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domingo, 4 de abril de 2010

O Sinatra de Sheffield

Há artistas tão bons e tão talentosos que a gente fica a se perguntar porque ainda não se tornaram fenômenos de massa, grandes vendedores etc. Talvez seja melhor assim...

Talvez se um músico como Richard Hawley, um inglês de voz aveludada e sinuosa que já lhe valeu o apelido de Frank Sinatra de Sheffield - cidade natal de Hawley - , tivesse obtido um sucesso estonteante logo no início de sua carreira, não teríamos a beleza, a sutileza e a quase perfeição de discos como Coles Corner, Lady's Bridge e o último, Truelove's Gutter, possivelmente seu disco mais intimista e difícil.

Queridinho da crítica inglesa, Hawley compõe discos únicos no panorama da música pop contemporânea: luxuosas baladas em arranjos cuidadosamente elaborados que revelam uma riqueza escondida em pequenos detalhes. Pairando, magnífica, acima de tudo, está a voz quente e acolhedora de Hawley, um instrumento capaz de despertar emoções intensas (em The Ocean, de Coles Corner), envolver o ouvinte no mais deslavado romantismo (em Open Up Your Door, do último LP) e, às vezes, atingir momentos de uma quase alegria (Tonight The Streets Are Ours, de Lady's Brigde, seu melhor e mais variado trabalho).

É bastante possível que, devido ao prestígio e ao culto gerado em torno de sua obra, Hawley siga lançando discos lindos e maravavilhosamente antiquados por um bom tempo.

Sorte de quem já descobriu este gogó privilegiado. Para quem nunca nem ouviu falar, fica a dica: Hawley é o melhor cantor surgido nas ilhas Britânicas nos últimos vinte anos. E cá para nós, melhor ainda que Sinatra...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Livro de Cabeceira

Quem gosta de música pop e rock e quer conhecer a fundo todas as vertentes e movimentos nos quais eles se desmembraram, tem que dar, ao menos, uma folheada na “bíblia” 1001 Discos para se ouvir antes de morrer (1001 Albums - You Must Hear Before You Die, Robert Dimery, Universe Publisher).

Organizado por décadas, o livro inicia-se nos anos 50 com Frank Sinatra, e vai até 2005 com The White Stripes, ou seja, o material coberto é longo e detalhado, mas nunca cansativo.

Obviamente que, como toda lista, pode desagradar muita gente.

Eu sinto falta, por exemplo, de In My Tribe (10,000 Maniacs), Hunkpapa (Throwing Muses), Mainstream (Lloyd Cole And The Commotions), New York (Lou Reed) e muitos outros discos bastante queridos, mas acho que este tipo de livro deve ser tomado mais como um guia, uma espécie de farol para iniciantes e sedentos de novas experiências musicais, do que como obra que esgota o assunto.

Neste sentido, 1001 Discos é perfeito: textos claros, belas fotografias, projeto gráfico de extremo bom-gosto, informações enxutas e acessíveis e, por fim, o livro tem a suprema sabedoria de analisar cada álbum dentro do seu próprio gênero.

Dessa forma, encontra-se aqui tanto um Baby One More Time (Britney Spears), como um Hot Rats (Frank Zappa).

sábado, 8 de agosto de 2009

O Segundo Sexo

Houve um tempo em que mulher no rock era tão raro como encontrar político honesto no Brasil.

Pioneiras como Janis Joplin e Grace Slick, do Jefferson Airplane, tiveram que esperar quase 3 décadas para ver suas sementes finalmente germinando.

Aqui e acolá apareciam loucas iluminadas pelos deuses do rock, mas, misteriosamente, essas aparições eram isoladas.

O movimento punk, com seu ideário de quebra de todas as regras estabelecidas, parecia escancarar as portas para a mulherada, mas, com honrosas exceções, o rock continuou dominado pela estética branca e masculina de sempre.

Graças à fantástica ampliação dos mercados musicais no mundo inteiro, os anos 90 viram uma explosão da música feita por mulheres. E elas chegaram com uma raiva e uma criatividade que, certamente, mudaram definitivamente a cara do rock e da música pop universais.

O grande barato desta geração surgida na década de 90, é que as garotas assumiram o controle total de todo o processo criativo, desde a composição até a execução das próprias canções e gerenciamento de suas carreiras. Nada da dependência nefasta de homens que muitas vezes só sugavam, sem oferecer muito em troca (não consigo deixar de pensar aqui em Tina Turner, que, dona de um talento impressionante, se submeteu, durante anos, à ditadura imposta pelo marido e companheiro de palcos e estúdios, Ike Turner).

Dessa turma que está mandando e desmandando no cenário atual, sou particularmente fã de Chan Marshall, que sob o nome Cat Power, tem encantado e seduzido ouvintes por onde passa. Marshall evoluiu de uma típica cantora de banda alternativa, no início de vida profissional, para uma crooner que deixa uma marca profundamente pessoal em tudo que canta. É só ouvir a versão arrasadora da moça para o clássico do cancioneiro americano, New York New York (aquela eternizada por Frank Sinatra), para entender todo o poder da gata.

Outra que acho hipnotizante é Regina Spektor, russa criada nos Estados Unidos, e dona de uma belíssima voz. Quase todas as canções de Spektor são levadas ao piano - influência direta de Tori Amos, cantora de grande força dramática que colocou problemáticas tipicamente femininas no pop americano do início da década passada - e não é raro que inclua até mesmo versos em russo em suas maravilhosas canções. Seu novo disco, Far, mantém a qualidade e confirma Spektor como uma das cantautoras mais promissoras da atualidade.

Tenho acompanhado com grande interesse, também, a carreira da inglesa Natasha Khan que, por trás do nome Bat For Lashes, gravou dois belíssimos trabalhos - Fur And Gold e Two Suns. Natasha é uma herdeira direta dos experimentalismos musicais da islandesa Bjork. Aliás, Bjork segue ativa, influente e atual e sua musicalidade original e personalíssima permanece uma das referências mais importantes da cena contemporânea.

Poderia ficar horas escrevendo sobre essas mulheres incríveis e seus discos extraordinários, mas o meu ponto é apenas reafirmar o óbvio: foi-se o tempo em que uma garota segurando uma guitarra e gritando ao microfone era uma espécie de aberração.

Hoje, elas não apenas vão à luta, como também determinam os rumos que a música do novo milênio vai seguir.