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domingo, 11 de abril de 2010

Norah, a que não vendeu a alma

Falar em evolução em termos de música pop é sempre um perigo. O que pode parecer crescimento e desenvolvimento para uns, para outros pode simplesmente soar como falta de rumo e desespero criativo. Então, não vou falar da evolução de Norah Jones, no seu novo trabalho, The Fall.

Grande parte da crítica simplesmente se referiu à virada "roqueira" do novo disco de Jones. Obviamente, não se trata de um disco de rock. Só porque as guitarras aparecem em maior quantidade e o disco segue um ritmo mais encorpado, não quer dizer que esta tímida novaiorquina tenha virado uma Janis Joplin.

Mas ela mudou, disso não há dúvida. Talvez tenha sido a recente separação de seu companheiro. Talvez tenha chegado aquele famoso momento de encruzilhada artística que todo grande artista atravessa (e, sim, para mim, ela é uma grande artista), não sei...

O que não deixa de se insinuar aos meus ouvidos é a qualidade das composições de Norah, de como ela está mais madura e segura como compositora, de como sua voz soa cada vez mais bela, cativante e apaixonante.

Se isso quer dizer evolução, já são outros quinhentos, mas diante do pálido pastiche que foi seu álbum anterior, este The Fall se revela uma gratíssima surpresa!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

É Primavera...

Tim Maia, lá no início da década de 70, em seu histórico álbum de estréia, cantava belamente: É primavera/Te amo/Trago essa rosa/Para te dar...

As estações do ano já inspiraram belíssimas canções, desde Summertime, eternizada por Janis Joplin até California Dreaming, canção para uma tarde fria de inverno, entoada pelos rapazes e moças do The Mamas And The Papas.

A primavera se estampa lindamente nas capas floridas de discos como Essence de Lucinda Williams, Power Corruption And Lies, do New Order , Flowers, dos Rolling Stones e O Descobrimento do Brasil, em que os rapazes da Legião Urbana posam em meio a um belo jardim florido, além do colorido exuberante presente em obras como Universo Ao Meu Redor, de Marisa Monte, Disraeli Gear, do Cream, Sg. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, Abraxas, de Santana e tantos outros.

Aqui no Brasil, país em que, a grosso modo, só existem duas estações: uma quente e chuvosa, e outra quente e seca, os letristas adoram falar de flores, chuvas e doces manhãs de setembro.

É o caso dos Titãs e seu grande sucesso Flores (originalmente gravada no disco ÕBLESQBLON e depois recauchutada para o Acústico MTV, com excelente participação de Marisa Monte), do Ira, com Flores Em Você, que chegou, inclusive, a ser usada como tema de novela da Rede Globo e de Djavan, com Pétala, verdadeira obra-prima que encerra este texto primaveril, causando arrepios no peito:
O seu amor
Reluz
Que nem riqueza
Asa do meu destino
Clareza do tino
Pétala
De estrela caindo
Bem devagar
Ó meu amor
Viver
É todo sacrifício
Feito em seu nome
Quanto mais desejo
Um beijo seu
Muito mais eu vejo
Gosto em viver, viver...
Por ser exato
O amor não cabe em si
Por ser encantado
O amor revela-se
Por ser amor
Invade
E fim

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Meus Discos Preferidos: Cantoras

1- TapestryCarole King (1971)
Um disco importantíssimo, não só por consolidar a carreira da cantora, compositora e pianista Carole King, mas também por reafirmar a posição das mulheres como peças importantes no jogo da música. Autoral e, ao mesmo tempo, muito acessível, Tapestry é a consagração de uma artista completa.

2- Pearl Janis Joplin (1971)
Ainda que Janis não tenha conseguido completar este disco, ele revelou-se um canto de cisne mais que honroso. Em total domínio de suas avantajadas capacidades vocais, Joplin arrasa em faixas clássicas da dor-de-cotovelo como Cry Baby e A Woman Left Alone.

3- Lady SoulAretha Franklin (1968)
Numa recente enquete da revista americana Rolling Stone, Aretha foi eleita a melhor vocalista surgida nos últimos cinqüenta anos, superando nomes como Ray Charles, Elvis Presley e Marvin Gaye. Não há aí nenhuma injustiça. Quem já escutou maravilhas como Ain’t No Way, Chain Of Fools, A Natural Woman (de autoria da primeirona na lista), todas presentes neste disco fantástico, sabe que Aretha tem voz, alma, coração e mente prontos para emocionar e impressionar.

4- Dusty In Memphis Dusty Springfield (1969)
Esta incrível cantora inglesa tinha uma paixão confessa pela música soul americana e pôde extravasar esse amor neste belo trabalho do final da década de 60. Como o próprio nome diz, tudo foi gravado em Memphis, com músicos americanos e uma luxuosa produção. Infelizmente o disco não teve o sucesso esperado e Dusty teve que esperar a inclusão de uma das faixas num filme de Quentin Tarantino para que sua obra-prima fosse redescoberta. Antes tarde do que nunca!

5- Back To BlackAmy Winehouse (2006)
Outro caso de amor explícito entre uma cantora branca e a melhor música negra americana, Back To Black é uma perfeita mistura de soul, funk e pop sessentista embalados em uma roupagem moderna e pela voz sedutora de Winehouse. Uma pena que sua vida atribulada tenha se tornado maior que sua arte.

6- Dream Of Life Patti Smith (1988)
O trabalho mais doméstico, calmo e simples desta cantora que influenciou 10 entre 10 roqueiras surgidas do final da década de 70 para cá. Embora não seja uma obra-prima como Horses, este trabalho de 88 flagra Smith em paz com a vida, com o casamento e a maternidade.

7- Parallel Lines Blondie (1978)
Outra cantora super-influente, Debbie Harry juntou num mesmo pacote sensualidade, honestidade e uma grande sensibilidade pop. Ela era capaz de, num mesmo disco, cantar com agressividade uma canção punk como One Way or Another e, em seguida, languidamente, entoar uma música feita para as pistas de dança (Heart Of Glass, grande sucesso no mundo inteiro, inclusive por aqui).

8- Cor de Rosa e Carvão Marisa Monte (1994)
Este disco provou que Marisa não era apenas uma cantora eclética (leia-se, sem personalidade), de belo timbre. Boa compositora e, sobretudo, uma excelente garimpeira de clássicos meio esquecidos da nossa música (não se pode esquecer que muita gente começou a se interessar pelo grande Paulinho da Viola, depois que Marisa regravou pérolas como Para Ver as Meninas), ela construiu uma carreira coerente e de qualidade crescente.

9- Tinderbox Siouxsie & The Banshees (1986)
Musa de góticos, punks, darks e modernos, a maquiada Siouxsie sempre chamou mais atenção por seu visual meio egípcio, meio heroína de mangá do que por seus dotes vocais. Mas ela sempre cantou muito e este disco é uma prova cabal disso. Estão aqui os clássicos Cities In Dust e Candyman, que tocaram até cansar nas rádios de rock brasileiras dos anos 80.

10- Van Lear Rose Loretta Lynn (2004)
Sempre tive uma grande dificuldade com música country, mas, nos últimos dez anos, cantoras como Lucinda Williams e Loretta Lynn vêm desconstruindo este preconceito. Embora algumas pessoas possam alegar que este disco é muito bom por ter sido produzido e tocado por Jack White, dos White Stripes, a grande verdade é que quem brilha são as composições e a voz deliciosamente caipira de Lynn. E o dueto com Jack em Portland, Oregon é excelente, uma quebra das fronteiras entre rock e country.

sábado, 8 de agosto de 2009

O Segundo Sexo

Houve um tempo em que mulher no rock era tão raro como encontrar político honesto no Brasil.

Pioneiras como Janis Joplin e Grace Slick, do Jefferson Airplane, tiveram que esperar quase 3 décadas para ver suas sementes finalmente germinando.

Aqui e acolá apareciam loucas iluminadas pelos deuses do rock, mas, misteriosamente, essas aparições eram isoladas.

O movimento punk, com seu ideário de quebra de todas as regras estabelecidas, parecia escancarar as portas para a mulherada, mas, com honrosas exceções, o rock continuou dominado pela estética branca e masculina de sempre.

Graças à fantástica ampliação dos mercados musicais no mundo inteiro, os anos 90 viram uma explosão da música feita por mulheres. E elas chegaram com uma raiva e uma criatividade que, certamente, mudaram definitivamente a cara do rock e da música pop universais.

O grande barato desta geração surgida na década de 90, é que as garotas assumiram o controle total de todo o processo criativo, desde a composição até a execução das próprias canções e gerenciamento de suas carreiras. Nada da dependência nefasta de homens que muitas vezes só sugavam, sem oferecer muito em troca (não consigo deixar de pensar aqui em Tina Turner, que, dona de um talento impressionante, se submeteu, durante anos, à ditadura imposta pelo marido e companheiro de palcos e estúdios, Ike Turner).

Dessa turma que está mandando e desmandando no cenário atual, sou particularmente fã de Chan Marshall, que sob o nome Cat Power, tem encantado e seduzido ouvintes por onde passa. Marshall evoluiu de uma típica cantora de banda alternativa, no início de vida profissional, para uma crooner que deixa uma marca profundamente pessoal em tudo que canta. É só ouvir a versão arrasadora da moça para o clássico do cancioneiro americano, New York New York (aquela eternizada por Frank Sinatra), para entender todo o poder da gata.

Outra que acho hipnotizante é Regina Spektor, russa criada nos Estados Unidos, e dona de uma belíssima voz. Quase todas as canções de Spektor são levadas ao piano - influência direta de Tori Amos, cantora de grande força dramática que colocou problemáticas tipicamente femininas no pop americano do início da década passada - e não é raro que inclua até mesmo versos em russo em suas maravilhosas canções. Seu novo disco, Far, mantém a qualidade e confirma Spektor como uma das cantautoras mais promissoras da atualidade.

Tenho acompanhado com grande interesse, também, a carreira da inglesa Natasha Khan que, por trás do nome Bat For Lashes, gravou dois belíssimos trabalhos - Fur And Gold e Two Suns. Natasha é uma herdeira direta dos experimentalismos musicais da islandesa Bjork. Aliás, Bjork segue ativa, influente e atual e sua musicalidade original e personalíssima permanece uma das referências mais importantes da cena contemporânea.

Poderia ficar horas escrevendo sobre essas mulheres incríveis e seus discos extraordinários, mas o meu ponto é apenas reafirmar o óbvio: foi-se o tempo em que uma garota segurando uma guitarra e gritando ao microfone era uma espécie de aberração.

Hoje, elas não apenas vão à luta, como também determinam os rumos que a música do novo milênio vai seguir.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Discos e Arte

O artista norte-americano Robert Crumb foi um crítico ácido e amoral do sonho suburbano da América branca e protestante. Seus traços personalíssimos criaram uma galeria de tipos na qual o personagem principal é o próprio Crumb.

Seu auto-retrato é tão cruel e impiedoso consigo mesmo como o é com o resto da sociedade. Sexo, misoginia, marginalidade e drogas fazem parte do coquetel “anti-ordem-e-progresso” preparado pelo cultuado cartunista.

A capa concebida por Crumb para Cheap Thrills, disco que revelou ao mundo o furacão Janis Joplin, difere de tudo que se fazia na época. Crumb criou uma pequena ilustração para cada faixa do álbum, originando um mosaico colorido em que uma Janis sensual e gordinha (como, aliás, quase todas as mulheres criadas por ele) predomina. Reflexo, diga-se de passagem, do que se ouvia no vinil.

Gravado em estúdio, com inserções ao vivo, o disco é creditado ao grupo Big Brother And The Holding Company, no qual Janis era “apenas” a vocalista. Mas qualquer um que ouvisse a performance matadora da cantora branca mais negra que já se teve notícia, poderia adivinhar que muito rapidamente o Big Brother é que se tornaria “apenas” o grupo de Janis.

Ball and Chain, Summertime e Piece Of My Heart não são apenas ótimas canções. São a prova de que uma grande intérprete pode dar novo significado a músicas consideradas já definitivas em suas gravações originais.

Tristemente, esse imenso potencial perdeu a luta para a depressão, a solidão e a autodestruição nas quais Joplin se afundou.

Melhor lembrar dela como a piriguete oferecida que ilustra a faixa I Need A Man To Love.