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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Letra e Música

A revista Bravo deste mês apresenta matéria de capa na qual dá uma geral na evolução das letras em um gênero em que letra deveria ser tudo, menos importante: o rock.

Tendo como mote a iminente visita de Lou Reed à próxima Flip Festa Literária de Parati – o texto do jornalista Artur Dapieve tece um breve histórico das mudanças sofridas pelas letras, mas falha ao não retratar o contexto político-social que permitiu o surgimento de mestres como Bob Dylan e o próprio Reed.

Sim, porque grandes letristas que são, nem Dylan nem Reed seriam possíveis sem a erupção social e cultural que balançou o mundo nos anos 60. E também é meio que forçar a barra chamar Lou Reed de “filho” de Dylan.

Uma diferença de poucos anos separa os dois e pode-se dizer que representam lados opostos do mesmo fazer poético. Dylan, com sua pena mais politizada e erudita, é uma versão moderna de trovadores medievais, bardos renascentistas e artistas de tradição folk que usavam sua música como arma contra a opressão.

No lado oposto, Reed está muito pouco preocupado com as misérias deste mundo. Sua lírica investe pesado em temas mais urbanos como prostituição, drogas e sadomasoquismo. Seu universo contempla travestis, moradores de rua, o submundo de Berlim e de Nova Iorque.

Se Dylan eternizou-se com um violão e uma gaita, Reed distorceu sua guitarra de forma ensurdecedora e pariu, de uma tacada só, o punk e o rock alternativo.

O que é inquestionável tanto em um como no outro é a qualidade de suas produções poéticas, a influência de seus discos e a importância de suas carreiras.

O que nos leva a pensar no estado de nossa própria produção musical. Que seja cada vez mais claro que o futuro não nos reserva nada da qualidade de um Caetano Veloso ou de um Chico Buarque, isso é evidente.

O terreno sempre movediço da música popular permite o aparecimento aqui e ali de focos de inteligência e sensibilidade. Genialidade e clarividência, no entanto, são coisas do passado.

Num país em que se lê muito pouco e no qual a educação pública vive um processo de total desmantelamento, o que se assiste é um empobrecimento radical dos textos cantados. Seja pela adoção da linguagem sintética vinda da internet ou por simples preguiça intelectual, o fato é que não se aproveita quase nada dos escritos desses jovens que fazem música por aí.

Será realmente a geração do “puta falta de sacanagem”, que devora Harry Potter e faz fila para ver Crepúsculo, quem carregará a tradição de grandes letras na nossa música? Acho difícil.

Ou alguém acredita que o Restart e o NXZero ainda farão uma letra que chegue aos pés de Índios?

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Dicas para turbinar um i-pod

Dia desses, um amigo me falava de uma conhecida que queria dicas para turbinar seu i-pod.

Não sei se a tal amiga lê o Vitrola Encantada, mas vou me fazer de expert, e dar uns conselhos para a moça:

Misture alguns cantores contemporâneos com veteranos, procurando sempre ver o paralelo entre eles. Por exemplo: se vai baixar o neo-hippie Devendra Banhart, baixe também David Crosby, Os Mutantes ou os discos do início da carreira de Caetano Veloso.

Banhart faz um som totalmente calcado na liberdade e no experimentalismo sonoro do final da década de 60 e início da de 70.

Fã incondicional do Tropicalismo, o cantor já declarou diversas vezes seu amor por Caetano e pela primeira banda de Rita Lee. Vale a pena ver como as loucuras de uns se infiltram nos sons do outro.

Recomendo fortemente o disco Cripple Crow, um caleidoscópio de psicodelismo viajante e viciante. O último, What Will We Be, embora menos diversificado, também vale uma checada.

Procure mesclar estilos diferentes. Dessa forma, durante uma caminhada, você não corre o risco de só escutar MPB ao apertar o shuffle. É muito legal escutar sequências díspares, coisas absolutamente opostas, velharias e novidades.

Música é para causar estranhamento, chamar a atenção, despertar lembranças etc. Assim, não se limite ao que você conhece. Experimente um cantor argentino ou uma banda de rock islandesa.Se você nunca escutou Scott Walker, com certeza vai ficar surpreso com o estilo cinematográfico, orquestral, às vezes bizarro, desse cultuado artista britânico. Comece pelo quarto trabalho solo de Walker, Scott 4.

Experimente, também, o som progressivo, lento e frequentemente triste da banda Sigur Ros, vinda diretamente da gelada Islândia. Ou então a rica musicalidade do músico argentino Kevin Johansen e o pop esperto dos também argentinos do Miranda. Pode não ser para todo mundo, obviamente, mas vale muito à pena conhecer.

E já que a rede virou, com o perdão da palavra, uma verdadeira putaria, aproveite para conhecer coisas que eu, por exemplo, tive que esperar ter meu próprio dinheiro para comprar os importados.

Hoje está tudo a um click de distância. Com uma conexão legal e um disco rígido espaçoso, se pode montar uma enciclopédia musical em poucas semanas.

Mas não faça como certas pessoas que eu conheço: têm quarenta mil músicas no HD, porém não sabem explicar a diferença entre gospel e soul. Ou separar um bom samba de um pagode mauricinho. Se não for para escutar e curtir, melhor nem ir atrás.

Afinal, música exige recolhimento, reflexão, contato íntimo entre ouvinte e canção.

Para mim, felizmente, ainda é assim.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Cafonas, Canalhas e Cachorros

Emocionante, curioso, por vezes engraçado, mas antes de qualquer coisa, extremamente profundo e ousado, o livro do jornalista e historiador Paulo Cesar de Araújo, Eu Não Sou Cachorro, Não - Música Popular Cafona e Ditadura Militar, Ed. Record, 2002, é um documento fundamental para se entender a história recente da música brasileira.

No seu intrincado, porém jamais complicado, jogo de conexões entre os tempos barra pesada dos anos de chumbo dos governos militares e a difícil tarefa de centenas de artistas brasileiros de tentarem produzir sua arte sem esbarrar na famigerada censura, surgem anedotas, histórias surpreendentes e, sobretudo, casos reveladores da personalidade de nomes hoje considerados monstros sagrados da nossa MPB.

Enquanto artistas classicamente etiquetados como de esquerda como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gonzaguinha passaram para a História como mártires de um período de violenta perseguição e de atentado contra a liberdade de expressão artística, outros como Waldick Soriano, Odair José, Agnaldo Timóteo e Nelson Ned entraram no imaginário coletivo como cantores de gosto duvidoso, bregas, cafonas. Pior: eles foram, numa época de cerceamento das liberdades individuais e coletivas, considerados artistas alienados, colaboracionistas e apáticos.

Araújo coloca, com precisão e coerência, todos estes mitos por terra: nem os chamados artistas de esquerda foram tão destemidos e corajosos assim ( a cantora Elis Regina, por exemplo, chegou a gravar uma propaganda especialmente encomendada pelo Governo), nem os chamados cafonas de direita foram artistas alienados e cegos para a triste realidade brasileira. Muitas de suas músicas, inclusive, sofreram pesado processo de censura, fazendo com que artistas como Odair José e Waldick Soriano tivessem que prestar contas junto a órgãos oficiais e, em alguns casos, fazer mudanças de última hora em suas letras.

Mais que tudo, o que o imenso preconceito que cerca a obra destes artistas revela é o, até agora, intransponível abismo social que separa a elite letrada da imensa massa de analfabetos, esfomeados e sub-empregados desta Nação.

O desprezo que, tanto a classe média de formação universitária, quanto os formadores de opinião (imprensa, críticos e historiadores) demonstram sentir pela música dita cafona é, no fundo, o desprezo que se sente pelas empregadas domésticas, os porteiros, os pedreiros, os peões de obras e os milhões de anônimos que, muitas vezes, têm como sua única fonte de alegria os sons transmitidos em AM em seus radinhos de pilha.

Leiam, leiam, leiam!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Os piores discos de todos os tempos

Nem só de Sgt. Peppers e Pet Sounds vive a discoteca de um homem. Quem compra muito, erra muito também. Alguns são erros divertidos. Outros, nem tanto.

A seguir uma listinha maldita dos discos mais calhordas que já caíram em minhas mãos:
1Supposed Former Infatuation Junkie. Alanis Morrisette.
Ai, ai, Alanis, após a promissora estréia com Jagged Little Pill, você vendeu trocentos milhões de cópias, criou uma verdadeira sub-raça de moçoilas iradas e cansativas cantando sobre desilusões amorosas e, de repente, colocou tudo a perder com este disco insuportável, longo e vazio.

2Alive III. Kiss.
Donos de um dos melhores discos ao vivo de todos os tempos, o Kiss manchou seu passado de reis dos palcos com esse caça-níquel descarado que mais parece um disco de estúdio com barulho de público superposto. Não é a toa que logo após eles voltariam a excursionar mascarados.

3 Voodo Lounge. The Rolling Stones.
Toda grande banda tem seu momento bandalheira. Mas entre todas as pisadas de bola dos Stones – que não foram poucas - nada pode ser pior que esse disco frouxo e cafona. Salva-se apenas Love Is Strong, que gerou também um dos mais belos vídeos já feitos.

4Never Let Me Down. David Bowie.
O Bowie dos anos 80 é uma tragédia. Com exceção do grande Scary Monsters, todo o resto de sua produção durante aqueles anos é medíocre. Never Let Me Down é a quintessência da porcaria camaleônica, um trabalho tão confuso e sem foco que fica difícil chegar até o final. Até o Tin Machine é melhor!

5Be Here Now. Oasis.
Quando o Oasis lançou este disco em 1997, eles já eram a maior banda britânica da época. Com a popularidade e o prestígio alcançado com Morning Glory – o disco anterior – eles poderiam ter feito literalmente qualquer coisa. Optaram, então, por fazer um disco pretensioso, oco, estúpido, arrastado e destituído de boas canções. Nem a pior sobra dos Beatles poderia ser tão ruim...

6The Great Escape. Blur.
Outra grande banda do Britpop, o Blur se caracterizou por um ecletismo maior em suas influências e por um maior refinamento em suas composições. Mas este disco é um verdadeiro samba do crioulo doido, um amontoado de canções metidas a engraçadinhas e, no final das contas, muito chatas.

7 Estampado. Ana Carolina.

Ao contrário do que muita gente pensa, não odeio Ana Carolina. Acho apenas que ela se vendeu de forma tão descarada que toda a qualidade de seu trabalho inicial se perde um pouco na minha memória. Este disco é o momento no qual a cantora interessante se torna um pé-no-saco. Muita canção de dor de cotovelo para tocar na novela das 8 e ainda uma parceria com Seu Jorge na moderninha O Beat da Beata, de letra tão absurda que beira o ridículo.

8Líricas. Zeca Baleiro.
Baleiro é o tipo de artista brasileiro que já deveria ter sumido do mapa há séculos. Tudo de mais pretensioso, cabeça e metido que pode existir na nossa música circula livremente pela obra deste maranhense pentelho. Para completar a desgraça, este disco de baladas horrorosas ainda traz uma versão cachorra para Proibida pra mim, “clássico” do Charlie Brown Jr. Saravá, meu pai!

9Fina Estampa. Caetano Veloso.
Falando bem sinceramente: Caetano Veloso já devia ter se aposentado há uns 20 anos. Nas últimas décadas, sua obra se resume a composições de gosto duvidoso, discos ao vivo e álbuns de versões. Fina Estampa é um apanhado de clássicos do cancioneiro hispânico tão tedioso que espanta até professor de cursinho de castelhano.

10Acústico MTV. Gal Costa.
Tentativa patética de aproximação de Gal da geração MTV, este disco pavoroso só serviu para evidenciar a decadência artística desta, antes, grande cantora. Assistir ao vídeo do programa é ainda mais constrangedor: Gal não se deu ao trabalho sequer de decorar a letra de certas músicas!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Musa Tropicalista

É inacreditável o que o tempo faz com alguns artistas. Se para tipos como Neil Young, Bob Dylan e Patti Smith o passar dos anos se tem revelado como um precioso vinho que apura seu sabor, aroma e consistência, para a maior parte dos medalhões da música brasileira o vinho virou vinagre.

Vejamos, por exemplo, o caso de Gal Costa.

No final da década de 60, Gal se associou ao movimento Tropicalista, tornando-se a principal intérprete de grandes composições de Caetano e Gil e, neste processo, se revelou a cantora mais sedutora e brilhante de uma época de excelentes intérpretes.

Escutar os discos gravados por essa baiana de Salvador nos loucos anos 60 é, ao mesmo tempo, um choque e uma agradável surpresa.

Seu trabalho de 1969 – intitulado simplesmente Gal Costa - é uma pérola da psicodelia brasileira, um cadeirão efervescente onde se misturam bossa nova, forró, rock, jovem guarda e jazz, sem jamais desandar a receita.

Maria da Graça canta, encanta, geme e grita em canções inesquecíveis como Divino Maravilhoso, Baby e Não Identificado. Há ainda espaço para um delicioso dueto com Caetano Veloso (outro caso de vinagre), em Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim), de Jorge Ben (mais vinagre). Dos arranjos tipicamente tropicalistas até o bom gosto na escolha do repertório, tudo é perfeito neste disco.

Gal ainda gravaria grandes trabalhos nos anos seguintes (o duplo Fa-TalGal A Todo Vapor é o melhor deles), mas sua carreira entrou em lento e torturante declínio nos anos 80. A artista absolutamente vital que gravou Vapor Barato como quem desnudava sua alma para o ouvinte se transformou na intérprete burocrática e excessivamente técnica de Chuva de Prata e Um Sonho de Domingo.

Pelo menos ainda temos Bethânia. Se Gal parece ter perdido o prazer de cantar, sua irmã espiritual segue na busca de novas musicalidades, timbres e referências para sua arte.

Quem sabe um dia Gal siga o exemplo de Bethânia e volte a nos encantar com sua voz cristalina e seu canto único.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Os Tolos e os Ladrões

Elba Ramalho ganhou do Ministério da Cultura mais um ano de prazo para captar recursos via Lei Rouanet para seu DVD O Renascer das Águas. Desde junho do ano passado ela está autorizada a buscar 490 000 reais junto à iniciativa privada para produzir um o DVD ao vivo, que será gravado em Campina Grande.
Por Lauro Jardim
veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/

A notícia acima me foi enviada por um amigo e tirada do blog Radar on Line.

Não conheço os detalhes da referida Lei Rouanet nem muito menos os meandros pelos quais artistas e produtores culturais têm que enveredar para conseguir financiamento para seus projetos.

A grosso modo, parece-me que a Lei possibilita que empresas privadas possam deduzir de seus impostos devidos o que houverem investido em arte e cultura. Ou seja, o dinheiro que seria revertido para saúde, educação e segurança pública, via imposto de renda, acaba financiando espetáculos, peças de teatro, exposições etc.

A princípio não tenho nada contra. Acho que uma das funções do Estado é promover a cultura nacional e levá-la a todos os cantos deste imenso país.

O problema é quando a gente fica sabendo que “medalhões” do nosso meio cultural que, teoricamente, teriam como se bancar, se beneficiam – e muito – de uma Lei que deveria privilegiar pequenas iniciativas, movimentos populares e expressões tradicionais da nossa cultura.

Se, ao menos, os produtos gerados por meio de tal mecanismo chegassem ao público de maneira acessível, vá lá!

Mas, considerando que aqui em Brasília, por exemplo, ninguém paga menos que cem reais para assistir a um show de Maria Bethania, Caetano Veloso ou Chico Buarque, a conclusão óbvia a que se chega é que estamos pagando duas vezes para manter essa gente! E caro!

Eu, particularmente, estou fora.

Enquanto milhares de artistas penam para sobreviver com um mínimo de dignidade, a proprietária de aviões chamada Ivete Sangalo segue se aproveitando de brechas de uma lei canhestra para financiar suas superproduções.

Besta é quem ainda acha esse povo o máximo...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Dischi Italiani

Na cena final de Roma, de Fellini, um grupo de umas 50 vespas percorre as ruas da capital italiana, em velocidade estonteante e barulho ensurdecedor. O típico meio de transporte dos romanos praticamente sumiu de circulação. Em seu lugar, um número cada vez maior de carros.

Sinal dos tempos? Pode ser, mas, em tempos de consciência ambiental em alta, não deveria ser justamente o contrário? De qualquer maneira, o trânsito italiano segue um caos controlado que, pelo jeito, só eles entendem.

Nada que diminua o prazer de andar pelas ruas repletas de história e arte. A Itália é um deleite para os sentidos. Do aroma onipresente das pizzas à visão inesquecível da Vênus de Botticelli, tudo no país parece ter sido planejado para deslumbrar.

Inclusive as lojas de discos. A começar pelo tamanho. Nada de pocilgas claustrofóbicas e empoeiradas. Os espaços são, em geral, amplos e bem harmonizados. A música italiana divide espaço com a música internacional e a variedade de títulos impressiona. Os preços são, em sua maioria, salgados, mas com boa vontade e determinação é possível achar algumas pechinchas.

Na Via Del Corso, em Roma, encontram-se algumas das maiores lojas da Itália. A Messaggerie Musicale e a Ricordi Media Store são típicas megastores, com várias seções, abrangendo livros, dvd’s e até mesmo instrumentos musicais (no caso da Ricordi).

Numa zona menos nobre da cidade, próxima à estação central Termini, encontra-se a ótima Discoteca Laziale. Grande, porém acolhedora e, melhor de tudo, com funcionários que sabem o que estão vendendo. Boa seleção de rock alternativo.

Em Florença, bem pertinho da Galeria Uffizi, há uma loja independente que é, realmente, o sonho de qualquer colecionador. Com foco no vinil, seja ele novo ou usado, é difícil não encontrar algo muito interessante. Para se ter ideia, comprei o segundo disco dos Mutantes, que está fora de catálogo por aqui e é, ao que tudo indica, mais valorizado lá fora, mesmo.

Para completar, o próprio dono, um italiano simpático e prestativo, nos atendeu e quando descobriu que éramos brasileiros, colocou um disco de Caetano Veloso da década de 60 para tocar. O interior desse pequeno templo para fanáticos, chamado Data Records e localizado na Via Dei Neri, nº 15/r, ilustra esta postagem.

O outro destaque da viagem ficou por conta da FNAC italiana. Ao contrário do que aconteceu aqui no Brasil, onde a rede francesa parece ter abandonado a seção de discos, nas lojas tanto de Verona quanto de Milão há uma inflação de bons títulos e preços ligeiramente mais baixos. Boxed Sets de deixar qualquer colecionador babando, além de uma modesta prateleira de bolachões completam o cenário.

Serviço:

Discoteca Laziale
Via Giollitti, 263 00185 Roma tel. 06-44714500

Ricordi Media Stores
Via del Corso, 506 Roma tel. 06-3612370

FNAC Roma
Galleria Commerciale Porta di Roma
Via Alberto Lionello 201 Roma tel. 06-98263001

FNAC Milão
Via Torino Ang. Via della Palla Milão tel. 02-869541

Libraccio
Viale V. Veneto, 22 Milão tel. 02-6555681

Ricordi Media Stores
Via U. Foscolo, 3 Milão tel. 02-86460272

FNAC Verona
Via Cappello 34 Verona tel. 045-8063811

Il 23
Via G. Barbarigo, 2 Pádua

MelBookstore
Via De Cerretani, 16/R Florença tel. 055-287339

Data Records
Via Dei Neri, 15/R Florença

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Última Flor

Há muito se discute sobre as reais qualidades literárias de uma boa letra de música. É poesia ou não? A coisa se complica muito quando música e texto de altíssima qualidade andam de mãos dadas. É o caso de grande parte da música brasileira.

Uma recente enquete da edição nacional da revista Rolling Stone revelou que Construção, música e letra de Chico Buarque, é a melhor canção brasileira de todos os tempos.

Se formos analisar os versos de Buarque, fica muito claro que a eleição de sua obra-prima, de 1971, deve muito à rica construção gramatical, cheia de versos terminados em palavras proparoxítonas, e suas metáforas asfixiantes da dura realidade do Brasil dos anos de chumbo.

É lógico que o incrível arranjo, que evolui de um simples samba para um épico cinematográfico em brilhante tecnicolor, torna a canção ainda mais impressionante, mas quando pensamos em Construção nos vem imediatamente à cabeça A Letra.

Para mim, não há mistério. Não consigo ver muita distinção entre Carlos Drummond de Andrade e a melhor produção de Caetano Veloso ou entre a depuração lingüística de João Cabral e o intricado universo de Chico Buarque.

Algumas letras de Antonio Carlos Jobim me emocionam tanto quanto os versos tristes alegres de Manuel Bandeira.

As palavras de Renato Russo tiveram um impacto tão grande em minha psique quanto os versos românticos de Álvares de Azevedo e Castro Alves.

Penso que, num país de analfabetos e alfabetizados que não lêem como é o Brasil, a música cumpre um papel fundamental de disseminação de ideias, cristalização de expressões e falares regionais e - mais importante - de perpetuação da musicalidade e beleza inerentes a nossa amada, inculta e bela Língua Portuguesa.

domingo, 18 de outubro de 2009

Tanto Tempo Longe de Você...

Foi necessário que se passassem quase 40 anos para que eu admitisse abertamente e, principalmente, para mim mesmo, que eu sou um dos milhões de apaixonados pela música de Roberto Carlos.

Durante toda minha infância, nenhum artista foi tão presente na minha casa quanto ele. Eu tinha a clássica tia hipocondríaca que só parava de falar em doença quando tocava alguma coisa de Roberto no rádio, as primas que colecionavam recortes de revistas, a irmã que sabia todas as letras, um primo que tocava no violão as canções que ele fez para a gente, outro que o imitava horrivelmente, enfim, tinha fã de todas as espécies por perto.

Mas chegou a adolescência e Roberto virou, para mim, o símbolo de tudo que estava errado com a música brasileira. Pô, o cara já havia sido o rei do rock no Brasil e, de repente, grava uma "coisa" como Caminhoneiro!

Para quem estava mergulhando de cabeça em Led Zeppelin e Rolling Stones, não havia mais sentido em ficar babando por uma figura que fazia especiais pavorosos todo final de ano na Rede Globo, lançava discos a cada natal como se fosse um burocrata batendo o ponto e ia se tornando um católico mais fanático a cada ano que passava - nada contra católicos, mas tudo contra fanáticos.

Só mais recentemente, com o Acústico MTV, é que eu fui redescobrir pérolas como Todos Estão Surdos e Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos. Que muito além das músicas sobre mulheres gordas ou de óculos, havia experimentos com a soul music americana no final da década de 60 e início da de 70, que originaram temas até hoje bastante regravados como Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo e Não Há Dinheiro Que Pague. E que nunca se escreveram versos tão bonitos em nosso cancioneiro como os de Detalhes e Cavalgada.

Na última sexta-feira, dia 16 de outubro, eu fiz de vez as pazes com esse passado mal resolvido, indo assistir ao meu primeiro espetáculo ao vivo do Rei.

Acho que só quem já esteve num show de Roberto pode entender plenamente o que é essa celebração emotiva, a comunhão de milhares de pessoas em torno de uma figura muito simples, de gestos comedidos e carisma gigantesco.

Ao longo de um set list que englobava desde sucessos da jovem guarda até o auge de suas músicas românticas, passando também pela fase mais brega de sua carreira, me peguei várias vezes com lágrimas aflorando aos olhos.

Voltei a ser menino sem dó nem piedade. Lembrei do meu avô, que morreu quando eu tinha 10 anos e de como minha mãe se emocionava quando ouvia Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo. Lembrei da Escola Classe da 304 Norte e de uma Brasília que não existe mais.

E isso tudo foi muito bom. Anos de terapia não teriam resolvido tão bem o que esse senhor fez por mim em apenas 2 horas!

Do alto de seus 50 anos de vida artística, Roberto Carlos permanece um caso de popularidade e paixão único em nosso país. Vendo-o, ao vivo, pude compreender tal fenômeno em sua totalidade.

Afinal, como já disse Caetano Veloso, não é à toa que a gente o chama de Rei...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Entre Versos

Ela e Eu, de Caetano Veloso, é, na minha opinião, uma das mais belas letras da nossa música popular.

Sobre a interpretação de Maria Bethania não é preciso falar nada. Seria chover no molhado.

Além do mais, o que se pode acrescentar à perfeição? Emudeço, simplesmente, diante de tamanha beleza em canto e verso...
Ela e Eu
Composição: Caetano Veloso
Há flores de cores concentradas
Ondas queimam rochas com seu sal
Vibrações do sol no pó da estrada
Muita coisa, quase nada
Cataclismas, carnaval
Há muitos planetas habitados
E o vazio da imensidão do céu
Bem e mal e boca e mel
E essa voz que Deus me deu
Mas nada é igual a ela e eu
Lágrimas encharcam minha cara
Vivo a força rara desta dor
Clara como o sol que tudo ama
Como a própria perfeição da rima para amor
Outro homem poderá banhar-se
Na luz que com essa mulher cresceu
Muito morto que nasce
Muito tempo que morreu
Mas nada é igual a ela e eu

domingo, 16 de agosto de 2009

Bardo Moderno

Impressiona-me bastante, nos últimos tempos, a longevidade de determinados artistas, que já entram na casa dos 70 anos de idade. Neil Young, Bob Dylan, Mick e Keith, Paul McCartney, Elton John, todos têm lançado discos cada vez mais interessantes, complexos e, sobretudo, prazerosos de se ouvir.

Veja-se o caso de Bob Dylan. Quase cinco décadas de carreira nas costas, alguns dos mais importantes álbuns da história da música popular, uma penca de canções regravadas incessantemente por gerações de novos músicos, uma entresafra medíocre nos anos 80 e, de repente, o bardo ressurge das cinzas com quatro(!) discos brilhantes, que não deixam nada a dever ao melhor de sua produção nos anos 60 e 70.

Time Out Of Mind (1997), Love And Theft (2001), Modern Times (2006) e Together Through Life (2009) são obras de uma maturidade artística que vem com o verniz da idade, da experiência e de uma vivência de quem atravessou os últimos quarenta anos como um verdadeiro ícone do imáginário norte-americano, mas não deixou de viver intensamente.

No filme Não Estou Lá, do cineasta Tod Haynes, o mito é desconstruído e transformado em 5 personagens diferentes, cada um interpretado por um ator (a excepcional Cate Blanchet faz um Bob acossado pela imprensa, justamente em sua fase de transição do folk para o blues eletrificado, talvez seu momento mais criativo e revolucionário). É um filme sob muitos aspectos de difícil entendimento para não iniciados no universo dilaniano, mas seu brilho está na compreensão de que todo grande artista na verdade são vários. É na subversão da típica cinebiografia, que Haynes consegue um retrato mais vívido e apaixonante do homem, muito além da mera glorificação da lenda.

Ouvir Dylan hoje é como uma deliciosa confirmação de que a criatividade e o poder de tocar por meio da arte não são uma fagulha que surge na juventude e se apaga com o fim da mesma.

Assim como Picasso, que foi inquieto e provocador até o fim da vida, Dylan prova a cada novo disco que rock é também música de senhores de cabelos grisalhos e vozes roucas.

Um exemplo para os Robertos, Gilbertos e Caetanos da vida...

domingo, 7 de junho de 2009

Entre Versos

Para provar que não tenho má vontade com a música brasileira, resolvi selecionar um grupo de canções que eu gosto muito, com os versos mais significativos de cada uma delas (perdoia-nos, Camões...):

1- Detalhes - Roberto Carlos
Eu sei que esses detalhes
Vão sumir na longa estrada
Do tempo que transforma
Todo amor em quase nada
Mas "quase"
Também é mais um detalhe
Um grande amor
Não vai morrer assim
Por isso
De vez em quando você vai
Vai lembrar de mim
(...)
2- Vambora - Adriana Calcanhotto
Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Prá mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva
(...)
3- Índios - Legião Urbana
Eu quis o perigo
E até sangrei sozinho
Entenda!
Assim pude trazer
Você de volta pra mim
Quando descobri
Que é sempre só você
Que me entende
Do início ao fim.
4- O mundo é um moinho - Cartola
Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés.
5- Preciso me encontrar - Candeia
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver
(...)
6- Só nos resta viver - Ângela Rô Rô
Quem dera pudesse
A dor que entristece
Fazer compreender
Os fracos de alma
Sem paz e sem calma
Ajudasse a ver
Que a vida é bela
Só nos resta viver.
7- Sampa - Caetano Veloso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva.
8- Super-homem, a canção - Gilberto Gil
Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher.
9- Outra vez - Roberto Carlos (com letra de Isolda)
Das lembranças
Que eu trago na vida
Você é a saudade
Que eu gosto de ter
Só assim!
Sinto você bem perto de mim
Outra vez
(...)
10- Para um amor no Recife - Paulinho da Viola
Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria minha dor
Meu amor eu não esqueço
Não se esqueça por favor
Que voltarei depressa
Tão logo a noite acabe.
11- Sonhos - Peninha
Mas não tem revolta não
Eu só quero
Que você se encontre
Ter saudade até que é bom
É melhor que caminhar vazio
A esperança é um Dom
Que eu tenho em mim
Eu tenho sim
Não tem desespero não
Você me ensinou
Milhões de coisas
Tenho um sonho em minhas mãos
Amanhã será um novo dia
Certamente eu vou ser mais feliz
(...)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Tristes Trópicos

Dia desses, estava o rádio do meu trabalho ligado numa dessas estações que tocam o melhor da música brasileira, quando escuto a versão de uma canção que já devia ter sido sepultada para sempre.

O tal cover era de Um Dia de Domingo, sucesso bregoso interpretado originalmente por Gal Costa e Tim Maia. Pois não é que a música foi regravada por uma das figuras mais nefastas da atual cena pop brasileira, Ana sou bi e daí Carolina.

Ana não é nada burra e deu aquela roupagem voz e violão que muita gente acha o máximo do despojamento e sofisticação sonoros e, pronto, lá está a onipresente mineira berrando para quem quiser ouvir que tudo vai ficar por conta da emoção (argh!!!!!!!!!!!).

Na verdade, Ana Carolina não é o grande problema da música brasileira de grande consumo. O problema é a indústria querer vendê-la como ótima cantora e compositora, são as rádios que executam suas canções de hora em hora, é a televisão que a promove incessantemente.

É uma massificação do gosto raso da maioria, que só encontra paralelo na baiana Ivete Sangalo, essa, sim, um caso criminoso de imposição de uma estética burra, que privilegia somente o entretenimento e coloca a música em último lugar.

Não à toa, os espetáculos de Sangalo são cada vez mais superproduzidos, uma imitação grosseira de grandes shows internacionais. Nada contra música como pura diversão, mas há um sério risco para a cultura de um país quando toda arte se resume a mero passatempo.

Sei que não sou exatamente um entusiasta da nossa música. Acho que os grandes luminares do cancioneiro brasileiro são, em sua grande parte, pedantes e pretensiosos, mas reconheço a importância de Chico Buarque, de Caetano Veloso, de Gilberto Gil e de João Gilberto. E até tenho um grande afeto pela fase jovem guarda de Roberto Carlos, além de achar a produção de Rita Lee, na década de 70, fantástica.

Bem ou mal, toda essa geração, que hoje se encontra com mais de 60 anos de idade, deixou um legado. O mesmo se pode dizer, com certas ressalvas, da galera do rock oitentista.

Quanto a essa gentalha que anda sugando o resto de energia da agonizante indústria fonográfica nacional, penso que seu legado será a destruição de toda fagulha de criatividade e originalidade que ainda possa existir pelos rincões deste imenso País.

Talvez, a luz no final do túnel esteja no underground, nas grandes festas populares e nas pequenas manifestações artísticas, que se mantém à parte da mídia.

Está mais do que na hora de um levante.