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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Melancolia e Beleza

2010 ainda não completou sua primeira metade e eu já tenho meu disco do ano: High Violet, do grupo americano The National.

É como se os relógios fossem todos reajustados para o início da década de 1980, quando o mundo era assombrado por belos e melancólicos álbuns e cantores suicidas descreviam um mundo sem esperança e amores que traziam dores e não alegrias.

Quando ouço The National, não posso deixar de me lembrar de Faith, do The Cure ou Closer, do Joy Division.

Mas The National não é uma banda nova reciclando velhos clichês. Na voz triste e assombrada do vocalista Matt Berninger mora todo um mundo de emoções contidas e de sentimentos perdidos na poeira da estrada.

Runaway é a obra-prima do álbum e possivelmente de toda a carreira do grupo, uma canção de amor desesperado comparável a With or Without You, do U2.

Não é um disco para ser tocado depois de passatempos desprezíveis como Kes$a. É um trabalho para se escutar no escuro do quarto, tentando perceber cada nuance e cada inflexão preciosa na voz de Berninger. E para se concluir, ao final, que, na era do descartável e do passageiro, ainda há espaço para a grandeza e para o sublime.

Nota: o The National tem mais quatro discos, todos excelentes: The National, Sad Songs For Dirty Lovers (o meu preferido entre os discos antigos do grupo), Alligator e The Boxer.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Tempo e Memória

O canal de TV paga, VH1, estreou no último sábado, dia 26, uma série intitulada As Canções que Mudaram o Mundo.

Composto por dez programas, a série tem a ambição de resumir o espírito de várias épocas por meio de canções emblemáticas como Smells Like Teen Spirit do Nirvana, Heartbreak Hotel, de Elvis Presley e I Wanna Hold Your Hand, dos Beatles. Tarefa das mais difíceis.

Apesar de saber do impacto de determinadas músicas na história da cultura ocidental, acho que, no fundo, o que importa para cada um de nós são as músicas que mudaram nossas próprias vidas. Essas eu carrego na minha memória como um baú de jóias preciosas e escutá-las sempre me transporta para momentos marcantes e inesquecíveis da minha existência.

Por exemplo: I Wanna Hold Your Hand pode ser um marco na carreira dos Beatles, a música que os tornou conhecidos nos Estados Unidos – na Inglaterra eles já eram um fenômeno – e, por extensão, no resto do mundo. Mas, para mim, nenhuma canção dos Fab Four foi tão significativa quanto Eleonor Rigby, uma delicada obra sobre solidão, desesperança e velhice, belamente adornada por instrumentos orquestrais. Justamente por tratar de temas tão atemporais, Eleonor Rigby permanece atual e certamente ainda muito influente.

Ao lado de Yellow Brick Road (Elton John), que talvez tenha sido a primeira música que eu escutei repetidas vezes, tentando decorar uma letra num idioma do qual eu não conhecia patavina, de Bohemian Rhapsody (Queen), que me apontou as possibilidades ilimitadas de criação artística, de I Love It Loud (Kiss), que me abriu a cabeça para um lado de fantasia e diversão muito importantes para a música, de Será (Legião Urbana), que me mostrou que Brasília podia fazer rock e que esse rock podia ser muito bom e, finalmente, de Karma Police (Radiohead), que entrou na minha vida devagarzinho, até me dominar por completo, Eleonor Rigby forma um conjunto precioso de grandes referências musicais e eternas fontes de alegria e prazer.
A seguir, uma pequena lista de canções que, volta e meia, eu tenho que escutar para não perder o rumo:

1 Ask. The Smiths
2 One. U2
3
Like a Hurrycane. Neil Young
4 Atmosphere. Joy Division
5The One I Love. R.E.M.
6
Free Money. Pati Smith
7 Love Song. The Cure
8Life On Mars. David Bowie
9Sheena Is A Punk Rocker. The Ramones
10Bizarre Love Triangle. New Order
Servico:
As Canções Que Mudaram o Mundo
CANAL VH1 (NET, canal 89. SKY, canal 84). Todos os sábados, às 23 horas.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O Coração das Trevas

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!


Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!


(...)

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!


Os versos acima são de autoria do poeta brasileiro Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852), um dos grandes representantes do ultra-romantismo em solo nacional.

O movimento, que revolucionou as letras e as artes no mundo inteiro, tinha um mórbido fascínio pela morte, uma atração pelo macabro e uma relação ambígua com o sexo e o amor – o primeiro visto como profanador da pureza e da inocência e o segundo idealizado em excesso.

Álvares, portador de tuberculose, morto precocemente aos 20 anos de idade, devido a complicações decorrentes de uma queda de cavalo, talvez tenha sido o poeta que eu mais li na minha adolescência.

Não é para menos: considerando-se a idade de sua morte, dá para concluir que escreveu boa parte de seus versos ainda adolescente. Seus poemas estão impregnados dos conflitos e tormentos que assolam nossos corações e mentes nesses difíceis anos de passagem. Além do mais, ele morreu muito jovem e descreveu exaustivamente os sofrimentos pelos quais passou. Nada pode ser mais romântico que isso.

Como se não bastasse, Azevedo é autor de uma das peças mais instigantes já escritas em português: Macário. É de sua autoria também o livro de contos Noite na Taverna, nos quais experimenta uma prosa de inspiração sobrenatural e tom soturno.

Mas, o que um poeta morto na primeira metade do século XIX tem a ver com um blog de música e cinema? Tudo, ora pois!

O fascínio pela morte e pelo lado sinistro da vida é um dos motores do rock. A depressão explicitada nos versos de poetas como Álvares, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu é uma das constantes na música popular do século XX.

A tristeza, por mais paradoxal e estranho que possa parecer, é um elemento fundamental em um estilo que, a princípio, celebrava a alegria e o prazer. E muitos roqueiros seguiram direitinho o preceito de viver intensamente e morrer jovem. Ou, como diria Lobão, melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez.

De cara, consigo pensar em pelo menos uma dúzia de álbuns nos quais a morte, a depressão e a angústia são personagens marcantes.

Já na década de 60, surgiria na Inglaterra um dos mais genuinamente tristonhos artistas que já existiram, o delicado e tímido Nick Drake. Seus três álbuns (Five Leaves Left, Bryter Layter e Pink Moon) são assombrados por um calmo desespero. Tragicamente, Drake morreria de uma overdose de anti-depressivos, sem conhecer o sucesso. O que não impediu que se tornasse um dos mais influentes artistas dos últimos tempos.

Nos anos 70, o cultuado Lou Reed, lançaria, em 1973, o álbum Berlin, um disco triste tanto em som quanto em texto. Aliás, Reed sempre foi um mestre em criar canções sinistras. Vide Perfect Day, Venus In Furs e Heroin.

Gêmeo artístico de Reed, Iggy Pop nos presentearia, em 1977, com o soturno The Idiot (título inspirado possivelmente pelo livro de mesmo nome do escritor russo Dostoievski, outro monstro do deprê nas letras), disco que, apesar da pop China Girl, não esconde sua atmosfera dark.

Um pouco mais para frente, no início da década de 80, o petardo Closer, do Joy Division, pode se orgulhar de ser uma das obras mais sombrias e claustrofóbicas de todos os tempos. E de ter gerado uma prole imensa de chorosos, suicidas e maníaco-depressivos.

Dentre esses filhos, encontram-se as obras-primas Disintegration do The Cure, Darklands, do Jesus And Mary Chain, Floodland, do Sisters Of Mercy, Lovely, do My Bloody Valentine, Your Funeral My Trial do classudo Nick Cave e o primeiro da banda House Of Love.

Mais recentemente não se pode esquecer da tristeza de final de milênio do Radiohead, no mais que perfeito OK Computer, da destruição existencial proposta pelo Nirvana no incompreendido In Útero, do mergulho nas trevas que é The Downward Spiral, do Nine Inch Nails, disco que gerou a magnífica Hurt, mais tarde regravada pelo homem das trevas original, Johnny Cash e, finalmente, da obra completa do músico Elliott Smith, uma espécie de Nick Drake moderno, igualmente talentoso e morto também de forma estúpida e precoce.

Confesso que não escuto mais essas coisas com o mesmo prazer masoquista de antigamente. Já sou quase um quarentão e ficar chorando sobre o vazio da existência me parece uma perda de tempo imperdoável.

Mas, para quem me conhece, fica a dica: quando eu morrer, quero que toquem Love Will Tear Us Apart, do Joy Division, no funeral.

Mais pessimista, impossível.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O Som e a Fúria

Filmes sobre músicos tendem a ser chatos, elegíacos e superficiais. Há algumas exceções, é claro. Recentemente assisti a uma delas, a cinebiografia Control, sobre a vida do vocalista do Joy Division, Ian Curtis.

Dirigido pelo extraordinário fotógrafo holandês Anton Corbijn, Control chama a atenção, inicialmente, pelas belíssimas imagens em preto-e-branco. Mas, lentamente, o filme vai seduzindo pelo delicado retrato de seu biografado.

Corbijn não tentou mitificar Curtis. Ou pintá-lo como um poeta atormentado e inatingível. Pelo contrário, o que se vê na tela é um homem comum, com uma sensibilidade artística especial, mas com problemas de saúde graves, que acabaram por debilitar ainda mais uma personalidade já naturalmente frágil.

Do casamento precoce ao início do sucesso à frente do Joy Division, o filme vai fazendo a ponte entre a vida pessoal de Curtis e suas letras aparentemente herméticas e incompreensíveis. É nesse ponto que, para mim, Control se diferencia de outras biografias de rock. Ao invés de ficar romantizando a vida de um ídolo, Corbijn optou por nos mostrar a gênese do artista e sua evolução. E a cada música exibida no filme, vem aquele inevitável pensamento: “puxa vida, como o Joy Division era bom!”

Em sua curtíssima carreira, gravaram apenas dois discos e alguns compactos, mas, com certeza, fizeram mais pela música que muita banda consegue fazer ao longo de vinte anos. Unknow Pleasures e Closer são clássicos absolutos, discos imprescindíveis para qualquer pessoa em busca de bons sons.

No show que o New Order – banda formada por três quartos do Joy Division e que conseguiu forjar um som próprio e igualmente inesquecível – apresentou aqui em Brasília, há uns três anos, lembro-me de um cara, próximo de mim, que gritava enlouquecido toda vez que a grupo tocava alguma preciosidade do Joy (e eles tocaram três canções, se não me engano: Atmosphere, Transmission e Love Will Tear Us Apart).

Foi, certamente, para sujeitos como aquele, que Corbijn fez Control. E também para tipos como eu, que, ao contrário do outro, escutava a cada música caladinho, caladinho... Em êxtase.