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terça-feira, 24 de agosto de 2010

"The Songs That Saved Your Life": as melhores canções de Morrissey e The Smiths


1 I Know Is Over (The Smiths): a peça central de um dos melhores discos de todos os tempos, a terceira faixa de The Queen Is Dead disseca com poesia e arranjo impecável a celebrada dificuldade de Morrissey em lidar com o amor, seja no plano espiritual, seja no físico. Há uma versão ao vivo no álbum Rank que expande as possibilidades da canção, levando-a a picos de beleza ainda maiores.

2Seasick, Yet Still Docked (Morrissey): se The Queen Is Dead é a obra-prima dos Smiths, Your Arsenal é o ápice da carreira solo de Morrissey. Todas as canções do disco são excelentes, rocks redondinhos e espertos, mas Seasick... se impõe por sua delicadeza e tom confessional.

3How Soon Is Now (The Smiths): uma das canções-chave do rock inglês da década de 1980, este compacto que viria a integrar o álbum Hatfull of Hollow é, até hoje, uma das músicas mais influentes compostas por Morrissey/Marr. O trabalho de guitarra de Johnny Marr foi imitado e homenageado à exaustão, mas jamais igualado. Inclusive por ele próprio.

4The More You Ignore Me, The Closer I Get (Morrissey): à medida em que sua carreira solo progredia, Morrissey foi confirmando sua fama de Oscar Wilde do rock independente. Suas letras variam do escárnio ao cinismo, passando por momentos de puro romantismo desesperado. Esta música é um dos seus melhores momentos, uma perfeita combinação desses dois extremos.

5Panic (The Smiths): uma canção que não perdeu nada de sua atualidade. Impossível não concordar com Morrissey quando ele nos conclama a enforcar os estúpidos DJ’s que nos obrigam a escutar as mesmas porcarias dia após dia.

6 Everyday Is Like Sunday (Morrissey): Viva Hate, o primeiro solo de Morrissey, surpreendeu muita gente que não esperava nada de Morrissey sem Johnny Marr. Não só o recluso vocalista mostrou personalidade própria como ainda cravou dois verdadeiros clássicos em nossos corações órfãos: Suedehead e Everyday Is Like Sunday, esta última uma lindíssima evocação de dias cinzentos e manhãs morosas passadas diante do mar.

7I Won’t Share You (The Smiths): esta canção pouco conhecida dos Smiths é a faixa de encerramento do último disco da banda, Strangeways Here We Come. Simples e emocionante, confirma a crença de que o melhor é sempre guardado para o final.

8November Spawned A Monster (Morrissey): muita gente considera este o mais refinado momento do Morrissey pós-Smiths. A letra fala mais uma vez de pessoas desprezadas, tímidas e rejeitadas. No final, entretanto, Morrissey se permite algum otimismo: qualquer dia desses, sua maltratada personagem sairá por aí feliz da vida, vestida com as roupas que ela mesma escolheu.

9 There Is A Light That Never Goes Out (The Smiths): é difícil falar de The Smiths sem mencionar esta canção. Seja pela letra sublime, seja pelo arranjo orquestral inesquecível, tudo em There Is A Light... é clássico, imortal, perfeito, emocionante etc etc etc.

10 Come Back To Camden (Morrissey): outro momento arrepiante da pena afiada de Morrissey, Come Back... é a balada definitiva de um álbum, You Are The Quarry, em que boas baladas são abundantes.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Geração 90, onde está você?


Dia desses estava dando uma volta de carro com meu amigo, arquiteto e engenheiro deste blog, Afonso Celso, quando ouvimos no rádio uma música do grupo mineiro Jota Quest. De pronto, AC me indagou: “O que foi feito deles?” “Graças a Deus, sumiram”, foi minha delicada resposta. “Mas o Rogério Flausino canta tão bem...”, replicou meu companheiro de infortúnio. A bem da verdade, cantar tão bem, ele não canta não. Limita-se a imitar – de forma canhestra – uma plêiade de cantores ilustres daqui e lá de fora.

Mesmo pecado cometido por outro luminar da geração 90 da nossa música, Toni Garrido, vocalista da banda Cidade Negra. Esta, ao menos, teve a decência de dar um descanso a nossos ouvidos, mas Toni agora assombra outro campo das artes, levando sua cara de pau para as novelas. Vê-lo atuando é um deleite, garantia certa de risadas calhordas.

Reflexões tão profundas me levaram a questionar sobre os rumos dos grupos e artistas surgidos na maldita década de 90. Últimos anos de vendagens robustas no mercado nacional, os 90 viram a ascensão de nomes como Skank, Raimundos, Nação Zumbi, Mundo Livre S.A., Pato Fu e os já citados Cidade Negra e Jota Quest.

O Skank, que foi o grande vendedor de discos dessa turma, é como aquele slogan cretino do governo Lula: é brasileiro e não desiste. Nem deveria. No balanço dos últimos vinte anos, pode-se dizer que é a única banda que evoluiu artisticamente. Abandonou a temática de futebol/cerveja/mulher de seus primeiros discos para incorporar uma estética mais sofisticada e inteligente e fez a ponte entre o Clube da Esquina e o rock inglês do passado e do presente. Ponto para eles, mesmo que não sejam mais nenhum fenômeno de popularidade.

A Nação Zumbi também tem o mérito de ter seguido em frente, apesar da perda traumática do carismático vocalista Chico Science. Chico foi uma dessas figuras que a gente fica imaginando o que teria aprontado se não tivesse morrido de forma tão precoce e estúpida. De qualquer maneira, seus colegas pernambucanos honram seu nome com um trabalho sempre instigante e rico em referências. Viraram uma coisa meio cult, coisa que aliás acontece com todo artista interessante em atividade no Brasil de hoje.

Quanto ao resto, não sobra nada a dizer. Se um dia fizeram algum sucesso, ele ficou localizado no passado.

Se o rock brasileiro feito na década de 80 ficou marcado pela falta de originalidade e o apego aos modelos americanos e ingleses, pode-se, ao menos, dizer que teve uma qualidade de letras raramente vista na música jovem. Não a toa, Renato Russo e Cazuza são reverenciados até hoje como grandes poetas.

Os músicos do rock da década seguinte perderam a chance de, não só dar continuidade a essa riqueza de texto, como de finalmente criar uma sonoridade que fundisse a modernidade das tecnologias que se desenvolveram à velocidade da luz com a tradição e a beleza de nossa música. Uma pena.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Mini-Guia: The Rolling Stones

Pedras preciosas:

Exile On Main Street (1972)

Presença constante em listas de melhores discos já gravados, Exile On Main St. é o auge do período mais criativo e brilhante do grupo.

Gravado entre Los Angeles e uma villa no sul da França, este antológico álbum duplo é cercado de lendas sobre os excessos químicos e sexuais cometidos pelo grupo. Mito à parte, o disco permanece uma verdadeira aula magna de rock, blues, country, soul e gospel.

Beggar´s Banquet (1968)

A batucada que abre a emblemática Simpathy For The Devil pavimenta o caminho para uma seleção quase toda acústica, mas não menos bombástica. Altamente antenado com sua explosiva época, Beggar´s é um dos registros mais contundentes de uma banda encontrando sua identidade musical.

Sticky Fingers (1971)

Da capa ultrajante concebida por Andy Warhol, até a coleção de clássicos que inclui Brown Sugar, Sister Morphine e Bitch, este disco não erra em absolutamente nada. Quase 30 anos após seu lançamento, Sticky Fingers é tão atual e imprescindível hoje como era então.

Semi-preciosas:

Black And Blue (1974)

Este disco é, possivelmente, o último grande disco gravado pelos Stones. No repertório variado pululam novas influências, como o reggae e o funk. Para completar, duas das melhores baladas compostas por Jagger/Richards: Memory Motel e Fool To Cry.

Aftermath (1966)

Primeiro álbum em que a dupla Mick Jagger/Keith Richards assina todas as composições, Aftermath suaviza o blues rock dos discos anteriores em favor de uma pegada mais pop. Não por acaso o grande sucesso do álbum é uma canção meio chorosa, a balada Lady Jane.

Their Satanic Majesties Request (1967)

Tentativa frustrada de fazer um álbum no espírito psicodélico da época, este disco pouco conhecido dos Stones é tido como a “resposta” do grupo a Sgt. Peppers, dos Beatles. Ouvido hoje, o que sobressai é a beleza de canções como She’s a Rainbow – em arranjo barroco e elaborado – e 2.000 Man – esta regravada pelo Kiss no álbum Dinasty.

Bijuteria:

A Bigger Bang (2006)

Se este foi o último disco de estúdio dos Stones – como grande parte da imprensa noticiou à época do lançamento – é forçoso dizer que eles encerraram a carreira com um disco nota zero. Baladinhas bregas, rocks feitos sob medida para estádios e outras bobagens compõem um álbum que não se equipara sequer ao pior da produção da banda na década de 1980.

Flashpoint (1991)

De todos os discos ao vivo gravados pelos Stones, este é, talvez, o pior. Apesar de participações especiais de peso – Eric Clapton empresta sua guitarra iluminada para Litte Red Rooster, um dos poucos bons momentos – o disco nunca chega a decolar plenamente.

segunda-feira, 8 de março de 2010

8 de Março: Dia Internacional da Mulher

No dia 8 de março comemora-se no mundo todo o Dia Internacional da Mulher.

Apesar dos equívocos óbvios que cercam datas como essas, com celebrações que mais reforçam do que combatem alguns mitos idiotas, penso que é sempre bom que existam tais momentos como espaços de reflexão e debate.

Por isso, resolvi listar alguns fatos marcantes envolvendo mulheres no mundo da música. Como toda lista é arbitrária, fica o espaço aberto para lembranças diversas...

Anos 60:
- Joan Baez encabeça o folk politizado e abre caminho para outros trovadores;
Aretha Franklin brada por respeito em uma versão arrasadora da composição de Otis Redding, Respect;
- Janis Joplin deixa a platéia do festival de Monterrey boquiaberta com sua performance para lá de intensa;
- Grace Slick seduz alucinados de todos os cantos com White Rabbit, um conto de fadas pervertido e psicodélico;
- Diana Ross & The Supremes rivalizam com os Beatles pelas primeiras posições das paradas nos Estados Unidos;
- Rita Lee e os Mutantes subvertem o bom-mocismo do rock brasileiro e mudam a cara da música nacional.

Anos 70:
- Carole King lança o histórico Tapestry, um disco que serviu de inspiração para milhares de garotas e - por que não? - garotos;
- Patti Smith aproxima poesia e rock no magnífico Horses;
- Gloria Gaynor, Grace Jones e Donna Summer reinam nas pistas e se tornam divas da Disco;
- Karen Carpenter e seu irmão iniciam uma parceria vitoriosa que, infelizmente, terminaria de forma trágica para Karen;
- Rita Lee parte para uma bem-sucedida carreira solo;
- Gal Costa, Maria Bethania, Elis Regina e Clara Nunes se consagram como estrelas maiores da MPB;
- Kate Bush grava Wuthering Heights, um clássico absoluto da década;
- Siouxsie Sioux é a grande figura feminina saída das fileiras do punk inglês.

Anos 80:
- Madonna escandaliza os caretas americanos com sua performance para lá de ousada na primeira festa de premiação da MTV;
- Tina Turner deixa para trás um passado de abuso e violência por parte do ex-marido Ike Turner e lança Private Dancer, um dos campeões de venda da década;
- Cyndi Lauper faz de She's So Unusual um dos trabalhos mais representativos do pop oitentista;
- O grupo Go-Go's se torna um dos primeiros formados somente por mulheres a frequentar o topo das paradas;
- A cantora anglo-nigeriana Sade Adu inicia uma trajetória de grande sucesso com músicas sofisticadas e intimistas;
- O rock brasileiro vira produto de massa e com isso conhecemos e passamos a amar (ou odiar) Paula Toller e Marina.

Anos 90:
- Grupos como Sleater-Kinney, L7 e Bikini Kill protagonizam o movimento que ficaria conhecido como Riot Girrrls;
- O festival Lilith Fair viaja os Estados Unidos levando na bagagem somente artistas mulheres;
- Lucinda Williams sai da obscuridade e conquista corações com seu belo Car Wheels On a Gravel Road;
- Bjork inicia com o álbum Debut uma das carreiras mais criativas e instigantes dos últimos tempos;
- Sinéad O'Connor rasga uma foto do Papa em rede nacional e destrói sua popularidade nos Estados Unidos;
- O TLC, grupo de rappers americanas, chama para briga machões e otários do hip hop;
- Mariah Carey, com seu pop careta e certinho e seus milhões de discos vendidos, se converte na principal cantora pop da década.

Anos 2000:
Tudo é possível nesta última década:
- Missy Elliott ensina a fazer hip hop com inventividade;
- Madonna continua fazendo os shows mais ousados do mundo pop;
- Amy Winehouse se droga como uma louca mas lança dois discos inesquecíveis;
- Duffy, Adelle e Stelle mantêm acesa a chama da soul music;
- Bat For Lashes (Natasha Khan), St. Vincent (Annie Clark), Like Li e tantas outras andam na frente da vanguarda artística de nossos tempos;
- No Brasil cantoras como Roberta Sá, Marina de la Riva, Fernanda Takai e Vanessa da Mata nos dão esperança de que nem tudo está perdido no sonífero reino da música popular brasileira.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Capas Clássicas

Quando Rita Lee lançou seu nono disco como artista solo, em 1980, ela certamente não imaginava que iria colocar o Brasil inteiro aos seus pés.

Das oito faixas do álbum, cinco tocaram exaustivamente nas rádios brasileiras e Rita se viu, da noite para o dia, transformada de roqueira maldita em musa pop.

Outras mulheres já haviam atingido o topo das paradas nacionais, mas sempre no sisudo reino da MPB. Ninguém com origens no rock, como era o caso de Rita, havia chegado tão alto. Pode-se dizer, sem sombra de dúvida, que toda a cena pop-rock surgida nos anos subseqüentes deve o corpo e a alma a este disco histórico.

Popular, divertido e leve, Lança Perfume (como o disco ficou conhecido na época) apontou para as grandes possibilidades comerciais do rock nacional e se inscreveu no inconsciente coletivo, tanto por suas canções quanto por sua capa lindíssima.

Fotografada em meio a uma bruma de tons dourados e avermelhados, Rita aparece com uma roupa que se tornaria sua marca registrada naquele ano. O cabelo esvoaçante reforça uma beleza que parecia recém-descoberta e enfatiza um aspecto de irrealidade e indefinição (o que é, afinal, o cenário atrás de Rita? Um papel de parede rasgado? Um esboço do mapa do Brasil?).

Nos anos subsequentes, Rita Lee assumiu definitivamente seu posto no primeiro time da música brasileira. O ápice artístico, no entanto, já havia sido alcançado e, diga-se, jamais seria igualado.

E nenhuma outra capa seria tão bela, intrigante e inesquecível.

Faixas:
Lado 1:
Lança Perfume
Bem Me Quer
Baila Comigo
Shangrilá

Lado 2:
Caso Sério
Nem Luxo Nem Lixo
João Ninguém
Ôrra Meu

quinta-feira, 9 de julho de 2009

No Centro de um Planalto Vazio

O inverno em Brasília é, para mim, a estação mais bonita do ano.

A seca ainda não castiga tão severamente, faz um friozinho agradável de noite e, durante o dia, a luz atinge uma plenitude impressionante. Fora o céu, que vai do azul mais absurdo aos meios tons que adornam o entardecer. Um espetáculo.

Gosto da cidade, que, ao contrário do que dizem os não locais, não é impessoal e fria. É preciso cuidado para descobrir os pequenos encantos de Brasília.

Cuidado que tiveram alguns compositores, que elegeram a capital federal como musa inspiradora.

Renato Russo talvez seja o mais célebre deles. É dele, por exemplo, Música Urbana, famosa na gravação do Capital Inicial, e que fala de pontos marcantes da cidade como a torre de TV e a plataforma da Rodoviária.

Mais brasiliense, então, é Eduardo e Mônica, com a letra mencionando o Parque da Cidade, a galera da universidade e a tchurma alternativa. E o que dizer de Faroeste Caboclo, verdadeiro épico glauberiano passado sob o sol do cerrado?

Toda vez que me lembro dessa música, fico pasmo com a popularidade da Legião à época do lançamento do disco Que País É Esse (1987). Somente Renato e seus legionários poderiam ter lançado uma música de quase 10 minutos, com referências a Brasília, que somente quem mora aqui consegue entender, e fazer um sucesso descomunal.

Outro grupo que é a cara de Brasília é o Plebe Rude. Embora não tenha resistido às pressões do sucesso, o grupo – considerado por muita gente boa um dos melhores do rock brasileiro – trouxe uma raiva e uma energia muito necessárias para a cena nacional.

O Capital Inicial também tinha uma marca muito brasiliense em seu som. Não por acaso, o baixista e o baterista da banda, os irmãos Flávio e Fê Lemos, foram companheiros de Renato Russo, no seminal Aborto Elétrico. Daí, que o primeiro disco do Capital, de 1986, é um meio termo entre o punk politizado do Aborto e o som mais pop que o grupo acabaria adotando no futuro.

Agora, para quem tem entre 35 e 45 anos (como é o meu caso), nada é mais Brasília que o mala Oswaldo Montenegro. Lá no início da década de 80, ele arrastava multidões aos teatros da cidade para assistir seus musicais.

Mérito lhe seja dado, algumas músicas resistiram ao passar do tempo e até hoje se pode escutar com certo prazer a Léo e Bia e Bandolins.

Ele já era um chato, mas, sem dúvida, soube traduzir em música e letra o clima místico e isolado de uma cidade que foi construída no meio do nada, com um lago artificial e uma arquitetura do futuro.

E presenteada com um céu como nenhum outro no mundo.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Entre Plumas e Paetês

Como não sou muito ligado em datas, acabei deixando passar batido o último 28 de junho, onde se comemora o Dia Internacional do Orgulho Gay.

Então, para homenagear a todos aqueles que vivem o amor em todas as suas formas, resolvi selecionar as dez músicas mais gays que já ouvi...

1 I Will SurviveGloria Gaynor
Este hino à independência das mulheres, foi adotado massivamente pelos gays americanos e acabou se tornando uma espécie de tema oficial para homossexuais nos quatro cantos do planeta. Gloria, que não é boba nem nada, ainda gravou outra canção que caiu como uma luva no imaginário cor-de-rosa, I Am What I Am, e foi definitivamente entronada como a porta-voz do movimento.

2 La Vie En RoseGrace Jones
Clássico da canção francesa em bela releitura da ex-modelo, cantora e atriz jamaicana Grace Jones, La Vie En Rose é uma longa (são mais de 7 minutos) ode à paixão e à entrega amorosa. Discoteca básica de 10 entre 10 bibas.

3 Dancing QueenABBA
Linda melodia, vocais esplendorosos e uma letra inocente sobre uma rainha das pistas de dança (pode existir coisa mais gay?). O clássico mais clássico do ABBA e um hit eterno da discoteca.

4 It´s a SinPet Shop Boys
O arranjo grandioso e a letra sobre sexo e culpa compõem a canção gay mais marcante dos anos 80.

5I Love To Hate YouErasure
Outro grupo assumidíssimo, o Erasure dava pinta sem dó nem piedade, ao mesmo tempo que lançava algumas canções deliciosas. Esta faz citação a I Will Survive e torna a vida um tantinho mais feliz durante seus 4 minutos.

6Deeper And DeeperMadonna
Não dá para se falar de universo gay sem mencionar Madonna. Carinhosamente adotada por homossexuais de todas as nacionalidades, faixas etárias e raças, Madonna já devolveu o carinho incontáveis vezes. Deeper And Deeper é, para mim, sua homenagem mais contagiante ao mítico tempo das discotecas. Irresistível.

7 Conga La CongaGretchen
Ela não canta nada. É brega, vulgar e totalmente bagaceira. Talvez por isso mesmo, os gays a amem tanto. Acho mesmo que se não fosse por eles, Gretchen já teria caído no esquecimento. O que seria uma pena, afinal seus “crássicos” são divertimento garantido.

8Y.M.C.AThe Village People
Eles sempre foram muito canastrões, mas não há dúvida que deixaram sua marca na cultura popular dos últimos 30 anos. Explorando o imaginário gay de uma maneira muito estereotipada, o grupo deve ser visto como uma piada. O que não impede que, em alguns momentos, como em Y.M.C.A, acertem em cheio.

9I Feel LoveDonna Summer
A rainha das pistas queimou o filme com os gays quando declarou que a homossexualidade ia contra os desígnios do Senhor (ai, ai...), mas, na década de 70, quando vivia a base de cocaína e sacanagem, Donna gravou algumas das canções mais incríveis da era disco. Como esse monumento eletrônico de altíssimo bom gosto. Tá perdoada, sua louca!

10I Want To Break FreeQueen
Poucos caras foram tão gays e tão machos quanto Freddie Mercury. Embora nunca tenha assumido publicamente (e precisava?), ele encarnou um glamour e uma bichice que, no reino machista do rock, é preciso ter muita coragem para levar adiante. I Want To Break Free é antológica principalmente por seu vídeo, em que os quatro membros do grupo apareciam travestidos.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Tristes Trópicos

Dia desses, estava o rádio do meu trabalho ligado numa dessas estações que tocam o melhor da música brasileira, quando escuto a versão de uma canção que já devia ter sido sepultada para sempre.

O tal cover era de Um Dia de Domingo, sucesso bregoso interpretado originalmente por Gal Costa e Tim Maia. Pois não é que a música foi regravada por uma das figuras mais nefastas da atual cena pop brasileira, Ana sou bi e daí Carolina.

Ana não é nada burra e deu aquela roupagem voz e violão que muita gente acha o máximo do despojamento e sofisticação sonoros e, pronto, lá está a onipresente mineira berrando para quem quiser ouvir que tudo vai ficar por conta da emoção (argh!!!!!!!!!!!).

Na verdade, Ana Carolina não é o grande problema da música brasileira de grande consumo. O problema é a indústria querer vendê-la como ótima cantora e compositora, são as rádios que executam suas canções de hora em hora, é a televisão que a promove incessantemente.

É uma massificação do gosto raso da maioria, que só encontra paralelo na baiana Ivete Sangalo, essa, sim, um caso criminoso de imposição de uma estética burra, que privilegia somente o entretenimento e coloca a música em último lugar.

Não à toa, os espetáculos de Sangalo são cada vez mais superproduzidos, uma imitação grosseira de grandes shows internacionais. Nada contra música como pura diversão, mas há um sério risco para a cultura de um país quando toda arte se resume a mero passatempo.

Sei que não sou exatamente um entusiasta da nossa música. Acho que os grandes luminares do cancioneiro brasileiro são, em sua grande parte, pedantes e pretensiosos, mas reconheço a importância de Chico Buarque, de Caetano Veloso, de Gilberto Gil e de João Gilberto. E até tenho um grande afeto pela fase jovem guarda de Roberto Carlos, além de achar a produção de Rita Lee, na década de 70, fantástica.

Bem ou mal, toda essa geração, que hoje se encontra com mais de 60 anos de idade, deixou um legado. O mesmo se pode dizer, com certas ressalvas, da galera do rock oitentista.

Quanto a essa gentalha que anda sugando o resto de energia da agonizante indústria fonográfica nacional, penso que seu legado será a destruição de toda fagulha de criatividade e originalidade que ainda possa existir pelos rincões deste imenso País.

Talvez, a luz no final do túnel esteja no underground, nas grandes festas populares e nas pequenas manifestações artísticas, que se mantém à parte da mídia.

Está mais do que na hora de um levante.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Meus Discos Preferidos: Anos Oitenta

1 - CloserJoy Division (1980)
Um disco enigma, um modelo que seria absurdamente copiado (e jamais igualado), e o nascimento de um mito. O suicídio do vocalista Ian Curtis tornaria este segundo e último álbum do Joy ainda mais cultuado, mas a força e a beleza das derradeiras canções registradas por Curtis têm vida própria e se impõem acima de qualquer mórbida adoração e culto da morte (um pecado no qual muitos fãs de rock parecem incorrer).

2 The SmithsThe Smiths (1984)
O primeiro disco lançado por Morrissey e cia beira a perfeição e tem canções absolutamente clássicas, como This Charming Man, Still Ill e What Difference Does It Make . Ainda que eles tenham atingido a maturidade com o terceiro trabalho, The Queen Is Dead, de 1986, The Smiths é repleto de uma inocência e lirismo que se perderiam um pouco ao longo do caminho. E há também a fantástica capa - belo trabalho gráfico que criou uma identidade visual, que marcaria para sempre a carreira da banda.

3DocumentR.E.M. (1987)
Até hoje, o melhor disco da grande banda americana e também aquele com o maior número de canções clássicas (The One I Love, The Finest Worksong e a definitiva It’s The End Of The World As We Know It), Document colocou o rock independente veiculado em rádios universitárias nas paradas, chamando a atenção do resto do mundo para a banda do vocalista Michael Stipe. É bem verdade que eles nunca igualariam a energia e a pegada alcançadas aqui, mas o R.E.M. tem o mérito de ter permanecido fiel a sua ética de independência e integridade artística. Além de, é claro, terem gravado outras músicas perfeitas...

4 WarU2 (1983)
Durante muito tempo, o melhor disco da década de 80, foi, para mim, The Joshua Tree, lançado pelo U2 em 1986. Mas, curiosamente, esse foi um disco que não resistiu tão bem ao teste do tempo quanto o terceiro trabalho da banda, War. Vigoroso, recheado de músicas que até hoje compõem o set list dos shows do U2, War perdeu muito de sua importância como disco político e contestatório, mas permanece inalterado em sua qualidade musical.

5 Ocean RainEcho & The Bunnymen (1984)
Se tivesse apenas a faixa-título – uma canção grandiosa, que parece querer atingir o céu – e a emblemática The Killing Moon – a perfeição em formato de canção-pop – este disco já seria imprescindível. Mas há muito mais para se deleitar na fórmula pós-punk psicodélica manipulada com precisão por Ian McCulloch e os Homens-Coelho. Ambicioso, poético e altamente viciante.

6 Low LifeNew Order (1985)
O New Order poderia ter se tornado apenas um “sub Joy Division”, mas, ao invés disso, preferiu se arriscar e acabou burilando um som totalmente novo e que teria grande influência em todos os sons que misturam rock com música eletrônica. A diferença entre o New Order e seus seguidores, é que seus integrantes tinham um imenso talento para criar pérolas pop, coisa que Low Life tem aos montes. De Love Vigilantes até o encerramento com Face Up, este disco se revela uma aula de como fazer música para chacoalhar o corpo, sem esquecer de alimentar a mente. Brilhante!

7 Surfer RosaPixies (1988)
De todos os discos que conheci, no final da década de 80, nenhum foi tão marcante quanto Surfer Rosa. Embora, a rigor, o Pixies não apresentasse nada de novo, o impacto de sua surf music insana foi imenso. Durante alguns anos, eles foram tudo que se pode esperar de uma banda de rock: rebeldes, pesados, iconoclastas e surpreendentes. E autores de algumas das melhores canções daqueles anos.

8 Let It BeThe Replacements (1984)
Ao lado do R.E.M, esta talvez seja a mais importante e influente banda surgida no underground americano. Nirvana, Pearl Jam, Smashing Pumpkins, enfim, todos os grandes grupos surgidos nos Estados Unidos, na década de 90, devem alguma coisa aos Replacements. Let It Be é o disco para começar a gostar deles. Tudo está aqui: do rock certeiro de I Will Dare até o cover esperto de uma canção obscura do Kiss, Black Diamond, o grupo não dá uma fora. Um disco de rock direto e sem frescuras.

9PsychocandyThe Jesus And Mary Chain (1985)
O ruído como forma de expressão artística não era exatamente uma novidade. O Velvet Underground já havia incorporado sons pouco usuais ao seu rock de vanguarda. Mas os irmãos Reid levaram essas experiências embrionárias a níveis realmente inesperados. Profundamente influenciados por Beach Boys, pelos grupos femininos da década de 60 e pelo Velvet, o Jesus recuperou a canção de 3 minutos como pedra fundamental do rock, e acrescentou a esse formato muita distorção, microfonia, ruídos diversos e uma barulheira infernal. No meio de camadas e mais camadas de guitarras, o grupo se sai com pequenas maravilhas como Some Candy Talking e Just Like Honey.

10Kicking Against The Pricks Nick Cave And The Bad Seeds (1986)
Este disco marcou muito meu final de adolescência. Acho que o escutava três, quatro vezes seguidas, tentando entender o que me fascinava tanto. Hoje, percebo que o tratamento entre irônico e reverente que Cave e sua banda dão às 14 músicas alheias que compõem este disco, era algo muito novo e surpreendente para mim. Antes de tudo, a fantástica habilidade deste artista australiano de transformar cada um desses covers em obra totalmente sua, é que faz o brilho e a qualidade perene deste Kicking Against The Pricks.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

80 minutos nos anos 80

1- This Charming Man
The Smiths (Em The Smiths)
2- Are You Ready To Be Heartbroken?
Lloyd Cole & The Commotions (Em Rattlesnakes)
3- Happy When It Rains
The Jesus & Mary Chain (Em Darklands)
4- Lose My Breath
My Bloody Valentine (Em Isn't Anything)
5- I Got A Catholic Block
Sonic Youth (Em Sister)
6- Where Is My Mind
Pixies (Em Surfer Rosa)
7- I Will Dare
The Replacements (Em Let It Be)
8- Fall On Me
R.E.M. (Em Life's Rich Pageant)
9- The Killing Moon
Echo & The Bunnymen (Em Ocean Rain)
10- Cities In Dust
Siouxsie & The Banshees (Em Tinderbox)
11- Charlotte Sometimes
The Cure (Em Staring At The Sea)
12- Hollow Hills
Bauhaus (Em Mask)
13- She Sells Sactuary
The Cult (Em Love)
14- Don't Talk
10,000 Maniacs (Em In My Tribe)
15- Love Will Tear Us Apart
Joy Division (Em Substance)
16- Leave Me Alone
New Order (Em Power Corruption and Lies)
17- Bad
U2 (Em The Unforgettable Fire)
18- Everyday Is Like Sunday
Morrissey (Em Viva Hate)
19- Watching Alice
Nick Cave & The Bad Seeds (Em Tender Prey)
20- Downtown Train
Tom Waits (Em Rain Dogs)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Mestres da Noruega

A vinda do A-HA este mês ao Brasil, faz reavivar um bocado a chama do pop oitentista.

O grupo, vindo da fria Noruega, é um daqueles raros casos de bandas que migraram do pop descartável para o status de cult.

Por volta de 1985, o A-HA era do tipo de grupo que despertava paixões extremas: eram amados ou odiados. Ou seja, as meninas amavam e os garotos detestavam.

Eu olhava - ou melhor dizendo, escutava - com certa desconfiança. A verdade mais pura é que eu seguia a orientação da minha bíblia da época, a revista BIZZ. Tudo que a BIZZ aprovava, eu aprovava. Se ela dizia que não prestava, eu nem chegava perto. E nenhum crítico de respeito, no Brasil de então, tolerava os agudos de Morten Harket, o vocalista galã da banda.

Porém, anos mais tarde, me cai nas mãos o segundo disco dos noruegueses, Scoundrel Days, de 1986. Paixão logo na primeira audição, o trabalho só fez crescer em afeição ao longo dos anos.
Há canções radiofônicas que beiram a perfeição, como I've Been Losing You e Cry Wolf, baladas luxuosas como Manhattan Skyline e October, e pérolas inclassificáveis como a faixa-título. É quase um "best of", de tão bom.

O álbum seguinte, Stay On These Roads, não repete o mesmo brilho de Scoundrel, mas possui algumas boas faixas. O fato puro e simples é que eles sempre foram muito competentes em criar melodias grudentas, ficando isso evidente em You Are The One e The Blood That Moves The Body.

Depois disso, eles viraram uma espécie de caricatura de si mesmos. Mas, se nos shows, eles se concentrarem nos três primeiros discos, será, sem dúvida, uma grande festa tanto para nostálgicos como para obcecados pela decada de 80.

Para Amar - ou Odiar - os Anos Oitenta

1 - Thriller - Michael Jackson (1982)
2 - Rio - Duran Duran (1982)
3 - Like a Prayer - Madonna (1989)
4 - Sing 'O' Times - Prince (1987)
5 - She's So Unusual - Cyndi Lauper (1983)
6 - Faith - George Michael (1987)
7 - Colour By Numbers - Culture Club (1983)
8 - Music For The Masses - Depeche Mode (1987)
9 - Actually - Pet Shop Boys (1987)
10 - Dare! - The Human League (1981)
11 - Private Dancer - Tina Turner (1984)
12 - Songs From The Big Chair - Tears For Fears (1985)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Beatles à Brasileira

Já que falei de Beatles na última postagem, porque não falar também da banda que para mim são os Beatles brasileiros, a Legião Urbana?

É claro que o fato de ter crescido em Brasília, de ter sido adolescente em plena ascensão de Renato Russo e cia, me torna um pouco suspeito. Ou não. Afinal quantas bandas de rock nacional geraram um culto tão forte e duradouro? Quantas podem se gabar de ter atravessado gerações e permanecer tão atuais e relevantes? Quantas possuem clássicos suficientes para preencher um álbum duplo?

Eu acho que não existe comparação, principalmente, com a qualidade do texto de Russo. Mesmo que os anos 80 tenham sido pródigos em bons letristas - um fenômeno que parecer ter desaparecido de nosso cenário pop - ninguém captou tão bem o espírito de seu tempo quanto Renato Russo.

Da política ao desejo homoafetivo, nada escapou à pena afiada do trovador de Brasília. Eu me recordo que, na escola, todo mundo sabia todas as letras quilométricas de coração. Era um tal de levar o encarte para as aulas e sair passando de carteira em carteira enquanto os professores falavam sobre física, biologia e... química, claro!

Renato parecia saber tudo que a gente sentia, vivia e desejava. É pomposo falar em porta-voz de uma geração, mas, de um certo modo, era assim que a gente o via.

Hoje, para mim, ficou a delicada poesia, a sensibilidade extrema de alguém que se indignava, que abria o peito e se expunha muito. Numa época em que tudo vai ficando mais e mais embrutecido e cínico, a música da Legião e as letras de Russo são como um oásis, um alivio para os tristes de coração porém grandes de alma.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Aos Montes

Todo audiófilo que se preze tem que ter todos os discos oficiais dos Beatles. Por quê? Oras bolas, porque goste-se ou não, toda a musica ocidental, feita dos anos 60 para cá, tem alguma influência dos quatro garotos de Liverpool. E isso não é nenhum exagero.

Pegue-se, por exemplo, a musica brasileira. Da Jovem Guarda ao Tropicalismo, passando pelos Mutantes e pelo Clube da Esquina, chegando ao rock da década 80, todo mundo bebeu, bebe e continuará a beber da fonte de Lennon-McCartney. Que o diga Skank.

Eu sou beatlemaniaco praticamente desde que me entendo por gente.

Os primeiros contatos com a banda foram por meio de duas coletâneas maravilhosas, uma cobrindo a fase inicial - mais pop e bailavel -, e a outra cobrindo os anos experimentais do final da carreira. As capas representam o grupo em momentos distintos, mas fotografados no mesmo local. Se não me engano, no prédio da gravadora EMI, em Londres.

Quando a gente conhece a discografia completa, a evolução se descortina diante de nossos ouvidos, de uma maneira não menos impressionante.

Perceber como os caras passaram de uma banda cover para um grupo que determinava e se adiantava a TODAS as tendencias musicais, é, não apenas um grande aprendizado, mas também um imenso prazer.

Meu disco mais querido do grupo é Rubber Soul. Não existe nenhuma razão especial para isso. Acho que todo apaixonado tem seu disco preferido dos Beatles.

Para mim, Rubber Soul preserva um pouco da inocência dos primeiros anos, ao mesmo tempo que revela uma maturidade poética - existe letra mais linda que a de In My Life? - e musical, que prenuncia os saltos criativos que viriam a seguir.

Revolver, Sgt. Peppers e Abbey Road são todos obras-primas indiscutíveis.

Mas, Rubber Soul é Beatles em estado bruto. Lírico, simples e absurdamente viciante.

Nunca Falha

Mais cedo ou mais tarde, todo colecionador se coloca diante da questão fundamental: qual é meu disco preferido? Como escolher, numa montanha de objetos, que representam não apenas músicas, mas também memórias e momentos de nossa vida?

Acho que o mais fácil é realmente partir para uma compartimentação desse caos emocional, separando tudo em categorias. O disco que mais lembra aquela viagem inesquecível; aquele que está totalmente vinculado a sua adolescência, a descoberta da sexualidade, ao primeiro amor e a primeira decepção; aquele que te recorda das grandes alegrias. E aquele outro que ainda traz o gosto amargo das pequenas tristezas.

Mas, às vezes, não é tão difícil assim. Existe AQUELE disco na sua vida. Aquele que mudou tudo e que ainda hoje você escuta com um prazer inigualável. Para mim, esse disco é THE QUEEN IS DEAD, o álbum que os Smiths lancaram em 1986, e que transformou o rock oitentista.

Para quem tem entre 30 e 40 anos, e curte musica, a década de 80 se tornou um período um tanto mágico, quase mitológico. Foi o auge do rock brasuca e, particularmente, do rock saído de Brasília. Legião Urbana, Capital Inicial e Plede Rude fizeram história e definiram uma época.

Lembro perfeitamente da minha ansiedade para que a revista Bizz chegasse às bancas, com todas as dicas dos melhores lançamentos, dos discos fundamentais - a discoteca básica, última seção da revista, que eu adorava; as novas bandas, as entrevistas que recheavam o meio da publicacão, enfim.

Não existia internet, a MTV só chegaria na decada de 90. E o mercado fonográfico ainda não sabia o que fazer direito com o potencial daquela molecada louca por consumir rock. E, assim, os discos foram saindo aos pouquinhos. Low Life do New Order, Crocodiles do Echo & The Bunnymen, Tinderbox da Siouxsie, os primeiros do U2.

Os Smiths já chegaram por aqui com uma aura de gênios. A imprensa brasileira, que sempre babou um pouco pelos ingleses, deixava todo mundo com água na boca.

Mas, e os discos? O primeiro que eu escutei nao foi o Queen is dead, mas o Hatful of Hollow, uma espécie de compilação de coisas que eles haviam gravado para o radio; e musicas novas, que traziam a maravilhosa Please Please Please Let Me Get What I Want.

O problema era como conseguir os demais. Grana para disco, era uma coisa rara lá em casa, mas minha irmã já trabalhava e, um belo dia, chegou com um presente para o irmão caçula. Ah, a sensação de segurar aquela obra de arte entre minhas mãos! Eu, finalmente, tinha The Queen Is Dead.

A belíssima capa, com uma foto esverdeada do ator francês Alan Delon, no auge da juventude, a sucessão de clássicos e a música mais linda que eles já gravaram: There's a Light That Never Goes Out (aquela dos versos and if a double-decker bus/ crashes into us/ to die by your side/such a heavenly way to die). Tudo em The Queen Is Dead é perfeição, beleza e poesia.

Morrissey, assim como Renato Russo, abriram um mundo de possibilidades literárias para mim. Descobrir que havia uma conexão entre os versos desencantados de Moz e os poetas românticos que eu estudava no segundo grau, foi uma revelação sobre os fascinantes caminhos que a arte traça, e de como o artista carrega em si o peso da tradição e a capacidade de renovar tudo ao seu redor.

No ano seguinte, os Smiths já não existiriam. Foi uma carreira curta, apenas 4 discos e algumas coletâneas, mas suas músicas e discos permanecem. Após um período de certo ostracismo, o mundo viu surgir bandas que se referenciavam diretamente a Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce.

A justiça tarda. Mas, nunca falha.