O cinema brasileiro é como um paciente em estado muito grave: passa quase todo tempo dormindo, vive por meio de aparelhos e, vez ou outra, dá algum sinal de vida.Um desses grandes sinais aconteceu num momento muito próximo da morte. Trata-se do longa A Hora da Estrela (BRA, 1985), dirigido por Suzana Amaral.
Era difícil imaginar o que a diretora extrairia de uma obra hermética, essencialmente literária, como o livro homônimo de Clarice Lispector.
Mas Suzana conseguiu, magistralmente, traduzir em imagens um fluxo verbal intenso e catártico. Talvez, percebendo a sutil e, por vezes, cruel poesia com que Lispector descreve sua personagem-foco, Suzana optou por fazer uma pequena tragicomédia, um retrato terno mas sem retoques de um ser humano colado às margens da vida.
Marcélia Cartaxo interpreta, com sensibilidade e delicadeza raramente vistas, uma Macabéa universalmente (todos nós somos um pouco como ela) tosca e permanentemente diminuída pelas circunstâncias.
Nada em sua existência pode ter um final feliz. Seu trabalho é triste e deprimente. Não tem amigos nem namorado (Olímpico não pode ser chamado sequer de um arremedo disso). Come mal. Diverte-se pouco ou nada. Divide um quarto de pensão com outras coitadas que, embora compartilhando do mesmo cotidiano miserável, ainda a menosprezam.
A vida de Macabéa passa letárgica, mas a magia de A Hora da Estrela é nos arrastar para essa morte e vida severina sem nos mostrar o caminho da volta.
É um filme tão simples e bonito que, agora mesmo, quando escrevo, me pego emocionado ao lembrar de suas cenas.
Isso é tão raro no cinema brasileiro que fica a pergunta: por que o Brasil não consegue fazer mais filmes assim?
Material literário e humano certamente não nos falta.
E pensar que tal maravilha continua inédita no formato DVD. Coisas de um país que segue produzindo Macabéas aos milhares...
Ah, esse texto é para o Lázaro e o Afonso, fiéis seguidores do Vitrola e fanáticos pelo filme.