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terça-feira, 1 de junho de 2010

Estranhos no ninho

O rock independente, ou alternativo, é uma entidade que existe muito mais no campo das ideias do que no campo das coisas reais. Afinal, o que é ser independente?

Nos Estados Unidos e na Inglaterra, o chamado mercado indie já atingiu níveis de profissionalismo e excelência tão altos que se torna difícil diferenciar um lançamento de uma gravadora pequena do de uma major. Sub Pop, Matador, Jagjaguwar e Merge são apenas algumas das gravadoras que, a partir de origens modestas, hoje disputam espaço nas paradas com nomes tradicionais como Sony e Warner.

Grupos que mudaram a cara da música nos últimos anos surgiram em pequenas gravadoras e, em alguns casos, preferiram permanecer longe dos esquemas milionários de conglomerados multinacionais.

Exemplos clássicos de bandas bem-sucedidas que começaram suas carreiras como artistas independentes são R.E.M. e Nirvana. Após a experiência adquirida junto a públicos universitários, as duas bandas assinaram contrato com a Warner (R.E.M.) e a Geffen (Nirvana) e partiram para o megaestrelato mundial. Miraculosamente, conseguiram permanecer fiéis a seus princípios, colocando sua ética pessoal e artística acima das tentações da fama e da fortuna.

Uma banda que poderia ter feito essa transição do underground para a ribalta é, sem dúvida, o Spoon. Queridinhos da crítica e do público mais antenado, o grupo do Texas lançou uma série de trabalhos em que desconstruíam todas as formas tradicionais de se fazer rock, eliminando solos de guitarra, refrões e outras convenções que o colocaram a frente de uma turma que faz rock vanguardista sem ser radical.

Com Gimme Fiction, de 2005, o grupo aumentou consideravelmente sua legião de admiradores. Foi minha introdução ao universo do grupo e também um caso de paixão a primeira vista. No ano seguinte, duas músicas do disco apareceram no filme Mais Estranho Que A Ficção, estrelado por Emma Thompson e Will Ferrel, e o caminho do estrelato se abriu para o Spoon.

Coisa com a qual o grupo parece ter se importado pouco. O disco seguinte tinha o estranhíssimo título de Ga Ga Ga Ga Ga, poucas concessões ao mercadão e a mesma estranheza de sempre, desta vez temperada com uma dose de sofisticação nos arranjos. Para surpresa geral, o disco foi puxado pelo inesperado sucesso de pérolas como You Got Yr. Cherry Bomb e The Underdog e acabou frequentando o top 10 da parada americana.

Quem esperava um arrasa quarteirão, deve ter se decepcionado um pouco com o novo disco, Transference. Mais um capítulo na evolução permanente do som do grupo, o novo disco prioriza arranjos mais básicos e simples, mantendo, no entanto, o som caracteristicamente não-convencional e ousado de sempre.

Não é uma obra-prima como Gimme Fiction – para mim, o melhor disco lançado nos últimos 10 anos – mas demonstra mais uma vez a inquietação criativa de Britt Daniels, vocalista e principal compositor do grupo. Definitivamente, é material sônico de altíssima qualidade e que merece uma espiada.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Capas Clássicas

1991 deveria ter sido o ano de Dangerous, álbum duplo lançado por Michael Jackson após um hiato de quatro anos. Não foi. Um álbum de uma banda obscura saída da cena musical de Seattle varreu as paradas daquele ano, iniciando uma revolução na música jovem feita no mundo inteiro.

O disco em questão chamava-se Nevermind e o terremoto que se seguiria ao seu lançamento não seria sentido somente por um decadente Michael Jackson. Garotos espalhados pelos quatro cantos do planeta viram que era novamente viável empunhar uma guitarra, cantar sobre as angústias e alegrias de sua geração e vender muito, mas muito disco mesmo. Só nos Estados Unidos, Nevermind alcançou a fantástica – para os dias de hoje – marca de dez milhões de cópias comercializadas.

Como quase todo grande álbum, a capa de Nevermind é não menos que antológica. O bebê que tenta agarrar uma nota de dólar em baixo d’água pode ser lida das mais variadas formas. Será uma metáfora sobre o capitalismo que nos fisga logo na infância? Será uma pista da relação ambígua de Kurt Cobain com o sucesso e o dinheiro? Ou será simplesmente o símbolo de uma banda jovem e inexperiente em meio aos tubarões da indústria?

Não importa: seja qual a interpretação dada, a capa tornou-se tão clássica que já chegou a ser apontada pela revista americana Rolling Stone como a melhor capa de rock de todos os tempos. Em que pese certo exagero de tal eleição, não há como negar sua importância e permanente capacidade de encantar e instigar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Na Tribo dos Maníacos

Saudade é um sentimento estranho. Vem de repente, sem dar aviso. Dia desses, me peguei saudoso de uma banda americana surgida lá nos anos 80. Chamava-se 10,000 Maniacs e tinha uma vocalista doce, inteligente e sensível. Essa moça, que atende pela graça de Natalie Merchant, continua na ativa, mas lança discos com um espaço de tempo cada vez maior.

Os Maniacs surgiram no início da década de 1980 e, ao lado de bandas como R.E.M., Hüsker Du e The Replacements, protagonizaram o movimento que viria a ficar conhecido como college rock. O nome do movimento fazia referência a bandas que muitas vezes nasciam em campus universitários e que eram divulgadas por fanzines e rádios comandadas por estudantes.

No final da década, o R.E.M. se tornou mundialmente conhecido, assinou contrato com uma grande gravadora e escancarou as portas do mercado para nomes como Nirvana e Pearl Jam. Mas isso já é outra história...

O 10,000 Maniacs nunca atingiu o mega-estrelato, mas marcou os corações das poucas pessoas que o conheceram.

Para mim, eles gravaram 3 discos excelentes: In My Tribe (1987), Blind Man’s Zoo (1989) e Our Time In Eden (1992), sendo que este último chega perto da perfeição. A bela voz de Merchant conduz o ouvinte por canções que podem ser lidas como microcontos. Tudo com o elegante instrumental que atualizava a folk music americana, com toques de reggae, pop e música clássica.

Não consigo pensar em nenhum grupo depois deles que soe tão honesto e verdadeiro. É por isso que, vez ou outra, vem aquela saudade boba.

É aí que somente a voz inesquecível de Natalie, cantando Don’t Talk ou Jezebel, pode me trazer algum consolo...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Tempo e Memória

O canal de TV paga, VH1, estreou no último sábado, dia 26, uma série intitulada As Canções que Mudaram o Mundo.

Composto por dez programas, a série tem a ambição de resumir o espírito de várias épocas por meio de canções emblemáticas como Smells Like Teen Spirit do Nirvana, Heartbreak Hotel, de Elvis Presley e I Wanna Hold Your Hand, dos Beatles. Tarefa das mais difíceis.

Apesar de saber do impacto de determinadas músicas na história da cultura ocidental, acho que, no fundo, o que importa para cada um de nós são as músicas que mudaram nossas próprias vidas. Essas eu carrego na minha memória como um baú de jóias preciosas e escutá-las sempre me transporta para momentos marcantes e inesquecíveis da minha existência.

Por exemplo: I Wanna Hold Your Hand pode ser um marco na carreira dos Beatles, a música que os tornou conhecidos nos Estados Unidos – na Inglaterra eles já eram um fenômeno – e, por extensão, no resto do mundo. Mas, para mim, nenhuma canção dos Fab Four foi tão significativa quanto Eleonor Rigby, uma delicada obra sobre solidão, desesperança e velhice, belamente adornada por instrumentos orquestrais. Justamente por tratar de temas tão atemporais, Eleonor Rigby permanece atual e certamente ainda muito influente.

Ao lado de Yellow Brick Road (Elton John), que talvez tenha sido a primeira música que eu escutei repetidas vezes, tentando decorar uma letra num idioma do qual eu não conhecia patavina, de Bohemian Rhapsody (Queen), que me apontou as possibilidades ilimitadas de criação artística, de I Love It Loud (Kiss), que me abriu a cabeça para um lado de fantasia e diversão muito importantes para a música, de Será (Legião Urbana), que me mostrou que Brasília podia fazer rock e que esse rock podia ser muito bom e, finalmente, de Karma Police (Radiohead), que entrou na minha vida devagarzinho, até me dominar por completo, Eleonor Rigby forma um conjunto precioso de grandes referências musicais e eternas fontes de alegria e prazer.
A seguir, uma pequena lista de canções que, volta e meia, eu tenho que escutar para não perder o rumo:

1– Ask. The Smiths
2– One. U2
3
– Like a Hurrycane. Neil Young
4– Atmosphere. Joy Division
5– The One I Love. R.E.M.
6
– Free Money. Pati Smith
7– Love Song. The Cure
8– Life On Mars. David Bowie
9– Sheena Is A Punk Rocker. The Ramones
10– Bizarre Love Triangle. New Order
Servico:
As Canções Que Mudaram o Mundo
CANAL VH1 (NET, canal 89. SKY, canal 84). Todos os sábados, às 23 horas.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O Coração das Trevas

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!


Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!


(...)

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!


Os versos acima são de autoria do poeta brasileiro Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852), um dos grandes representantes do ultra-romantismo em solo nacional.

O movimento, que revolucionou as letras e as artes no mundo inteiro, tinha um mórbido fascínio pela morte, uma atração pelo macabro e uma relação ambígua com o sexo e o amor – o primeiro visto como profanador da pureza e da inocência e o segundo idealizado em excesso.

Álvares, portador de tuberculose, morto precocemente aos 20 anos de idade, devido a complicações decorrentes de uma queda de cavalo, talvez tenha sido o poeta que eu mais li na minha adolescência.

Não é para menos: considerando-se a idade de sua morte, dá para concluir que escreveu boa parte de seus versos ainda adolescente. Seus poemas estão impregnados dos conflitos e tormentos que assolam nossos corações e mentes nesses difíceis anos de passagem. Além do mais, ele morreu muito jovem e descreveu exaustivamente os sofrimentos pelos quais passou. Nada pode ser mais romântico que isso.

Como se não bastasse, Azevedo é autor de uma das peças mais instigantes já escritas em português: Macário. É de sua autoria também o livro de contos Noite na Taverna, nos quais experimenta uma prosa de inspiração sobrenatural e tom soturno.

Mas, o que um poeta morto na primeira metade do século XIX tem a ver com um blog de música e cinema? Tudo, ora pois!

O fascínio pela morte e pelo lado sinistro da vida é um dos motores do rock. A depressão explicitada nos versos de poetas como Álvares, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu é uma das constantes na música popular do século XX.

A tristeza, por mais paradoxal e estranho que possa parecer, é um elemento fundamental em um estilo que, a princípio, celebrava a alegria e o prazer. E muitos roqueiros seguiram direitinho o preceito de viver intensamente e morrer jovem. Ou, como diria Lobão, melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez.

De cara, consigo pensar em pelo menos uma dúzia de álbuns nos quais a morte, a depressão e a angústia são personagens marcantes.

Já na década de 60, surgiria na Inglaterra um dos mais genuinamente tristonhos artistas que já existiram, o delicado e tímido Nick Drake. Seus três álbuns (Five Leaves Left, Bryter Layter e Pink Moon) são assombrados por um calmo desespero. Tragicamente, Drake morreria de uma overdose de anti-depressivos, sem conhecer o sucesso. O que não impediu que se tornasse um dos mais influentes artistas dos últimos tempos.

Nos anos 70, o cultuado Lou Reed, lançaria, em 1973, o álbum Berlin, um disco triste tanto em som quanto em texto. Aliás, Reed sempre foi um mestre em criar canções sinistras. Vide Perfect Day, Venus In Furs e Heroin.

Gêmeo artístico de Reed, Iggy Pop nos presentearia, em 1977, com o soturno The Idiot (título inspirado possivelmente pelo livro de mesmo nome do escritor russo Dostoievski, outro monstro do deprê nas letras), disco que, apesar da pop China Girl, não esconde sua atmosfera dark.

Um pouco mais para frente, no início da década de 80, o petardo Closer, do Joy Division, pode se orgulhar de ser uma das obras mais sombrias e claustrofóbicas de todos os tempos. E de ter gerado uma prole imensa de chorosos, suicidas e maníaco-depressivos.

Dentre esses filhos, encontram-se as obras-primas Disintegration do The Cure, Darklands, do Jesus And Mary Chain, Floodland, do Sisters Of Mercy, Lovely, do My Bloody Valentine, Your Funeral My Trial do classudo Nick Cave e o primeiro da banda House Of Love.

Mais recentemente não se pode esquecer da tristeza de final de milênio do Radiohead, no mais que perfeito OK Computer, da destruição existencial proposta pelo Nirvana no incompreendido In Útero, do mergulho nas trevas que é The Downward Spiral, do Nine Inch Nails, disco que gerou a magnífica Hurt, mais tarde regravada pelo homem das trevas original, Johnny Cash e, finalmente, da obra completa do músico Elliott Smith, uma espécie de Nick Drake moderno, igualmente talentoso e morto também de forma estúpida e precoce.

Confesso que não escuto mais essas coisas com o mesmo prazer masoquista de antigamente. Já sou quase um quarentão e ficar chorando sobre o vazio da existência me parece uma perda de tempo imperdoável.

Mas, para quem me conhece, fica a dica: quando eu morrer, quero que toquem Love Will Tear Us Apart, do Joy Division, no funeral.

Mais pessimista, impossível.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Tempo, Tempo, Mano Amigo (?)

Ah, o tempo... Coisinha cruel ele pode ser, não é mesmo?

Veja-se o caso da música pop. Quantos resistem ao teste do tempo? Quantos permanecem populares, rentáveis (sim, porque no nosso mundo, artista é uma mercadoria e tem que trazer juros e dividendos para suas respectivas gravadoras se quiser continuar no ramo) ou, pior de tudo, quantos conseguem manter a criatividade e a inventividade? Poucos, bem poucos.

Para cada Madonna surgida no universo, existe uma centena de "fracassadas" como Cyndi Lauper, Paula Abdul, Tony Basil, Martika, Sonia, Spice Girls, Bangles e tantas outras, que levaria uma eternidade para citar uma ínfima parte.

O mundo pop é o reino da descartabilidade e o tempo se encarrega de jogar no lixo quem não tem competência para se estabelecer.

O caso de Cyndi Lauper para mim é exemplar. Na primeira metade da década de 80, Cyndi surgiu no mercado americano com um verdadeiro furacão. No olho do monstro, rodava a mil por hora o inacreditável She's So Unusual, um disco tão bom que não poderia mesmo ter uma carreira diferente: 5 músicas nas paradas de sucesso, entre elas Time After Time, uma pequena maravilha igualmente reverenciada por público, críticos e músicos (há quase 100 versões para a canção).

O sucesso do primeiro disco de Cyndi foi tão grande que ela se tornou a única artista feminina capaz de rivalizar com outra estrela ascendente: Madonna.

Lançado em 1984, Like a Virgin, fez de Madonna um fenômeno mundial e deu a arrancada de uma carreira que, com mais altos que baixos, permanece firme e forte. E a loira ambiciosa continua lotando estádios, vendendo discos e atraindo admiradores de idades e culturas diferentes.

Enquanto Madonna descobria e reinventava a fórmula do sucesso, Cyndi Lauper ficava no meio do caminho.

Supostamente, Lauper deveria ter tido uma carreira muito mais duradoura que sua ex-rival. Ela sempre cantou muito melhor. Disso não há dúvidas. Além disso, era carismática e simpática, e tinha grande presença de palco.

Mas, o que dizer do sucessor de She's So Unusual?

True Colors é um disco que, contrariamente ao que anuncia seu título, carece de cores. A melhor música do álbum é uma regravação do clássico de Marvin Gaye, What's Going On. O resto é dispensável.

Mas o pior estava por vir. Nos anos seguintes, Cyndi foi se tornando uma pálida amostra da artista original e empolgante do início dos anos 80.

Acho que hoje, deve ser muito difícil encontrar uma garota ou garoto que já tenha ouvido falar de La Lauper, mas se perguntarmos sobre Madonna, acho difícil ouvir uma negativa.

O fato é que esse é apenas um caso em milhares.

Dos grandes artistas que fizeram a minha infância e adolescência mais felizes na década de 80, pouquíssimos envelheceram, digamos, com dignidade. Bruce Springsteen? Com certeza! Phil Collins? Podre de rico, super bem-sucedido, mas um verdadeiro burocrata da música. Sting? Virou um tremendo de um mala. U2? Outro fenômeno de popularidade e aprovação crítica. Bon Jovi? Ai, meu Deus, alguém pode pedir para ele se aposentar? Michael Jackson? Não vou falar mal de quem já foi desta, mas todo mundo sabe que ele não lançava nada decente desde Bad, de 1987. Prince? Um dos mais surpreendentes músicos pop de todos os tempos, acabou se perdendo entre excentricidades, frescuras e discos cada vez piores.

Falar é fácil, eu sei. Gravar discos de qualidade década após década é uma mágica que parece ter sido descoberta por bem poucos.

Ou, na verdade, a lógica do mercado seja esta mesmo.

Afinal, se todo mundo tivesse se mantido em forma esse tempo todo, não teria sobrado espaço para o surgimento de Nirvana, Bjork, Pearl Jam, Blur, Oasis, Radiohead etc.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Meus Discos Preferidos: Ao Vivo

Alive! – Kiss (1975)
Não é de se admirar que um dos melhores discos ao vivo de todos os tempos seja justamente de uma banda que fez sua fama nos palcos. O Kiss era pura adrenalina ao vivo, um espetáculo que envolvia fogo, fumaça, guitarristas voadores e um baixista que vomitava sangue. Mau gosto? Pode ser, mas nos anos 70 essa receita colocou o Kiss no topo do mundo e Alive! foi seu cartão de visitas. Uma verdadeira paulada!

Get Yer Ya-Ya’s Out – The Rolling Stones (1970)
Gravado durante dois concertos no Madison Square Garden, em Nova Iorque , este disco representa o ápice dos Rolling Stones no final da década de 60 e é o registro definitivo da banda sobre um palco. Todos os outros ao vivo dos Stones são burocráticos e desnecessários, mas aqui eles provam porque eram humildemente conhecidos como “a melhor banda de rock do mundo”.

MTV Unplugged In New York – Nirvana (1994)
A série de shows em formato acústico da emissora americana marcou época, sem dúvida, mas também criou uma fórmula que, de tão repetida, se tornou uma piada. Hoje, qualquer bandinha vagabunda faz uma apresentação no estilo um banquinho e um violão, achando que está arrasando. E dá-lhe Emerson Nogueira e Dani Carlos... A outra volta do parafuso dessa história está neste magnífico registro do Nirvana. Enxugando sua sonoridade suja e barulhenta e extraindo dela apenas a beleza dilacerada que habita o mais puro blues, o Nirvana apontou novas direções para sua música. Uma pena que um tiro besta interrompeu essa trajetória impressionante...

Acústico MTV – Cássia Eller (2001)
Ah, Brasil... Quando os tais acústicos começaram a vender milhões de cópias por aqui, o formato já estava morto e enterrado no resto do mundo. O que, obviamente, não tira o brilho de alguns discos, principalmente deste registro final da grande Cássia Eller. Cantando como nunca, ela vai do pagode ao rock, passando por Edith Piaf e Beatles. Mas o melhor está na delicadeza de Luz dos Olhos, de Nando Reis e Por Enquanto, da Legião Urbana. É longe dos eventuais excessos de algumas de suas interpretações, que se encontrava a Cássia mais completa e emocionante.

How The West Is Won – Led Zeppelin (2003)
O melhor registro ao vivo deste verdadeiro monstro dos palcos só foi lançado duas décadas depois de a banda encerrar suas atividades. Antes tarde do que nunca. A partir da abertura acelerada de Immigrant Song (saga de lendas nórdicas condensada em menos de três minutos), o grupo segue por uma sequência de clássicos do peso, sem esquecer o lado mais melódico e abrir um bom espaço para improvisação e reinvenção. Imprescindível!

Under a Blood Red Sky – U2 (1983)
O U2 antes de se tornar o U2 como o conhecemos, era uma banda visceral e de energia quase punk, que fazia shows como se o mundo fosse acabar em seguida. Não existe nenhum disco que capte um espetáculo inteiro da banda. O mais próximo disso é esse mini-LP, com apenas oito músicas. Os grandes clássicos do início da carreira estão todos aqui (Sunday Bloody Sunday, New Year’s Day, I Will Follow), junto a lados B de primeiríssima (Party Girl e 11 O’Clock Tick Tock).

100 More Miles – Cowboy Junkies (1994)
Todo mundo que já ouviu alguma coisa desse maravilhoso grupo canadense se apaixonou imediatamente. A voz suave de Margo Timmins, os arranjos delicados, a revisão muito pessoal que o grupo faz do blues e da country music americana, tornam os vaqueiros viciados um verdadeiro deleite. Neste álbum duplo, eles fazem uma retrospectiva dos quatro primeiro discos, além de se aventurarem em belas versões (State Trooper, de Bruce Springsteen, é simplesmente arrepiante).

Kick Out The Jams – MC5 (1969)
Poucos grupos teriam a coragem de se lançar com um disco ao vivo. No caso do grupo americano MC5, este foi um ato muito natural, afinal seus shows sempre foram happenings onde tudo podia acontecer. Anárquico, sujo e rebelde, Kick Out The Jams é um álbum que não deixa pedra sobre pedra. Para escutar e entender porque eles são frequentemente apontados como precursores do movimento punk.

Fa-tal – Gal Costa (1971)
Quem vê Gal transformada na paródia de si mesma, que se arrasta por aí há quase duas décadas, não consegue imaginar que ela um dia foi uma cantora que se arriscava, interpretava gente nova, sangrava em cada canção... Este disco ao vivo surpreende até hoje pela pegada rock, aliada a um lirismo doce e meio triste (não se pode esquecer que o Brasil vivia o auge da ditadura militar). Oscilando entre o grito que vem das entranhas e o sussurro que faz chorar baixinho, Gal dá uma aula de canto, emoção e entrega artística.

If You Want Blood You’ve Got It – AC/DC (1978)
Outra banda que tem o palco como lar, a australiana AC/DC tem no guitarrista Angus Young sua figura de frente. Com roupa de colegial, performance de epilético e uma habilidade impressionante com as seis cordas, Angus já virou um ícone do hard rock e uma verdadeira lenda viva da guitarra. Este ao vivo faz tremer as paredes não só pelo desempenho de Young, mas também pela presença do falecido vocalista Bon Scott, um doido que criou um estilo até hoje muito copiado.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Meus Discos Preferidos: Anos Noventa

1 – Ok Computer – Radiohead (1997)
A trilha sonora perfeita para os gélidos anos 90, este disco é uma espécie de Dark Side Of The Moon, atualizado para a geração internet. Radiografia precisa de um mundo tecnológico e impessoal, Ok Computer preserva seu status de obra-prima da década por aliar experimentação musical com uma habilidade invejável para gerar grandes canções (os dois melhores exemplos são Karma Police e Lucky).

2 – Odelay – Beck (1996)
Um artista que representa o lado mais ousado e criativo de uma década em que as fronteiras que separavam estilos musicais foram para o espaço, Beck teve seu ápice no seu segundo registro em estúdio. Odelay é um disco em que rock, hip hop, country, blues e eletrônica convivem em perfeita harmonia.

3 – Nevermind – Nirvana (1991)
Talvez este seja o disco mais influente feito nas últimas duas décadas e, ao que parece, seu espectro não dá mostras de desaparecer tão cedo. É um daqueles casos raros em que sucesso de vendagem vem de mãos dadas com uma qualidade artística imensa. Smells Like Teen Spirit, Come As You Are, Polly e Lithium são polaroids de um tempo no qual o mundo inteiro passou a viver em Seattle. Vestindo camisa xadrez e calça jeans surrada, é claro.

4 – XO – Elliott Smith (1998)
Uma perda menos sentida que a de Kurt Cobain, mas igualmente triste, o suicídio desse brilhante cantor e compositor americano, interrompeu uma carreira que apenas começava a decolar, com este lindíssimo trabalho de 1998. Smith cantava com o coração vibrando em suas cordas vocais. As canções deste disco são pequenos contos de desesperança e solidão, que revelam uma delicadeza e uma fragilidade que não poderiam resistir durante muito tempo mesmo...

5 – Car Wheels On A Gravel Road – Lucinda Williams (1998)
Muito rock para o público country e muito country para o público roqueiro, Lucinda Williams vinha de uma longa carreira de belos discos e pouca – ou nenhuma – repercussão, quando lançou essa maravilha chamada Car Wheels On A Gravel Road. O mundo descobriu, então, uma compositora incrível, que sabia falar das dores do coração, do aconchego do lar, da vida na estrada e da felicidade de se tocar uma guitarra, sem nunca desandar para o piegas.

6 – Début – Bjork (1993)
Uma artista que dominou toda a década de 90, sem jamais cair na repetição ou auto-indulgência, Bjork é um desses milagres artísticos que conseguem nos surpreender, mesmo quando tudo parece estar perdido. Début é seu disco mais apaixonante porque preserva uma certa ingenuidade. É como se este pequeno duende islandês estivesse brincando de fazer música. Só que o resultado é uma musicalidade madura e altamente elaborada, que se revela nos pequenos detalhes de Human Behavior, Aeroplane e Venus as a Boy.

7 – Ten – Pearl Jam (1991)
Um monstro que fundiu no seu corpo o heavy rock da década de 70, a intensidade do levante punk e o rock clássico de artistas como Bruce Springsteen, o Pear Jam já começou sua carreira de forma superlativa, vendendo horrores e arrastando multidões para seus shows. No coração dessa avalanche encontra-se a supremacia de canções como Black, Even Flow e Alive. Qualidade e perfeição que a banda jamais conseguiria superar.

8 – Dry – PJ Harvey (1992)
Um som cerebral, pesado e inteligente era a arma principal da inglesa Polly Jean Harvey para se diferenciar de suas colegas em meio a maior invasão feminina que o rock já viu. Se, até a década de 80, mulheres eram ainda artigo esparso no reino das guitarras, os anos 90 viram esse panorama mudar radicalmente. PJ estabeleceu o padrão pelo qual todas as garotas que queriam fazer música teriam que se guiar. Só na década passada, gravou três discos imprescindíveis. E segue com sua criatividade intacta e cada vez mais ativa.

9 – Bandwagonesque – Teenage Fanclub (1991)
Mestres em criar melodias doces e grudentas, esses rapazes escoceses foram uma espécie de bálsamo, numa época em que as guitarras barulhentas voltaram a imperar. Fundindo influências que iam do power pop do Big Star até as harmonias gloriosas do The Byrds, o Teenage construiu uma carreira que, mesmo sem conseguir repetir o sucesso deste Bandwagonesque, se manteria coerente na sua proposta de fazer música simples e, em seus momentos mais inspirados, inesquecível.

10 – The Soft Bulletin – The Flaming Lips (1999)
O disco mais viajante da década, The Soft Bulletin tirou o Flaming Lips do anonimato e marcou indelevelmente a vida de todos que se aventuraram neste álbum mezzo conceitual, mezzo rock independente. Criando um universo à parte em que uma colherzinha pesa uma tonelada e o super-homem está cansado de salvar a Terra, o vocalista Wayne Coyne e seus asseclas forjaram uma obra-prima psicodélica, pomposamente orquestrada e poeticamente instigante.