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terça-feira, 13 de abril de 2010

Carta a Noemia

Cara Noemia,

Não sei se você se lembra de mim, mas lá pelos idos de 1981, 1982 eu era a sua Dora.

Explico-me: Dora é a personagem interpretada por Fernanda Montenegro em Central do Brasil, uma professora aposentada que engorda a mirrada pensão escrevendo e lendo cartas para iletrados que passam diariamente pela Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Pois bem: eu era a sua Dora.

Você trabalhava como babá de uma criança de aparência angelical e comportamento de capeta chamada Filipe. Quando não estava correndo como uma louca atrás de Filipinho, você assistia à sua televisão em preto-e-branco, ouvia músicas no rádio portátil e se correspondia com seus parentes no Norte e com seu namorado no Rio de Janeiro.

A bem da verdade, esta última parte quem fazia, mesmo, era eu. Sim, porque você era aquilo que se costumava chamar de analfabeta de pai e mãe. Era eu, com minha letra infantil de garoto de 11 anos, quem escrevia sobre o seu cotidiano na Capital Federal, trabalhando em casa de família e juntando seu dinheirinho para ir para o Rio se casar com o Manuel.

Também não sei se você se lembra, mas era no seu minúsculo quartinho que nos divertíamos ao som dos seus cantores favoritos: Carlos Alexandre e Sidney Magal.

Você nunca foi de ficar chorando dores de amores ao som de Fernando Mendes ou de Paulo Sérgio. Melhor esquecer da chatice da labuta ao som da Ciganinha ou da Cigana Sandra Rosa Madalena. Ou então sentir-se A Feiticeira ou uma daquelas loucas Frenéticas - outra paixão sua.

E, pensando bem, eu te devo algo do meu gosto por música. Foi no apartamento de seus patrões, quando eles estavam fora, que eu ouvi pela primeira vez um disco inteiro de Simon & Garfunkel (um gravado ao vivo no Central Park, se não me engano) e um de Elton John (uma coletânea daquelas que se faziam especialmente para o mercado nacional e que continha Skyline Pigeon, uma música que me transportava para muito, muito longe).

Pois é, querida. Não sei se você se casou mesmo com o Manuel, se tiveram filhos, se aprendeu a ler e se ainda se alegra quando ouve O Meu Sangue Ferve Por Você.

O que eu sei é que muitos daqueles momentos que vivi com você, em minha infância, jamais se apagarão da memória: nem o poster do Roberto na parede, nem a primeira novela mexicana na telinha, nem o seu sorriso largo e expansivo.

Um beijo grande!

Sua, Dora.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Para Ouvir e Se Arrepiar

Na década de 70, as rádios A.M. eram a principal fonte de informação, música e entretenimento para muitos brasileiros. Foi, também, a minha trilha sonora até mais ou menos os 10 anos de idade.

Mas não se resumia apenas à música.

Existia, na época, um programa que fez o terror de muitas das minhas noites, além de alimentar muitíssimo minha fértil imaginação: As Histórias Que o Povo Conta.

Tratava-se de um programa em que cartas enviadas pelos ouvintes relatavam causos, acontecimentos sobrenaturais, casos de possessão demoníaca e outras lendas urbanas e rurais. A narração era lúgubre e acompanhada por um fundo musical chupado de filmes de terror.

Hoje, fico imaginando que tudo devia ser absolutamente tosco, mas para um moleque de 7, 8 anos de idade, aquilo era o máximo de suspense e terror.

Quantas noites foram passadas em claro, assombrado pela canastrice dos locutores, que descreviam mulheres sedutoras que voltavam do túmulo, fantasmas que perseguiam motoristas em noites frias e solitárias e inocentes criancinhas que eram possuídas pelo diabo (cruzes!).

Outro programa que eu achava espetacular, era o romântico Para Ouvir e Amar, no qual canções melosas nacionais eram alternadas com outras em inglês, que eram traduzidas simultaneamente por um locutor cheio de amor para dar. Isso, sem falar nas cartas apaixonadas, todas lidas com a dose obrigatória de sacarina e pseudo-sensualidade.

Lembro que quando assisti a Domésticas, o Filme (Brasil, 2001, diretores: Nando Olival e Fernando Meirelles), muito desse passado veio à mente. Talvez porque na infância tenha convivido muito com empregadas domésticas, inclusive tendo ajudado a escrever muitas cartas de amor para seus pretendentes, e escutado os clássicos da música brega junto com elas.

Daí, também, muito da minha admiração por artistas como Sidney Magal, Gretchen, Fernando Mendes e Odair José. Desprezados pela elite pensante e culta, eles eram o lado doce no amargo dia-a-dia de grande parte de nossa gente.

Se hoje não consigo parar, por mais de 15 minutos, em qualquer estação de rádio, não posso deixar de ter uma recordação afetuosa de uma época em que o rádio era uma das partes mais ternas, excitantes e assustadoras da minha vida.