
Houve um tempo em que mulher no
rock era tão raro como encontrar político honesto no Brasil.
Pioneiras como
Janis Joplin e
Grace Slick, do
Jefferson Airplane, tiveram que esperar quase 3 décadas para ver suas sementes finalmente germinando.
Aqui e acolá apareciam loucas iluminadas pelos deuses do
rock, mas, misteriosamente, essas aparições eram isoladas.
O movimento
punk, com seu ideário de quebra de todas as regras estabelecidas, parecia escancarar as portas para a mulherada, mas, com honrosas exceções, o
rock continuou dominado pela estética branca e masculina de sempre.
Graças à fantástica ampliação dos mercados musicais no mundo inteiro, os anos 90 viram uma explosão da música feita por mulheres. E elas chegaram com uma raiva e uma criatividade que, certamente, mudaram definitivamente a cara do
rock e da
música pop universais.
O grande barato desta geração surgida na década de 90, é que as garotas assumiram o controle total de todo o processo criativo, desde a composição até a execução das próprias canções e gerenciamento de suas carreiras. Nada da dependência nefasta de homens que muitas vezes só sugavam, sem oferecer muito em troca (não consigo deixar de pensar aqui em
Tina Turner, que, dona de um talento impressionante, se submeteu, durante anos, à ditadura imposta pelo marido e companheiro de palcos e estúdios,
Ike Turner).
Dessa turma que está mandando e desmandando no cenário atual, sou particularmente fã de
Chan Marshall, que sob o nome
Cat Power, tem encantado e seduzido ouvintes por onde passa.
Marshall evoluiu de uma típica cantora de banda alternativa, no início de vida profissional, para uma
crooner que deixa uma marca profundamente pessoal em tudo que canta. É só ouvir a versão arrasadora da moça para o clássico do cancioneiro americano,
New York New York (aquela eternizada por
Frank Sinatra), para entender todo o poder da gata.
Outra que acho hipnotizante é
Regina Spektor, russa criada nos Estados Unidos, e dona de uma belíssima voz. Quase todas as canções de
Spektor são levadas ao piano - influência direta de
Tori Amos, cantora de grande força dramática que colocou problemáticas tipicamente femininas no
pop americano do início da década passada - e não é raro que inclua até mesmo versos em russo em suas maravilhosas canções. Seu novo disco,
Far, mantém a qualidade e confirma
Spektor como uma das cantautoras mais promissoras da atualidade.
Tenho acompanhado com grande interesse, também, a carreira da inglesa
Natasha Khan que, por trás do nome
Bat For Lashes, gravou dois belíssimos trabalhos -
Fur And Gold e
Two Suns. Natasha é uma herdeira direta dos experimentalismos musicais da islandesa
Bjork. Aliás,
Bjork segue ativa, influente e atual e sua musicalidade original e personalíssima permanece uma das referências mais importantes da cena contemporânea.
Poderia ficar horas escrevendo sobre essas mulheres incríveis e seus discos extraordinários, mas o meu ponto é apenas reafirmar o óbvio: foi-se o tempo em que uma garota segurando uma guitarra e gritando ao microfone era uma espécie de aberração.
Hoje, elas não apenas vão à luta, como também determinam os rumos que a música do novo milênio vai seguir.