sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Os Tolos e os Ladrões

Elba Ramalho ganhou do Ministério da Cultura mais um ano de prazo para captar recursos via Lei Rouanet para seu DVD O Renascer das Águas. Desde junho do ano passado ela está autorizada a buscar 490 000 reais junto à iniciativa privada para produzir um o DVD ao vivo, que será gravado em Campina Grande.
Por Lauro Jardim
veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/

A notícia acima me foi enviada por um amigo e tirada do blog Radar on Line.

Não conheço os detalhes da referida Lei Rouanet nem muito menos os meandros pelos quais artistas e produtores culturais têm que enveredar para conseguir financiamento para seus projetos.

A grosso modo, parece-me que a Lei possibilita que empresas privadas possam deduzir de seus impostos devidos o que houverem investido em arte e cultura. Ou seja, o dinheiro que seria revertido para saúde, educação e segurança pública, via imposto de renda, acaba financiando espetáculos, peças de teatro, exposições etc.

A princípio não tenho nada contra. Acho que uma das funções do Estado é promover a cultura nacional e levá-la a todos os cantos deste imenso país.

O problema é quando a gente fica sabendo que “medalhões” do nosso meio cultural que, teoricamente, teriam como se bancar, se beneficiam – e muito – de uma Lei que deveria privilegiar pequenas iniciativas, movimentos populares e expressões tradicionais da nossa cultura.

Se, ao menos, os produtos gerados por meio de tal mecanismo chegassem ao público de maneira acessível, vá lá!

Mas, considerando que aqui em Brasília, por exemplo, ninguém paga menos que cem reais para assistir a um show de Maria Bethania, Caetano Veloso ou Chico Buarque, a conclusão óbvia a que se chega é que estamos pagando duas vezes para manter essa gente! E caro!

Eu, particularmente, estou fora.

Enquanto milhares de artistas penam para sobreviver com um mínimo de dignidade, a proprietária de aviões chamada Ivete Sangalo segue se aproveitando de brechas de uma lei canhestra para financiar suas superproduções.

Besta é quem ainda acha esse povo o máximo...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Doces Vozes: Margo Timmins

Margo Timmins é a voz angelical que embala o country rock da banda canadense Cowboy Junkies. Quando o grupo surgiu, na segunda metade da década de 80, parecia uma visão celestial: country e blues tocados em ritmo lento, com instrumentação esparsa, arranjos reduzidos ao essencial e, pairando acima de tudo, a voz sussurrante e doce de Margo.

O LP The Trinity Session, lançado em 1988, despertou a atenção da crítica e de um público em busca de uma sonoridade que viesse despida dos truques de estúdio típicos da época. As versões ultrapessoais do grupo para clássicos como Sweet Jane, do Velvet Underground e I’m So Lonely I Could Cry, de Hank Williams, viraram cartões de visitas e rapidamente os canadenses estariam em trilhas sonoras (Assassinos Por Natureza, de Oliver Stone) e na boca de outros artistas. Aqui no Brasil, por exemplo, Renato Russo era fã de carteirinha.

Eles gravaram mais dois discos excepcionais: The Caution Horses, de 1990, uma obra-prima pouco lembrada, mas simplesmente inesquecível para quem teve a chance de ouvi-la e Pale Sun Crescent Moon, de 1993, este com uma pegada mais roqueira e com potenciais sucessos radiofônicos (isso se houvesse programadores de rádio dotados de inteligência).

O grupo continua em atividade, no entanto desde 1996, quando lançaram Lay It Down, um trabalho irregular, mas com momentos de brilho, não têm apresentado mais nada à altura dos primeiros trabalhos.

Já está mais do que na hora de eles nos encantarem novamente e demonstrarem para toda uma nova geração como se faz música “de raiz” sem cair na simples paródia.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Dischi Italiani

Na cena final de Roma, de Fellini, um grupo de umas 50 vespas percorre as ruas da capital italiana, em velocidade estonteante e barulho ensurdecedor. O típico meio de transporte dos romanos praticamente sumiu de circulação. Em seu lugar, um número cada vez maior de carros.

Sinal dos tempos? Pode ser, mas, em tempos de consciência ambiental em alta, não deveria ser justamente o contrário? De qualquer maneira, o trânsito italiano segue um caos controlado que, pelo jeito, só eles entendem.

Nada que diminua o prazer de andar pelas ruas repletas de história e arte. A Itália é um deleite para os sentidos. Do aroma onipresente das pizzas à visão inesquecível da Vênus de Botticelli, tudo no país parece ter sido planejado para deslumbrar.

Inclusive as lojas de discos. A começar pelo tamanho. Nada de pocilgas claustrofóbicas e empoeiradas. Os espaços são, em geral, amplos e bem harmonizados. A música italiana divide espaço com a música internacional e a variedade de títulos impressiona. Os preços são, em sua maioria, salgados, mas com boa vontade e determinação é possível achar algumas pechinchas.

Na Via Del Corso, em Roma, encontram-se algumas das maiores lojas da Itália. A Messaggerie Musicale e a Ricordi Media Store são típicas megastores, com várias seções, abrangendo livros, dvd’s e até mesmo instrumentos musicais (no caso da Ricordi).

Numa zona menos nobre da cidade, próxima à estação central Termini, encontra-se a ótima Discoteca Laziale. Grande, porém acolhedora e, melhor de tudo, com funcionários que sabem o que estão vendendo. Boa seleção de rock alternativo.

Em Florença, bem pertinho da Galeria Uffizi, há uma loja independente que é, realmente, o sonho de qualquer colecionador. Com foco no vinil, seja ele novo ou usado, é difícil não encontrar algo muito interessante. Para se ter ideia, comprei o segundo disco dos Mutantes, que está fora de catálogo por aqui e é, ao que tudo indica, mais valorizado lá fora, mesmo.

Para completar, o próprio dono, um italiano simpático e prestativo, nos atendeu e quando descobriu que éramos brasileiros, colocou um disco de Caetano Veloso da década de 60 para tocar. O interior desse pequeno templo para fanáticos, chamado Data Records e localizado na Via Dei Neri, nº 15/r, ilustra esta postagem.

O outro destaque da viagem ficou por conta da FNAC italiana. Ao contrário do que aconteceu aqui no Brasil, onde a rede francesa parece ter abandonado a seção de discos, nas lojas tanto de Verona quanto de Milão há uma inflação de bons títulos e preços ligeiramente mais baixos. Boxed Sets de deixar qualquer colecionador babando, além de uma modesta prateleira de bolachões completam o cenário.

Serviço:

Discoteca Laziale
Via Giollitti, 263 00185 Roma tel. 06-44714500

Ricordi Media Stores
Via del Corso, 506 Roma tel. 06-3612370

FNAC Roma
Galleria Commerciale Porta di Roma
Via Alberto Lionello 201 Roma tel. 06-98263001

FNAC Milão
Via Torino Ang. Via della Palla Milão tel. 02-869541

Libraccio
Viale V. Veneto, 22 Milão tel. 02-6555681

Ricordi Media Stores
Via U. Foscolo, 3 Milão tel. 02-86460272

FNAC Verona
Via Cappello 34 Verona tel. 045-8063811

Il 23
Via G. Barbarigo, 2 Pádua

MelBookstore
Via De Cerretani, 16/R Florença tel. 055-287339

Data Records
Via Dei Neri, 15/R Florença

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Para Todos os Gostos

2010 começa com uma verdadeira avalanche de shows internacionais aportando por aqui. Bem, ao menos, no eixo Rio-São Paulo.

Em fevereiro, o melhor candidato a próximo U2 chega ao Brasil com a turnê de seu último disco, o campeão Viva La Vida. Estou falando, é claro, da banda britânica Coldplay, um dos poucos grupos da atualidade que consegue unir grande popularidade com qualidade musical (os outros são Green Day, U2 e R.E.M.).

Também desembarcando em território nacional, em março, o Guns And Roses deve matar a saudade de quem achava que eles eram a maior banda de hard rock de todos os tempos (será que sobrou alguém?). Axl Rose - e quem quer que o acompanhe - passará, inclusive, pela Capital Federal. Estou ainda à espera da divulgação do set list para decidir se vale à pena ir. Se for totalmente baseado no último disco, o pífio Chinese Democracy, é caso de deixar para uma próxima...

Agora, acho que imperdível mesmo é conferir as apresentações do A-HA, a banda norueguesa mais popular de todos os tempos e autora das inesquecíveis Take On Me, Hunting High And Low e I’ve Been Losing You. O grupo recentemente anunciou sua aposentadoria, portanto, essa deve ser a última turnê. E a última chance de conferir se o vocalista Morten Harket ainda consegue dar aqueles agudos matadores. Dá-lhe nostalgia!

Serviço:

Coldplay
Rio de Janeiro (28 de fevereiro) e São Paulo (2 de março)

Guns’n Roses
Brasília (7 de março), Belo Horizonte (10de março), São Paulo (13 de março), Rio de Janeiro (14 de março) e Porto Alegre (16 de março)

A-Ha
São Paulo (25 de março) e Rio de Janeiro (26 de março)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Que Venha 2010!

Charles Dickens em seu Um Conto de Duas Cidades, abre a narrativa com a clássica frase: Foi o melhor dos tempos e foi o pior dos tempos... Acho que, na verdade, todos os tempos são um pouco assim. Não acredito nessas pessoas que abrem o bocão para anunciar aos quatro ventos que tiveram um ano perfeito. Igualmente não levo a sério quem proclama apenas desgraças.

Dentro desse espírito, penso que 2009 veio carregado de notícias ruins, mas também trouxe coisas muito legais.

O lado pesado do planeta segue seu curso, sem se dar conta da passagem do tempo (fico me lembrando aqui de Renato Russo cantando enquanto o caos segue em frente/com toda a calma do mundo).

Michael Jackson nos deixou cedo demais, assim como Farrah Fawcet, a linda pantera que lutou para provar que era, antes de tudo, uma boa atriz.

Assistimos incrédulos à patifaria no Senado da República e, aqui em Brasília, ao escândalo do governador José Roberto Arruda, que, por enquanto, não resultou em punição de ninguém...

Mas coisas boas vieram no bojo de tanta sacanagem. O Vitrola Encantada foi uma dessas. Este espaço modesto me proporcionou recordar fatos há muito esquecidos, discos empoeirados, revistas amareladas. Melhor que tudo, me colocou em contato com pessoas que, assim como eu, comem, bebem e respiram música e arte.

Acho que o fato de estar escrevendo sobre música intensificou minha paixão e, efeito colateral, aumentou sensivelmente minha coleção.

Das boas surpresas que me apareceram em 2009, destaco:
Cold Fact. Rodriguez.
Clássico perdido dos anos 60, resgatado em toda sua beleza bruta.

A Pedra de Esmeralda. Jorge Ben.
Daqueles discos que nos mostram que a música brasileira já foi popular e vanguardista num mesmo pacote.

Two Suns. Bat For Lashes.
Mais um disco a provar que as mulheres estão definitivamente na linha de frente daquilo que se faz de mais inovador na música contemporânea.

The Pains Of Being Pure At Heart.
Banda que a reaviva a chama do rock oitentista, sem cair no óbvio.

Luz Negra. Fernanda Takai.
Uma ótima surpresa. Takai, que não me dizia nada como vocalista do Pato Fu, desponta como uma das boas promessas da música brasileira que olha para o futuro, sem esquecer de coisas boas do passado.

Lungs. Florence And The Machine.
Até segunda ordem, o melhor disco do ano passado.

The Crying Light. Antony And The Johnsons.
O cantor mais original da atualidade em mais uma obra de sensibilidade e emoção à flor da pele.

Together Through Life. Bob Dylan.
O veterano bardo americano crava outro clássico em uma discografia rica em discos importantíssimos.

Further Complications. Jarvis Cocker.
O vocalista da cultuada banda britânica Pulp, em seu segundo (bom) disco solo.

Os Mutantes.
O primeiro álbum do grupo paulista segue intocável em sua aura de genialidade e abundante criatividade. Para se redescobrir sempre!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Na Tribo dos Maníacos

Saudade é um sentimento estranho. Vem de repente, sem dar aviso. Dia desses, me peguei saudoso de uma banda americana surgida lá nos anos 80. Chamava-se 10,000 Maniacs e tinha uma vocalista doce, inteligente e sensível. Essa moça, que atende pela graça de Natalie Merchant, continua na ativa, mas lança discos com um espaço de tempo cada vez maior.

Os Maniacs surgiram no início da década de 1980 e, ao lado de bandas como R.E.M., Hüsker Du e The Replacements, protagonizaram o movimento que viria a ficar conhecido como college rock. O nome do movimento fazia referência a bandas que muitas vezes nasciam em campus universitários e que eram divulgadas por fanzines e rádios comandadas por estudantes.

No final da década, o R.E.M. se tornou mundialmente conhecido, assinou contrato com uma grande gravadora e escancarou as portas do mercado para nomes como Nirvana e Pearl Jam. Mas isso já é outra história...

O 10,000 Maniacs nunca atingiu o mega-estrelato, mas marcou os corações das poucas pessoas que o conheceram.

Para mim, eles gravaram 3 discos excelentes: In My Tribe (1987), Blind Man’s Zoo (1989) e Our Time In Eden (1992), sendo que este último chega perto da perfeição. A bela voz de Merchant conduz o ouvinte por canções que podem ser lidas como microcontos. Tudo com o elegante instrumental que atualizava a folk music americana, com toques de reggae, pop e música clássica.

Não consigo pensar em nenhum grupo depois deles que soe tão honesto e verdadeiro. É por isso que, vez ou outra, vem aquela saudade boba.

É aí que somente a voz inesquecível de Natalie, cantando Don’t Talk ou Jezebel, pode me trazer algum consolo...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Recomendo

Por Lázaro Luis Lucas

Em tempos de Leila Lopes, vale a pena conhecer JCVD, uma produção franco-belga produzida e estrelada pelo ator Jean-Claude Van Damme. Há um monólogo durante o filme - é quase um pedido de desculpas do astro aos seus fãs espalhados por todo o mundo - que, mesmo despropositado, irá emocionar todos aqueles que seguiram a carreira cinematográfica deste lutador.

Uma dica: se você aprecia áudio original com legendas, selecione o áudio em francês (2.0 ou 5.1), já que o dvd lançado no Brasil vem com as opções de dublagens em inglês e português. No original, são muito poucos os diálogos em inglês (preservados no áudio em francês).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Vitrola Natalina

Quanto mais velho fico, mais me parecem despropositadas datas como dia das crianças, dos pais e, sobretudo, o Natal.

Talvez por não possuir nenhuma crença religiosa, o que vejo na data é apenas uma histeria generalizada que faz as pessoas correr para shoppings abarrotados, enfrentar preços altos, filas e estacionamentos lotados. Definitivamente, estou fora!

Além do mais, o que percebo nas pessoas, de uma maneira geral, é que o tal espírito natalino se diluiu a ponto de ter perdido todo seu sentido original. Até mesmo aquelas insuportáveis canções que enchiam o saco todo final de ano se tornaram cada vez mais raras. Melhor assim. Afinal, ninguém podia mais aguentar John Lennon desejando paz e amor para toda a humanidade em Happy Xmas (War Is Over), repetida infalivelmente nas tevês nacionais, com tradução simultânea e tudo.

Muito pior que isso, foi nossa chatérrima Simone e seu inacreditável disco de natal. A cantora, com seu indefectível sotaque soteropolitano, assassinou não só o clássico do Lennon (que ganhou uma letra em português para lá de ridícula), como perpetrou outros crimes contra o bom velhinho e sua gang de duendes e renas. Um atentado contra a imaginação e o sonho de milhares de crianças Brasil afora, sem dúvida.

Agora, para quem gosta de canções natalinas e não abre mão da qualidade musical, vale à pena ir atrás do histórico disco de 1963, A Christmas Gift For You, produzido por Phil Spector, um dos maiores e mais criativos produtores musicais de todos os tempos. Clássicos temas de final de ano com os luxuosos arranjos tramados por Spector e belissimamente interpretados por gente como Darlene Love, The Ronettes e The Crystals.

É diversão garantida mesmo para quem não dá a mínima para o 25 de dezembro.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Camisinha de Música

Como o dia 1º de dezembro é o Dia Mundial da Luta Contra a AIDS (ou SIDA, como seria mais apropriado dizer em português), relembro aqui no Vitrola o primeiro disco da Organização Red Hot, que se utiliza da música para conscientizar as pessoas da importância do sexo seguro como medida fundamental de proteção contra o vírus HIV.

Lançado em 1990, quando a AIDS ainda era vista como um problema exclusivo da população homossexual masculina e dos usuários de drogas injetáveis, o álbum duplo reuniu a nata da música pop de então, em covers exclusivos das canções do compositor norte-americano Cole Porter.

Homossexual numa época em que ninguém ousava assumir-se, Porter escreveu algumas das mais importantes canções do cancioneiro ocidental, tendo sido regravado por incontáveis artistas no mundo inteiro.

Havia, portanto, material de qualidade em abundância para ser escolhido pelos artistas do projeto. Alguns subverteram completamente a musicalidade original das canções de Porter, adaptando-a ao seu próprio estilo.

Caso de Neneh Cherry, que abre o disco com uma versão irreconhecível de I’ve Got You Under My Skin, dançante e contemporânea. Na mesma linha, Iggy Pop e Deborah Harry fazem de Well, Did You Evah, um rock perfeito para suas vozes.

David Byrne, mergulhado em ritmos latinos, faz um som meio Olodum em Don’t Fence Me In, para mim uma das melhores do disco.

Mais tradicionalista, Sinéad O’Connor posa de diva em You Do Something To Me, enquanto Annie Lennox, sóbria e elegante, emociona com sua lindíssima interpretação de Every Time We Say Goodbye.

Em resumo: se o disco ajudou ou não a conscientizar o povo, é um mistério, mas, como introdução ao rico universo de um dos maiores compositores de todos os tempos, é imperdível!

Aids


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A Animação e a Diversidade Sexual

Por Lázaro Luis Lucas


Enquanto a telenovela brasileira e todos os demais programas produzidos neste país ainda insistem em tratar da diversidade sexual da maneira mais lamentável possível - seria melhor que ignorasse solenemente a questão -, a produção em animação, seja para a TV ou cinema, realizada em todo mundo livre, vem surpreendendo cada vez mais.

Produções como Barry e a Banda das Minhocas (Dinamarca, 2008), concebidas para entreter o público infanto-juvenil, adolescente e adulto, vêm fazendo um excelente trabalho de inclusão de personagens homossexuais nas tramas. Até mesmo os vilões homossexuais estão repletos de carisma.Se houver alguma dúvida, é só acompanhar algum episódio das primeiras temporadas de As Meninas Super-Poderosas.

Outras séries produzidas para a TV que também apresentam tramas sobre a diversidade sexual ou personagens fixos de orientação homossexual são Du, Dudu e Edu, Coragem - O Cão Covarde e Os Padrinhos Mágicos. Ficando apenas naqueles que mais me impressionaram.

No caso de Coragem - O Cão Covarde, por exemplo, um episódio inteiro tratava do amor entre duas felinas, impossibilitado por um gângster que mantinha uma delas cativa, usando uma máscara sem qualquer personalidade. Com a ajuda do assustado cãozinho, ambas conseguem fugir do vilão e ao término acompanhamos a partida delas em um trem rumo à felicidade pretendida. Por fim, a câmera ainda foca a máscara destruída no chão. Uma ousadia para os nossos padrões e um belo exemplo de respeito às diferenças.

Por fim, não se pode deixar de falar nos longas-metragens e na série de TV Lilo e Stitch. Na minha opinião, a franquia mais gay friendly de que se tem notícias. Simplesmente, deliciosa.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Insustentável Peso do Som

Acho impressionante que uma banda de mais de três décadas de atividade, que já perdeu seu carismático vocalista original e sempre foi acusada de repetir o mesmo som disco após disco, continue atraindo multidão a seus shows e, mais surpreendente ainda, continue vendendo muitos discos numa época em que ninguém mais se dá ao trabalho de comprá-los.

É o caso da banda australiana AC/DC, que se apresenta hoje, na cidade de São Paulo , num show que teve ingressos esgotados à velocidade da luz.

O que há de tão especial na banda de Angus Young e Brian Johnson? A princípio, nada. Mas, numa análise mais cuidadosa, há tudo.

O AC/DC é um caso raríssimo de uma instituição roqueira. Eles, há muito, transcenderam o simples rótulo de banda de hard rock e se inseriram no imaginário da história do rock, como somente as grandes bandas conseguem. Do grupo de garagem que tinha um guitarrista excêntrico, eles acabaram se tornando um mito, um símbolo de molecagem e fé no ideário rock’n’roll.

Encontro paralelo somente nos Ramones, com a diferença de que o grupo nova-iorquino nunca atingiu os números impressionantes alcançados pelo AC/DC.

Contra o grupo há o batido argumento de que são repetitivos e acomodados. Bobagem. Ainda que não tenham gravado nada de realmente relevante desde Back In Black, disco de 1980, o AC/DC segue perfurando tímpanos e encantando garotos bitolados e coroas beberrões. Para estes, a trilha sonora ideal ainda é um bom duelo de guitarra entre os irmãos Young.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Última Flor

Há muito se discute sobre as reais qualidades literárias de uma boa letra de música. É poesia ou não? A coisa se complica muito quando música e texto de altíssima qualidade andam de mãos dadas. É o caso de grande parte da música brasileira.

Uma recente enquete da edição nacional da revista Rolling Stone revelou que Construção, música e letra de Chico Buarque, é a melhor canção brasileira de todos os tempos.

Se formos analisar os versos de Buarque, fica muito claro que a eleição de sua obra-prima, de 1971, deve muito à rica construção gramatical, cheia de versos terminados em palavras proparoxítonas, e suas metáforas asfixiantes da dura realidade do Brasil dos anos de chumbo.

É lógico que o incrível arranjo, que evolui de um simples samba para um épico cinematográfico em brilhante tecnicolor, torna a canção ainda mais impressionante, mas quando pensamos em Construção nos vem imediatamente à cabeça A Letra.

Para mim, não há mistério. Não consigo ver muita distinção entre Carlos Drummond de Andrade e a melhor produção de Caetano Veloso ou entre a depuração lingüística de João Cabral e o intricado universo de Chico Buarque.

Algumas letras de Antonio Carlos Jobim me emocionam tanto quanto os versos tristes alegres de Manuel Bandeira.

As palavras de Renato Russo tiveram um impacto tão grande em minha psique quanto os versos românticos de Álvares de Azevedo e Castro Alves.

Penso que, num país de analfabetos e alfabetizados que não lêem como é o Brasil, a música cumpre um papel fundamental de disseminação de ideias, cristalização de expressões e falares regionais e - mais importante - de perpetuação da musicalidade e beleza inerentes a nossa amada, inculta e bela Língua Portuguesa.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Prova dos Três

The Killers, The Strokes, Kaiser Chiefs e Arctic Monkeys. Todas, bandas jovens. Todas, já em seu terceiro disco. E a pergunta que não quer calar é a seguinte: o que ficou do brilho e do talento demonstrado no primeiro disco?
As respostas variam de uma para outra banda, mas é inegável que nenhuma delas repetiu os resultados empolgantes do primeiro trabalho.O The Killers, que esteve este final de semana se apresentando em São Paulo , lançou em 2004 o cd Hot Fuss, um dos melhores daquele ano, campeão de vendas e verdadeira fábrica de sucessos.
As expectativas em relação ao segundo eram, naturalmente, muito grandes. Sam’s Town, de 2006, não decepcionou quanto aos singles de sucesso. Estão lá belas canções como When You Are Young, Bones e Read My Mind, mas falta a unidade do disco anterior.
Ainda assim, eu me mantive com fé em Brandon Flowers e seus companheiros. Fé que se despedaçou em Day And Age, um trabalho anêmico que apenas chafurda nos bons sons dos anos 80. Para mim, não se salva nada.Já o Kaiser Chiefs surgiu como um verdadeiro furacão no cenário estagnado do rock inglês e lançou, em 2005, o ótimo Employment.
Puxado pelo grito de guerra chamado I Predict A Riot, o disco reeditou os melhores momentos do britpop, ao mesmo tempo em que citava influências de Beatles, Kinks e The Jam.
A mágica durou pouco. Os discos seguintes dos Chefes são imitações apagadas do esplendor de sua estréia.
No caso do The Strokes, o grupo novaiorquino parece nunca ter conseguido fazer jus a seu auspicioso début. Is This It causou furor entre críticos, modernos e jovens roqueiros.
Eu, particularmente, não vi motivo para tanto barulho. Para mim, eles apenas reciclam o som de garagem de gente como The Stooges, Velvet Underground e The Modern Lovers. Sem a mesma criatividade, diga-se de passagem.
Nos trabalhos seguintes, o que já era diluição virou pura repetição. Mas para não dizerem que tenho má vontade com o grupo, até gosto um pouquinho do segundo disco, Room On Fire.
Finalmente, deposito grandes esperanças no Arctic Monkeys, grupo de jovens ingleses que se beneficiou de ampla propaganda via My Space e surgiu como uma das grandes promessas do rock britânico feito nos anos 2000.
O primeiro disco é ótimo, o segundo não é nenhuma maravilha, mas também não é nenhum horror e o terceiro...
Bem, o terceiro já está na estante esperando sua devida apreciação. De qualquer maneira, tendo sido produzido por Josh Homme (o homem por trás do ótimo Queens Of The Stone Age), espero, no mínimo, um grande disco de rock.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Vampiros de Plástico

O que faz um produto – um filme, um disco ou um livro – se tornar um fenômeno de massa? Pode ser o tema explosivo (caso da polêmica tola em torno de O Código Da Vinci), o apelo sexual (aqui os exemplos são inúmeros, indo de Madonna até a nossa querida Gretchen) ou mesmo o simples sensacionalismo da mídia (a “artista” conhecida como Lady Ga Ga é um caso bem recente de exploração exagerada de pseudo-escândalos e ousadias feitas sob medida para os tablóides do óbvio).

Mas para explicar alguns fenômenos, só mesmo um bom psicólogo.

É o caso da série de filmes da saga Crepúsculo. Os livros que os originaram são best-sellers mundiais que já fizeram fortuna para a escritora Stephenie Meyer. A trama recicla clichês de histórias de vampiros com clichês de dramas adolescentes. Ou seja, haja lugar comum.

Mas o fato é que pegou. As garotas, sobretudo, sentem-se identificadas com a protagonista apaixonada por um rapaz enigmático, que acaba se revelando um vampiro sensível e bonzinho.

Passei batido pelos livros. Talvez porque já esteja um pouco velho para dramas plastificados ou talvez porque já tenha tido minha dose de chupadores de sangue.

Quando li os livros de Anne Rice sobre o cultuado vampiro Lestat, confesso que vivi uma fase de profundo interesse pelo tema. Isso sem contar os milhares de filmes vampirescos que se acumulam em minha memória, que vão desde o antológico Drácula, estrelado por Bela Lugosi, até os deliciosos pastiches da produtora inglesa Hammer. Como tudo na vida passa, isso também passou.

Mas resolvi dar uma chance à versão cinematográfica do primeiro livro da série, dirigido por Catherine Hardwicke e lançado em 2008. Durante longas duas horas, lutei para me manter acordado diante de tamanha bobagem. Atores sofríveis, história risível, direção apática e uma falta de emoção tão gritante que se chega a pensar que todo o projeto foi feito realmente por mortos-vivos.

No dia seguinte à sonolenta experiência, entro numa banca e escuto duas garotas namorando, embevecidas, uma revista com o casal do filme estampado na capa. A falta de vocabulário típica dessa fase da vida impedia as "fofas" de expressar melhor seu imenso amor pelo ator Robert Pattinson, que faz o vampiro meigo.

Rendi-me, então, a um fato muito simples: enquanto houver adolescência, hormônios em ebulição e fotoshop de última geração, os Crepúsculos da vida continuarão a florescer.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Da Estante

Sei que falo muito de Beatles por aqui e, com o perdão de quem não gosta, vou pedir licença para falar mais uma vez.

É que estou lendo a monumental biografia do grupo escrita por Bob Spitz (The Beatles – A Biografia, Editora Larousse).

Ao longo de quase 1000 páginas, o autor reconstrói a carreira da banda de rock mais popular de todos os tempos, de uma maneira detalhista, vívida e cativante.

Embora esteja ainda no primeiro quarto do livro, já dá para perceber a formação da personalidade de cada um dos quatro cavalheiros de Liverpool: a vida familiar conturbada de Lennon, o talento precoce de Paul, os péssimos boletins escolares de Harrison, as primeiras namoradas, a chegada do rock na Inglaterra, a dificuldade do dia-a-dia no pós 2ª Guerra Mundial, enfim, tudo o que viria a se refletir nas letras e atitudes de cada um deles se encontra ricamente descrito.

Altamente recomendável não só para fãs de carteirinha como também para aqueles curiosos em conhecer melhor um período muito fértil para a música jovem no mundo todo.

No quesito biografias de músicos, aliás, as nossas livrarias ganharam dois novos títulos que devem despertar bastante interesse: Minha Fama de Mau, de Erasmo Carlos (Editora Objetiva) e Nem Vem Que Não Tem – A Vida E O Veneno De Wilson Simonal (Editora Globo), de Ricardo Alexandre.

Esta última imagino ser imperdível, afinal a trajetória desse grande cantor brasileiro mistura preconceito, popularidade, talento, arrogância, ingenuidade e decadência num mesmo coquetel explosivo. É para ler escutando Sá Marina e Nanã.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O Queen do Século XXI

O rock nasceu como música inconsequente, trilha sonora para bailinhos suarentos e diversão para garotos e garotas suburbanos.

É claro que, nos revolucionários anos 60, tudo isso mudou e críticos e estudiosos sérios começaram a ver na nova música uma forma de expressão artística bastante representativa de sua época.

Discos como Revolver (The Beatles, 1966) e Pet Sounds (The Beach Boys, 1966) mostraram todo o potencial e riqueza musical que o rock podia trazer em canções simples de três minutos.

Só que alguns músicos não se contentam com pouco. Para eles, não basta compor melodias grudentas, ritmos irresistíveis e letras inesquecíveis. É preciso dar ao rock uma fachada de complexidade que o aproxime de coisas mais socialmente aceitas como a música clássica e o jazz.

Uma bobagem, é claro, mas dessa ambição nasceram grandes discos como Fragile (Yes, 1972), Larks Tongues In Aspic (King Crimson, 1973) e A Night At The Opera (Queen, 1975).

O furacão punk tratou de varrer da face da terra tais delírios de grandeza, mas volta e meia aparece uma banda que ressuscita essa estética de exageros, com resultados mais ou menos interessantes.

Curiosamente, a melhor ópera rock dos últimos anos foi gravada por um grupo que começou se apropriando da estética punk e fazendo, portanto, discos muito rápidos e diretos, o Green Day. American Idiot, lançado em 2004, fez uma raivosa radiografia dos anos Bush, num conjunto de canções que se ligam e formam um todo coeso e intenso. Não por acaso é o melhor disco do trio.

Recentemente o Green Day tentou repetir a fórmula no menos inspirado 21st Century Breakdown. Batendo perto dos 80 minutos – se fosse nos anos 70, seria um duplo -, não chega a ser um disco ruim, mas também não chega a empolgar.

Agora, quem gosta de muito piano, refrões bombásticos, vocais dramáticos, canções que se dividem em vários movimentos, não deve deixar de checar o trabalho da banda britânica Muse.
Verdadeiro gigante lá pelas ilhas – comparáveis atualmente a Oasis–, o Muse ainda não atingiu o mega sucesso mundial de um Coldplay, mas segue gravando discos em que chupa descaradamente a estética operística do Queen, revestindo-a com um tratamento moderno e produção de última geração (o que o Queen, se a gente for pensar bem, já fazia com os recursos de sua época).

O auge do estilo melodramático metido a besta do Muse foi atingido com o excelente Black Holes And Revelations, de 2006. Nele, o cantor e compositor Matt Bellamy conseguiu equilibrar perfeitamente sua veia erudita com seu inegável talento para compor boas músicas pop.

No novo disco, The Resistance, sai o afiado artífice pop e fica apenas o compositor erudito frustrado. É tanto piano, coro, pausas dramáticas e vocais afetados que, lá pelas tantas, a gente fica achando que está escutando a mesma música repetidas vezes. E, no final, descobrimos que essa impressão é verdadeira. As três últimas músicas são uma sinfonia dividida em três partes. Funciona? Para mim, não.

Nas três primeiras faixas do disco, o Muse continua mostrando que tem garra e habilidade para fazer um bom disco de rock. Uma pena que a ambição desmedida de Bellamy o faz esquecer que ele deveria ficar somente nisso.