Mostrando postagens com marcador Marisa Monte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marisa Monte. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Desejos para 2011


Já dizia o clássico de Benjor, País Tropical, que todo mês de fevereiro “tem carnaval”. Este ano não tem: o carnaval ficou para março. A encheção de saco, no entanto, já está no ar. E junto com ela toda a mediocridade que nos reservam esses tediosos meses de férias no Brasil. Em nenhum outro período do ano se revela de forma tão marcante o imenso poço no qual se afundou a cultura de massa brasileira.



Fico pensando o que ficará destes últimos 20 anos numa retrospectiva futura. Dizer, por exemplo, que os melhores discos dos últimos tempos são Que Belo e Estranho Dia Para se ter Alegria (Roberta Sá) e Onde Brilhem os Olhos Teus (Fernanda Takai) é uma inverdade. Eles não os melhores, eles são os ÚNICOS!



O mesmo vale para Cidade de Deus e Lavoura Arcaica no cinema e O Filho Eterno e Dois Irmãos na literatura.



É muito pouco para um país de dimensões gigantescas como o nosso, que tem uma tradição impressionante na música popular e uma literatura que ainda merece o devido reconhecimento mundial (barreira, talvez, da periférica língua portuguesa).



É, por isso, que faço aqui uma pequena lista de desejos para 2011 (que não se realizarão, eu sei, mas, ainda assim, me faz bem pensar num mundo menos brega e escroto):
1 – O atual Big Brother (número 11!) será a última edição do programa. O público passivo e bundão finalmente se cansará dessa pseudo-novela da vida real que só faz deseducar e reforçar velhos preconceitos.
2 – As rainhas do axé terão calos inoperáveis nas cordas vocais.
3 – As pessoas não farão mais coração com as mãos.
4 – Todas as pessoas que mandarem beijos no coração terão uma parada súbita do mesmo.
5 – O twitter e o facebook ficarão 6 meses fora da internet e milhões de pessoas escravizadas por redes sociais serão obrigadas a voltar a se relacionar com seres humanos reais.
6 - A indústria da música encontrará uma saída saudável para sua crise.
7 – Os roteiristas brasileiros serão proibidos por lei de fazer novos roteiros e terão que aprender a escrever em alguma escola argentina.
8 – A Marisa Monte finalmente lançará discos com mais regularidade.
9 – Os Rolling Stones se aposentarão de uma vez.
10 – O U2 finalmente terá consideração com um público brasileiro e fará uma turnê de verdade em solo nacional (sem obrigar milhares de idiotas – como eu – a se deslocar para São Paulo).

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Alquimista

Na minha infância, o artista hoje conhecido como Jorge Ben Jor chamava-se, simplesmente, Jorge Ben. Um dos grandes mestres da MPB, Jorge, no entanto, não foi muito feliz em sua produção feita nos anos 80. Uma fase ruim que se prolonga até os nossos dias. Falando muito claro: Ben Jor nunca esteve à altura de Ben.

É o que fica evidente quando se escuta a caixa Salve, Jorge!, que reúne todos os discos lançados pelo cantor e compositor entre as décadas de 60 e 70. De Samba Esquema Novo, de 1963, que, como o próprio nome diz, estabeleceu uma nova forma de tocar samba até África Brasil, de 1976, este conjunto de trabalhos mostra a evolução de uma musicalidade que pode se arrogar o adjetivo de única.

A quantidade de clássicos é de deixar qualquer um de queixo caído. Há canções que eu, inclusive, só conhecia na versão de outros artistas (caso de Balança Pema e Cinco minutos, ambas regravadas com classe por Marisa Monte e Eu Vou Torcer, que ganhou recentemente uma versão chinfrim de Fernanda Abreu).

Os grandes destaques da caixa ficam por conta do histórico A Tábua de Esmeralda, de 1974, no qual Jorge discorre com sua lírica muito particular sobre temas como alquimia, Idade Média, vida em outros planetas e orgulho negro e África Brasil, disco em que a guitarra elétrica passa a tomar o lugar do violão e o namoro do músico com ritmos negros norte-americanos fica mais intenso.

Mas, em todos os trabalhos há razões de sobra para se deleitar com a ginga, a brasilidade e universalidade de um som que influenciou de forma decisiva não só a música nacional como a internacional.

Que o diga Rod Stewart, que chupou descaradamente o refrão de Taj Mahal em um de seus maiores sucessos, Do You Think I’m Sexy.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

É Primavera...

Tim Maia, lá no início da década de 70, em seu histórico álbum de estréia, cantava belamente: É primavera/Te amo/Trago essa rosa/Para te dar...

As estações do ano já inspiraram belíssimas canções, desde Summertime, eternizada por Janis Joplin até California Dreaming, canção para uma tarde fria de inverno, entoada pelos rapazes e moças do The Mamas And The Papas.

A primavera se estampa lindamente nas capas floridas de discos como Essence de Lucinda Williams, Power Corruption And Lies, do New Order , Flowers, dos Rolling Stones e O Descobrimento do Brasil, em que os rapazes da Legião Urbana posam em meio a um belo jardim florido, além do colorido exuberante presente em obras como Universo Ao Meu Redor, de Marisa Monte, Disraeli Gear, do Cream, Sg. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, Abraxas, de Santana e tantos outros.

Aqui no Brasil, país em que, a grosso modo, só existem duas estações: uma quente e chuvosa, e outra quente e seca, os letristas adoram falar de flores, chuvas e doces manhãs de setembro.

É o caso dos Titãs e seu grande sucesso Flores (originalmente gravada no disco ÕBLESQBLON e depois recauchutada para o Acústico MTV, com excelente participação de Marisa Monte), do Ira, com Flores Em Você, que chegou, inclusive, a ser usada como tema de novela da Rede Globo e de Djavan, com Pétala, verdadeira obra-prima que encerra este texto primaveril, causando arrepios no peito:
O seu amor
Reluz
Que nem riqueza
Asa do meu destino
Clareza do tino
Pétala
De estrela caindo
Bem devagar
Ó meu amor
Viver
É todo sacrifício
Feito em seu nome
Quanto mais desejo
Um beijo seu
Muito mais eu vejo
Gosto em viver, viver...
Por ser exato
O amor não cabe em si
Por ser encantado
O amor revela-se
Por ser amor
Invade
E fim

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Meus Discos Preferidos: Cantoras

1- TapestryCarole King (1971)
Um disco importantíssimo, não só por consolidar a carreira da cantora, compositora e pianista Carole King, mas também por reafirmar a posição das mulheres como peças importantes no jogo da música. Autoral e, ao mesmo tempo, muito acessível, Tapestry é a consagração de uma artista completa.

2- Pearl Janis Joplin (1971)
Ainda que Janis não tenha conseguido completar este disco, ele revelou-se um canto de cisne mais que honroso. Em total domínio de suas avantajadas capacidades vocais, Joplin arrasa em faixas clássicas da dor-de-cotovelo como Cry Baby e A Woman Left Alone.

3- Lady SoulAretha Franklin (1968)
Numa recente enquete da revista americana Rolling Stone, Aretha foi eleita a melhor vocalista surgida nos últimos cinqüenta anos, superando nomes como Ray Charles, Elvis Presley e Marvin Gaye. Não há aí nenhuma injustiça. Quem já escutou maravilhas como Ain’t No Way, Chain Of Fools, A Natural Woman (de autoria da primeirona na lista), todas presentes neste disco fantástico, sabe que Aretha tem voz, alma, coração e mente prontos para emocionar e impressionar.

4- Dusty In Memphis Dusty Springfield (1969)
Esta incrível cantora inglesa tinha uma paixão confessa pela música soul americana e pôde extravasar esse amor neste belo trabalho do final da década de 60. Como o próprio nome diz, tudo foi gravado em Memphis, com músicos americanos e uma luxuosa produção. Infelizmente o disco não teve o sucesso esperado e Dusty teve que esperar a inclusão de uma das faixas num filme de Quentin Tarantino para que sua obra-prima fosse redescoberta. Antes tarde do que nunca!

5- Back To BlackAmy Winehouse (2006)
Outro caso de amor explícito entre uma cantora branca e a melhor música negra americana, Back To Black é uma perfeita mistura de soul, funk e pop sessentista embalados em uma roupagem moderna e pela voz sedutora de Winehouse. Uma pena que sua vida atribulada tenha se tornado maior que sua arte.

6- Dream Of Life Patti Smith (1988)
O trabalho mais doméstico, calmo e simples desta cantora que influenciou 10 entre 10 roqueiras surgidas do final da década de 70 para cá. Embora não seja uma obra-prima como Horses, este trabalho de 88 flagra Smith em paz com a vida, com o casamento e a maternidade.

7- Parallel Lines Blondie (1978)
Outra cantora super-influente, Debbie Harry juntou num mesmo pacote sensualidade, honestidade e uma grande sensibilidade pop. Ela era capaz de, num mesmo disco, cantar com agressividade uma canção punk como One Way or Another e, em seguida, languidamente, entoar uma música feita para as pistas de dança (Heart Of Glass, grande sucesso no mundo inteiro, inclusive por aqui).

8- Cor de Rosa e Carvão Marisa Monte (1994)
Este disco provou que Marisa não era apenas uma cantora eclética (leia-se, sem personalidade), de belo timbre. Boa compositora e, sobretudo, uma excelente garimpeira de clássicos meio esquecidos da nossa música (não se pode esquecer que muita gente começou a se interessar pelo grande Paulinho da Viola, depois que Marisa regravou pérolas como Para Ver as Meninas), ela construiu uma carreira coerente e de qualidade crescente.

9- Tinderbox Siouxsie & The Banshees (1986)
Musa de góticos, punks, darks e modernos, a maquiada Siouxsie sempre chamou mais atenção por seu visual meio egípcio, meio heroína de mangá do que por seus dotes vocais. Mas ela sempre cantou muito e este disco é uma prova cabal disso. Estão aqui os clássicos Cities In Dust e Candyman, que tocaram até cansar nas rádios de rock brasileiras dos anos 80.

10- Van Lear Rose Loretta Lynn (2004)
Sempre tive uma grande dificuldade com música country, mas, nos últimos dez anos, cantoras como Lucinda Williams e Loretta Lynn vêm desconstruindo este preconceito. Embora algumas pessoas possam alegar que este disco é muito bom por ter sido produzido e tocado por Jack White, dos White Stripes, a grande verdade é que quem brilha são as composições e a voz deliciosamente caipira de Lynn. E o dueto com Jack em Portland, Oregon é excelente, uma quebra das fronteiras entre rock e country.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Delicadeza É Vermelha

Estava assistindo, esta semana, uma entrevista com a cantora e compositora Vanessa da Mata, no programa Sem Censura, da TV Brasil.

Já há algum tempo que acompanho a carreira desta matogrossense de voz suave e visual exótico e bem brasileiro.

Vendo Vanessa falar - curiosamente, esta foi a primeira vez que a vi concedendo uma entrevista -, me veio a revelação do porque de minha admiração por ela: Vanessa é doce, simples e naturalmente bela.

Explico-me. A MPB vive um momento de um enorme congestionamento de vozes femininas em suas vias. Do samba revisitado de Roberta Sá e Teresa Cristina às modernas Ana Cañas e Céu, há uma cantora para cada dia da semana e para o humor do momento.

Todas essas jovens cantoras permanecem, no entanto, restritas a um selecto público. A grande massa ainda não as descobriu e, com a burrice generalizada de programadores de rádio e produtores de televisão, é muito provável que fiquem assim por um bom tempo.

Já no caso de Vanessa da Mata, ela parece ter descoberto o caminho para a música de consumo em massa sem sacrificar um milímetro de sua visão artística. E é aí que ela se mostra diferenciada e especial.

Sem os exageros cansativos de Ana Carolina ou o populismo arrasa-quarteirão de Ivete Sangalo, Vanessa só encontra paralelo em outra grande musa pop, Marisa Monte (alguém poderia mencionar também Maria Rita mas, para mim, ainda falta uma cara, uma persona artística definida para a filha do mito maior entre nossas cantoras).

É na inversão da regra de mercado que impõe a burrice no lugar da inteligência, a brutalidade no lugar da sensibilidade e a planificação no lugar da assinatura autoral, que Vanessa se insinua e vai conquistando os corações de quem busca boa música brasileira.

Isso tudo regado com água de chuva e decorado com flores bem vermelhas.