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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A “Suerte” de Shakira

Recebo por e-mail uma resenha irada sobre o novo cd da cantora e compositora colombiana Shakira, retirada do blog andremans.blogspot.com . Não ouvi - e nem pretendo – o tal disco.

Shakira se perdeu para mim depois que se tornou “americana”. Quando sua música ainda era colombiana, gravou boas canções e um ótimo disco – Donde Están Los Ladrones – em que mostrava um grande talento para filtrar influências de música pop estrangeira (leia-se americana e inglesa), por um viés inegavelmente latino.Quando resolveu se aventurar no milionário mercado americano, eu sabia que algo sairia errado.

As pistas foram dadas pela versão em inglês de Suerte, que virou no idioma de Shakespeare Whenever Whatever. Como uma mesma canção podia soar tão absurdamente diferente em suas duas versões? A resposta era clara: Shakira cantando em inglês não era Shakira. Pouco a vontade com uma língua estrangeira, até mesmo sua voz saía adulterada.

Não bastasse esse tropeço linguístico, a Shakira versão ianque é uma mulher ultra-sensual que, em muitos clipes, trafega na fina fronteira entre erotismo de bom gosto e pornografia disfarçada.
Nada de se espantar, afinal de Beyoncé até Nelly Furtado, uma coisa se mostra muito evidente no pop de hoje: se não vender sexo não vende música. Mas, não sei por que, me fica a impressão de que também nesse quesito Shakira se sente inadequada.

Os mais cínicos poderiam dizer que, com uma fortuna que só faz crescer e uma popularidade mundial sem precedentes para uma cantora de origem sul-americana, Shakira não deve se sentir nada inadequada.

Pode ser. Talvez inadequados nos sintamos eu e o André Mans por ver uma artista tão promissora se prostituindo de forma tão descarada.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Que Terá Acontecido a... The Mission

Em 1962, o diretor Robert Aldricht lançou um filme marcante não só por sua história de sordidez, fracasso e relações familiares doentias, mas sobretudo pelo duelo de interpretações das duas protagonistas, Bette Davis e Joan Crawford. Supostamente, as duas atrizes se odiavam de verdade, e isso acaba transparecendo na dinâmica sufocante desenvolvida diante das câmaras.

O nome do filme é O que teria acontecido a Baby Jane e se trata, sem dúvida, de uma das obras-primas do cinema americano, daqueles que não perdem sua atualidade e importância nunca.

Inspirado por esse filme, resolvi criar uma nova série: O que terá acontecido a..., sobre artistas sumidos ou longe dos holofotes.

A banda de estréia é o The Mission, também conhecido como The Mission UK.

Formado por Wayne Hussey e Craig Adams, após deixarem o Sisters of Mercy – outra banda que poderia dar as caras por aqui –, o The Mission integrou um lote de grupos que ficaram conhecidos como góticos ou dark.

Lançaram o primeiro trabalho em 1986. E logo alcançaram o sucesso com a música Severina – e só imagino as chateações que as muitas Severinas espalhadas Brasil afora tiveram que aguentar por conta dessa canção.

Na época, a molecada incorporou roupas pretas, maquiagem pesada e um pessimismo totalmente falso, numa importação meio forçada de um movimento que já dava claras mostras de exaustão na Inglaterra – país berço de muitos modismos que passaram como uma nuvem.

Acontece que as ilhas britânicas são realmente um lugar meio para baixo: chove horrores, faz um frio lascado praticamente o ano inteiro e, na primeira metade da década de 80, ainda vivia sob o astral nefasto dos anos da administração Thatcher.

Além do mais, há uma tradição literária que remonta às peças mais sombrias de Shakespeare, passa pelo ultra-romantismo e pela própria literatura gótica, ou seja, toda a onda dark pode parecer meio ridícula, mas faz um grande sentido para eles. Já no Brasil...

Seja como for, o The Mission fez um sucesso doido por estas plagas. Sucesso que durou até o disco Children, de 1988, que contou com o auxílio luxuoso do ex-baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones. Depois disso, o grupo sumiu e nunca mais ouvi falar nada dos moços.

Em julho de 2008, numa loja em Portugal, encontrei um disco deles e, de certa forma, revivi um pouco da inocência com que eu absorvia tudo que vinha de fora, quando tinha uns 15 anos.

O The Mission continua sendo um símbolo de uma época de muitas descobertas e de formação de gosto pessoal.

Uma pena que se perderam em meio às trevas que eles próprios enalteciam...