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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Desejos para 2011


Já dizia o clássico de Benjor, País Tropical, que todo mês de fevereiro “tem carnaval”. Este ano não tem: o carnaval ficou para março. A encheção de saco, no entanto, já está no ar. E junto com ela toda a mediocridade que nos reservam esses tediosos meses de férias no Brasil. Em nenhum outro período do ano se revela de forma tão marcante o imenso poço no qual se afundou a cultura de massa brasileira.



Fico pensando o que ficará destes últimos 20 anos numa retrospectiva futura. Dizer, por exemplo, que os melhores discos dos últimos tempos são Que Belo e Estranho Dia Para se ter Alegria (Roberta Sá) e Onde Brilhem os Olhos Teus (Fernanda Takai) é uma inverdade. Eles não os melhores, eles são os ÚNICOS!



O mesmo vale para Cidade de Deus e Lavoura Arcaica no cinema e O Filho Eterno e Dois Irmãos na literatura.



É muito pouco para um país de dimensões gigantescas como o nosso, que tem uma tradição impressionante na música popular e uma literatura que ainda merece o devido reconhecimento mundial (barreira, talvez, da periférica língua portuguesa).



É, por isso, que faço aqui uma pequena lista de desejos para 2011 (que não se realizarão, eu sei, mas, ainda assim, me faz bem pensar num mundo menos brega e escroto):
1 – O atual Big Brother (número 11!) será a última edição do programa. O público passivo e bundão finalmente se cansará dessa pseudo-novela da vida real que só faz deseducar e reforçar velhos preconceitos.
2 – As rainhas do axé terão calos inoperáveis nas cordas vocais.
3 – As pessoas não farão mais coração com as mãos.
4 – Todas as pessoas que mandarem beijos no coração terão uma parada súbita do mesmo.
5 – O twitter e o facebook ficarão 6 meses fora da internet e milhões de pessoas escravizadas por redes sociais serão obrigadas a voltar a se relacionar com seres humanos reais.
6 - A indústria da música encontrará uma saída saudável para sua crise.
7 – Os roteiristas brasileiros serão proibidos por lei de fazer novos roteiros e terão que aprender a escrever em alguma escola argentina.
8 – A Marisa Monte finalmente lançará discos com mais regularidade.
9 – Os Rolling Stones se aposentarão de uma vez.
10 – O U2 finalmente terá consideração com um público brasileiro e fará uma turnê de verdade em solo nacional (sem obrigar milhares de idiotas – como eu – a se deslocar para São Paulo).

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Doces Vozes: Kate Bush

Assim como a maioria das pessoas, conheci Kate Bush por meio da canção Wuthering Heights. Adaptação da trágica história de amor entre Heathcliff e Cathy, protagonistas do romance O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte, a canção fez a fama mundial de Kate – na época com apenas 20 anos de idade – mas também a rotulou como cantora de um sucesso só. Injustiça: Kate tem uma obra importante e influente que vem sendo redescoberta por novas gerações de músicos e ouvintes.

Seu disco de 1985, Hounds Of Love, é considerado um verdadeiro marco do pop inglês da década de 80, uma mistura excitante de experimentalismos musicais, sonoridades celtas e poesia clássica. Na faixa Running Up That Hill e na canção-título Kate faz uma síntese impecável de tudo isso.

Também gosto muito do disco Aerial, um trabalho duplo mais suave e delicado, mas igualmente belo. Aerial é, até agora, o último lançado por Kate. Como ela costuma dar intervalos longos entre seus álbuns – foram 14 anos entre os discos The Red Shoes e Aerial – ainda podemos esperar muito desta artista instigante e imprevisível.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Longa Vida à Rainha

Acabo de terminar a leitura de Freddie Mercury, de autoria do francês Selim Rauer, pela editora Planeta, biografia sobre o mítico vocalista do Queen.

Escrito numa linguagem excessivamente simplória, possivelmente devido a uma tradução de má qualidade, o livro faz um nítido esforço para traçar os contornos do homem por trás da lenda.

Ao longo de sua curta vida - Mercury morreu aos 45 anos em decorrência de complicações ocasionadas pela AIDS - , o cantor e compositor tentou manter suas origens, vida familiar e afetiva o mais longe possível da cena pública.

Nascido Farrokh Bulsara, primogênito de uma família de origem persa, passou sua infância na paradisíaca ilha de Zanzibar, na costa africana, então um protetorado da Coroa Inglesa. Aos 8 anos é enviado à Índia onde prossegue seus estudos em uma rígida instituição britânica. Estes anos de afastamento da família parecem ter afetado de forma definitiva o jovem Farrokh. O final da adolescência seria vivida na efervescente Londres da década de 60. Inicia-se ali seu profundo interesse pelo rock e um desejo ainda amorfo de fazer algo novo, grandioso e inesquecível.

A carreira com o Queen acabaria levando todas essas ambições a alturas que, talvez, somente ele concebesse.

Freddie conheceu, num curto período de 20 anos, a glória e a decadência, a adulação e o escárnio, a adoração do público e a ferocidade da crítica.

Ninguém foi tão gigantesco como ele no palco. Ninguém soube transformar a comédia que é o circo do rock em ópera, drama e tragédia.

Poucos ousaram o ridículo com tamanha autenticidade e - por que não? - integridade. Depois de sua morte o mundo da música ficou menos divertido.

Meu disco preferido do Queen é o segundo, Queen II. Quando o disco foi lançado em 1974, eu era um infante de apenas 4 anos e música era uma coisa que só entrava em minha casa via rádio.

Quando eu comecei a descobrir o rock, já na adolescência, o Queen escancarou um mundo de possibilidades e me abriu um caminho sem volta. Foi a transição definitiva das trilhas sonoras de novela para álbuns conceituais, cheios de detalhes e segredos que iam se revelando a cada audição.

Em janeiro de 1985, quando se apresentaram no primeiro Rock In Rio e a Rede Globo transmitiu alguns trechos dos shows, a minha conversão se completou. Seja regendo a multidão em Love Of My Life ou explodindo de emoção em We Are The Champions, Mercury transformava qualquer palco no seu elemento.

Por trás do performer insuperável, no entanto, vivia um homem preso a recalques e fantasmas que remontam à infância e à educação repressora.

Mercury jamais conseguiu fazer a transição do personagem que encarnava de forma tão intensa sob os holofotes para a vida cotidiana, com suas mesquinharias, pequenos e grandes problemas.

Ficou sua música, testamento definitivo de um artista tão complexo e fascinante como sua própria vida.

terça-feira, 2 de março de 2010

Luto

Acho que todo mundo que é apaixonado por literatura, livros e cultura fica um pouquinho triste com a morte de José Mindlin, aos 95 anos.

Colecionador, aficionado e, sobretudo, eterno amante do mundo dos livros, Mindlin foi um brasileiro como poucos.

A lacuna que ele deixa dificilmente será preenchida.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Última Flor

Há muito se discute sobre as reais qualidades literárias de uma boa letra de música. É poesia ou não? A coisa se complica muito quando música e texto de altíssima qualidade andam de mãos dadas. É o caso de grande parte da música brasileira.

Uma recente enquete da edição nacional da revista Rolling Stone revelou que Construção, música e letra de Chico Buarque, é a melhor canção brasileira de todos os tempos.

Se formos analisar os versos de Buarque, fica muito claro que a eleição de sua obra-prima, de 1971, deve muito à rica construção gramatical, cheia de versos terminados em palavras proparoxítonas, e suas metáforas asfixiantes da dura realidade do Brasil dos anos de chumbo.

É lógico que o incrível arranjo, que evolui de um simples samba para um épico cinematográfico em brilhante tecnicolor, torna a canção ainda mais impressionante, mas quando pensamos em Construção nos vem imediatamente à cabeça A Letra.

Para mim, não há mistério. Não consigo ver muita distinção entre Carlos Drummond de Andrade e a melhor produção de Caetano Veloso ou entre a depuração lingüística de João Cabral e o intricado universo de Chico Buarque.

Algumas letras de Antonio Carlos Jobim me emocionam tanto quanto os versos tristes alegres de Manuel Bandeira.

As palavras de Renato Russo tiveram um impacto tão grande em minha psique quanto os versos românticos de Álvares de Azevedo e Castro Alves.

Penso que, num país de analfabetos e alfabetizados que não lêem como é o Brasil, a música cumpre um papel fundamental de disseminação de ideias, cristalização de expressões e falares regionais e - mais importante - de perpetuação da musicalidade e beleza inerentes a nossa amada, inculta e bela Língua Portuguesa.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Vampiros de Plástico

O que faz um produto – um filme, um disco ou um livro – se tornar um fenômeno de massa? Pode ser o tema explosivo (caso da polêmica tola em torno de O Código Da Vinci), o apelo sexual (aqui os exemplos são inúmeros, indo de Madonna até a nossa querida Gretchen) ou mesmo o simples sensacionalismo da mídia (a “artista” conhecida como Lady Ga Ga é um caso bem recente de exploração exagerada de pseudo-escândalos e ousadias feitas sob medida para os tablóides do óbvio).

Mas para explicar alguns fenômenos, só mesmo um bom psicólogo.

É o caso da série de filmes da saga Crepúsculo. Os livros que os originaram são best-sellers mundiais que já fizeram fortuna para a escritora Stephenie Meyer. A trama recicla clichês de histórias de vampiros com clichês de dramas adolescentes. Ou seja, haja lugar comum.

Mas o fato é que pegou. As garotas, sobretudo, sentem-se identificadas com a protagonista apaixonada por um rapaz enigmático, que acaba se revelando um vampiro sensível e bonzinho.

Passei batido pelos livros. Talvez porque já esteja um pouco velho para dramas plastificados ou talvez porque já tenha tido minha dose de chupadores de sangue.

Quando li os livros de Anne Rice sobre o cultuado vampiro Lestat, confesso que vivi uma fase de profundo interesse pelo tema. Isso sem contar os milhares de filmes vampirescos que se acumulam em minha memória, que vão desde o antológico Drácula, estrelado por Bela Lugosi, até os deliciosos pastiches da produtora inglesa Hammer. Como tudo na vida passa, isso também passou.

Mas resolvi dar uma chance à versão cinematográfica do primeiro livro da série, dirigido por Catherine Hardwicke e lançado em 2008. Durante longas duas horas, lutei para me manter acordado diante de tamanha bobagem. Atores sofríveis, história risível, direção apática e uma falta de emoção tão gritante que se chega a pensar que todo o projeto foi feito realmente por mortos-vivos.

No dia seguinte à sonolenta experiência, entro numa banca e escuto duas garotas namorando, embevecidas, uma revista com o casal do filme estampado na capa. A falta de vocabulário típica dessa fase da vida impedia as "fofas" de expressar melhor seu imenso amor pelo ator Robert Pattinson, que faz o vampiro meigo.

Rendi-me, então, a um fato muito simples: enquanto houver adolescência, hormônios em ebulição e fotoshop de última geração, os Crepúsculos da vida continuarão a florescer.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Da Estante

Sei que falo muito de Beatles por aqui e, com o perdão de quem não gosta, vou pedir licença para falar mais uma vez.

É que estou lendo a monumental biografia do grupo escrita por Bob Spitz (The Beatles – A Biografia, Editora Larousse).

Ao longo de quase 1000 páginas, o autor reconstrói a carreira da banda de rock mais popular de todos os tempos, de uma maneira detalhista, vívida e cativante.

Embora esteja ainda no primeiro quarto do livro, já dá para perceber a formação da personalidade de cada um dos quatro cavalheiros de Liverpool: a vida familiar conturbada de Lennon, o talento precoce de Paul, os péssimos boletins escolares de Harrison, as primeiras namoradas, a chegada do rock na Inglaterra, a dificuldade do dia-a-dia no pós 2ª Guerra Mundial, enfim, tudo o que viria a se refletir nas letras e atitudes de cada um deles se encontra ricamente descrito.

Altamente recomendável não só para fãs de carteirinha como também para aqueles curiosos em conhecer melhor um período muito fértil para a música jovem no mundo todo.

No quesito biografias de músicos, aliás, as nossas livrarias ganharam dois novos títulos que devem despertar bastante interesse: Minha Fama de Mau, de Erasmo Carlos (Editora Objetiva) e Nem Vem Que Não Tem – A Vida E O Veneno De Wilson Simonal (Editora Globo), de Ricardo Alexandre.

Esta última imagino ser imperdível, afinal a trajetória desse grande cantor brasileiro mistura preconceito, popularidade, talento, arrogância, ingenuidade e decadência num mesmo coquetel explosivo. É para ler escutando Sá Marina e Nanã.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um Passeio Musical

Quando fui a Buenos Aires pela primeira vez, em 2004, havia um mito de que a capital argentina sozinha tinha mais livrarias que o Brasil inteiro.

Se era verdade ou não, uma coisa não se podia negar: a quantidade de lojas de discos e livros nas ruas de Buenos Aires era algo que realmente chamava a atenção, não só pela grande quantidade como também pelo tamanho e a variedade de títulos de quase todas.

Na época, a Argentina começava a se recuperar da violenta crise econômica que atingiu o país no final dos anos 90 e início dos 2000. Brasileiros invadiam as calles portenhas, aproveitando os preços baixos e falando seu tradicional e constrangedor portunhol. Uma verdadeira praga!Enquanto isso, eu estudava o idioma de Cervantes – ou, mais de acordo com a ocasião, de Borges – e ia frenético de uma loja de discos para outra.

De cara, me deixou intrigado o quanto o mercado fonográfico argentino é mais variado e completo que o nosso. Lançamentos internacionais chegam bem antes que aqui e muita coisa boa sai por lá sem nunca dar o ar da graça nestas plagas. Desnecessário mencionar que, com o peso desvalorizado diante do real, os preços dos cd’s são ainda uma atração à parte.

Segue, portanto, uma sugestão de passeio pelas lojas de discos de Buenos Aires:
Depois de um café com leite com media lunas (os nossos croissants), siga para a avenida Santa Fé e vá direto à livraria mais linda que existe neste planeta, a El Ateneo Grand Splendid, ou como é mais conhecida entre os locais, Yenny. Montada num antigo teatro que foi reformado e devidamente adaptado, o lugar alia as grandes dimensões de uma megastore à atmosfera acolhedora de um templo cultural.

Na mesma Santa Fé, logo ao lado da Ateneo, está uma das maiores lojas da rede Musimundo. Preços ligeiramente mais em conta e uma seleção de títulos tão ampla que é preciso paciência e disposição para fuçar tudo. Há várias outras espalhadas pela cidade, mas esta resolve tudo.

Saindo da Musimundo, aproveite para tomar um sorvete na fantástica Volta. Peça um sabor qualquer de sorvete de doce de leite. Não existe nada igual no mundo.

Devidamente energizado, dobre na avenida Callao, dê uma paradinha na alternativa Notorious, misto de ciber-café, loja e restaurante e escolha, digamos, um disco da banda Yo La Tengo , que apesar do nome em espanhol, é americana.

Em seguida, tome o metrô, que fica pertinho, e desembarque na movimentadíssima Corrientes, espécie de Broadway argentina, com enorme concentração de teatros, cinemas, livrarias e a ótima Zival, loja especializada em ritmos locais, principalmente tango. Mas, completa e variada como é, a Zival também tem uma ótima seção de pop rock. O que você não tiver encontrado no Ateneo ou na Musimundo, com certeza encontrará aqui.

Aproveite para provar uma deliciosa empanada em algum restaurante da região. Minha preferida é a de queijo com cebola, mas a mais tradicional é mesmo a de carne.

Após a parada gastronômica, desça a Corrientes até o cruzamento com a calle Florida. Fique de olho na bolsa e na carteira e mergulhe na multidão de transeuntes que se aglomera tanto nesta rua quanto nas que a cruzam.

É o centro de Buenos Aires e, como tal, é a parte da Capital que mais lembra uma grande metrópole brasileira: caótica, barulhenta e agitada. Por aqui também se pode encontrar uma série de lojinhas menores.

Vale à pena dar uma olhada. Algumas exibem boas promoções e sempre se pode comprar um Carlos Gardel baratinho para trazer de recuerdo.

Pronto, depois de tudo isso, você estará exausto, com a mochila carregada, e louco para encarar o famoso bife de lomo argentino (a menos que você seja, como eu, vegetariano. Aí fique com uma bela massa. Buenos Aires é rica em restaurantes italianos).

domingo, 25 de outubro de 2009

Nas Asas da Crítica

Sei que muita gente odeia de morte a crítica de arte. Eu, ao contrário, sou extremamente grato a uma parcela de críticos esclarecidos, cultos e bem informados.

Devo boa parte da minha formação musical e cinematográfica aos críticos e jornalistas das revistas BIZZ e SET.

Na década de 80, quando estas revistas começaram a circular no Brasil, os críticos não tinham medo de ser eruditos. Citavam em suas críticas poetas, filósofos, bandas e diretores obscuros. Instigavam muito mais que entregavam o prato pronto. Traçavam paralelos fascinantes. Uniam informação com opinião pessoal de uma forma prazerosa e estimulante. Quem quisesse e tivesse curiosidade que fosse atrás.

Foi desta forma que descobri artistas fundamentais como Nick Cave, 10.000 Maniacs, Cowboy Junkies, The Stooges, The Byrds, Marvin Gaye e Leonard Cohen.

Folheando as páginas recheadas de (boas) informações da SET é que tive vontade de assistir a filmes como o holandês O Homem da Linha, o inglês Rita, Sue e Bob Nu, os americanos Confiança e Daunbailó, e o dinamarquês A Festa de Babette.

Isso sem falar nas inesquecíveis fichinhas com cartazes e informações técnicas de filmes, que vinham encartadas na SET. Era uma verdadeira loucura correr atrás de cada título (na época, uma boa locadora resolvia nossa vida) e ter aquela indescritível sensação de já ter assistidos a TODOS (no meu caso, a quase todos).

É claro que por conta de muita crítica entusiasmada comprei discos dos quais acabei me desfazendo, e assisti a filmes que eram um verdadeiro pé no saco, mas, no balanço geral, acho que tudo valeu muito à pena.

Fica aqui, então, meu agradecimento a gente como Ana Maria Bahiana, José Augusto Lemos, José Emilio Rondeau, André Barcinski, Luis Nazário, Inácio Araújo e tantos outros.

Sem eles, meu mundo seria significativamente mais pobre e triste.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Três Dicas

Acabei de ler Galiléia, do escritor cearense Ronaldo Correia de Brito. Para quem quer ler literatura brasileira contemporânea, com uma cara de possível clássico, o livro é uma beleza.

Com traços da melhor literatura regionalista, Ronaldo cria um romance em que cidade e sertão se encontram num choque de dimensões dramáticas intensas, mas que nunca atingem o trágico.

A história se concentra na viagem de três primos à fazenda onde passaram sua infância, a Galiléia do título, uma propriedade decadente do interior do Ceará, na qual o avô dos protagonistas está agonizando lentamente. Passado e presente se fundem para compor o retrato de uma família marcada por inveja, rancor e até mesmo ódio.
Outra dica é o filme As Troianas, do cineasta grego Michael Cacoyannis, com Vanessa Redgrave e Katharine Hepburn, em atuações magníficas, daquelas que se vê e nunca se esquece.
Baseado numa tragédia grega clássica, o filme é teatro filmado de altíssima qualidade, que não omite sua origem cênica, mas também não se furta de compor belas imagens, de grande qualidade plástica. Arrepiante a cena em que Hécuba (Hepburn) recebe o neto morto nos braços. Cinema assim não se faz mais...
Finalmente, gostaria de recomendar o novo cd do Depeche Mode, Sounds Of The Universe. Quando a gente pensa que essas bandas de quase 30 anos de atividade já não têm mais nada a oferecer, elas aparecem com um disco forte, belo e digno. 13 faixas que se perfilam junto ao melhor que o grupo já fez. Grande Depeche!

domingo, 20 de setembro de 2009

Baladas de Loucos

No final do documentário Loki, de Paulo Henrique Fontenelle, o guitarrista Sérgio Dias questiona os limites entre sanidade e loucura e pergunta: "Quem é o louco, o Van Gogh ou nós?" Obviamente que, quando fala do grande pintor holandês, está, na verdade, se referindo a seu irmão e parceiro musical, Arnaldo Baptista, tema principal do longa de Fontenelle.

Gênio incompreendido, pioneiro musical, compositor ousado e a frente do seu tempo, Arnaldo é uma lenda viva não só do rock nacional mas também de toda a história do rock mundial. Que sua obra seja mais reconhecida e admirada lá fora do que aqui é sintoma da nossa eterna falta de visão e sensibilidade.

Muito mais que gênio musical, Arnaldo foi, entre nós, a personificação do artista como ser iluminado e, como tal, condenado a visões partilhadas por bem poucos. A loucura e a alienação mental são, para pessoas como ele, fantasmas que sempre estão a espreitar por trás da porta.

A associação entre loucura e arte é tão longa quanto a própria história da arte. Imagino que mesmo quando os artistas eram seres anônimos e sem reconhecimento, quantos não devem ter enlouquecido em meio a vitrais góticos que filtravam magicamente a luz exterior e criavam, em igrejas monumentais, imagens assombrosas.

O espaço que separa criação e desvario é bem curto. Cruzá-lo revela-se, no mais das vezes, fatal.

Miguel de Cervantes, em seu monumental Don Quixote, cria um protagonista que, de tanto ler novelas de cavalaria, sai pelo mundo combatendo monstros imaginários e salvando donzelas nem tão donzelas assim. Talvez seja o primeiro relato do poder mitificador das artes e também um retrato entre o cômico e o trágico de alguém que transforma a vida em arte e, neste processo, se afunda na loucura completa.

Artista loucos e loucos artistas existiram e existem aos montes.

Aqui no Brasil, o sergipano Arthur Bispo do Rosário quebrou as tênues fronteiras do artístico e do puramente lunático, com uma obra que até hoje desperta o interesse a fascinação de público e crítica. Tendo passado por várias instituições psiquiátricas, Bispo do Rosário deixou uma obra inclassificável, na qual o lixo, a sucata e tudo rejeitado por nossa sociedade se incorporam em painéis de uma plasticidade única.

Na mesma instituição que abrigou o hoje reconhecido artista plástico, o escritor Lima Barreto amargou o inferno de uma vida marcada pelo alcoolismo, a depressão e o preconceito. Autor do brilhante Triste Fim de Policarpo Quaresma, Barreto morreu aos 41 anos, um tanto ridicularizado por suas ideias nacionalistas e sem ver sua obra literária devidamente valorizada.

No terreno da música, a grande associação entre criatividade artística, marginalidade e drogas foi responsável pelo afundamento de muitas mentes excepcionais.

Não consigo deixar de pensar em Syd Barrett, o fundador do Pink Floyd e um dos talentos mais intensos surgidos na época da psicodelia britânica. Após gravar junto ao Floyd o mágico The Piper At The Gates Of Dawn, Barrett entrou numa viagem sem volta e mergulhou, enfim, num mundo próprio e num isolamento melancólico até o fim de sua vida, em julho de 2006. Deixou, ao menos, um álbum solo imprescindível, o magnífico The Madcap Laughs.

Caso similar, encontra-se em Brian Wilson, o arquiteto por trás da edifício sonoro dos Beach Boys. Autor de incontáveis clássicos do rock americano, Wilson comecou a pirar na final da década de 60, movido por muita droga, traumas familiares e crises de pânico. Sua obra abortada Smile, de tão ousado e revolucionário,viraria um disco perdido que só veria a luz do dia em 2004, confirmando seu imortal talento e sua grande visão artística.

É ao lado destes "doidos de pedra" que o doce e iluminado Arnaldo Baptista orgulhosamente se posta. Sua obra permance, nestes tempos de mediocridade e marasmo criativo, um farol em meio à neblina.

A quem tiver juízo - ou não - cabe redescobri-la.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O Coração das Trevas

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!


Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!


(...)

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!


Os versos acima são de autoria do poeta brasileiro Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852), um dos grandes representantes do ultra-romantismo em solo nacional.

O movimento, que revolucionou as letras e as artes no mundo inteiro, tinha um mórbido fascínio pela morte, uma atração pelo macabro e uma relação ambígua com o sexo e o amor – o primeiro visto como profanador da pureza e da inocência e o segundo idealizado em excesso.

Álvares, portador de tuberculose, morto precocemente aos 20 anos de idade, devido a complicações decorrentes de uma queda de cavalo, talvez tenha sido o poeta que eu mais li na minha adolescência.

Não é para menos: considerando-se a idade de sua morte, dá para concluir que escreveu boa parte de seus versos ainda adolescente. Seus poemas estão impregnados dos conflitos e tormentos que assolam nossos corações e mentes nesses difíceis anos de passagem. Além do mais, ele morreu muito jovem e descreveu exaustivamente os sofrimentos pelos quais passou. Nada pode ser mais romântico que isso.

Como se não bastasse, Azevedo é autor de uma das peças mais instigantes já escritas em português: Macário. É de sua autoria também o livro de contos Noite na Taverna, nos quais experimenta uma prosa de inspiração sobrenatural e tom soturno.

Mas, o que um poeta morto na primeira metade do século XIX tem a ver com um blog de música e cinema? Tudo, ora pois!

O fascínio pela morte e pelo lado sinistro da vida é um dos motores do rock. A depressão explicitada nos versos de poetas como Álvares, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu é uma das constantes na música popular do século XX.

A tristeza, por mais paradoxal e estranho que possa parecer, é um elemento fundamental em um estilo que, a princípio, celebrava a alegria e o prazer. E muitos roqueiros seguiram direitinho o preceito de viver intensamente e morrer jovem. Ou, como diria Lobão, melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez.

De cara, consigo pensar em pelo menos uma dúzia de álbuns nos quais a morte, a depressão e a angústia são personagens marcantes.

Já na década de 60, surgiria na Inglaterra um dos mais genuinamente tristonhos artistas que já existiram, o delicado e tímido Nick Drake. Seus três álbuns (Five Leaves Left, Bryter Layter e Pink Moon) são assombrados por um calmo desespero. Tragicamente, Drake morreria de uma overdose de anti-depressivos, sem conhecer o sucesso. O que não impediu que se tornasse um dos mais influentes artistas dos últimos tempos.

Nos anos 70, o cultuado Lou Reed, lançaria, em 1973, o álbum Berlin, um disco triste tanto em som quanto em texto. Aliás, Reed sempre foi um mestre em criar canções sinistras. Vide Perfect Day, Venus In Furs e Heroin.

Gêmeo artístico de Reed, Iggy Pop nos presentearia, em 1977, com o soturno The Idiot (título inspirado possivelmente pelo livro de mesmo nome do escritor russo Dostoievski, outro monstro do deprê nas letras), disco que, apesar da pop China Girl, não esconde sua atmosfera dark.

Um pouco mais para frente, no início da década de 80, o petardo Closer, do Joy Division, pode se orgulhar de ser uma das obras mais sombrias e claustrofóbicas de todos os tempos. E de ter gerado uma prole imensa de chorosos, suicidas e maníaco-depressivos.

Dentre esses filhos, encontram-se as obras-primas Disintegration do The Cure, Darklands, do Jesus And Mary Chain, Floodland, do Sisters Of Mercy, Lovely, do My Bloody Valentine, Your Funeral My Trial do classudo Nick Cave e o primeiro da banda House Of Love.

Mais recentemente não se pode esquecer da tristeza de final de milênio do Radiohead, no mais que perfeito OK Computer, da destruição existencial proposta pelo Nirvana no incompreendido In Útero, do mergulho nas trevas que é The Downward Spiral, do Nine Inch Nails, disco que gerou a magnífica Hurt, mais tarde regravada pelo homem das trevas original, Johnny Cash e, finalmente, da obra completa do músico Elliott Smith, uma espécie de Nick Drake moderno, igualmente talentoso e morto também de forma estúpida e precoce.

Confesso que não escuto mais essas coisas com o mesmo prazer masoquista de antigamente. Já sou quase um quarentão e ficar chorando sobre o vazio da existência me parece uma perda de tempo imperdoável.

Mas, para quem me conhece, fica a dica: quando eu morrer, quero que toquem Love Will Tear Us Apart, do Joy Division, no funeral.

Mais pessimista, impossível.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O Mundo


És um mundo em verdade, Oh Roma; mas sem o Amor
O mundo não era mundo, e Roma não era Roma.

Goethe, no poema Elegias Romanas.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Literatura e Cinema

Por Lázaro Luis Lucas

Não há quem não faça. Sempre que algum produtor de cinema e/ou televisão resolve adaptar uma obra literária, aquele cinéfilo que também aprecia um boa leitura, não consegue resistir à tentação de comparar o resultado final visto nas telas com o livro que serviu de base para a adaptação. E o veredito, quase sempre, é o mesmo: o livro é melhor.

Em alguns casos mais extremos, só gosta do filme quem desconhece a obra original. E tudo isto não deixa de ser uma verdade. Mas não é absoluta.

Acredito que desde que surgiu o cinema tal como o conhecemos - e o mesmo deve ter ocorrido com a TV -, surgiram também as adaptações de obras literárias. Romances, textos compostos originalmente para o teatro, poemas.

Todo e qualquer tipo de material escrito já deve ter sido usado como base para um roteiro. Podemos encontrar, só para se ter uma ideia, o livro Frankenstein: Or The Modern Prometheus, de Mary Shelley, escrito entre 1816-1817, adaptado em curta-metragem para o cinema, já em 1910, por Thomas Edison. O cinema tinha apenas 15 anos à época.

William Shakespeare, as irmãs Brontë, Stephen King, Nelson Rodrigues, Michael Crichton, John Grisham, Edgar Allan Poe, Graciliano Ramos, J. K. Rowling, J. R. R. Tolkien, Aleksei Tostoy. A lista é infindável.

Acredito que existam, pelo menos, três formas de adaptação cinematográfica. A primeira seria a adaptação ao pé da letra. Aqui, busca-se se preservar ao máximo o conteúdo do texto original. Obras literárias já lançadas com ambições a roteiros cinematográficos abrem ampla vantagem em comparação às demais. Mas o cinema não é matemática. O que funciona muito bem com o simpático bruxinho de J. K. Rowling revela-se um desastre em O Caçador de Pipas (Marc Forster, 2007).

A segunda seria a tirando de letra. Aqui, o que vale são as regras do mercado. Muda-se o que for preciso. O importante é fazer dinheiro. Creio eu que os produtores de cinema e TV pensam, e com certa razão, que uma coisa é um leitor interessado em uma boa leitura. Outra coisa é o pagante de cinema que, nas maioria das vezes, está ali apenas para se entreter por uns 90 minutos. Enquanto o primeiro sabe exatamente o que está lendo, o segundo, quase sempre, nem está informado sobre o tema do filme. Sabe apenas que é uma comédia com Selton Mello. E é ao segundo que o filme, e não o livro, tem de agradar.

Não posso deixar de pensar aqui em Fernando Meirelles e na adaptação que fez de Ensaio Sobre a Cegueira (José Saramago, 1995). Optando pela fidelidade a um dos livros mais impressionantes que eu já li, foi ignorado, injustamente, nas bilheterias de vários países do mundo. Às pressas, produtores e diretor fizeram o possível para atrair o público aos cinemas. Perda de tempo. O filme Ensaio Sobre a Cegueira foi perseguido até por quem não o havia visto. E nem poderia fazê-lo.

A terceira forma de adaptar um texto para o cinema é o letras mortas. Nesta modalidade, preserva-se o mínimo indispensável para que o público o reconheça enquanto uma adaptação cinematográfica de um livro. O resto ignora-se, até segunda ordem. Não há exemplo melhor que a franquia 007 para ilustrar. Concebido por Ian Fleming, o agente britânico com licença para matar adquiriu vida própria no cinema. Com 22 filmes oficiais e um não-oficial já lançados nas telas, a série é uma das mais bem sucedidas na história da sétima arte. Afinal, seu nome é Bond, James Bond.

Abaixo, apresento três obras-primas da literatura de língua portuguesa que foram convertidas em três obras-primas do cinema brasileiro. Em minha opinião, claro:
1 - Vidas Secas (Graciliano Ramos, 1938)
1' - Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963)
2 - A Hora da Estrela (Clarice Lispector, 1977)
2' - A Hora da Estrela (Suzana Amaral, 1985)
3 - Ensaio Sobre a Cegueira (José Saramago, 1995)
3' - Ensaio Sobre a Cegueira (Fernando Meirelles, 2008)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Livro de Cabeceira

Quem gosta de música pop e rock e quer conhecer a fundo todas as vertentes e movimentos nos quais eles se desmembraram, tem que dar, ao menos, uma folheada na “bíblia” 1001 Discos para se ouvir antes de morrer (1001 Albums - You Must Hear Before You Die, Robert Dimery, Universe Publisher).

Organizado por décadas, o livro inicia-se nos anos 50 com Frank Sinatra, e vai até 2005 com The White Stripes, ou seja, o material coberto é longo e detalhado, mas nunca cansativo.

Obviamente que, como toda lista, pode desagradar muita gente.

Eu sinto falta, por exemplo, de In My Tribe (10,000 Maniacs), Hunkpapa (Throwing Muses), Mainstream (Lloyd Cole And The Commotions), New York (Lou Reed) e muitos outros discos bastante queridos, mas acho que este tipo de livro deve ser tomado mais como um guia, uma espécie de farol para iniciantes e sedentos de novas experiências musicais, do que como obra que esgota o assunto.

Neste sentido, 1001 Discos é perfeito: textos claros, belas fotografias, projeto gráfico de extremo bom-gosto, informações enxutas e acessíveis e, por fim, o livro tem a suprema sabedoria de analisar cada álbum dentro do seu próprio gênero.

Dessa forma, encontra-se aqui tanto um Baby One More Time (Britney Spears), como um Hot Rats (Frank Zappa).

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Vitrola Vai às Compras

Diz um amigo meu que as únicas coisas que realmente me empolgam são música e viagens. Não é verdade.

Adoro um bom cinema (confesso que já gostei mais), estou sempre agarrado com um livro (acabei de ler mais um policial de Simenon, autor que eu acho brilhante), não dispenso um bom papo com meus poucos, mas queridíssimos, amigos e sei que a vida é amarga na grande maioria das vezes (principalmente se a gente tem a má sina de ter nascido brasileiro), mas está aí é para ser vivida, mesmo.

No entanto, não posso deixar de admitir que a música virou muito mais que um hobbie e que vivo planejando viagens, que compro guias de cidades que não sei quando conhecerei e que visitar lugares novos é, para mim, como rejuvenescer um pouquinho.

Quando consigo unir discos com viagens, é aí que o louco fica lunático de vez.

Estive nestes últimos dias entre o Rio e São Paulo, e trouxe na bagagem 28 bolachões e 25 bolachinhas. Aliás, como é trabalhoso transportar vinil, pessoal. Os desgraçados pesam horrores e eu fico na neura de que vão quebrar, empenar ou amassar. Em suma, um pesadelo. Os cd's, coitadinhos, vão enfiados na mala e seja o que Deus quiser. Felizmente nunca perdi nada. Já voltei de uma viagem a Portugal com quase 70 disquinhos imprensados entre roupas sujas e outras quinquilharias.

De qualquer maneira, como novamente observa o amigo do início do texto, o sucesso de uma viagem minha é medido pela quantidade de achados em sebos e lojas de discos. São Paulo, nesse sentido, é imbatível. Desde os pugueiros do centro até a careira Livraria Cultura, há descobertas fantásticas para todas as preferências.

Gosto, sobretudo, das lojas da Galeria Presidente, na Rua 24 de Maio, lugar ideal para se encontrar cd's novos de artistas independentes e alternativos. Na mesma rua, no número 188, subindo ao primeiro andar, a gente se depara com uma série impressionante de sebos. Um fanático pode tranquilamente passar o dia inteiro revirando velharias, enchendo as mãos e os pulmões de ácaros e torrando, feliz da vida, as economias do ano todo. Não dá para esperar grande simpatia dos vendedores, mas em termos musicais, é difícil não se satisfazer.

Outra boa dica para encontrar raridades e pechinchas é a Feira de Antiguidades da Praça Benedito Calixto. É possível, inclusive, comprar uma vitrolinha esperta para rodar os poderosos negões em qualquer lugar (isto se você tiver a paciência e a habilidade para barganhar com os feirantes, porque os valores não são os mais honestos...).

No Rio, confesso que fiquei meio perdido. Devia ter pedido umas dicas para a galera carioca que frequenta o Vitrola Encantada, mas a verdade é que fujo de computador em férias como o coisa ruim da cruz.

Ainda assim, me esbaldei na Baratos da Ribeiro e no sebo da Modern Sound (cheio de discos em excelente estado por razoáveis 10 reais).

No mais, muita chuva, metrô transbordando, gente apressada, gente dormindo na rua num frio desgraçado, comida boa e cara, o Museu de Arte Sacra de São Paulo e o de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a descida inesquecível no Aeroporto Santos Dumont, o filme francês Bem-Vindo na Rua Augusta, o táxi baratinho na Cidade Maravilhosa, o café expresso na Casa Cavé, o almoço na Confeitaria Colombo, enfim, pequenas coisas que, juntas, me tornam um tanto mais vivo e, quem sabe, mais feliz.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Eu Também Sou Macabéa

O cinema brasileiro é como um paciente em estado muito grave: passa quase todo tempo dormindo, vive por meio de aparelhos e, vez ou outra, dá algum sinal de vida.

Um desses grandes sinais aconteceu num momento muito próximo da morte. Trata-se do longa A Hora da Estrela (BRA, 1985), dirigido por Suzana Amaral.

Era difícil imaginar o que a diretora extrairia de uma obra hermética, essencialmente literária, como o livro homônimo de Clarice Lispector.

Mas Suzana conseguiu, magistralmente, traduzir em imagens um fluxo verbal intenso e catártico. Talvez, percebendo a sutil e, por vezes, cruel poesia com que Lispector descreve sua personagem-foco, Suzana optou por fazer uma pequena tragicomédia, um retrato terno mas sem retoques de um ser humano colado às margens da vida.

Marcélia Cartaxo interpreta, com sensibilidade e delicadeza raramente vistas, uma Macabéa universalmente (todos nós somos um pouco como ela) tosca e permanentemente diminuída pelas circunstâncias.

Nada em sua existência pode ter um final feliz. Seu trabalho é triste e deprimente. Não tem amigos nem namorado (Olímpico não pode ser chamado sequer de um arremedo disso). Come mal. Diverte-se pouco ou nada. Divide um quarto de pensão com outras coitadas que, embora compartilhando do mesmo cotidiano miserável, ainda a menosprezam.

A vida de Macabéa passa letárgica, mas a magia de A Hora da Estrela é nos arrastar para essa morte e vida severina sem nos mostrar o caminho da volta.

É um filme tão simples e bonito que, agora mesmo, quando escrevo, me pego emocionado ao lembrar de suas cenas.

Isso é tão raro no cinema brasileiro que fica a pergunta: por que o Brasil não consegue fazer mais filmes assim?

Material literário e humano certamente não nos falta.

E pensar que tal maravilha continua inédita no formato DVD. Coisas de um país que segue produzindo Macabéas aos milhares...

Ah, esse texto é para o Lázaro e o Afonso, fiéis seguidores do Vitrola e fanáticos pelo filme.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

De Boas Intenções...

Há dois sérios problemas com o filme Budapeste (Brasil, 2009).

O primeiro é a direção pouco segura de Walter Carvalho. O segundo é ser um filme muito fiel ao livro no qual se baseia, a obra homônima de Chico Buarque.

O primeiro pecado, até que se perdoa, afinal Walter Carvalho tem sua primeira experiência dirigindo sozinho e há, aqui e ali, alguns bons momentos. Além do mais, provando sua excelência como diretor de fotografia, Walter brinda o público com imagens de babar (sobretudo as cenas filmadas na capital da Hungria).

Agora, quanto ao segundo...

O livro de Chico Buarque foi muito elogiado. Até o Nobel de Literatura, José Saramago, soltou delicadezas sobre a "obra". Mas, sinceramente, acho uma grande chatice.

Para mim, existe um imenso medo de se falar mal ou de criticar Chico Buarque. O cara virou um monstro sagrado. E não pode haver nada mais insuportável que a veneração boba que existe em torno de uma tal criatura. Os monstros sagrados são como seres mitológicos: eles habitam mundos fantásticos, realizam atos prodigiosos e desaparecem da nossa imaginação assim que a gente cresce um pouquinho.

Se os livros de Chico fossem analisados sem se levar em conta o nome do autor, seriam abominados ou então relegados ao esquecimento.

Estorvo tem o título mais adequado de seus quatro romances: não consegui passar das 20 primeiras páginas – e olha que sou um leitor bastante persistente!

Sobre Benjamim, me calo, porque, depois do trauma do primeiro, preferi passar longe do segundo.

Mas resolvi me dar uma segunda chance com Budapeste. Tempo perdido. Não sou crítico literário, muito menos escritor, mas não tenho medo de opinar sobre o que leio. E, no fundo, leio também para isso. Acho Budapeste um equívoco da primeira à última página. Pretensioso, verborrágico, vazio e cansativo, o livro só conseguiu me despertar uma imensa antipatia pelo protagonista, um homem em crise que parece buscar nas palavras uma salvação para o fracasso de sua vida.

A antipatia se repete na tela. Leonardo Medeiros, um bom ator que ainda não achou um papel à altura de seu talento, desenha um personagem por vezes detestável.

Para piorar, o texto rebuscado e pedante do livro marca presença numa narração em off que não contribui em nada para melhorar o roteiro (roteiro? que roteiro?).

Curioso que no mesmo dia, assisti a um filme uruguaio curtinho, simples e despretensioso, Viaje Hacia El Mar. Nada de excepcional, mas se os brasileiros aprendessem com os vizinhos a fazer cinema, com um pouquinho mais de alma e um bocado menos de arrogância, já teríamos dado um grande passo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A Sangue Frio

Um casal é atacado, sem motivos aparentes, por um grupo de três pessoas mascaradas, em uma casa na floresta. Este é a trama de Os Estranhos (The Strangers, EUA, 2007), filme a que eu assisti recentemente, junto a um clássico do terror do início da década de 80, Pague Para Entrar, Reze Para Sair (Funhouse, EUA, 1981), do diretor Tobe Hooper, autor de outra película fundamental do gênero, O Massacre da Serra Elétrica, de 1974.

O roteiro de Funhouse não difere essencialmente de 90% dos filmes do gênero (inclusive Os Estranhos): um grupo de adolescentes fica preso em um parque de diversões, onde é atacado por um rapaz de aspecto monstruoso, que os persegue violentamente até o final da fita.

O que na verdade esses filmes me despertaram, além de alguns de momentos de tensa diversão, foi uma profunda reflexão a respeito da natureza do medo e da crueldade humana.

Não pude deixar de lembrar da obra-prima de Truman Capote, A Sangue Frio, na qual o genial escritor americano mergulhou fundo na investigação de um crime bárbaro, cometido por motivos fúteis.

Capote teve acesso aos acusados, tendo inclusive desenvolvido um relacionamento de caráter ambíguo com um deles. O impacto da publicação de seu livro mais famoso, traria luz não apenas sobre o ato criminoso como também sobre a psicologia um tanto labiríntica dos criminosos.

Ler A Sangue Frio é uma experiência que nos coloca em contato direto com o lado mais obscuro e selvagem do ser humano. Impossível ficar indiferente.

Não que os filmes citados tenham a complexidade da obra de Capote, mas, para mim, o que esse tipo de filme faz é entregar para as massas um produto em que se purga o terror, sem precisar entrar em contato com nossa porção mais nefasta.

É, de certa forma, o mesmo efeito produzido por música muito violenta ou extremamente barulhenta. Acho que vem daí o fascínio de muito adolescente pelo heavy metal, o trash, o rock de inspiração satânica e outros subgêneros musicais.

Cada vez mais, me parece que, tanto os filmes de terror quanto o heavy metal são, para adolescentes e jovens adultos, como um espelho. O reflexo que ele produz pode parecer um tanto distorcido para quem já passou por essa fase, mas para quem a vive, é real, intenso e profundamente vital.

domingo, 7 de junho de 2009

Entre Versos

Para provar que não tenho má vontade com a música brasileira, resolvi selecionar um grupo de canções que eu gosto muito, com os versos mais significativos de cada uma delas (perdoia-nos, Camões...):

1- Detalhes - Roberto Carlos
Eu sei que esses detalhes
Vão sumir na longa estrada
Do tempo que transforma
Todo amor em quase nada
Mas "quase"
Também é mais um detalhe
Um grande amor
Não vai morrer assim
Por isso
De vez em quando você vai
Vai lembrar de mim
(...)
2- Vambora - Adriana Calcanhotto
Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Prá mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva
(...)
3- Índios - Legião Urbana
Eu quis o perigo
E até sangrei sozinho
Entenda!
Assim pude trazer
Você de volta pra mim
Quando descobri
Que é sempre só você
Que me entende
Do início ao fim.
4- O mundo é um moinho - Cartola
Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés.
5- Preciso me encontrar - Candeia
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver
(...)
6- Só nos resta viver - Ângela Rô Rô
Quem dera pudesse
A dor que entristece
Fazer compreender
Os fracos de alma
Sem paz e sem calma
Ajudasse a ver
Que a vida é bela
Só nos resta viver.
7- Sampa - Caetano Veloso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva.
8- Super-homem, a canção - Gilberto Gil
Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher.
9- Outra vez - Roberto Carlos (com letra de Isolda)
Das lembranças
Que eu trago na vida
Você é a saudade
Que eu gosto de ter
Só assim!
Sinto você bem perto de mim
Outra vez
(...)
10- Para um amor no Recife - Paulinho da Viola
Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria minha dor
Meu amor eu não esqueço
Não se esqueça por favor
Que voltarei depressa
Tão logo a noite acabe.
11- Sonhos - Peninha
Mas não tem revolta não
Eu só quero
Que você se encontre
Ter saudade até que é bom
É melhor que caminhar vazio
A esperança é um Dom
Que eu tenho em mim
Eu tenho sim
Não tem desespero não
Você me ensinou
Milhões de coisas
Tenho um sonho em minhas mãos
Amanhã será um novo dia
Certamente eu vou ser mais feliz
(...)