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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Desejos para 2011


Já dizia o clássico de Benjor, País Tropical, que todo mês de fevereiro “tem carnaval”. Este ano não tem: o carnaval ficou para março. A encheção de saco, no entanto, já está no ar. E junto com ela toda a mediocridade que nos reservam esses tediosos meses de férias no Brasil. Em nenhum outro período do ano se revela de forma tão marcante o imenso poço no qual se afundou a cultura de massa brasileira.



Fico pensando o que ficará destes últimos 20 anos numa retrospectiva futura. Dizer, por exemplo, que os melhores discos dos últimos tempos são Que Belo e Estranho Dia Para se ter Alegria (Roberta Sá) e Onde Brilhem os Olhos Teus (Fernanda Takai) é uma inverdade. Eles não os melhores, eles são os ÚNICOS!



O mesmo vale para Cidade de Deus e Lavoura Arcaica no cinema e O Filho Eterno e Dois Irmãos na literatura.



É muito pouco para um país de dimensões gigantescas como o nosso, que tem uma tradição impressionante na música popular e uma literatura que ainda merece o devido reconhecimento mundial (barreira, talvez, da periférica língua portuguesa).



É, por isso, que faço aqui uma pequena lista de desejos para 2011 (que não se realizarão, eu sei, mas, ainda assim, me faz bem pensar num mundo menos brega e escroto):
1 – O atual Big Brother (número 11!) será a última edição do programa. O público passivo e bundão finalmente se cansará dessa pseudo-novela da vida real que só faz deseducar e reforçar velhos preconceitos.
2 – As rainhas do axé terão calos inoperáveis nas cordas vocais.
3 – As pessoas não farão mais coração com as mãos.
4 – Todas as pessoas que mandarem beijos no coração terão uma parada súbita do mesmo.
5 – O twitter e o facebook ficarão 6 meses fora da internet e milhões de pessoas escravizadas por redes sociais serão obrigadas a voltar a se relacionar com seres humanos reais.
6 - A indústria da música encontrará uma saída saudável para sua crise.
7 – Os roteiristas brasileiros serão proibidos por lei de fazer novos roteiros e terão que aprender a escrever em alguma escola argentina.
8 – A Marisa Monte finalmente lançará discos com mais regularidade.
9 – Os Rolling Stones se aposentarão de uma vez.
10 – O U2 finalmente terá consideração com um público brasileiro e fará uma turnê de verdade em solo nacional (sem obrigar milhares de idiotas – como eu – a se deslocar para São Paulo).

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O Amor e a Cidade


Na canção Vambora, a cantora Adriana Calcanhoto diz que tem o cheiro da pessoa amada “dentro de um livro”.


Músicas, filmes e livros são realmente pequenas urnas nas quais depositamos recordações, cheiros, vozes, amores e ressentimentos.


Acho que, por acreditar nisso, me apaixonei de maneira tão intensa pelo filme Paris, Je T’aime. Composto de historietas de cinco minutos dirigidas por realizadores de várias nacionalidades, o filme presta uma homenagem terna a uma cidade que pode se gabar de ser a mais romântica do mundo.


Mas o filme não é exatamente uma comédia romântica ou mesmo um filme de amor. Em meio a tantos sentimentos abordados é a solidão e o desamparo que sobressaem de forma mais contundente. Sobretudo no último trecho, no qual uma americana narra num francês macarrônico sua primeira viagem à capital francesa.


Em apenas cinco minutos, um verdadeiro mundo de emoções aflora num texto tão lindo que só de me lembrar, fico arrepiado. Naqueles momentos finais de um filme já memorável, me reconheci na solidão e na tristeza da personagem. Mas, junto com ela, relembrei também a felicidade de descobrir uma cidade que ilumina a vida de quem já esteve ali para sempre.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Rádio Pirata

Toquem o meu coração
Façam a revolução
Está no ar, nas ondas do rádio
No submundo repousa o repúdio
Que deve despertar
Rádio Pirata, RPM


No Reino Unido da década de 1960, em plena efervescência da beatlemania, as rádios oficiais britânicas tocavam uma porcentagem mínima do rock e do pop produzido nas Ilhas e na matriz americana.

Em socorro de uma nação sedenta por renovação musical, navios navegando as águas do Mar do Norte transmitiam uma programação musical totalmente voltada para o novo estilo da juventude da época.

Essas rádios, que ficaram conhecidas como rádios-piratas, divulgaram novos artistas tanto das Ilhas Britânicas quanto os vindos dos Estados Unidos, mas foram perseguidas e combatidas pelo sisudo Parlamento Inglês, assim como os antigos piratas dos mares o foram pela Marinha de Sua Majestade.

É esse o pano de fundo - real - do enredo do filme Piratas do Rock (The Boat That Rocked, Inglaterra, 2009). A trama romantiza o estilo de vida alternativo e contracultural dos dj’s, vistos aqui como verdadeiros heróis dispostos a tudo para levar seus ídolos ao carente público inglês. É claro que há muita liberdade poética e nem sempre a trilha sonora corresponde ao período em que se passa a história (1966).

Aliás, a trilha é um capítulo a parte: de The Kinks a Rolling Stones, passando por Beach Boys e The Hollies, o filme faz um passeio por uma época dourada da música jovem, na qual atitude e rebeldia caminhavam lado a lado com talento e criatividade.

Um filme para se ver com o volume da televisão ligado no máximo.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Filha de Peixe

Ter um sobrenome famoso é uma bênção e uma maldição. Deve facilitar absurdamente as coisas, mas por outro gera um imenso peso e uma eterna comparação.
Na maioria das vezes, artistas que se valem de parentes brilhantes para chamar a atenção são uma farsa.
Aqui no Brasil, muito mais que isso, são uma verdadeira praga. Pensemos, por exemplo, em Preta Gil. Qual o talento da moça? Cantar, não canta. Como atriz é um vexame. Como apresentadora limita-se a encarnar um modelo de mulher-viado que existe aos montes por aí. No entanto, a bela – sim, eu a acho bonita – não sai dos holofotes desde que entrou no meio artístico. Se não fosse filha de quem é, fico imaginando quanto tempo teria durado essa carreira baseada na abundância da falta de talento (é paradoxal, mas é isso mesmo).
Lá fora, onde a concorrência e o profissionalismo ditam as regras, o buraco é bem mais fundo.
Não que não exista nepotismo e gente sem talento sendo empurrada pela goela do público. Mas para se estabelecer é bem mais complicado. Michael Douglas, só para falar de um caso clássico, passou anos amargando comparações com seu pai, o grande Kirk Douglas, até se afirmar como ator de respeito e produtor ousado.
O mesmo peso deve ter perseguido a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg. Filha de um dos maiores ícones da cultura popular francesa, o multimídia Serge Gainsbourg, Charlotte estreou ainda pré-adolescente num dueto com o próprio pai, escandalosamente intitulado Lemon Incest. Obviamente que Serge, sendo um dos maiores provocadores de todos os tempos, não poderia deixar passar em branco a chance de chocar moralistas e hipócritas de todos os matizes.
Mas Charlotte é uma artista com vida própria. Recentemente cometeu seu próprio momento ultrajante ao revoltar platéias do mundo inteiro, que se indignaram com as cenas de mutilação genital mostradas no filme O Anti-Cristo, de Lars Von Trier. Para lá da polêmica, quem tem a cabeça um pouco mais arejada conseguiu perceber uma atriz forte, corajosa e de complexos recursos. Para mim, é a grande estrela do filme, de resto uma obra menor de Trier.
No campo da música, Charlotte também tem se revelado uma cantora muito interessante. Não que ela cante exatamente. Na tradição de sua mãe, a inglesa Jane Birkin, Charlotte sussurra, geme e desafina em iguais doses. O truque é a habilidade para usar essa voz pequena e limitada para criar mágica.
No seu primeiro disco, 5:55, Charlotte fez um trabalho ancorado no pop da dupla francesa Air, com o auxílio luxuoso do cantor e compositor Jarvis Cocker. É, portanto, um disco bastante francês, apesar de boa parte das letras serem cantadas em inglês. Tudo é muito lânguido, as texturas são muito delicadas e os arranjos são feitos sob medida para o balbucio de Gainsbourg.
O novo disco, Irm, vem produzido pelo enfant terrible da música americana, Beck. Como no trabalho anterior, as inclinações artísticas do produtor dão a tônica, com mais experimentalismos e batidas eletrônicas desta vez. A favor de Charlotte, deve-se dizer que ela está mais solta como intérprete.
Só me pergunto se, deixada sozinha sem a ajuda desses gênios do estúdio, a moça conseguiria gravar ao menos uma música que se salve.
É esperar para ver.

domingo, 11 de julho de 2010

Música e Cinema - O Lado "B"

Por Lázaro Luis Lucas
Muito antes mesmo de ter acesso a uma cópia de Cannibal Holocaust, lançado há alguns meses atrás no Brasil pela Platina Filmes, pude, por meios ilícitos, ouvir a maravilhosa trillha sonora composta pelo italiano Riz Ortolani para o longa-metragem do diretor Ruggero Deodato, de 1980. Os dois trabalhariam ainda juntos naquele mesmo ano em La Casa Sperduta Nel Parco - em inglês House On The Edge Of The Park.
E é exatamente em razão do lançamento da obra máxima de um cineasta tão desinteressante quanto reverenciado por críticos e cinéfilos de todo o mundo, que apresento-me aqui diante dos leitores do Vitrola Encantada para expressar a minha paixão pela composição de Riz Ortolani para o filme Cannibal Holocaust.
Antes de tudo, porém, quero deixar bem claro que não tenho nenhum tipo de formação musical. Sou apenas um apaixonado por filmes e suas trilhas sonoras, como muitos de vocês aqui.
Nascido em 1931, o compositor e regente Riziere "Riz" Ortolani iniciou sua carreira no cinema em 1962 com o pseudo-documentário Mondo Cane, dirigido por Franco Prosperi, Gualtiero Jacopetti e Paolo Cavara.
À época, o enorme sucesso da música-tema More, composta por Ortolani e Nino Oliviero e com uma nova letra, agora em inglês, escrita por Norman Newell, viabilizou sua indicação ao prêmio de Melhor Canção no Oscar de 1964. Antes porém, o filme já havia conseguido a proeza de disputar a Palma d'Ouro no 15º Festival de Cinema de Cannes, perdendo-a para O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte.
Bastante produtivo, Riz Ortolani colaborou com todo tipo de cineasta. Dos bagaceiras Lucio Fulci e Umberto Lenzi aos autorais Vittorio de Sica e Dino Risi. Trabalhou ainda com os acadêmicos Edward Dmytric e Lamont Johnson e com o "1001 utilidades" Damiano Damiani, cineasta, infelizmente, subestimado por críticos e fãs de cinema. A produção era tamanha, que só em 1969 foram 14 trilhas sonoras assinadas por ele.
Compôs, ainda, em 1970 a trilha internacional para o filme O Cangaceiro, de Lima Barreto. A original, é bom deixar registrado, é de Gabriel Migliori (1909-1975). Não raro, suas composições musicais superavam em qualidade as obras cinematográficas a que serviam.
Assim, em 1980, com prestígio dentro e fora da Itália, Ortolani une-se a Ruggero Deodato em duas empreitadas cinematográficas. Naquele ano, e nos anos seguintes, são lançadas em todo "mundo livre" as obras La Casa Sperduta Nel Parco e Cannibal Holocaust.
Desagrando a todo tipo de segmento social existente à época, em particular grupos ligados à defesa e à dignidade da mulher e as sociedades protetoras dos animais, ora os filmes eram reeditados ora censurados.
Em alguns países, os filmes eram retirados de cartaz e em outros nem chegavam a entrar. Decisões mais radicais os baniam de vez. Ruggero Deodato chegou, inclusive, a ver o sol nascer quadrado por conta de Cannibal Holocaust. Alguns afirmam que há, ainda hoje, algum mandado de prisão para ser cumprido contra o cineasta.
A verdade, depois de se abstrair toda a lenda urbana em torno dos filmes e de seu realizador, é que estamos diante de filmes muito ruins, mas, em particular no caso de Cannibal Holocaust, obrigatórios para todo cinéfilo de respeito.
Em Cannibal Holocaust, a inesquecível música de Riz Ortolani combinada à excelente edição de Vincenzo Tomassi e ao trabalho do fotógrafo Sergio D'Offizi faz o contraponto necessário à canastrice do elenco principal e de apoio, ao roteiro ridículo - admito que a ideia central é bastante original - e à direção pífia de Deodato.
Observe que Ruggero Deodato faz uso dos mesmos golpes baixos que o personagem Alan Yates (Gabriel Yorke), um documentarista pilantra e mau-caráter, na busca incessante por fama e fortuna.
Quanto ao trabalho de Riz Ortolani, as composições Cannibal Holocaust (Main Theme), Adulteress' Punishment - presente em um dos momentos mais desagradáveis do filme - e Crucified Woman - fundo musical para o pseudo-documentário The Last Road To Hell - não só imprimem dramaticidade aos momentos mais marcantes - em todos os sentidos - do filme como enriquecem o vasto universo das trilhas sonoras compostas originalmente para o cinema.
Uma obra-prima, sim, a música de Cannibal Holocaust.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Letra e Música

A revista Bravo deste mês apresenta matéria de capa na qual dá uma geral na evolução das letras em um gênero em que letra deveria ser tudo, menos importante: o rock.

Tendo como mote a iminente visita de Lou Reed à próxima Flip – Festa Literária de Parati – o texto do jornalista Artur Dapieve tece um breve histórico das mudanças sofridas pelas letras, mas falha ao não retratar o contexto político-social que permitiu o surgimento de mestres como Bob Dylan e o próprio Reed.

Sim, porque grandes letristas que são, nem Dylan nem Reed seriam possíveis sem a erupção social e cultural que balançou o mundo nos anos 60. E também é meio que forçar a barra chamar Lou Reed de “filho” de Dylan.

Uma diferença de poucos anos separa os dois e pode-se dizer que representam lados opostos do mesmo fazer poético. Dylan, com sua pena mais politizada e erudita, é uma versão moderna de trovadores medievais, bardos renascentistas e artistas de tradição folk que usavam sua música como arma contra a opressão.

No lado oposto, Reed está muito pouco preocupado com as misérias deste mundo. Sua lírica investe pesado em temas mais urbanos como prostituição, drogas e sadomasoquismo. Seu universo contempla travestis, moradores de rua, o submundo de Berlim e de Nova Iorque.

Se Dylan eternizou-se com um violão e uma gaita, Reed distorceu sua guitarra de forma ensurdecedora e pariu, de uma tacada só, o punk e o rock alternativo.

O que é inquestionável tanto em um como no outro é a qualidade de suas produções poéticas, a influência de seus discos e a importância de suas carreiras.

O que nos leva a pensar no estado de nossa própria produção musical. Que seja cada vez mais claro que o futuro não nos reserva nada da qualidade de um Caetano Veloso ou de um Chico Buarque, isso é evidente.

O terreno sempre movediço da música popular permite o aparecimento aqui e ali de focos de inteligência e sensibilidade. Genialidade e clarividência, no entanto, são coisas do passado.

Num país em que se lê muito pouco e no qual a educação pública vive um processo de total desmantelamento, o que se assiste é um empobrecimento radical dos textos cantados. Seja pela adoção da linguagem sintética vinda da internet ou por simples preguiça intelectual, o fato é que não se aproveita quase nada dos escritos desses jovens que fazem música por aí.

Será realmente a geração do “puta falta de sacanagem”, que devora Harry Potter e faz fila para ver Crepúsculo, quem carregará a tradição de grandes letras na nossa música? Acho difícil.

Ou alguém acredita que o Restart e o NXZero ainda farão uma letra que chegue aos pés de Índios?

terça-feira, 6 de julho de 2010

O Homem de Preto

Lançamentos póstumos sempre foram uma mina de ouro para gananciosos executivos de gravadoras e um deleite para urubus de todos os tipos.

Estima-se, por exemplo, que Elvis Presley tenha vendido muito mais depois de morto que quando rebolava seu famoso quadril nos hotéis de Las Vegas.

A mesma praga parece assombrar outra lenda da música americana, o cantor Johnny Cash. Desde sua morte em 2003, incontáveis coletâneas cobrindo a carreira do primeiro e único “Homem de Preto” pipocaram e até mesmo um filme sobre sua infância e início de carreira foi lançado (Johnny e June, que rendeu, inclusive, um Oscar à atriz Reese Witherspoon).

Mas há dois lançamentos póstumos que podem ser colocados acima de qualquer suspeita: o disco de 2006, A Hundred Highways e o recém-lançado Ain´t No Grave. Ambos pertencem à magnífica série gravada por Cash ao lado do produtor Rick Rubin e conhecida como American Recordings. Os quatro discos iniciais da série, lançados a partir de 1994, reapresentaram Cash para uma geração de ouvintes que desconheciam, ou conheciam muito pouco, a obra do autor de dois mitológicos álbuns gravados ao vivo em penitenciárias norte-americanas (At Folson Prison e Live At St. Quentin).

É claro que não se pode esquecer do trabalho de gênio feito pelo produtor Rubin, que apresentou a Cash uma nova safra de compositores e reduziu os arranjos ao mínimo necessário, ressaltando a voz grave e intensa de Cash. Foi assim que surgiram versões magníficas de canções alheias como One (U2), The Mercy Seat (Nick Cave), I Won´t Get Back (Tom Petty) e Rusty Cage (Soundgarden), ao mesmo tempo em que emergiam as belíssimas composições do próprio Cash.

Todos os cinco discos da série são indispensáveis, retratos irretocáveis de um grande artista exorcizando seus demônios e renascendo como intérprete. Nesse sentido nada pode ser mais tocante que a recriação da canção Hurt, do Nine Inch Nails.

Presente no quarto álbum da série, The Man Comes Around, Hurt aparece despida dos adereços eletrônicos presentes no original, revelando cada mínima nuance de um homem já lentamente destruído pela doença que o levaria alguns meses depois. O vídeo da canção mostra a fragilidade do homem. Mas o que fica na cabeça é a fortaleza e a grandiosidade do artista.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Minhas músicas preferidas: Duetos

1– Águas de Março – Tom Jobim e Elis Regina
O encontro do grande compositor com a já estabelecida super-intérprete da MPB não foi um mar de rosas, mas gerou momentos de brilho inigualável.

Águas de Março é um verdadeiro monumento não só da música brasileira como de toda a tradição musical do Ocidente. Regravada incontáveis vezes, a canção é um desses casos clássicos em que cada nova versão só faz ressaltar a beleza incomparável do original.

2– Under Pressure – Queen e David Bowie
Faixa de encerramento do pior disco do Queen, o esquecido Hot Space, esta parceria entre o camaleão e as rainhas faz uma fusão perfeita do estilo de ambos, misturando as tendências operísticas do Queen com a visão musical sempre moderna de Bowie. O resultado é tão bom que nenhum dos dois conseguiu gravar nada a altura desde então.

3– Where The Wild Roses Grow – Nick Cave e Kylie Minogue
Quem diria que a improvável união do príncipe das trevas com a princesa do pop descartável geraria um rebento tão incrível como este?

Provavelmente, nem eles próprios, mas o fato é que a música ressuscitou a carreira de Kylie, mostrando que por trás da artista risível de hits como I Should Be So Lucky havia uma cantora capaz de encantar, seduzir e assombrar. Bravo!

4– What Have I Done To Deserve This – Pet Shop Boys e Dusty Springfield
Foi preciso esta canção para que o mundo relembrasse da classe e da sutileza da grande cantora inglesa de soul Dusty Springfield.

Muito popular na década de 60, ela viu sua fama ser encolhida na década seguinte, até cair no quase total esquecimento. Embora sua participação na faixa do disco Actually seja discreta, ela faz toda a diferença no resultado final.

5– Loco De Amor – David Byrne e Celia Cruz
O encontro entre o multimídia, ex-Talking Heads e homem de todos os ritmos e a rainha da salsa pega fogo e ainda apimenta a trilha do filme Totalmente Selvagem, um semi-cult da década de 80.

As lições de rebolado da caliente Celia, no entanto, ficaram por aqui. A carreira solo subseqüente de Byrne é uma decepção.

6– You Are Everything – Marvin Gaye e Diana Ross
Duetos românticos são um lugar comum que pode se transformar num verdadeiro pesadelo.

Marvin Gaye nunca temeu este tipo de colaboração, tendo feito parcerias memoráveis com várias de suas colegas de Motown. Com a diva Ross, a coisa quase derrapa no excesso de açúcar, mas não chega nem perto do atentado cometido anos depois por la Ross junto a Lionel Ritchie na infame Endless Love.

7– Boa Sorte – Vanessa da Mata e Ben Harper
Duetos cantados em línguas distintas tendem a ser um tanto grotescos.

De cara, me vem à cabeça Tina Turner e Eros Ramazoti berrando em inglês e italiano. Por isso, desconfiei de Vanessa cantando com Ben Harper. Mas não é que deu certo? E o mais interessante é que a parte de Harper é uma tradução literal da letra em português, coisa rara e de difícil adequação à melodia e ao ritmo da música. Um espanto!

8– Don’t Give Up – Peter Gabriel e Kate Bush
Trata-se de uma das melhores composições da carreira solo de Gabriel e também um exemplo de como ter um convidado que entra nos momentos certos e se enquadra com perfeição em cada verso.

Já seria uma canção inesquecível somente com Peter, mas a adição de Kate Bush dá uma dimensão épica e extremamente emotiva para a bela letra.

9– Miss Sarajevo – U2 e Luciano Pavarotti
Outra combinação perigosa: música pop com ópera. Freddie Mercury até que tentou, mas suas colaborações com a cantora catalã Monserrat Caballé são no mínimo constrangedoras.

A mágica de Miss Sarajevo é que Bono se recolhe à posição de mero coadjuvante e deixa o momento de maior emoção para o experiente Pavorotti. Sensível e, por vezes, arrepiante.

10– Haiti – Gilberto Gil e Caetano Veloso
Esta serve como exemplo de como não se fazer um dueto: senhores de mais de 50 anos não devem tentar fazer rap assim como não devem fingir uma revolta e uma indignação que já não sentem há uns vinte anos.

E mais: senhores de mais de 50 anos não devem fazer vídeos em que aparecem com cara de zangados cantando uma letra horrorosa e pedante. Podre.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Os 50 Anos da "Nouvelle Vague"

Por Lázaro Luis Lucas

50 anos depois do surgimento da Nouvelle Vague, eis que novamente o movimento artístico surgido na França, no final do anos 50, encontra-se nas conversas e "sites" de relacionamentos de cinéfilos do mundo todo. E a estreia, em solo brasileiro, do documentário Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague adiciona ainda mais elementos para a troca de ideias.

De difícil precisão quanto ao seu marco inaugural, a Nouvelle Vague foi moldada com a finalidade de romper com todas as normas cinematográficas estabelecidas no cinema francês ainda nos anos 30. Até aí, tudo bem.

O que se espera de todo e qualquer movimento artístico é pelo menos uma renovação estética, realmente. Uma de suas características mais notáveis era permitir ao diretor do filme um maior controle intelectual sobre a obra, reduzindo, mas não eliminando, a importância do roteirista e do produtor no resultado final.

Retomava-se com a medida o conceito de um "cinema de autor". Assim, para alguns de seus estudiosos, o mérito maior do movimento - e aqui, talvez, resida a verdadeira importância da Nouvelle Vague - foi ter possibilitado o surgimento de toda uma nova geração de cineastas; vários deles, críticos já conceituados da "Cahiers du Cinéma", icônica revista de cinema lançada na França, no início dos anos 50.

Não se requer muito conhecimento em cinema para se perceber que, à razão da enorme quantidade de talentos surgidos com a Nouvelle Vague, qualquer tentativa de se estabelecer parâmentos artísticos específicos para servir de base ao movimento não se sustentariam nem por um ano.

Óbvio. A Nouvelle Vague, enquanto cinema, não foi, necessariamente, estética. A Nova Onda foi humana. Nomes como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais, Jacques Rivette, Claude Chabrol e Eric Rohmer, só para citar os mais notáveis, passaram as ditar as novas regras do cinema francês.

Claude Chabrol e o seu Nas Garras do Vício (1958), para muitos, inauguram o movimento. Os filmes eram taxados de iconoclastas, contestadores, inconformados. Só não havia por parte do público e da crítica especializada a indiferença. Havia muito amor e também muito ódio aos filmes. Era tudo o que eles queriam.

Com a Nouvelle Vague, o cinema francês já não era mais o mesmo. Bem, até surgir no cenário artístico daquele país um cineasta que atende pelo nome de Luc Besson. Mas essa é outra história.

Abaixo, alguns filmes marcantes de quatro deles:
Alain Resnais
- Hiroshima Meu Amor (1959)
- Ano Passado em Marienbad (1961)
- Muriel (O Tempo de Um Retorno) (1963)
- Meu Tio da América (1980)
- Amor à Morte (1984)

Claude Chabrol
- Nas Garras do Vício (1958)
- Mulheres Fáceis (1960)
- Corças, As (1968)
- Açougueiro, O (1970)
- Inocentes de Mãos Sujas, Os (1975)

Eric Rohmer
- Signo do Leão, O (1959)
- Marquesa d'O, A (1976)
- Mulher do Aviador, A (1981)
- Noites de Lua Cheia (1984)
- Raio Verde, O (1986)

Francois Truffaut
- Incompreendidos, Os (1959) (Antoine e Colette -1962; Beijos Proibidos -1968; Domicílio Conjugal -1970; Amor em Fuga, O -1979)
- Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois (1962)
- Noiva Estava de Preto (1968)
- Na Idade da Inocência (1976)
- Mulher do Lado, A (1981)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Estranhos no ninho

O rock independente, ou alternativo, é uma entidade que existe muito mais no campo das ideias do que no campo das coisas reais. Afinal, o que é ser independente?

Nos Estados Unidos e na Inglaterra, o chamado mercado indie já atingiu níveis de profissionalismo e excelência tão altos que se torna difícil diferenciar um lançamento de uma gravadora pequena do de uma major. Sub Pop, Matador, Jagjaguwar e Merge são apenas algumas das gravadoras que, a partir de origens modestas, hoje disputam espaço nas paradas com nomes tradicionais como Sony e Warner.

Grupos que mudaram a cara da música nos últimos anos surgiram em pequenas gravadoras e, em alguns casos, preferiram permanecer longe dos esquemas milionários de conglomerados multinacionais.

Exemplos clássicos de bandas bem-sucedidas que começaram suas carreiras como artistas independentes são R.E.M. e Nirvana. Após a experiência adquirida junto a públicos universitários, as duas bandas assinaram contrato com a Warner (R.E.M.) e a Geffen (Nirvana) e partiram para o megaestrelato mundial. Miraculosamente, conseguiram permanecer fiéis a seus princípios, colocando sua ética pessoal e artística acima das tentações da fama e da fortuna.

Uma banda que poderia ter feito essa transição do underground para a ribalta é, sem dúvida, o Spoon. Queridinhos da crítica e do público mais antenado, o grupo do Texas lançou uma série de trabalhos em que desconstruíam todas as formas tradicionais de se fazer rock, eliminando solos de guitarra, refrões e outras convenções que o colocaram a frente de uma turma que faz rock vanguardista sem ser radical.

Com Gimme Fiction, de 2005, o grupo aumentou consideravelmente sua legião de admiradores. Foi minha introdução ao universo do grupo e também um caso de paixão a primeira vista. No ano seguinte, duas músicas do disco apareceram no filme Mais Estranho Que A Ficção, estrelado por Emma Thompson e Will Ferrel, e o caminho do estrelato se abriu para o Spoon.

Coisa com a qual o grupo parece ter se importado pouco. O disco seguinte tinha o estranhíssimo título de Ga Ga Ga Ga Ga, poucas concessões ao mercadão e a mesma estranheza de sempre, desta vez temperada com uma dose de sofisticação nos arranjos. Para surpresa geral, o disco foi puxado pelo inesperado sucesso de pérolas como You Got Yr. Cherry Bomb e The Underdog e acabou frequentando o top 10 da parada americana.

Quem esperava um arrasa quarteirão, deve ter se decepcionado um pouco com o novo disco, Transference. Mais um capítulo na evolução permanente do som do grupo, o novo disco prioriza arranjos mais básicos e simples, mantendo, no entanto, o som caracteristicamente não-convencional e ousado de sempre.

Não é uma obra-prima como Gimme Fiction – para mim, o melhor disco lançado nos últimos 10 anos – mas demonstra mais uma vez a inquietação criativa de Britt Daniels, vocalista e principal compositor do grupo. Definitivamente, é material sônico de altíssima qualidade e que merece uma espiada.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Carta a Noemia

Cara Noemia,

Não sei se você se lembra de mim, mas lá pelos idos de 1981, 1982 eu era a sua Dora.

Explico-me: Dora é a personagem interpretada por Fernanda Montenegro em Central do Brasil, uma professora aposentada que engorda a mirrada pensão escrevendo e lendo cartas para iletrados que passam diariamente pela Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Pois bem: eu era a sua Dora.

Você trabalhava como babá de uma criança de aparência angelical e comportamento de capeta chamada Filipe. Quando não estava correndo como uma louca atrás de Filipinho, você assistia à sua televisão em preto-e-branco, ouvia músicas no rádio portátil e se correspondia com seus parentes no Norte e com seu namorado no Rio de Janeiro.

A bem da verdade, esta última parte quem fazia, mesmo, era eu. Sim, porque você era aquilo que se costumava chamar de analfabeta de pai e mãe. Era eu, com minha letra infantil de garoto de 11 anos, quem escrevia sobre o seu cotidiano na Capital Federal, trabalhando em casa de família e juntando seu dinheirinho para ir para o Rio se casar com o Manuel.

Também não sei se você se lembra, mas era no seu minúsculo quartinho que nos divertíamos ao som dos seus cantores favoritos: Carlos Alexandre e Sidney Magal.

Você nunca foi de ficar chorando dores de amores ao som de Fernando Mendes ou de Paulo Sérgio. Melhor esquecer da chatice da labuta ao som da Ciganinha ou da Cigana Sandra Rosa Madalena. Ou então sentir-se A Feiticeira ou uma daquelas loucas Frenéticas - outra paixão sua.

E, pensando bem, eu te devo algo do meu gosto por música. Foi no apartamento de seus patrões, quando eles estavam fora, que eu ouvi pela primeira vez um disco inteiro de Simon & Garfunkel (um gravado ao vivo no Central Park, se não me engano) e um de Elton John (uma coletânea daquelas que se faziam especialmente para o mercado nacional e que continha Skyline Pigeon, uma música que me transportava para muito, muito longe).

Pois é, querida. Não sei se você se casou mesmo com o Manuel, se tiveram filhos, se aprendeu a ler e se ainda se alegra quando ouve O Meu Sangue Ferve Por Você.

O que eu sei é que muitos daqueles momentos que vivi com você, em minha infância, jamais se apagarão da memória: nem o poster do Roberto na parede, nem a primeira novela mexicana na telinha, nem o seu sorriso largo e expansivo.

Um beijo grande!

Sua, Dora.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Os Beatles Suecos

Na cena final do filme Mamma Mia, as atrizes Meryl Streep, Julie Waters e Christine Baranski interpretam o clássico Dancing Queen em ridículas roupas vindas diretamente dos anos 70.

É o melhor momento de um musical meio sem pé nem cabeça que só se segura pelo carisma de Streep (haverá no universo outra atriz como esta?) e pela simpatia do restante do elenco. Preenchendo as lacunas de um enredo bobinho, estão as músicas do grupo sueco de maior sucesso da História, o ABBA.

Durante muito tempo eles foram para mim uma espécie de epítome da cafonice e do romantismo meloso. Canções como Fernando e Chiquitita ganharam inusitadas versões da paraguaia Perla, o que, de certa maneira, só fez aumentar a aura de brega em torno dos suecos.

Foi preciso conhecer a coletânea Gold, um álbum duplo com 19 sucessos, para que eu redescobrisse a perfeição das composições de Benny Anderson e Bjorn Ulvaeus e os vocais impecáveis das sereias Agnetha Faltskog e Anni-Frig Lyngstad.

Dancing Queen, Voulez-Vous, Lay All Your Love On Me, Super Trouper, Waterloo e tantas outras são canções-celebrações, pequenas peças de 3 a 4 minutos, que têm a mágica capacidade de nos fazer um pouquinho mais felizes.

Não por acaso, o culto à banda só tem crescido nas últimas décadas. Considerando que eles não gravaram nada de novo desde o início da década de 80 e que supostamente recusaram propostas bilionárias para uma nova turnê, é o caso de se concluir que tamanha adoração mundial deve-se exclusivamente à qualidade perene de suas canções.

É por isso que podemos, sem nenhum exagero, chamá-los de Beatles suecos.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Uma História da Delicadeza

Uma das coisas ruins de envelhecer é que a gente vai ficando cínico. Talvez cínico seja um tanto forte, mas o fato é que vamos perdendo o encanto; aquele deslumbramento que sentimos com determinadas obras fica cada vez mais raro.

Não consigo, por exemplo, sequer me interessar por um filme como Avatar. E não adianta me falarem que é o máximo, que os efeitos são isto ou aquilo, que é uma revolução na forma de se fazer cinema etc. O fato puro e simples é que quanto mais caros e tecnológicos ficam os filmes, mais pobres se tornam suas histórias.

É por isso que quando descubro uma pequena maravilha como Contos de Tóquio, filme de 1953 do cineasta japonês Yasujiro Ozu, tudo se torna de novo encantador e surpreendente para mim.

Delicado drama familiar sobre um casal do interior do Japão que vai visitar os filhos já adultos na cosmopolita Tóquio, o filme transcorre lentamente durante 2 horas e quinze minutos. Cada mínimo detalhe é captado pela câmera sóbria de Ozu: gestos, expressões, sorrisos e lágrimas vão, aos poucos, compondo o descompasso entre os pais idosos e os filhos ocupados e insensíveis.

Toda a sutileza do mundo passa pelas mãos hábeis de Ozu, que constrói essa história universal de uma maneira realmente muito oriental. É preciso reeducar o olhar para poder apreciá-lo. Nossa cabeça, violentamente exposta a blockbusters explosivos de Hollywood e a baixarias televisivas, leva um choque.

Uma vez entregue ao particular ritmo de Ozu, no entanto, a epifania é completa: não pode haver um cinema mais rico e belo que este.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Estréia Preciosa

Por Lázaro Luis Lucas

Com a estréia de Preciosa (2009) nos cinemas brasileiros, creio que muitos cinéfilos devem estar se perguntando por Lee Daniels, cineasta pouco divulgado no Brasil.

Para aqueles não iniciados no trabalho deste norte-americano, uma boa opção de cartão de visitas é o drama policial Matadores de Aluguel, produção de 2005, com um elenco bem apropriado ao chamado cinema independente. Helen Mirren, Cuba Gooding Jr., Stephen Dorff, Macy Gray e Mo'Nique (presente também em Preciosa) são as estrelas desta produção, modesta nos custos mas impressionante no resultado.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Programa Obrigatório

Por Lázaro Luis Lucas

Aquele Que Deve Morrer (Jules Dassin, 1957).

Nos anos 20, em uma pequena aldeia da Grécia, então dominada pelos turcos, as comemorações da Semana Santa e a chegada de um grupo de refugiados ao local, desencadeiam uma série de conflitos entre os líderes da comunidade e um tímido pastor de ovelhas, ironicamente escolhido para representar Jesus Cristo durantes os festejos.

Dirigido pelo diretor norte-americano Jules Dassin, Aquele Que Deve Morrer é um programa obrigatório.

São, ainda do diretor, os excelentes filmes Nunca aos Domingos (1960) e Profanação (1962).

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Doces Vozes: Margo Timmins

Margo Timmins é a voz angelical que embala o country rock da banda canadense Cowboy Junkies. Quando o grupo surgiu, na segunda metade da década de 80, parecia uma visão celestial: country e blues tocados em ritmo lento, com instrumentação esparsa, arranjos reduzidos ao essencial e, pairando acima de tudo, a voz sussurrante e doce de Margo.

O LP The Trinity Session, lançado em 1988, despertou a atenção da crítica e de um público em busca de uma sonoridade que viesse despida dos truques de estúdio típicos da época. As versões ultrapessoais do grupo para clássicos como Sweet Jane, do Velvet Underground e I’m So Lonely I Could Cry, de Hank Williams, viraram cartões de visitas e rapidamente os canadenses estariam em trilhas sonoras (Assassinos Por Natureza, de Oliver Stone) e na boca de outros artistas. Aqui no Brasil, por exemplo, Renato Russo era fã de carteirinha.

Eles gravaram mais dois discos excepcionais: The Caution Horses, de 1990, uma obra-prima pouco lembrada, mas simplesmente inesquecível para quem teve a chance de ouvi-la e Pale Sun Crescent Moon, de 1993, este com uma pegada mais roqueira e com potenciais sucessos radiofônicos (isso se houvesse programadores de rádio dotados de inteligência).

O grupo continua em atividade, no entanto desde 1996, quando lançaram Lay It Down, um trabalho irregular, mas com momentos de brilho, não têm apresentado mais nada à altura dos primeiros trabalhos.

Já está mais do que na hora de eles nos encantarem novamente e demonstrarem para toda uma nova geração como se faz música “de raiz” sem cair na simples paródia.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Dischi Italiani

Na cena final de Roma, de Fellini, um grupo de umas 50 vespas percorre as ruas da capital italiana, em velocidade estonteante e barulho ensurdecedor. O típico meio de transporte dos romanos praticamente sumiu de circulação. Em seu lugar, um número cada vez maior de carros.

Sinal dos tempos? Pode ser, mas, em tempos de consciência ambiental em alta, não deveria ser justamente o contrário? De qualquer maneira, o trânsito italiano segue um caos controlado que, pelo jeito, só eles entendem.

Nada que diminua o prazer de andar pelas ruas repletas de história e arte. A Itália é um deleite para os sentidos. Do aroma onipresente das pizzas à visão inesquecível da Vênus de Botticelli, tudo no país parece ter sido planejado para deslumbrar.

Inclusive as lojas de discos. A começar pelo tamanho. Nada de pocilgas claustrofóbicas e empoeiradas. Os espaços são, em geral, amplos e bem harmonizados. A música italiana divide espaço com a música internacional e a variedade de títulos impressiona. Os preços são, em sua maioria, salgados, mas com boa vontade e determinação é possível achar algumas pechinchas.

Na Via Del Corso, em Roma, encontram-se algumas das maiores lojas da Itália. A Messaggerie Musicale e a Ricordi Media Store são típicas megastores, com várias seções, abrangendo livros, dvd’s e até mesmo instrumentos musicais (no caso da Ricordi).

Numa zona menos nobre da cidade, próxima à estação central Termini, encontra-se a ótima Discoteca Laziale. Grande, porém acolhedora e, melhor de tudo, com funcionários que sabem o que estão vendendo. Boa seleção de rock alternativo.

Em Florença, bem pertinho da Galeria Uffizi, há uma loja independente que é, realmente, o sonho de qualquer colecionador. Com foco no vinil, seja ele novo ou usado, é difícil não encontrar algo muito interessante. Para se ter ideia, comprei o segundo disco dos Mutantes, que está fora de catálogo por aqui e é, ao que tudo indica, mais valorizado lá fora, mesmo.

Para completar, o próprio dono, um italiano simpático e prestativo, nos atendeu e quando descobriu que éramos brasileiros, colocou um disco de Caetano Veloso da década de 60 para tocar. O interior desse pequeno templo para fanáticos, chamado Data Records e localizado na Via Dei Neri, nº 15/r, ilustra esta postagem.

O outro destaque da viagem ficou por conta da FNAC italiana. Ao contrário do que aconteceu aqui no Brasil, onde a rede francesa parece ter abandonado a seção de discos, nas lojas tanto de Verona quanto de Milão há uma inflação de bons títulos e preços ligeiramente mais baixos. Boxed Sets de deixar qualquer colecionador babando, além de uma modesta prateleira de bolachões completam o cenário.

Serviço:

Discoteca Laziale
Via Giollitti, 263 00185 Roma tel. 06-44714500

Ricordi Media Stores
Via del Corso, 506 Roma tel. 06-3612370

FNAC Roma
Galleria Commerciale Porta di Roma
Via Alberto Lionello 201 Roma tel. 06-98263001

FNAC Milão
Via Torino Ang. Via della Palla Milão tel. 02-869541

Libraccio
Viale V. Veneto, 22 Milão tel. 02-6555681

Ricordi Media Stores
Via U. Foscolo, 3 Milão tel. 02-86460272

FNAC Verona
Via Cappello 34 Verona tel. 045-8063811

Il 23
Via G. Barbarigo, 2 Pádua

MelBookstore
Via De Cerretani, 16/R Florença tel. 055-287339

Data Records
Via Dei Neri, 15/R Florença

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Recomendo

Por Lázaro Luis Lucas

Em tempos de Leila Lopes, vale a pena conhecer JCVD, uma produção franco-belga produzida e estrelada pelo ator Jean-Claude Van Damme. Há um monólogo durante o filme - é quase um pedido de desculpas do astro aos seus fãs espalhados por todo o mundo - que, mesmo despropositado, irá emocionar todos aqueles que seguiram a carreira cinematográfica deste lutador.

Uma dica: se você aprecia áudio original com legendas, selecione o áudio em francês (2.0 ou 5.1), já que o dvd lançado no Brasil vem com as opções de dublagens em inglês e português. No original, são muito poucos os diálogos em inglês (preservados no áudio em francês).

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A Animação e a Diversidade Sexual

Por Lázaro Luis Lucas


Enquanto a telenovela brasileira e todos os demais programas produzidos neste país ainda insistem em tratar da diversidade sexual da maneira mais lamentável possível - seria melhor que ignorasse solenemente a questão -, a produção em animação, seja para a TV ou cinema, realizada em todo mundo livre, vem surpreendendo cada vez mais.

Produções como Barry e a Banda das Minhocas (Dinamarca, 2008), concebidas para entreter o público infanto-juvenil, adolescente e adulto, vêm fazendo um excelente trabalho de inclusão de personagens homossexuais nas tramas. Até mesmo os vilões homossexuais estão repletos de carisma.Se houver alguma dúvida, é só acompanhar algum episódio das primeiras temporadas de As Meninas Super-Poderosas.

Outras séries produzidas para a TV que também apresentam tramas sobre a diversidade sexual ou personagens fixos de orientação homossexual são Du, Dudu e Edu, Coragem - O Cão Covarde e Os Padrinhos Mágicos. Ficando apenas naqueles que mais me impressionaram.

No caso de Coragem - O Cão Covarde, por exemplo, um episódio inteiro tratava do amor entre duas felinas, impossibilitado por um gângster que mantinha uma delas cativa, usando uma máscara sem qualquer personalidade. Com a ajuda do assustado cãozinho, ambas conseguem fugir do vilão e ao término acompanhamos a partida delas em um trem rumo à felicidade pretendida. Por fim, a câmera ainda foca a máscara destruída no chão. Uma ousadia para os nossos padrões e um belo exemplo de respeito às diferenças.

Por fim, não se pode deixar de falar nos longas-metragens e na série de TV Lilo e Stitch. Na minha opinião, a franquia mais gay friendly de que se tem notícias. Simplesmente, deliciosa.