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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Do Baú

Quando Brian Wilson lançou seu primeiro disco solo em 1988, eu não conhecia nada de sua obra.
Tudo bem, eu já devia ter ouvido uma ou duas músicas dos Beach Boys, mas ainda estava muito longe de mergulhar na perfeição de Pet Sounds – álbum lançado em 1966 e universalmente aclamado como um dos melhores de todos os tempos – e de canções como Good Vibrations e Heroes And Villains.
Foi numa resenha da revista Bizz que li pela primeira vez sobre este homem tão reverenciado e influente. Como na época eu só podia comprar um disco por mês – ai, Jesus, como é que eu aguentava? – tive que esperar um pouco para conhecê-lo. Espera que foi plenamente compensada.
Brian Wilson – o álbum – é desses discos impecáveis da primeira à última faixa. Um artista renascendo de décadas entregues ao esquecimento surge resplandecente em canções dignas do melhor pop produzido por Beatles, Love, Monkeys, Phil Spector e, é claro, Beach Boys.
O ápice do disco é uma canção a capella, One For The Boys, na qual Brian homenageia seus antigos companheiros de grupo e ainda exibe toda a beleza de sua voz. Grandes interpretações seguem encantando em Melt Away , Let It Shine , Love And Mercy e no encerramento grandioso da épica Rio Grande.
É um disco, enfim, para escutar com um sorriso bobo na cara e a sensação de estar testemunhando o último suspiro criativo de um gênio da música.
Inesquecível.

domingo, 25 de outubro de 2009

Nas Asas da Crítica

Sei que muita gente odeia de morte a crítica de arte. Eu, ao contrário, sou extremamente grato a uma parcela de críticos esclarecidos, cultos e bem informados.

Devo boa parte da minha formação musical e cinematográfica aos críticos e jornalistas das revistas BIZZ e SET.

Na década de 80, quando estas revistas começaram a circular no Brasil, os críticos não tinham medo de ser eruditos. Citavam em suas críticas poetas, filósofos, bandas e diretores obscuros. Instigavam muito mais que entregavam o prato pronto. Traçavam paralelos fascinantes. Uniam informação com opinião pessoal de uma forma prazerosa e estimulante. Quem quisesse e tivesse curiosidade que fosse atrás.

Foi desta forma que descobri artistas fundamentais como Nick Cave, 10.000 Maniacs, Cowboy Junkies, The Stooges, The Byrds, Marvin Gaye e Leonard Cohen.

Folheando as páginas recheadas de (boas) informações da SET é que tive vontade de assistir a filmes como o holandês O Homem da Linha, o inglês Rita, Sue e Bob Nu, os americanos Confiança e Daunbailó, e o dinamarquês A Festa de Babette.

Isso sem falar nas inesquecíveis fichinhas com cartazes e informações técnicas de filmes, que vinham encartadas na SET. Era uma verdadeira loucura correr atrás de cada título (na época, uma boa locadora resolvia nossa vida) e ter aquela indescritível sensação de já ter assistidos a TODOS (no meu caso, a quase todos).

É claro que por conta de muita crítica entusiasmada comprei discos dos quais acabei me desfazendo, e assisti a filmes que eram um verdadeiro pé no saco, mas, no balanço geral, acho que tudo valeu muito à pena.

Fica aqui, então, meu agradecimento a gente como Ana Maria Bahiana, José Augusto Lemos, José Emilio Rondeau, André Barcinski, Luis Nazário, Inácio Araújo e tantos outros.

Sem eles, meu mundo seria significativamente mais pobre e triste.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Nunca Falha

Mais cedo ou mais tarde, todo colecionador se coloca diante da questão fundamental: qual é meu disco preferido? Como escolher, numa montanha de objetos, que representam não apenas músicas, mas também memórias e momentos de nossa vida?

Acho que o mais fácil é realmente partir para uma compartimentação desse caos emocional, separando tudo em categorias. O disco que mais lembra aquela viagem inesquecível; aquele que está totalmente vinculado a sua adolescência, a descoberta da sexualidade, ao primeiro amor e a primeira decepção; aquele que te recorda das grandes alegrias. E aquele outro que ainda traz o gosto amargo das pequenas tristezas.

Mas, às vezes, não é tão difícil assim. Existe AQUELE disco na sua vida. Aquele que mudou tudo e que ainda hoje você escuta com um prazer inigualável. Para mim, esse disco é THE QUEEN IS DEAD, o álbum que os Smiths lancaram em 1986, e que transformou o rock oitentista.

Para quem tem entre 30 e 40 anos, e curte musica, a década de 80 se tornou um período um tanto mágico, quase mitológico. Foi o auge do rock brasuca e, particularmente, do rock saído de Brasília. Legião Urbana, Capital Inicial e Plede Rude fizeram história e definiram uma época.

Lembro perfeitamente da minha ansiedade para que a revista Bizz chegasse às bancas, com todas as dicas dos melhores lançamentos, dos discos fundamentais - a discoteca básica, última seção da revista, que eu adorava; as novas bandas, as entrevistas que recheavam o meio da publicacão, enfim.

Não existia internet, a MTV só chegaria na decada de 90. E o mercado fonográfico ainda não sabia o que fazer direito com o potencial daquela molecada louca por consumir rock. E, assim, os discos foram saindo aos pouquinhos. Low Life do New Order, Crocodiles do Echo & The Bunnymen, Tinderbox da Siouxsie, os primeiros do U2.

Os Smiths já chegaram por aqui com uma aura de gênios. A imprensa brasileira, que sempre babou um pouco pelos ingleses, deixava todo mundo com água na boca.

Mas, e os discos? O primeiro que eu escutei nao foi o Queen is dead, mas o Hatful of Hollow, uma espécie de compilação de coisas que eles haviam gravado para o radio; e musicas novas, que traziam a maravilhosa Please Please Please Let Me Get What I Want.

O problema era como conseguir os demais. Grana para disco, era uma coisa rara lá em casa, mas minha irmã já trabalhava e, um belo dia, chegou com um presente para o irmão caçula. Ah, a sensação de segurar aquela obra de arte entre minhas mãos! Eu, finalmente, tinha The Queen Is Dead.

A belíssima capa, com uma foto esverdeada do ator francês Alan Delon, no auge da juventude, a sucessão de clássicos e a música mais linda que eles já gravaram: There's a Light That Never Goes Out (aquela dos versos and if a double-decker bus/ crashes into us/ to die by your side/such a heavenly way to die). Tudo em The Queen Is Dead é perfeição, beleza e poesia.

Morrissey, assim como Renato Russo, abriram um mundo de possibilidades literárias para mim. Descobrir que havia uma conexão entre os versos desencantados de Moz e os poetas românticos que eu estudava no segundo grau, foi uma revelação sobre os fascinantes caminhos que a arte traça, e de como o artista carrega em si o peso da tradição e a capacidade de renovar tudo ao seu redor.

No ano seguinte, os Smiths já não existiriam. Foi uma carreira curta, apenas 4 discos e algumas coletâneas, mas suas músicas e discos permanecem. Após um período de certo ostracismo, o mundo viu surgir bandas que se referenciavam diretamente a Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce.

A justiça tarda. Mas, nunca falha.