Mostrando postagens com marcador Renato Russo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Renato Russo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Letra e Música

A revista Bravo deste mês apresenta matéria de capa na qual dá uma geral na evolução das letras em um gênero em que letra deveria ser tudo, menos importante: o rock.

Tendo como mote a iminente visita de Lou Reed à próxima Flip – Festa Literária de Parati – o texto do jornalista Artur Dapieve tece um breve histórico das mudanças sofridas pelas letras, mas falha ao não retratar o contexto político-social que permitiu o surgimento de mestres como Bob Dylan e o próprio Reed.

Sim, porque grandes letristas que são, nem Dylan nem Reed seriam possíveis sem a erupção social e cultural que balançou o mundo nos anos 60. E também é meio que forçar a barra chamar Lou Reed de “filho” de Dylan.

Uma diferença de poucos anos separa os dois e pode-se dizer que representam lados opostos do mesmo fazer poético. Dylan, com sua pena mais politizada e erudita, é uma versão moderna de trovadores medievais, bardos renascentistas e artistas de tradição folk que usavam sua música como arma contra a opressão.

No lado oposto, Reed está muito pouco preocupado com as misérias deste mundo. Sua lírica investe pesado em temas mais urbanos como prostituição, drogas e sadomasoquismo. Seu universo contempla travestis, moradores de rua, o submundo de Berlim e de Nova Iorque.

Se Dylan eternizou-se com um violão e uma gaita, Reed distorceu sua guitarra de forma ensurdecedora e pariu, de uma tacada só, o punk e o rock alternativo.

O que é inquestionável tanto em um como no outro é a qualidade de suas produções poéticas, a influência de seus discos e a importância de suas carreiras.

O que nos leva a pensar no estado de nossa própria produção musical. Que seja cada vez mais claro que o futuro não nos reserva nada da qualidade de um Caetano Veloso ou de um Chico Buarque, isso é evidente.

O terreno sempre movediço da música popular permite o aparecimento aqui e ali de focos de inteligência e sensibilidade. Genialidade e clarividência, no entanto, são coisas do passado.

Num país em que se lê muito pouco e no qual a educação pública vive um processo de total desmantelamento, o que se assiste é um empobrecimento radical dos textos cantados. Seja pela adoção da linguagem sintética vinda da internet ou por simples preguiça intelectual, o fato é que não se aproveita quase nada dos escritos desses jovens que fazem música por aí.

Será realmente a geração do “puta falta de sacanagem”, que devora Harry Potter e faz fila para ver Crepúsculo, quem carregará a tradição de grandes letras na nossa música? Acho difícil.

Ou alguém acredita que o Restart e o NXZero ainda farão uma letra que chegue aos pés de Índios?

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Geração 90, onde está você?


Dia desses estava dando uma volta de carro com meu amigo, arquiteto e engenheiro deste blog, Afonso Celso, quando ouvimos no rádio uma música do grupo mineiro Jota Quest. De pronto, AC me indagou: “O que foi feito deles?” “Graças a Deus, sumiram”, foi minha delicada resposta. “Mas o Rogério Flausino canta tão bem...”, replicou meu companheiro de infortúnio. A bem da verdade, cantar tão bem, ele não canta não. Limita-se a imitar – de forma canhestra – uma plêiade de cantores ilustres daqui e lá de fora.

Mesmo pecado cometido por outro luminar da geração 90 da nossa música, Toni Garrido, vocalista da banda Cidade Negra. Esta, ao menos, teve a decência de dar um descanso a nossos ouvidos, mas Toni agora assombra outro campo das artes, levando sua cara de pau para as novelas. Vê-lo atuando é um deleite, garantia certa de risadas calhordas.

Reflexões tão profundas me levaram a questionar sobre os rumos dos grupos e artistas surgidos na maldita década de 90. Últimos anos de vendagens robustas no mercado nacional, os 90 viram a ascensão de nomes como Skank, Raimundos, Nação Zumbi, Mundo Livre S.A., Pato Fu e os já citados Cidade Negra e Jota Quest.

O Skank, que foi o grande vendedor de discos dessa turma, é como aquele slogan cretino do governo Lula: é brasileiro e não desiste. Nem deveria. No balanço dos últimos vinte anos, pode-se dizer que é a única banda que evoluiu artisticamente. Abandonou a temática de futebol/cerveja/mulher de seus primeiros discos para incorporar uma estética mais sofisticada e inteligente e fez a ponte entre o Clube da Esquina e o rock inglês do passado e do presente. Ponto para eles, mesmo que não sejam mais nenhum fenômeno de popularidade.

A Nação Zumbi também tem o mérito de ter seguido em frente, apesar da perda traumática do carismático vocalista Chico Science. Chico foi uma dessas figuras que a gente fica imaginando o que teria aprontado se não tivesse morrido de forma tão precoce e estúpida. De qualquer maneira, seus colegas pernambucanos honram seu nome com um trabalho sempre instigante e rico em referências. Viraram uma coisa meio cult, coisa que aliás acontece com todo artista interessante em atividade no Brasil de hoje.

Quanto ao resto, não sobra nada a dizer. Se um dia fizeram algum sucesso, ele ficou localizado no passado.

Se o rock brasileiro feito na década de 80 ficou marcado pela falta de originalidade e o apego aos modelos americanos e ingleses, pode-se, ao menos, dizer que teve uma qualidade de letras raramente vista na música jovem. Não a toa, Renato Russo e Cazuza são reverenciados até hoje como grandes poetas.

Os músicos do rock da década seguinte perderam a chance de, não só dar continuidade a essa riqueza de texto, como de finalmente criar uma sonoridade que fundisse a modernidade das tecnologias que se desenvolveram à velocidade da luz com a tradição e a beleza de nossa música. Uma pena.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Os Meninos de Brasília

As ruas têm cheiro de gasolina e óleo diesel
Por toda a plataforma, toda a plataforma
Você não vê a torre

O clássico do Capital Inicial, com letra do trovador solitário, Renato Russo, é codificada para os não moradores da Capital Federal.

A tal plataforma é a do terminal rodoviário, que marca o centro da cidade e delimita as duas asas.

A torre é a Torre de TV, um dos cartões postais de Brasília, que abriga um mirante que proporciona a melhor vista do traçado urbano imaginado por Lúcio Costa e, no térreo, uma feira de artesãos que, nas décadas de 70 e 80, ficou conhecida como feira hippie. Hoje, descaracterizada como tudo o mais na cidade, é simplesmente a feira da Torre.

Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude formam uma espécie de santíssima trindade do rock made in Brasília.

Os Paralamas do Sucesso, que por vezes são associados à cena brasiliense dos anos 80, foram formados e começaram sua carreira no Rio de Janeiro.

Outras bandas se lançaram na esteira do grande sucesso desses três grupos: Finis Africae, Peter Perfeito e a punk Detrito Federal.

Ninguém, no entanto, conseguiu chegar perto do reinado estabelecido por Renato e seus legionários.

O culto que começou ainda na época do Aborto Elétrico estendeu-se por todos os rincões deste imenso país e, ainda hoje, o Legião é um dos maiores vendedores de discos de sua gravadora.

Geração após geração, toda uma nova meninada segue descobrindo os versos muitas vezes sublimes do atormentado poeta do desencanto e da revolta.

Depois desta turma, o Brasil viu a ascensão do rock dos Raimundos, que misturavam guitarras pesadas com ritmos populares, baião e forró. Tiveram seus momentos, é verdade, mas a essas alturas eu já havia perdido o interesse no rock feito no Brasil.

Para mim, a pobreza dos textos, o sexismo de algumas bandas e a falta de vocalistas carismáticos e inteligentes esvaziaram qualquer tesão que eu pudesse ter em relação a estas bandas.

Com a cidade prestes a completar 50 anos – na próxima quarta, dia 21 de abril de 2010 – fica a pergunta:
Brasília ainda conseguirá gerar outro Renato Russo?

sábado, 27 de março de 2010

50 Anos

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.

50 anos do nascimento do mito maior do rock brasileiro, Renato Russo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Doces Vozes: Margo Timmins

Margo Timmins é a voz angelical que embala o country rock da banda canadense Cowboy Junkies. Quando o grupo surgiu, na segunda metade da década de 80, parecia uma visão celestial: country e blues tocados em ritmo lento, com instrumentação esparsa, arranjos reduzidos ao essencial e, pairando acima de tudo, a voz sussurrante e doce de Margo.

O LP The Trinity Session, lançado em 1988, despertou a atenção da crítica e de um público em busca de uma sonoridade que viesse despida dos truques de estúdio típicos da época. As versões ultrapessoais do grupo para clássicos como Sweet Jane, do Velvet Underground e I’m So Lonely I Could Cry, de Hank Williams, viraram cartões de visitas e rapidamente os canadenses estariam em trilhas sonoras (Assassinos Por Natureza, de Oliver Stone) e na boca de outros artistas. Aqui no Brasil, por exemplo, Renato Russo era fã de carteirinha.

Eles gravaram mais dois discos excepcionais: The Caution Horses, de 1990, uma obra-prima pouco lembrada, mas simplesmente inesquecível para quem teve a chance de ouvi-la e Pale Sun Crescent Moon, de 1993, este com uma pegada mais roqueira e com potenciais sucessos radiofônicos (isso se houvesse programadores de rádio dotados de inteligência).

O grupo continua em atividade, no entanto desde 1996, quando lançaram Lay It Down, um trabalho irregular, mas com momentos de brilho, não têm apresentado mais nada à altura dos primeiros trabalhos.

Já está mais do que na hora de eles nos encantarem novamente e demonstrarem para toda uma nova geração como se faz música “de raiz” sem cair na simples paródia.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Que Venha 2010!

Charles Dickens em seu Um Conto de Duas Cidades, abre a narrativa com a clássica frase: Foi o melhor dos tempos e foi o pior dos tempos... Acho que, na verdade, todos os tempos são um pouco assim. Não acredito nessas pessoas que abrem o bocão para anunciar aos quatro ventos que tiveram um ano perfeito. Igualmente não levo a sério quem proclama apenas desgraças.

Dentro desse espírito, penso que 2009 veio carregado de notícias ruins, mas também trouxe coisas muito legais.

O lado pesado do planeta segue seu curso, sem se dar conta da passagem do tempo (fico me lembrando aqui de Renato Russo cantando enquanto o caos segue em frente/com toda a calma do mundo).

Michael Jackson nos deixou cedo demais, assim como Farrah Fawcet, a linda pantera que lutou para provar que era, antes de tudo, uma boa atriz.

Assistimos incrédulos à patifaria no Senado da República e, aqui em Brasília, ao escândalo do governador José Roberto Arruda, que, por enquanto, não resultou em punição de ninguém...

Mas coisas boas vieram no bojo de tanta sacanagem. O Vitrola Encantada foi uma dessas. Este espaço modesto me proporcionou recordar fatos há muito esquecidos, discos empoeirados, revistas amareladas. Melhor que tudo, me colocou em contato com pessoas que, assim como eu, comem, bebem e respiram música e arte.

Acho que o fato de estar escrevendo sobre música intensificou minha paixão e, efeito colateral, aumentou sensivelmente minha coleção.

Das boas surpresas que me apareceram em 2009, destaco:
Cold Fact. Rodriguez.
Clássico perdido dos anos 60, resgatado em toda sua beleza bruta.

A Pedra de Esmeralda. Jorge Ben.
Daqueles discos que nos mostram que a música brasileira já foi popular e vanguardista num mesmo pacote.

Two Suns. Bat For Lashes.
Mais um disco a provar que as mulheres estão definitivamente na linha de frente daquilo que se faz de mais inovador na música contemporânea.

The Pains Of Being Pure At Heart.
Banda que a reaviva a chama do rock oitentista, sem cair no óbvio.

Luz Negra. Fernanda Takai.
Uma ótima surpresa. Takai, que não me dizia nada como vocalista do Pato Fu, desponta como uma das boas promessas da música brasileira que olha para o futuro, sem esquecer de coisas boas do passado.

Lungs. Florence And The Machine.
Até segunda ordem, o melhor disco do ano passado.

The Crying Light. Antony And The Johnsons.
O cantor mais original da atualidade em mais uma obra de sensibilidade e emoção à flor da pele.

Together Through Life. Bob Dylan.
O veterano bardo americano crava outro clássico em uma discografia rica em discos importantíssimos.

Further Complications. Jarvis Cocker.
O vocalista da cultuada banda britânica Pulp, em seu segundo (bom) disco solo.

Os Mutantes.
O primeiro álbum do grupo paulista segue intocável em sua aura de genialidade e abundante criatividade. Para se redescobrir sempre!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Última Flor

Há muito se discute sobre as reais qualidades literárias de uma boa letra de música. É poesia ou não? A coisa se complica muito quando música e texto de altíssima qualidade andam de mãos dadas. É o caso de grande parte da música brasileira.

Uma recente enquete da edição nacional da revista Rolling Stone revelou que Construção, música e letra de Chico Buarque, é a melhor canção brasileira de todos os tempos.

Se formos analisar os versos de Buarque, fica muito claro que a eleição de sua obra-prima, de 1971, deve muito à rica construção gramatical, cheia de versos terminados em palavras proparoxítonas, e suas metáforas asfixiantes da dura realidade do Brasil dos anos de chumbo.

É lógico que o incrível arranjo, que evolui de um simples samba para um épico cinematográfico em brilhante tecnicolor, torna a canção ainda mais impressionante, mas quando pensamos em Construção nos vem imediatamente à cabeça A Letra.

Para mim, não há mistério. Não consigo ver muita distinção entre Carlos Drummond de Andrade e a melhor produção de Caetano Veloso ou entre a depuração lingüística de João Cabral e o intricado universo de Chico Buarque.

Algumas letras de Antonio Carlos Jobim me emocionam tanto quanto os versos tristes alegres de Manuel Bandeira.

As palavras de Renato Russo tiveram um impacto tão grande em minha psique quanto os versos românticos de Álvares de Azevedo e Castro Alves.

Penso que, num país de analfabetos e alfabetizados que não lêem como é o Brasil, a música cumpre um papel fundamental de disseminação de ideias, cristalização de expressões e falares regionais e - mais importante - de perpetuação da musicalidade e beleza inerentes a nossa amada, inculta e bela Língua Portuguesa.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

No Centro de um Planalto Vazio

O inverno em Brasília é, para mim, a estação mais bonita do ano.

A seca ainda não castiga tão severamente, faz um friozinho agradável de noite e, durante o dia, a luz atinge uma plenitude impressionante. Fora o céu, que vai do azul mais absurdo aos meios tons que adornam o entardecer. Um espetáculo.

Gosto da cidade, que, ao contrário do que dizem os não locais, não é impessoal e fria. É preciso cuidado para descobrir os pequenos encantos de Brasília.

Cuidado que tiveram alguns compositores, que elegeram a capital federal como musa inspiradora.

Renato Russo talvez seja o mais célebre deles. É dele, por exemplo, Música Urbana, famosa na gravação do Capital Inicial, e que fala de pontos marcantes da cidade como a torre de TV e a plataforma da Rodoviária.

Mais brasiliense, então, é Eduardo e Mônica, com a letra mencionando o Parque da Cidade, a galera da universidade e a tchurma alternativa. E o que dizer de Faroeste Caboclo, verdadeiro épico glauberiano passado sob o sol do cerrado?

Toda vez que me lembro dessa música, fico pasmo com a popularidade da Legião à época do lançamento do disco Que País É Esse (1987). Somente Renato e seus legionários poderiam ter lançado uma música de quase 10 minutos, com referências a Brasília, que somente quem mora aqui consegue entender, e fazer um sucesso descomunal.

Outro grupo que é a cara de Brasília é o Plebe Rude. Embora não tenha resistido às pressões do sucesso, o grupo – considerado por muita gente boa um dos melhores do rock brasileiro – trouxe uma raiva e uma energia muito necessárias para a cena nacional.

O Capital Inicial também tinha uma marca muito brasiliense em seu som. Não por acaso, o baixista e o baterista da banda, os irmãos Flávio e Fê Lemos, foram companheiros de Renato Russo, no seminal Aborto Elétrico. Daí, que o primeiro disco do Capital, de 1986, é um meio termo entre o punk politizado do Aborto e o som mais pop que o grupo acabaria adotando no futuro.

Agora, para quem tem entre 35 e 45 anos (como é o meu caso), nada é mais Brasília que o mala Oswaldo Montenegro. Lá no início da década de 80, ele arrastava multidões aos teatros da cidade para assistir seus musicais.

Mérito lhe seja dado, algumas músicas resistiram ao passar do tempo e até hoje se pode escutar com certo prazer a Léo e Bia e Bandolins.

Ele já era um chato, mas, sem dúvida, soube traduzir em música e letra o clima místico e isolado de uma cidade que foi construída no meio do nada, com um lago artificial e uma arquitetura do futuro.

E presenteada com um céu como nenhum outro no mundo.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Frase Dita

Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo, prefiro acreditar no mundo do meu jeito.

Renato Manfredini Júnior, o Renato Russo (27.03.1960 - 11.10.1996). Compositor e cantor brasileiro. Destacou-se à frente da banda Legião Urbana.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Beatles à Brasileira

Já que falei de Beatles na última postagem, porque não falar também da banda que para mim são os Beatles brasileiros, a Legião Urbana?

É claro que o fato de ter crescido em Brasília, de ter sido adolescente em plena ascensão de Renato Russo e cia, me torna um pouco suspeito. Ou não. Afinal quantas bandas de rock nacional geraram um culto tão forte e duradouro? Quantas podem se gabar de ter atravessado gerações e permanecer tão atuais e relevantes? Quantas possuem clássicos suficientes para preencher um álbum duplo?

Eu acho que não existe comparação, principalmente, com a qualidade do texto de Russo. Mesmo que os anos 80 tenham sido pródigos em bons letristas - um fenômeno que parecer ter desaparecido de nosso cenário pop - ninguém captou tão bem o espírito de seu tempo quanto Renato Russo.

Da política ao desejo homoafetivo, nada escapou à pena afiada do trovador de Brasília. Eu me recordo que, na escola, todo mundo sabia todas as letras quilométricas de coração. Era um tal de levar o encarte para as aulas e sair passando de carteira em carteira enquanto os professores falavam sobre física, biologia e... química, claro!

Renato parecia saber tudo que a gente sentia, vivia e desejava. É pomposo falar em porta-voz de uma geração, mas, de um certo modo, era assim que a gente o via.

Hoje, para mim, ficou a delicada poesia, a sensibilidade extrema de alguém que se indignava, que abria o peito e se expunha muito. Numa época em que tudo vai ficando mais e mais embrutecido e cínico, a música da Legião e as letras de Russo são como um oásis, um alivio para os tristes de coração porém grandes de alma.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Nunca Falha

Mais cedo ou mais tarde, todo colecionador se coloca diante da questão fundamental: qual é meu disco preferido? Como escolher, numa montanha de objetos, que representam não apenas músicas, mas também memórias e momentos de nossa vida?

Acho que o mais fácil é realmente partir para uma compartimentação desse caos emocional, separando tudo em categorias. O disco que mais lembra aquela viagem inesquecível; aquele que está totalmente vinculado a sua adolescência, a descoberta da sexualidade, ao primeiro amor e a primeira decepção; aquele que te recorda das grandes alegrias. E aquele outro que ainda traz o gosto amargo das pequenas tristezas.

Mas, às vezes, não é tão difícil assim. Existe AQUELE disco na sua vida. Aquele que mudou tudo e que ainda hoje você escuta com um prazer inigualável. Para mim, esse disco é THE QUEEN IS DEAD, o álbum que os Smiths lancaram em 1986, e que transformou o rock oitentista.

Para quem tem entre 30 e 40 anos, e curte musica, a década de 80 se tornou um período um tanto mágico, quase mitológico. Foi o auge do rock brasuca e, particularmente, do rock saído de Brasília. Legião Urbana, Capital Inicial e Plede Rude fizeram história e definiram uma época.

Lembro perfeitamente da minha ansiedade para que a revista Bizz chegasse às bancas, com todas as dicas dos melhores lançamentos, dos discos fundamentais - a discoteca básica, última seção da revista, que eu adorava; as novas bandas, as entrevistas que recheavam o meio da publicacão, enfim.

Não existia internet, a MTV só chegaria na decada de 90. E o mercado fonográfico ainda não sabia o que fazer direito com o potencial daquela molecada louca por consumir rock. E, assim, os discos foram saindo aos pouquinhos. Low Life do New Order, Crocodiles do Echo & The Bunnymen, Tinderbox da Siouxsie, os primeiros do U2.

Os Smiths já chegaram por aqui com uma aura de gênios. A imprensa brasileira, que sempre babou um pouco pelos ingleses, deixava todo mundo com água na boca.

Mas, e os discos? O primeiro que eu escutei nao foi o Queen is dead, mas o Hatful of Hollow, uma espécie de compilação de coisas que eles haviam gravado para o radio; e musicas novas, que traziam a maravilhosa Please Please Please Let Me Get What I Want.

O problema era como conseguir os demais. Grana para disco, era uma coisa rara lá em casa, mas minha irmã já trabalhava e, um belo dia, chegou com um presente para o irmão caçula. Ah, a sensação de segurar aquela obra de arte entre minhas mãos! Eu, finalmente, tinha The Queen Is Dead.

A belíssima capa, com uma foto esverdeada do ator francês Alan Delon, no auge da juventude, a sucessão de clássicos e a música mais linda que eles já gravaram: There's a Light That Never Goes Out (aquela dos versos and if a double-decker bus/ crashes into us/ to die by your side/such a heavenly way to die). Tudo em The Queen Is Dead é perfeição, beleza e poesia.

Morrissey, assim como Renato Russo, abriram um mundo de possibilidades literárias para mim. Descobrir que havia uma conexão entre os versos desencantados de Moz e os poetas românticos que eu estudava no segundo grau, foi uma revelação sobre os fascinantes caminhos que a arte traça, e de como o artista carrega em si o peso da tradição e a capacidade de renovar tudo ao seu redor.

No ano seguinte, os Smiths já não existiriam. Foi uma carreira curta, apenas 4 discos e algumas coletâneas, mas suas músicas e discos permanecem. Após um período de certo ostracismo, o mundo viu surgir bandas que se referenciavam diretamente a Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce.

A justiça tarda. Mas, nunca falha.