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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Geração 90, onde está você?


Dia desses estava dando uma volta de carro com meu amigo, arquiteto e engenheiro deste blog, Afonso Celso, quando ouvimos no rádio uma música do grupo mineiro Jota Quest. De pronto, AC me indagou: “O que foi feito deles?” “Graças a Deus, sumiram”, foi minha delicada resposta. “Mas o Rogério Flausino canta tão bem...”, replicou meu companheiro de infortúnio. A bem da verdade, cantar tão bem, ele não canta não. Limita-se a imitar – de forma canhestra – uma plêiade de cantores ilustres daqui e lá de fora.

Mesmo pecado cometido por outro luminar da geração 90 da nossa música, Toni Garrido, vocalista da banda Cidade Negra. Esta, ao menos, teve a decência de dar um descanso a nossos ouvidos, mas Toni agora assombra outro campo das artes, levando sua cara de pau para as novelas. Vê-lo atuando é um deleite, garantia certa de risadas calhordas.

Reflexões tão profundas me levaram a questionar sobre os rumos dos grupos e artistas surgidos na maldita década de 90. Últimos anos de vendagens robustas no mercado nacional, os 90 viram a ascensão de nomes como Skank, Raimundos, Nação Zumbi, Mundo Livre S.A., Pato Fu e os já citados Cidade Negra e Jota Quest.

O Skank, que foi o grande vendedor de discos dessa turma, é como aquele slogan cretino do governo Lula: é brasileiro e não desiste. Nem deveria. No balanço dos últimos vinte anos, pode-se dizer que é a única banda que evoluiu artisticamente. Abandonou a temática de futebol/cerveja/mulher de seus primeiros discos para incorporar uma estética mais sofisticada e inteligente e fez a ponte entre o Clube da Esquina e o rock inglês do passado e do presente. Ponto para eles, mesmo que não sejam mais nenhum fenômeno de popularidade.

A Nação Zumbi também tem o mérito de ter seguido em frente, apesar da perda traumática do carismático vocalista Chico Science. Chico foi uma dessas figuras que a gente fica imaginando o que teria aprontado se não tivesse morrido de forma tão precoce e estúpida. De qualquer maneira, seus colegas pernambucanos honram seu nome com um trabalho sempre instigante e rico em referências. Viraram uma coisa meio cult, coisa que aliás acontece com todo artista interessante em atividade no Brasil de hoje.

Quanto ao resto, não sobra nada a dizer. Se um dia fizeram algum sucesso, ele ficou localizado no passado.

Se o rock brasileiro feito na década de 80 ficou marcado pela falta de originalidade e o apego aos modelos americanos e ingleses, pode-se, ao menos, dizer que teve uma qualidade de letras raramente vista na música jovem. Não a toa, Renato Russo e Cazuza são reverenciados até hoje como grandes poetas.

Os músicos do rock da década seguinte perderam a chance de, não só dar continuidade a essa riqueza de texto, como de finalmente criar uma sonoridade que fundisse a modernidade das tecnologias que se desenvolveram à velocidade da luz com a tradição e a beleza de nossa música. Uma pena.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Os Meninos de Brasília

As ruas têm cheiro de gasolina e óleo diesel
Por toda a plataforma, toda a plataforma
Você não vê a torre

O clássico do Capital Inicial, com letra do trovador solitário, Renato Russo, é codificada para os não moradores da Capital Federal.

A tal plataforma é a do terminal rodoviário, que marca o centro da cidade e delimita as duas asas.

A torre é a Torre de TV, um dos cartões postais de Brasília, que abriga um mirante que proporciona a melhor vista do traçado urbano imaginado por Lúcio Costa e, no térreo, uma feira de artesãos que, nas décadas de 70 e 80, ficou conhecida como feira hippie. Hoje, descaracterizada como tudo o mais na cidade, é simplesmente a feira da Torre.

Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude formam uma espécie de santíssima trindade do rock made in Brasília.

Os Paralamas do Sucesso, que por vezes são associados à cena brasiliense dos anos 80, foram formados e começaram sua carreira no Rio de Janeiro.

Outras bandas se lançaram na esteira do grande sucesso desses três grupos: Finis Africae, Peter Perfeito e a punk Detrito Federal.

Ninguém, no entanto, conseguiu chegar perto do reinado estabelecido por Renato e seus legionários.

O culto que começou ainda na época do Aborto Elétrico estendeu-se por todos os rincões deste imenso país e, ainda hoje, o Legião é um dos maiores vendedores de discos de sua gravadora.

Geração após geração, toda uma nova meninada segue descobrindo os versos muitas vezes sublimes do atormentado poeta do desencanto e da revolta.

Depois desta turma, o Brasil viu a ascensão do rock dos Raimundos, que misturavam guitarras pesadas com ritmos populares, baião e forró. Tiveram seus momentos, é verdade, mas a essas alturas eu já havia perdido o interesse no rock feito no Brasil.

Para mim, a pobreza dos textos, o sexismo de algumas bandas e a falta de vocalistas carismáticos e inteligentes esvaziaram qualquer tesão que eu pudesse ter em relação a estas bandas.

Com a cidade prestes a completar 50 anos – na próxima quarta, dia 21 de abril de 2010 – fica a pergunta:
Brasília ainda conseguirá gerar outro Renato Russo?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Síndico da Voz Insuperável

Falei de Tim Maia em minha última postagem, porque tenho escutado os dois primeiros discos do músico carioca sem parar nos últimos meses. Isso é bastante inusitado porque nunca gostei de Tim Maia.

Na década de 80, quando comecei a me interessar seriamente por música, Maia era o cantor de vozeirão grave de sucessos radiofônicos que eu considerava insuportáveis, como Me Dê Motivo, Um Dia de Domingo (dueto com Gal Costa) e Vale Tudo (esta com Sandra de Sá).

Dada a qualidade questionável de tais canções, Tim Maia virou, para mim, sinônimo de baba ou música dançante esquecível.

Mas o tempo está aí para corrigir tais absurdos. A descoberta da fase 70 de Tim Maia tem sido um dos grandes achados recentes em minha vida.

Não vou discutir aqui suas excepcionais qualidades vocais. Tim Maia é o maior cantor pop brasileiro e ponto. Não tem para Milton Nascimento nem Djavan.

Ninguém nunca cantou com tamanha desenvoltura, emoção e potência. Escutar uma música como Você nos faz pensar que a música brasileira já foi completa: arranjo impecável, bela letra e uma voz que só encontra paralelo nos maiores mestres do soul americano.

Aliás, penso que Tim nasceu no país errado. Tivesse nascido americano teria sido aclamado como um dos maiores de seu tempo, gravado discos que seriam referência para a história da música, além de, provavelmente, ter ficado muito rico.

Como nasceu brasileiro, numa família numerosa, teve de enfrentar todas as dificuldades de ser um músico negro, com uma sonoridade muito particular, que misturava Black Music com forró e rock (isso décadas antes dos Raimundos!). Não que o público não tenha entendido. Tim Maia sempre foi um artista popular e querido pelos brasileiros.

Mas sua vida turbulenta, desregrada e excessiva, o tornou uma figura meio tragicômica. Sua morte precoce, aos 55 anos, deixou uma lacuna na MPB que dificilmente será preenchida.

Os dois discos que Tim gravou no início da década de 70 permanecem duas obras-primas de inigualável qualidade musical e vocal.

Uma lição para o pretensioso sobrinho de Tim, Ed Motta, que sempre arrotou ambições absurdas, mas nunca gravou nada que chegue aos pés da obra do tio.