terça-feira, 2 de março de 2010

Recomendo

St. Vincent é o nome sob o qual a cantora, compositora e instrumentista Annie Clark se apresenta e lança discos.

Actor é seu segundo trabalho e, de uma certa maneira, uma continuação do também excelente Marry Me, disco de 2007 que revelou o talento desta interessante artista.

Ricos arranjos emolduram a bela voz de Clark, que avançou muito tanto como compositora quanto cantora.

A minha preferida aqui é Save Me From What I Want, mas todas as faixas trazem bons momentos, sobretudo porque Clark imprime melancolia, charme e até uma boa dose de humor em cada passagem.

Altamente recomendável para fãs de Regina Spektor, Rufus e Martha Wainwright e Tori Amos.

Luto

Acho que todo mundo que é apaixonado por literatura, livros e cultura fica um pouquinho triste com a morte de José Mindlin, aos 95 anos.

Colecionador, aficionado e, sobretudo, eterno amante do mundo dos livros, Mindlin foi um brasileiro como poucos.

A lacuna que ele deixa dificilmente será preenchida.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Os piores discos de todos os tempos

Nem só de Sgt. Peppers e Pet Sounds vive a discoteca de um homem. Quem compra muito, erra muito também. Alguns são erros divertidos. Outros, nem tanto.

A seguir uma listinha maldita dos discos mais calhordas que já caíram em minhas mãos:
1Supposed Former Infatuation Junkie. Alanis Morrisette.
Ai, ai, Alanis, após a promissora estréia com Jagged Little Pill, você vendeu trocentos milhões de cópias, criou uma verdadeira sub-raça de moçoilas iradas e cansativas cantando sobre desilusões amorosas e, de repente, colocou tudo a perder com este disco insuportável, longo e vazio.

2Alive III. Kiss.
Donos de um dos melhores discos ao vivo de todos os tempos, o Kiss manchou seu passado de reis dos palcos com esse caça-níquel descarado que mais parece um disco de estúdio com barulho de público superposto. Não é a toa que logo após eles voltariam a excursionar mascarados.

3 Voodo Lounge. The Rolling Stones.
Toda grande banda tem seu momento bandalheira. Mas entre todas as pisadas de bola dos Stones – que não foram poucas - nada pode ser pior que esse disco frouxo e cafona. Salva-se apenas Love Is Strong, que gerou também um dos mais belos vídeos já feitos.

4Never Let Me Down. David Bowie.
O Bowie dos anos 80 é uma tragédia. Com exceção do grande Scary Monsters, todo o resto de sua produção durante aqueles anos é medíocre. Never Let Me Down é a quintessência da porcaria camaleônica, um trabalho tão confuso e sem foco que fica difícil chegar até o final. Até o Tin Machine é melhor!

5Be Here Now. Oasis.
Quando o Oasis lançou este disco em 1997, eles já eram a maior banda britânica da época. Com a popularidade e o prestígio alcançado com Morning Glory – o disco anterior – eles poderiam ter feito literalmente qualquer coisa. Optaram, então, por fazer um disco pretensioso, oco, estúpido, arrastado e destituído de boas canções. Nem a pior sobra dos Beatles poderia ser tão ruim...

6The Great Escape. Blur.
Outra grande banda do Britpop, o Blur se caracterizou por um ecletismo maior em suas influências e por um maior refinamento em suas composições. Mas este disco é um verdadeiro samba do crioulo doido, um amontoado de canções metidas a engraçadinhas e, no final das contas, muito chatas.

7 Estampado. Ana Carolina.

Ao contrário do que muita gente pensa, não odeio Ana Carolina. Acho apenas que ela se vendeu de forma tão descarada que toda a qualidade de seu trabalho inicial se perde um pouco na minha memória. Este disco é o momento no qual a cantora interessante se torna um pé-no-saco. Muita canção de dor de cotovelo para tocar na novela das 8 e ainda uma parceria com Seu Jorge na moderninha O Beat da Beata, de letra tão absurda que beira o ridículo.

8Líricas. Zeca Baleiro.
Baleiro é o tipo de artista brasileiro que já deveria ter sumido do mapa há séculos. Tudo de mais pretensioso, cabeça e metido que pode existir na nossa música circula livremente pela obra deste maranhense pentelho. Para completar a desgraça, este disco de baladas horrorosas ainda traz uma versão cachorra para Proibida pra mim, “clássico” do Charlie Brown Jr. Saravá, meu pai!

9Fina Estampa. Caetano Veloso.
Falando bem sinceramente: Caetano Veloso já devia ter se aposentado há uns 20 anos. Nas últimas décadas, sua obra se resume a composições de gosto duvidoso, discos ao vivo e álbuns de versões. Fina Estampa é um apanhado de clássicos do cancioneiro hispânico tão tedioso que espanta até professor de cursinho de castelhano.

10Acústico MTV. Gal Costa.
Tentativa patética de aproximação de Gal da geração MTV, este disco pavoroso só serviu para evidenciar a decadência artística desta, antes, grande cantora. Assistir ao vídeo do programa é ainda mais constrangedor: Gal não se deu ao trabalho sequer de decorar a letra de certas músicas!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Os Beatles Suecos

Na cena final do filme Mamma Mia, as atrizes Meryl Streep, Julie Waters e Christine Baranski interpretam o clássico Dancing Queen em ridículas roupas vindas diretamente dos anos 70.

É o melhor momento de um musical meio sem pé nem cabeça que só se segura pelo carisma de Streep (haverá no universo outra atriz como esta?) e pela simpatia do restante do elenco. Preenchendo as lacunas de um enredo bobinho, estão as músicas do grupo sueco de maior sucesso da História, o ABBA.

Durante muito tempo eles foram para mim uma espécie de epítome da cafonice e do romantismo meloso. Canções como Fernando e Chiquitita ganharam inusitadas versões da paraguaia Perla, o que, de certa maneira, só fez aumentar a aura de brega em torno dos suecos.

Foi preciso conhecer a coletânea Gold, um álbum duplo com 19 sucessos, para que eu redescobrisse a perfeição das composições de Benny Anderson e Bjorn Ulvaeus e os vocais impecáveis das sereias Agnetha Faltskog e Anni-Frig Lyngstad.

Dancing Queen, Voulez-Vous, Lay All Your Love On Me, Super Trouper, Waterloo e tantas outras são canções-celebrações, pequenas peças de 3 a 4 minutos, que têm a mágica capacidade de nos fazer um pouquinho mais felizes.

Não por acaso, o culto à banda só tem crescido nas últimas décadas. Considerando que eles não gravaram nada de novo desde o início da década de 80 e que supostamente recusaram propostas bilionárias para uma nova turnê, é o caso de se concluir que tamanha adoração mundial deve-se exclusivamente à qualidade perene de suas canções.

É por isso que podemos, sem nenhum exagero, chamá-los de Beatles suecos.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Uma História da Delicadeza

Uma das coisas ruins de envelhecer é que a gente vai ficando cínico. Talvez cínico seja um tanto forte, mas o fato é que vamos perdendo o encanto; aquele deslumbramento que sentimos com determinadas obras fica cada vez mais raro.

Não consigo, por exemplo, sequer me interessar por um filme como Avatar. E não adianta me falarem que é o máximo, que os efeitos são isto ou aquilo, que é uma revolução na forma de se fazer cinema etc. O fato puro e simples é que quanto mais caros e tecnológicos ficam os filmes, mais pobres se tornam suas histórias.

É por isso que quando descubro uma pequena maravilha como Contos de Tóquio, filme de 1953 do cineasta japonês Yasujiro Ozu, tudo se torna de novo encantador e surpreendente para mim.

Delicado drama familiar sobre um casal do interior do Japão que vai visitar os filhos já adultos na cosmopolita Tóquio, o filme transcorre lentamente durante 2 horas e quinze minutos. Cada mínimo detalhe é captado pela câmera sóbria de Ozu: gestos, expressões, sorrisos e lágrimas vão, aos poucos, compondo o descompasso entre os pais idosos e os filhos ocupados e insensíveis.

Toda a sutileza do mundo passa pelas mãos hábeis de Ozu, que constrói essa história universal de uma maneira realmente muito oriental. É preciso reeducar o olhar para poder apreciá-lo. Nossa cabeça, violentamente exposta a blockbusters explosivos de Hollywood e a baixarias televisivas, leva um choque.

Uma vez entregue ao particular ritmo de Ozu, no entanto, a epifania é completa: não pode haver um cinema mais rico e belo que este.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A Principal Evidência

Por Lázaro Luis Lucas

Por falar na deslumbrante e talentosíssima Helen Mirren, não posso deixar de registrar aqui que a MARAVILHOSA série dramática Prime Suspect, no Brasil A Principal Evidência, está sendo lançada em DVD no mercado.

Pelo menos a 1ª e 2ª temporadas. Faltam, ainda, cinco. Exibidas pela HBO como longas, cada temporada tinha em média 3h30, 4h do melhor que a televisão lá de fora um dia já produziu.

Simplesmente obrigatória para os fãs do gênero drama-policial e desta grande atriz britânica.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Estréia Preciosa

Por Lázaro Luis Lucas

Com a estréia de Preciosa (2009) nos cinemas brasileiros, creio que muitos cinéfilos devem estar se perguntando por Lee Daniels, cineasta pouco divulgado no Brasil.

Para aqueles não iniciados no trabalho deste norte-americano, uma boa opção de cartão de visitas é o drama policial Matadores de Aluguel, produção de 2005, com um elenco bem apropriado ao chamado cinema independente. Helen Mirren, Cuba Gooding Jr., Stephen Dorff, Macy Gray e Mo'Nique (presente também em Preciosa) são as estrelas desta produção, modesta nos custos mas impressionante no resultado.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Diva do Óbvio

Eu sei que ela é linda e canta muito bem, mas, honestamente, não consigo entender o enorme sucesso da cantora americana Beyoncé no Brasil.

Segundo informações do site UOL, a turnê da estrela por estas bandas ultrapassou os cem mil pagantes.

As músicas do disco I Am Sasha Fierce dominaram as ondas das rádios brasucas e a esposa de Jay Z foi recebida por aqui com status de mega-star. A razão de tamanho burburinho para mim é um mistério.

Beyoncé não passa de mais uma dessas cantoras genéricas que brotam aos borbotões das gravadoras americanas. Ela canta horrores? Sim, canta, mas Mary J. Blige e Alicia Keys cantam infinitamente melhor e não são tão populares.

Para mim, ela está no mesmo nível de uma Rihana ou uma Mariah Carey. Bonitinhas mas ordinárias. Além do mais, o show é um saco. Misto de musical da Broadway com superproduções típicas de nossos dias, o espetáculo é de um de exibicionismo e de um vazio chocantes. Com meia hora de exposição a tanta baba eu já estava bocejando.

A mídia e o público elegeram Beyoncé a grande diva da música pop deste novo milênio. Então tá!

Se as divas que nos cabem neste latifúndio de obviedades são assim, eu prefiro ficar com uma Stefanie (aquela do Crossfox). Pelo menos com ela eu me divirto um pouquinho...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Programa Obrigatório

Por Lázaro Luis Lucas

Aquele Que Deve Morrer (Jules Dassin, 1957).

Nos anos 20, em uma pequena aldeia da Grécia, então dominada pelos turcos, as comemorações da Semana Santa e a chegada de um grupo de refugiados ao local, desencadeiam uma série de conflitos entre os líderes da comunidade e um tímido pastor de ovelhas, ironicamente escolhido para representar Jesus Cristo durantes os festejos.

Dirigido pelo diretor norte-americano Jules Dassin, Aquele Que Deve Morrer é um programa obrigatório.

São, ainda do diretor, os excelentes filmes Nunca aos Domingos (1960) e Profanação (1962).

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Capas Clássicas

Imagine o seguinte cenário: você é um adolescente americano que venera o rock de garagem da década de 60, os girls groups, os Beach Boys e o Velvet Undergroud.

No entanto, ao seu redor, tudo que existe é um rock pomposo e superproduzido, discos com músicas que ocupam um lado inteiro do vinil, viagens e mais viagens.

Os maiores nomes são Pink Floyd e Led Zeppelin que, cada um a sua maneira, já parecem ter dado sua grande contribuição, alcançaram a fama e se deitaram numa luxuosa cama. O que você faz?

Você forma uma banda de rock suja e tosca, grava 14 canções de 2 minutos cada, acha um porão fedido para tocá-las e, sem perceber, você já desencadeou um dos movimentos mais incendiários da história da música jovem.

O nome da sua banda é Ramones e o monstro que você e seus amigos geraram se chama punk e, em poucos anos, ele devoraria dinossauros que muitos imaginavam eternos e converteria outros milhares de garotos e garotas ao seu barulho urgente e destruidor.

Se você, além de tudo isso, ainda fizer uma capa antológica, melhor ainda.

A foto que mostra os Ramones em seu disco de estréia, lançado em 1976, não poderia ser mais brutalmente honesta e simples.

Fotografados em preto-e-branco numa rua pichada, sem produção e maquiagem de qualquer tipo, os membros do grupo lembram moradores de ruas ou motoqueiros arruaceiros prontos para uma briga.

Se a gente se lembra das capas cheias de detalhes, significados ocultos e outras frescuras típicas dos anos 70, é possível ter uma idéia do impacto visual provocado pelos Ramones.

Depois deles, todo mundo passou a rasgar seus jeans, a usar couro com tachinhas e arranhar três acordes básicos em guitarras de segunda mão.

Da quantidade imensa de lixo saída da revolução punk, os Ramones seguem eternos em sua crueza e simplicidade.

Definitivamente, os reis sem coroa do rock.

Um Ano

Hoje, 9 de fevereiro de 2010, terça-feira, esta Vitrola Encantada faz um ano de existência. E contabiliza perto de dez mil acessos.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Alquimista

Na minha infância, o artista hoje conhecido como Jorge Ben Jor chamava-se, simplesmente, Jorge Ben. Um dos grandes mestres da MPB, Jorge, no entanto, não foi muito feliz em sua produção feita nos anos 80. Uma fase ruim que se prolonga até os nossos dias. Falando muito claro: Ben Jor nunca esteve à altura de Ben.

É o que fica evidente quando se escuta a caixa Salve, Jorge!, que reúne todos os discos lançados pelo cantor e compositor entre as décadas de 60 e 70. De Samba Esquema Novo, de 1963, que, como o próprio nome diz, estabeleceu uma nova forma de tocar samba até África Brasil, de 1976, este conjunto de trabalhos mostra a evolução de uma musicalidade que pode se arrogar o adjetivo de única.

A quantidade de clássicos é de deixar qualquer um de queixo caído. Há canções que eu, inclusive, só conhecia na versão de outros artistas (caso de Balança Pema e Cinco minutos, ambas regravadas com classe por Marisa Monte e Eu Vou Torcer, que ganhou recentemente uma versão chinfrim de Fernanda Abreu).

Os grandes destaques da caixa ficam por conta do histórico A Tábua de Esmeralda, de 1974, no qual Jorge discorre com sua lírica muito particular sobre temas como alquimia, Idade Média, vida em outros planetas e orgulho negro e África Brasil, disco em que a guitarra elétrica passa a tomar o lugar do violão e o namoro do músico com ritmos negros norte-americanos fica mais intenso.

Mas, em todos os trabalhos há razões de sobra para se deleitar com a ginga, a brasilidade e universalidade de um som que influenciou de forma decisiva não só a música nacional como a internacional.

Que o diga Rod Stewart, que chupou descaradamente o refrão de Taj Mahal em um de seus maiores sucessos, Do You Think I’m Sexy.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A Banda Que Ficou Invisível

Na postagem abaixo falei de bandas que ficaram a ver navios e que hoje são praticamente desconhecidas. Uma dessas foi, sem dúvida, a escocesa Travis.

No final de 1999 o grupo lançou um disco, The Man Who, que varreu o Reino Unido de maneira surpreendente, tornando-os, no ano seguinte, a banda mais querida dos súditos de Elisabeth II.O disco envelheceu bem. Há uma melancolia e uma doce tristeza que percorre cada uma das belas faixas e, em alguns momentos, o vocalista e principal compositor Fran Healy atinge um ápice de calmo desespero que é, no mínimo, encantador. É assim na linda As You Are, na suave The Fear e na bem-humorada Why Does It Always Rain On Me?

Lembro perfeitamente da primeira vez que ouvi o disco, num aparelho de diskman, em São Francisco , na Califórnia. É engraçado como o cd acabou virando uma espécie de trilha sonora de uma viagem absolutamente inesquecível. De certa maneira, The Man Who combinava perfeitamente com os frios nevoeiros que, subitamente, transformavam a paisagem daquela fantástica cidade americana em um cenário de irrealidade e mistério.

O disco de 2001 – The Invisible Band - cravou uma série de hits nas paradas da Inglaterra e parecia que, realmente, o Travis tinha vindo para ficar. Mas os trabalhos seguintes mostraram uma banda desanimada, sem inspiração e repetitiva. O último – Ode To J. Smith – sequer foi lançado no Brasil.

Bandas como Keane e até mesmo Coldplay são espécies de filhos bastardos da melancolia do Travis. Se eles tiveram mais sorte que seus pais, não é apenas uma questão de destino.

Saber se renovar é essencial para se manter no mercado. Algo que, aparentemente, o Travis não soube fazer.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Vovôs Indie

Parece que foi ontem, mas há dez anos a banda californiana Grandaddy lançava um dos discos mais viajantes, enigmáticos, belos e inesquecíveis de todos os tempos, The Software Slump.

Na época que o disco saiu aqui no Brasil, já havia lido alguma coisa sobre a banda, principalmente coisas que os comparavam ao Radiohead. Com a distância que só o tempo pode proporcionar, pude ver o quanto tais comparações eram indevidas.

O Grandaddy, na verdade, foi um grupo único, uma dessas maravilhas saídas da cena independente americana que, vez ou outra, nos brindam com discos próximos da perfeição.

A maioria desse pessoal fica pelo caminho, destruída pela enorme máquina que suga e tritura tudo que ousa ser diferente e alternativo. Foi assim com Elliott Smith, com Quasi, com A Promise Ring e com tantos outros. E foi assim também com o Grandaddy.

O grupo se separou em 2006, após quatro discos que arrebanharam uma fiel e pequena legião de fãs.

Cheguei a vê-los ao vivo no extinto Free Jazz Festival, numa noite que trazia também os escoceses do Belle And Sebastian e os islandeses do Sigur Ros. Entre a lentidão quase sonífera dos últimos e a celebração nostálgica dos primeiros, para mim quem deu o show de rock da noite foi mesmo o Grandaddy. Quarenta e cinco minutos ininterruptos de muita melancolia tocada com energia punk se gravaram para sempre na minha cabeça. O resto do público parecia nem saber de quem se tratava. Azar deles.

O Grandaddy era, e continua sendo, um precioso tesouro escondido.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Musa Tropicalista

É inacreditável o que o tempo faz com alguns artistas. Se para tipos como Neil Young, Bob Dylan e Patti Smith o passar dos anos se tem revelado como um precioso vinho que apura seu sabor, aroma e consistência, para a maior parte dos medalhões da música brasileira o vinho virou vinagre.

Vejamos, por exemplo, o caso de Gal Costa.

No final da década de 60, Gal se associou ao movimento Tropicalista, tornando-se a principal intérprete de grandes composições de Caetano e Gil e, neste processo, se revelou a cantora mais sedutora e brilhante de uma época de excelentes intérpretes.

Escutar os discos gravados por essa baiana de Salvador nos loucos anos 60 é, ao mesmo tempo, um choque e uma agradável surpresa.

Seu trabalho de 1969 – intitulado simplesmente Gal Costa - é uma pérola da psicodelia brasileira, um cadeirão efervescente onde se misturam bossa nova, forró, rock, jovem guarda e jazz, sem jamais desandar a receita.

Maria da Graça canta, encanta, geme e grita em canções inesquecíveis como Divino Maravilhoso, Baby e Não Identificado. Há ainda espaço para um delicioso dueto com Caetano Veloso (outro caso de vinagre), em Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim), de Jorge Ben (mais vinagre). Dos arranjos tipicamente tropicalistas até o bom gosto na escolha do repertório, tudo é perfeito neste disco.

Gal ainda gravaria grandes trabalhos nos anos seguintes (o duplo Fa-TalGal A Todo Vapor é o melhor deles), mas sua carreira entrou em lento e torturante declínio nos anos 80. A artista absolutamente vital que gravou Vapor Barato como quem desnudava sua alma para o ouvinte se transformou na intérprete burocrática e excessivamente técnica de Chuva de Prata e Um Sonho de Domingo.

Pelo menos ainda temos Bethânia. Se Gal parece ter perdido o prazer de cantar, sua irmã espiritual segue na busca de novas musicalidades, timbres e referências para sua arte.

Quem sabe um dia Gal siga o exemplo de Bethânia e volte a nos encantar com sua voz cristalina e seu canto único.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Mini-Guia: Neil Young

Um dos músicos mais influentes, prolíficos e estimulantes de todos os tempos, o canadense Neil Young é dono de uma vasta obra.

A grosso modo, pode-se dizer que todos os discos lançados entre 1969 (ano de Everybody Knows This is Nowhere) e 1979 (no qual foi lançado Rust Never Sleeps) são merecedores de atenção e alguns são absolutamente imprescindíveis numa boa discoteca.

A década de 80 viu um ligeiro declínio criativo na carreira de Young. Nos anos 90, no entanto, ele foi redescoberto pela geração grunge e voltou a gravar discos cheios de energia e intensidade.

A boa fase segue até os presentes dias, com álbuns que alternam momentos mais singelos (Prairie Wind, de 2005) e outros de pura fúria rock’n’roll (Living With War, de 2006).

A seguir um pequeno guia para começar a apreciar – ou simplesmente relembrar - a inestimável obra desse senhor de 64 anos de idade e espírito inquieto e criativo:

O Indispensável:

After The Gold Rush (1970): cada fã tem seu Young preferido. Este é o meu. Dez canções de uma beleza tocante, nas quais Neil passa com total desenvoltura por baladas românticas (When You Dance I Can Really Love e Only Love Can Break Your Heart) e rocks de peso (Southern Man). Também indispensáveis são Harvest, On The Beach, Everybody Knows This Is Nowhere e Rust Never Sleeps.

O Ao Vivo:MTV Unplugged (1993): Young sempre dividiu seus trabalhos entre guitarras ensurdecedoras e delicados violões. Este disco para o antológico programa da MTV o captura no melhor do formato acústico, com versões simplesmente arrepiantes de clássicos como Like A Hurricane e Harvest Moon. Também ao vivo: Live At Massey Hall, Live Rust, Sugar Mountain.

A Colaboração:Mirror Ball (1995): neste bom disco, o veterano músico canadense se juntou ao Pearl Jam para um set de canções que não dão descanso ao ouvinte. Altamente pesado e também bastante pop, é uma das melhores produções de Young pós década de 70. Outras colaborações: Deja Vu (com David Crosby, Stephen Stills e Grahan Nash).

Para ouvir com reservas: Chrome Dreams II (2007): este recente trabalho não é examente o melhor cartão de visitas de Young. Faixas excessivamente longas e baladas aguadas compõem um disco que é apenas uma sombra do verdadeiro potencial deste deus da música. Melhor evitar.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Fotos Clássicas

Existem poucas imagens na história do rock que assumiram de forma tão aberta a qualidade de ícone quanto o clique que capturou o guitarrista, vocalista e compositor Jimi Hendrix incendiando sua guitarra.

Que o rock é uma combinação explosiva de Eros e Tanatos, todo mundo já sabe. Os impulsos de vida e de morte se chocam num ritmo tribal, básico e sexualmente atraente. É como uma celebração da energia da juventude que antevê em suas manifestações um flerte permanente com a destruição e a violência.

Hendrix, conscientemente ou não, juntou tudo isso num mesmo ato ao colocar fogo em seu instrumento e destruir, assim, o meio pelo qual criava e se expressava. É uma espécie de sacrifício aos deuses da música, uma imolação sem vítimas reais, definitiva representação do ancestral caráter sagrado das artes.

Depois dele, milhares de guitarras foram vitimadas das mais variadas formas: quebradas, jogadas ao público, fornicadas e, é claro, incendiadas.

Mas ninguém jamais conseguiu imprimir ao gesto a intensidade da pirotecnia hendrixiana.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Gênios Fora da Lâmpada

Não sei se existe algo parecido com perfeição neste mundo, mas acho que algumas obras de arte nos dão, ao menos, uma pista para entendermos a idéia por trás desta palavra.

Durante anos, na faculdade de artes que cursei aqui em Brasília, ouvi professores discursando sobre estética, crítica, teoria e história da arte. Muita leitura aliada a aulas com projeções de slides só me deram uma vaga noção do que seria o sublime nas artes.

É claro que meu gosto vem, em grande parte, daquela época. Mas, eu nunca imaginaria que me tornaria um obcecado por Renascimento Italiano, nem por rock dos anos 70. Porque, na verdade, a gente só forma efetivamente nosso gosto quando entra em contato direto com as obras. Talvez seja por isso que até hoje não consegui entender completamente o fascínio e a paixão que a ópera desperta em tantas pessoas. Possivelmente quando me dispuser a assistir ao vivo a um espetáculo operístico as coisas mudem...

Digo isso porque minha vida mudou para sempre no dia em que vi o trabalho de pintura realizado por Michelangelo no teto da Capela Sistina, no Vaticano. A mesma viagem que me colocou cara a cara com o Moisés, também do gênio italiano. Era a primeira vez que me deparava com a genialidade em toda sua força. Mais que isso, ter visto estas obras me mostraram que alguns homens são realmente maiores que a própria vida. Toda a mediocridade e mesquinharia que governam nosso dia-a-dia subitamente desapareceram diante de tamanha grandiosidade e magnificência.

Não sei se Deus existe – prefiro acreditar que não, mas em todo caso... –, entretanto nesses momentos percebo que algumas poucas coisas nos transportam para uma zona de contemplação e adoração que está fora deste plano físico.

Se eu já tive alguma experiência mística na minha “desespiritualizada” existência, foi diante do David, que me fez esperar durante duas horas numa fila para adentrar a pequena Galleria Dell’Academia, em Florença, e apreciar sua humanidade agigantada e glorificada em puro e reluzente mármore branco.

Todas essas experiências dizem muito da minha relação com música, afinal sempre me vi como discípulo do filósofo Nietsche. O bigodudo alemão muito sabiamente dizia que a vida não teria sentido sem a música. Eu vou além e digo que, sem música, a vida seria absolutamente insuportável.

Ter passado por esta existência sem mergulhar nas águas dos Beach Boys, nas deliciosas experimentações dos Beatles, nos cantos sagrados e profanos dos cantores e cantoras da Motown, na guitarra de Jimi Hendrix ou de Jimi Page, seria como uma existência no escuro. Ou, no mínimo, menos iluminada.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Imortalidade

Ao ouvirmos música, atingimos uma espécie de imortalidade.

Claude Lévi-Strauss. O Cru e o Cozido.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Amor Fraternal

Enquanto uma parte de sua imensa legião de fãs permanece inconsolável com a saída do guitarrista e compositor Noel Gallagher do Oasis, eu fico me perguntando como, na realidade, ele aguentou por tanto tempo um irmão ególatra e arrogante como Liam parasitando seu talento.

Porque o Oasis, para mim, sempre foi somente Noel. Ótimo guitarrista e excelente compositor, Noel foi o autor de alguns dos melhores momentos do rock britânico dos últimos 20 anos. O irmão Liam conseguiu apenas borrar o brilho de canções inesquecíveis com sua voz pavorosa e sua postura de palco antipática. Consigo antever uma bela carreira solo para Noel. Quanto ao que sobrou do Oasis...

Histórias de parentes em bandas de rock não são exatamente novidade, mas nos últimos tempos têm surgido um grande número delas que têm alcançado relativo sucesso.

Dos Estados Unidos vêm o Kings Of Leon, The Avett Brothers, Felice Brothers e as delicadas irmãs neo-hippies do Coco Rosie.

O Reino Unido, que achava que a relação disfuncional dos irmãos Gallagher era indissolúvel, tem outros exemplos de amor fraternal a serviço da música na banda Doves – pouco conhecida fora das ilhas britânicas, mas autora de ótimos trabalhos –, na sumida Embrace e nos Manic Street Preachers – se bem que nesse caso trata-se de primos.

Autores de um dos melhores discos de 2009, os irmãos Avett chamaram a atenção de quem ouviu o estupendo I And Love And You. Transitando entre o folk e o rock, o grupo fez um disco de moldes clássicos, na melhor tradição de Bruce Springsteen, The Band e Dylan.

Embora o disco como um todo seja maravilhoso, somente as cinco primeiras músicas já bastariam para inscrevê-lo entre os meus preferidos de todos os tempos.

Agora é só esperar para que a relação entre os irmãos Scott e Seth navegue por águas menos turbulentas que as de seus colegas ingleses.

E que eles nos brindem com outras maravilhas como esse I And Love And You.