as viagens que eu fazia, The House Of Love constava nas minhas listas de cd’s a procurar, mas, misteriosamente, nunca esbarrei com o disco.

Recentemente encontrei o cd na London Calling, loja de discos importados de São Paulo, a exorbitantes 80 (!!!!!!) reais. No sítio da Amazon, o álbum só é disponibilizado em versão importada. Ou seja, é muito difícil adquirir essa preciosidade.

Qual não foi minha surpresa, portanto, quando achei um vinil em ótimo estado em minha última viagem a Sampa.

Motivado pelo feliz achado, comecei a fuçar na internet e descobri num desses blogs que disponibilizam álbuns, o disco inteirinho, perfeitinho, uma belezura.

The House Of Love voltou triunfante a minha vida. Se bem que, agora, ele não é mais um daqueles segredos íntimos que eu mencionei lá no início do texto...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Vitrola Vai às Compras

Diz um amigo meu que as únicas coisas que realmente me empolgam são música e viagens. Não é verdade.

Adoro um bom cinema (confesso que já gostei mais), estou sempre agarrado com um livro (acabei de ler mais um policial de Simenon, autor que eu acho brilhante), não dispenso um bom papo com meus poucos, mas queridíssimos, amigos e sei que a vida é amarga na grande maioria das vezes (principalmente se a gente tem a má sina de ter nascido brasileiro), mas está aí é para ser vivida, mesmo.

No entanto, não posso deixar de admitir que a música virou muito mais que um hobbie e que vivo planejando viagens, que compro guias de cidades que não sei quando conhecerei e que visitar lugares novos é, para mim, como rejuvenescer um pouquinho.

Quando consigo unir discos com viagens, é aí que o louco fica lunático de vez.

Estive nestes últimos dias entre o Rio e São Paulo, e trouxe na bagagem 28 bolachões e 25 bolachinhas. Aliás, como é trabalhoso transportar vinil, pessoal. Os desgraçados pesam horrores e eu fico na neura de que vão quebrar, empenar ou amassar. Em suma, um pesadelo. Os cd's, coitadinhos, vão enfiados na mala e seja o que Deus quiser. Felizmente nunca perdi nada. Já voltei de uma viagem a Portugal com quase 70 disquinhos imprensados entre roupas sujas e outras quinquilharias.

De qualquer maneira, como novamente observa o amigo do início do texto, o sucesso de uma viagem minha é medido pela quantidade de achados em sebos e lojas de discos. São Paulo, nesse sentido, é imbatível. Desde os pugueiros do centro até a careira Livraria Cultura, há descobertas fantásticas para todas as preferências.

Gosto, sobretudo, das lojas da Galeria Presidente, na Rua 24 de Maio, lugar ideal para se encontrar cd's novos de artistas independentes e alternativos. Na mesma rua, no número 188, subindo ao primeiro andar, a gente se depara com uma série impressionante de sebos. Um fanático pode tranquilamente passar o dia inteiro revirando velharias, enchendo as mãos e os pulmões de ácaros e torrando, feliz da vida, as economias do ano todo. Não dá para esperar grande simpatia dos vendedores, mas em termos musicais, é difícil não se satisfazer.

Outra boa dica para encontrar raridades e pechinchas é a Feira de Antiguidades da Praça Benedito Calixto. É possível, inclusive, comprar uma vitrolinha esperta para rodar os poderosos negões em qualquer lugar (isto se você tiver a paciência e a habilidade para barganhar com os feirantes, porque os valores não são os mais honestos...).

No Rio, confesso que fiquei meio perdido. Devia ter pedido umas dicas para a galera carioca que frequenta o Vitrola Encantada, mas a verdade é que fujo de computador em férias como o coisa ruim da cruz.

Ainda assim, me esbaldei na Baratos da Ribeiro e no sebo da Modern Sound (cheio de discos em excelente estado por razoáveis 10 reais).

No mais, muita chuva, metrô transbordando, gente apressada, gente dormindo na rua num frio desgraçado, comida boa e cara, o Museu de Arte Sacra de São Paulo e o de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a descida inesquecível no Aeroporto Santos Dumont, o filme francês Bem-Vindo na Rua Augusta, o táxi baratinho na Cidade Maravilhosa, o café expresso na Casa Cavé, o almoço na Confeitaria Colombo, enfim, pequenas coisas que, juntas, me tornam um tanto mais vivo e, quem sabe, mais feliz.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Música para quê?

A revista Bravo deste mês traz, em sua matéria de capa, texto assinado pelo jornalista Arthur Dapieve, no qual se especula sobre o futuro da música diante das novas tecnologias digitais.

Num mundo em que cada vez compra-se menos discos, fica a pergunta: afinal, a indústria da música vai sobreviver?

Seguramente, da forma como nós, trintões e quarentões, conhecíamos, não. A molecada entre 15 e 30 anos desaprendeu a comprar música. Ninguém mais corre para as lojas de cd - que, aliás, não existem mais - para adquirir o último trabalho de sua banda preferida. Para que, se se pode baixar tudo em questão de minutos e sem pagar um centavo?

Lógico que essa geração consome música de maneira frenética, mas tem uma relação impessoal e destituída de poesia com ela. Não é por acaso que existe toda uma galera redescobrindo o prazer físico de manusear um álbum de vinil (isso, sem falar no impacto do som, infinitamente mais encorpado e vigoroso que esses anódinos mp3 que circulam por aí).

Aparentemente, esse é um processo meio sem volta. A rede de megastores Virgin, por exemplo, fechou - ou está para fechar - uma de suas mais tradicionais lojas em Nova Iorque, a da Times Square. Quem já teve a oportunidade de conhecer, de andar por seus vastos corredores repletos de música dos quatro cantos do planeta (inclusive uma boa seção de MPB), não pode deixar de sentir uma pontada de tristeza.

Numa viagem que fiz a Nova Iorque, no final de 2006, acho que entrei nessa loja todos os 9 dias em que estive na cidade. Para mim, era como visitar um templo. Sim, porque para mim, música é religião, uma espécie de elo com o sagrado, com aquilo que existe de mais sublime e etéreo em nós.

Não creio nas previsões mais pessimistas sobre o assunto, mas, ao que parece, sobram dois caminhos: a música ou será consumida e descartada vorazmente, deixando milhares de artistas a ver navios, ou virará um artigo de luxo para uns poucos.

Afinal, é realmente uma minoria que pode se dar ao luxo de comprar uma bela reedicão em vinil, a exorbitantes 100 reais, e desfrutar 40 minutos longe desse confuso admirável mundo novo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Folia de Rock

Para quem não gosta de carnaval (como eu), nada melhor do que se mandar para uma cidade onde a folia passa longe, longe.

Caso de São Paulo, que fica vazia e tranquila, sem engarrafamentos nem fila em restaurante. E uma estranha sensação de que a gente vive num país civilizado. Pura ilusão, é lógico.

Claro que aproveito também para visitar as lojas de discos.

A Galeria do Rock, na avenida São João, está muito mais para galeria de roupas - muita camiseta, tênis, botom - do que de discos. Bem diferente da situação de dez anos atrás, quando as pessoas ainda compravam cd's. Mesmo assim, dá para garimpar algumas raridades e se impressionar com o acervo de vinil da Baratos Afins.

Logo ao lado, outra galeria de lojas bem legais, especialmente uma miudinha, chamada SENSORIAL, que tem uma seleção maravilhosa de música alternativa, com preços mais acessíveis.

Saí de lá com o Stage Names do Okkervil River, All Hour Cymbals do Yeasayer, Keep Your Eyes Ahead do The Helio Sequence e uma coletânea do Ocean Colour Scene (este último, por módicos doze reais).

Serviço
Sensorial
Galeria Presidente
Rua 24 de Maio, 116, sobreloja 8
01041-000 São Paulo São Paulo
(11) 3333 19 14
sensorialdiscos@uol.com.br