quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Na Tribo dos Maníacos

Saudade é um sentimento estranho. Vem de repente, sem dar aviso. Dia desses, me peguei saudoso de uma banda americana surgida lá nos anos 80. Chamava-se 10,000 Maniacs e tinha uma vocalista doce, inteligente e sensível. Essa moça, que atende pela graça de Natalie Merchant, continua na ativa, mas lança discos com um espaço de tempo cada vez maior.

Os Maniacs surgiram no início da década de 1980 e, ao lado de bandas como R.E.M., Hüsker Du e The Replacements, protagonizaram o movimento que viria a ficar conhecido como college rock. O nome do movimento fazia referência a bandas que muitas vezes nasciam em campus universitários e que eram divulgadas por fanzines e rádios comandadas por estudantes.

No final da década, o R.E.M. se tornou mundialmente conhecido, assinou contrato com uma grande gravadora e escancarou as portas do mercado para nomes como Nirvana e Pearl Jam. Mas isso já é outra história...

O 10,000 Maniacs nunca atingiu o mega-estrelato, mas marcou os corações das poucas pessoas que o conheceram.

Para mim, eles gravaram 3 discos excelentes: In My Tribe (1987), Blind Man’s Zoo (1989) e Our Time In Eden (1992), sendo que este último chega perto da perfeição. A bela voz de Merchant conduz o ouvinte por canções que podem ser lidas como microcontos. Tudo com o elegante instrumental que atualizava a folk music americana, com toques de reggae, pop e música clássica.

Não consigo pensar em nenhum grupo depois deles que soe tão honesto e verdadeiro. É por isso que, vez ou outra, vem aquela saudade boba.

É aí que somente a voz inesquecível de Natalie, cantando Don’t Talk ou Jezebel, pode me trazer algum consolo...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Recomendo

Por Lázaro Luis Lucas

Em tempos de Leila Lopes, vale a pena conhecer JCVD, uma produção franco-belga produzida e estrelada pelo ator Jean-Claude Van Damme. Há um monólogo durante o filme - é quase um pedido de desculpas do astro aos seus fãs espalhados por todo o mundo - que, mesmo despropositado, irá emocionar todos aqueles que seguiram a carreira cinematográfica deste lutador.

Uma dica: se você aprecia áudio original com legendas, selecione o áudio em francês (2.0 ou 5.1), já que o dvd lançado no Brasil vem com as opções de dublagens em inglês e português. No original, são muito poucos os diálogos em inglês (preservados no áudio em francês).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Vitrola Natalina

Quanto mais velho fico, mais me parecem despropositadas datas como dia das crianças, dos pais e, sobretudo, o Natal.

Talvez por não possuir nenhuma crença religiosa, o que vejo na data é apenas uma histeria generalizada que faz as pessoas correr para shoppings abarrotados, enfrentar preços altos, filas e estacionamentos lotados. Definitivamente, estou fora!

Além do mais, o que percebo nas pessoas, de uma maneira geral, é que o tal espírito natalino se diluiu a ponto de ter perdido todo seu sentido original. Até mesmo aquelas insuportáveis canções que enchiam o saco todo final de ano se tornaram cada vez mais raras. Melhor assim. Afinal, ninguém podia mais aguentar John Lennon desejando paz e amor para toda a humanidade em Happy Xmas (War Is Over), repetida infalivelmente nas tevês nacionais, com tradução simultânea e tudo.

Muito pior que isso, foi nossa chatérrima Simone e seu inacreditável disco de natal. A cantora, com seu indefectível sotaque soteropolitano, assassinou não só o clássico do Lennon (que ganhou uma letra em português para lá de ridícula), como perpetrou outros crimes contra o bom velhinho e sua gang de duendes e renas. Um atentado contra a imaginação e o sonho de milhares de crianças Brasil afora, sem dúvida.

Agora, para quem gosta de canções natalinas e não abre mão da qualidade musical, vale à pena ir atrás do histórico disco de 1963, A Christmas Gift For You, produzido por Phil Spector, um dos maiores e mais criativos produtores musicais de todos os tempos. Clássicos temas de final de ano com os luxuosos arranjos tramados por Spector e belissimamente interpretados por gente como Darlene Love, The Ronettes e The Crystals.

É diversão garantida mesmo para quem não dá a mínima para o 25 de dezembro.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Camisinha de Música

Como o dia 1º de dezembro é o Dia Mundial da Luta Contra a AIDS (ou SIDA, como seria mais apropriado dizer em português), relembro aqui no Vitrola o primeiro disco da Organização Red Hot, que se utiliza da música para conscientizar as pessoas da importância do sexo seguro como medida fundamental de proteção contra o vírus HIV.

Lançado em 1990, quando a AIDS ainda era vista como um problema exclusivo da população homossexual masculina e dos usuários de drogas injetáveis, o álbum duplo reuniu a nata da música pop de então, em covers exclusivos das canções do compositor norte-americano Cole Porter.

Homossexual numa época em que ninguém ousava assumir-se, Porter escreveu algumas das mais importantes canções do cancioneiro ocidental, tendo sido regravado por incontáveis artistas no mundo inteiro.

Havia, portanto, material de qualidade em abundância para ser escolhido pelos artistas do projeto. Alguns subverteram completamente a musicalidade original das canções de Porter, adaptando-a ao seu próprio estilo.

Caso de Neneh Cherry, que abre o disco com uma versão irreconhecível de I’ve Got You Under My Skin, dançante e contemporânea. Na mesma linha, Iggy Pop e Deborah Harry fazem de Well, Did You Evah, um rock perfeito para suas vozes.

David Byrne, mergulhado em ritmos latinos, faz um som meio Olodum em Don’t Fence Me In, para mim uma das melhores do disco.

Mais tradicionalista, Sinéad O’Connor posa de diva em You Do Something To Me, enquanto Annie Lennox, sóbria e elegante, emociona com sua lindíssima interpretação de Every Time We Say Goodbye.

Em resumo: se o disco ajudou ou não a conscientizar o povo, é um mistério, mas, como introdução ao rico universo de um dos maiores compositores de todos os tempos, é imperdível!

Aids


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A Animação e a Diversidade Sexual

Por Lázaro Luis Lucas


Enquanto a telenovela brasileira e todos os demais programas produzidos neste país ainda insistem em tratar da diversidade sexual da maneira mais lamentável possível - seria melhor que ignorasse solenemente a questão -, a produção em animação, seja para a TV ou cinema, realizada em todo mundo livre, vem surpreendendo cada vez mais.

Produções como Barry e a Banda das Minhocas (Dinamarca, 2008), concebidas para entreter o público infanto-juvenil, adolescente e adulto, vêm fazendo um excelente trabalho de inclusão de personagens homossexuais nas tramas. Até mesmo os vilões homossexuais estão repletos de carisma.Se houver alguma dúvida, é só acompanhar algum episódio das primeiras temporadas de As Meninas Super-Poderosas.

Outras séries produzidas para a TV que também apresentam tramas sobre a diversidade sexual ou personagens fixos de orientação homossexual são Du, Dudu e Edu, Coragem - O Cão Covarde e Os Padrinhos Mágicos. Ficando apenas naqueles que mais me impressionaram.

No caso de Coragem - O Cão Covarde, por exemplo, um episódio inteiro tratava do amor entre duas felinas, impossibilitado por um gângster que mantinha uma delas cativa, usando uma máscara sem qualquer personalidade. Com a ajuda do assustado cãozinho, ambas conseguem fugir do vilão e ao término acompanhamos a partida delas em um trem rumo à felicidade pretendida. Por fim, a câmera ainda foca a máscara destruída no chão. Uma ousadia para os nossos padrões e um belo exemplo de respeito às diferenças.

Por fim, não se pode deixar de falar nos longas-metragens e na série de TV Lilo e Stitch. Na minha opinião, a franquia mais gay friendly de que se tem notícias. Simplesmente, deliciosa.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Insustentável Peso do Som

Acho impressionante que uma banda de mais de três décadas de atividade, que já perdeu seu carismático vocalista original e sempre foi acusada de repetir o mesmo som disco após disco, continue atraindo multidão a seus shows e, mais surpreendente ainda, continue vendendo muitos discos numa época em que ninguém mais se dá ao trabalho de comprá-los.

É o caso da banda australiana AC/DC, que se apresenta hoje, na cidade de São Paulo , num show que teve ingressos esgotados à velocidade da luz.

O que há de tão especial na banda de Angus Young e Brian Johnson? A princípio, nada. Mas, numa análise mais cuidadosa, há tudo.

O AC/DC é um caso raríssimo de uma instituição roqueira. Eles, há muito, transcenderam o simples rótulo de banda de hard rock e se inseriram no imaginário da história do rock, como somente as grandes bandas conseguem. Do grupo de garagem que tinha um guitarrista excêntrico, eles acabaram se tornando um mito, um símbolo de molecagem e fé no ideário rock’n’roll.

Encontro paralelo somente nos Ramones, com a diferença de que o grupo nova-iorquino nunca atingiu os números impressionantes alcançados pelo AC/DC.

Contra o grupo há o batido argumento de que são repetitivos e acomodados. Bobagem. Ainda que não tenham gravado nada de realmente relevante desde Back In Black, disco de 1980, o AC/DC segue perfurando tímpanos e encantando garotos bitolados e coroas beberrões. Para estes, a trilha sonora ideal ainda é um bom duelo de guitarra entre os irmãos Young.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Última Flor

Há muito se discute sobre as reais qualidades literárias de uma boa letra de música. É poesia ou não? A coisa se complica muito quando música e texto de altíssima qualidade andam de mãos dadas. É o caso de grande parte da música brasileira.

Uma recente enquete da edição nacional da revista Rolling Stone revelou que Construção, música e letra de Chico Buarque, é a melhor canção brasileira de todos os tempos.

Se formos analisar os versos de Buarque, fica muito claro que a eleição de sua obra-prima, de 1971, deve muito à rica construção gramatical, cheia de versos terminados em palavras proparoxítonas, e suas metáforas asfixiantes da dura realidade do Brasil dos anos de chumbo.

É lógico que o incrível arranjo, que evolui de um simples samba para um épico cinematográfico em brilhante tecnicolor, torna a canção ainda mais impressionante, mas quando pensamos em Construção nos vem imediatamente à cabeça A Letra.

Para mim, não há mistério. Não consigo ver muita distinção entre Carlos Drummond de Andrade e a melhor produção de Caetano Veloso ou entre a depuração lingüística de João Cabral e o intricado universo de Chico Buarque.

Algumas letras de Antonio Carlos Jobim me emocionam tanto quanto os versos tristes alegres de Manuel Bandeira.

As palavras de Renato Russo tiveram um impacto tão grande em minha psique quanto os versos românticos de Álvares de Azevedo e Castro Alves.

Penso que, num país de analfabetos e alfabetizados que não lêem como é o Brasil, a música cumpre um papel fundamental de disseminação de ideias, cristalização de expressões e falares regionais e - mais importante - de perpetuação da musicalidade e beleza inerentes a nossa amada, inculta e bela Língua Portuguesa.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Prova dos Três

The Killers, The Strokes, Kaiser Chiefs e Arctic Monkeys. Todas, bandas jovens. Todas, já em seu terceiro disco. E a pergunta que não quer calar é a seguinte: o que ficou do brilho e do talento demonstrado no primeiro disco?
As respostas variam de uma para outra banda, mas é inegável que nenhuma delas repetiu os resultados empolgantes do primeiro trabalho.O The Killers, que esteve este final de semana se apresentando em São Paulo , lançou em 2004 o cd Hot Fuss, um dos melhores daquele ano, campeão de vendas e verdadeira fábrica de sucessos.
As expectativas em relação ao segundo eram, naturalmente, muito grandes. Sam’s Town, de 2006, não decepcionou quanto aos singles de sucesso. Estão lá belas canções como When You Are Young, Bones e Read My Mind, mas falta a unidade do disco anterior.
Ainda assim, eu me mantive com fé em Brandon Flowers e seus companheiros. Fé que se despedaçou em Day And Age, um trabalho anêmico que apenas chafurda nos bons sons dos anos 80. Para mim, não se salva nada.Já o Kaiser Chiefs surgiu como um verdadeiro furacão no cenário estagnado do rock inglês e lançou, em 2005, o ótimo Employment.
Puxado pelo grito de guerra chamado I Predict A Riot, o disco reeditou os melhores momentos do britpop, ao mesmo tempo em que citava influências de Beatles, Kinks e The Jam.
A mágica durou pouco. Os discos seguintes dos Chefes são imitações apagadas do esplendor de sua estréia.
No caso do The Strokes, o grupo novaiorquino parece nunca ter conseguido fazer jus a seu auspicioso début. Is This It causou furor entre críticos, modernos e jovens roqueiros.
Eu, particularmente, não vi motivo para tanto barulho. Para mim, eles apenas reciclam o som de garagem de gente como The Stooges, Velvet Underground e The Modern Lovers. Sem a mesma criatividade, diga-se de passagem.
Nos trabalhos seguintes, o que já era diluição virou pura repetição. Mas para não dizerem que tenho má vontade com o grupo, até gosto um pouquinho do segundo disco, Room On Fire.
Finalmente, deposito grandes esperanças no Arctic Monkeys, grupo de jovens ingleses que se beneficiou de ampla propaganda via My Space e surgiu como uma das grandes promessas do rock britânico feito nos anos 2000.
O primeiro disco é ótimo, o segundo não é nenhuma maravilha, mas também não é nenhum horror e o terceiro...
Bem, o terceiro já está na estante esperando sua devida apreciação. De qualquer maneira, tendo sido produzido por Josh Homme (o homem por trás do ótimo Queens Of The Stone Age), espero, no mínimo, um grande disco de rock.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Vampiros de Plástico

O que faz um produto – um filme, um disco ou um livro – se tornar um fenômeno de massa? Pode ser o tema explosivo (caso da polêmica tola em torno de O Código Da Vinci), o apelo sexual (aqui os exemplos são inúmeros, indo de Madonna até a nossa querida Gretchen) ou mesmo o simples sensacionalismo da mídia (a “artista” conhecida como Lady Ga Ga é um caso bem recente de exploração exagerada de pseudo-escândalos e ousadias feitas sob medida para os tablóides do óbvio).

Mas para explicar alguns fenômenos, só mesmo um bom psicólogo.

É o caso da série de filmes da saga Crepúsculo. Os livros que os originaram são best-sellers mundiais que já fizeram fortuna para a escritora Stephenie Meyer. A trama recicla clichês de histórias de vampiros com clichês de dramas adolescentes. Ou seja, haja lugar comum.

Mas o fato é que pegou. As garotas, sobretudo, sentem-se identificadas com a protagonista apaixonada por um rapaz enigmático, que acaba se revelando um vampiro sensível e bonzinho.

Passei batido pelos livros. Talvez porque já esteja um pouco velho para dramas plastificados ou talvez porque já tenha tido minha dose de chupadores de sangue.

Quando li os livros de Anne Rice sobre o cultuado vampiro Lestat, confesso que vivi uma fase de profundo interesse pelo tema. Isso sem contar os milhares de filmes vampirescos que se acumulam em minha memória, que vão desde o antológico Drácula, estrelado por Bela Lugosi, até os deliciosos pastiches da produtora inglesa Hammer. Como tudo na vida passa, isso também passou.

Mas resolvi dar uma chance à versão cinematográfica do primeiro livro da série, dirigido por Catherine Hardwicke e lançado em 2008. Durante longas duas horas, lutei para me manter acordado diante de tamanha bobagem. Atores sofríveis, história risível, direção apática e uma falta de emoção tão gritante que se chega a pensar que todo o projeto foi feito realmente por mortos-vivos.

No dia seguinte à sonolenta experiência, entro numa banca e escuto duas garotas namorando, embevecidas, uma revista com o casal do filme estampado na capa. A falta de vocabulário típica dessa fase da vida impedia as "fofas" de expressar melhor seu imenso amor pelo ator Robert Pattinson, que faz o vampiro meigo.

Rendi-me, então, a um fato muito simples: enquanto houver adolescência, hormônios em ebulição e fotoshop de última geração, os Crepúsculos da vida continuarão a florescer.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Da Estante

Sei que falo muito de Beatles por aqui e, com o perdão de quem não gosta, vou pedir licença para falar mais uma vez.

É que estou lendo a monumental biografia do grupo escrita por Bob Spitz (The Beatles – A Biografia, Editora Larousse).

Ao longo de quase 1000 páginas, o autor reconstrói a carreira da banda de rock mais popular de todos os tempos, de uma maneira detalhista, vívida e cativante.

Embora esteja ainda no primeiro quarto do livro, já dá para perceber a formação da personalidade de cada um dos quatro cavalheiros de Liverpool: a vida familiar conturbada de Lennon, o talento precoce de Paul, os péssimos boletins escolares de Harrison, as primeiras namoradas, a chegada do rock na Inglaterra, a dificuldade do dia-a-dia no pós 2ª Guerra Mundial, enfim, tudo o que viria a se refletir nas letras e atitudes de cada um deles se encontra ricamente descrito.

Altamente recomendável não só para fãs de carteirinha como também para aqueles curiosos em conhecer melhor um período muito fértil para a música jovem no mundo todo.

No quesito biografias de músicos, aliás, as nossas livrarias ganharam dois novos títulos que devem despertar bastante interesse: Minha Fama de Mau, de Erasmo Carlos (Editora Objetiva) e Nem Vem Que Não Tem – A Vida E O Veneno De Wilson Simonal (Editora Globo), de Ricardo Alexandre.

Esta última imagino ser imperdível, afinal a trajetória desse grande cantor brasileiro mistura preconceito, popularidade, talento, arrogância, ingenuidade e decadência num mesmo coquetel explosivo. É para ler escutando Sá Marina e Nanã.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O Queen do Século XXI

O rock nasceu como música inconsequente, trilha sonora para bailinhos suarentos e diversão para garotos e garotas suburbanos.

É claro que, nos revolucionários anos 60, tudo isso mudou e críticos e estudiosos sérios começaram a ver na nova música uma forma de expressão artística bastante representativa de sua época.

Discos como Revolver (The Beatles, 1966) e Pet Sounds (The Beach Boys, 1966) mostraram todo o potencial e riqueza musical que o rock podia trazer em canções simples de três minutos.

Só que alguns músicos não se contentam com pouco. Para eles, não basta compor melodias grudentas, ritmos irresistíveis e letras inesquecíveis. É preciso dar ao rock uma fachada de complexidade que o aproxime de coisas mais socialmente aceitas como a música clássica e o jazz.

Uma bobagem, é claro, mas dessa ambição nasceram grandes discos como Fragile (Yes, 1972), Larks Tongues In Aspic (King Crimson, 1973) e A Night At The Opera (Queen, 1975).

O furacão punk tratou de varrer da face da terra tais delírios de grandeza, mas volta e meia aparece uma banda que ressuscita essa estética de exageros, com resultados mais ou menos interessantes.

Curiosamente, a melhor ópera rock dos últimos anos foi gravada por um grupo que começou se apropriando da estética punk e fazendo, portanto, discos muito rápidos e diretos, o Green Day. American Idiot, lançado em 2004, fez uma raivosa radiografia dos anos Bush, num conjunto de canções que se ligam e formam um todo coeso e intenso. Não por acaso é o melhor disco do trio.

Recentemente o Green Day tentou repetir a fórmula no menos inspirado 21st Century Breakdown. Batendo perto dos 80 minutos – se fosse nos anos 70, seria um duplo -, não chega a ser um disco ruim, mas também não chega a empolgar.

Agora, quem gosta de muito piano, refrões bombásticos, vocais dramáticos, canções que se dividem em vários movimentos, não deve deixar de checar o trabalho da banda britânica Muse.
Verdadeiro gigante lá pelas ilhas – comparáveis atualmente a Oasis–, o Muse ainda não atingiu o mega sucesso mundial de um Coldplay, mas segue gravando discos em que chupa descaradamente a estética operística do Queen, revestindo-a com um tratamento moderno e produção de última geração (o que o Queen, se a gente for pensar bem, já fazia com os recursos de sua época).

O auge do estilo melodramático metido a besta do Muse foi atingido com o excelente Black Holes And Revelations, de 2006. Nele, o cantor e compositor Matt Bellamy conseguiu equilibrar perfeitamente sua veia erudita com seu inegável talento para compor boas músicas pop.

No novo disco, The Resistance, sai o afiado artífice pop e fica apenas o compositor erudito frustrado. É tanto piano, coro, pausas dramáticas e vocais afetados que, lá pelas tantas, a gente fica achando que está escutando a mesma música repetidas vezes. E, no final, descobrimos que essa impressão é verdadeira. As três últimas músicas são uma sinfonia dividida em três partes. Funciona? Para mim, não.

Nas três primeiras faixas do disco, o Muse continua mostrando que tem garra e habilidade para fazer um bom disco de rock. Uma pena que a ambição desmedida de Bellamy o faz esquecer que ele deveria ficar somente nisso.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um Passeio Musical

Quando fui a Buenos Aires pela primeira vez, em 2004, havia um mito de que a capital argentina sozinha tinha mais livrarias que o Brasil inteiro.

Se era verdade ou não, uma coisa não se podia negar: a quantidade de lojas de discos e livros nas ruas de Buenos Aires era algo que realmente chamava a atenção, não só pela grande quantidade como também pelo tamanho e a variedade de títulos de quase todas.

Na época, a Argentina começava a se recuperar da violenta crise econômica que atingiu o país no final dos anos 90 e início dos 2000. Brasileiros invadiam as calles portenhas, aproveitando os preços baixos e falando seu tradicional e constrangedor portunhol. Uma verdadeira praga!Enquanto isso, eu estudava o idioma de Cervantes – ou, mais de acordo com a ocasião, de Borges – e ia frenético de uma loja de discos para outra.

De cara, me deixou intrigado o quanto o mercado fonográfico argentino é mais variado e completo que o nosso. Lançamentos internacionais chegam bem antes que aqui e muita coisa boa sai por lá sem nunca dar o ar da graça nestas plagas. Desnecessário mencionar que, com o peso desvalorizado diante do real, os preços dos cd’s são ainda uma atração à parte.

Segue, portanto, uma sugestão de passeio pelas lojas de discos de Buenos Aires:
Depois de um café com leite com media lunas (os nossos croissants), siga para a avenida Santa Fé e vá direto à livraria mais linda que existe neste planeta, a El Ateneo Grand Splendid, ou como é mais conhecida entre os locais, Yenny. Montada num antigo teatro que foi reformado e devidamente adaptado, o lugar alia as grandes dimensões de uma megastore à atmosfera acolhedora de um templo cultural.

Na mesma Santa Fé, logo ao lado da Ateneo, está uma das maiores lojas da rede Musimundo. Preços ligeiramente mais em conta e uma seleção de títulos tão ampla que é preciso paciência e disposição para fuçar tudo. Há várias outras espalhadas pela cidade, mas esta resolve tudo.

Saindo da Musimundo, aproveite para tomar um sorvete na fantástica Volta. Peça um sabor qualquer de sorvete de doce de leite. Não existe nada igual no mundo.

Devidamente energizado, dobre na avenida Callao, dê uma paradinha na alternativa Notorious, misto de ciber-café, loja e restaurante e escolha, digamos, um disco da banda Yo La Tengo , que apesar do nome em espanhol, é americana.

Em seguida, tome o metrô, que fica pertinho, e desembarque na movimentadíssima Corrientes, espécie de Broadway argentina, com enorme concentração de teatros, cinemas, livrarias e a ótima Zival, loja especializada em ritmos locais, principalmente tango. Mas, completa e variada como é, a Zival também tem uma ótima seção de pop rock. O que você não tiver encontrado no Ateneo ou na Musimundo, com certeza encontrará aqui.

Aproveite para provar uma deliciosa empanada em algum restaurante da região. Minha preferida é a de queijo com cebola, mas a mais tradicional é mesmo a de carne.

Após a parada gastronômica, desça a Corrientes até o cruzamento com a calle Florida. Fique de olho na bolsa e na carteira e mergulhe na multidão de transeuntes que se aglomera tanto nesta rua quanto nas que a cruzam.

É o centro de Buenos Aires e, como tal, é a parte da Capital que mais lembra uma grande metrópole brasileira: caótica, barulhenta e agitada. Por aqui também se pode encontrar uma série de lojinhas menores.

Vale à pena dar uma olhada. Algumas exibem boas promoções e sempre se pode comprar um Carlos Gardel baratinho para trazer de recuerdo.

Pronto, depois de tudo isso, você estará exausto, com a mochila carregada, e louco para encarar o famoso bife de lomo argentino (a menos que você seja, como eu, vegetariano. Aí fique com uma bela massa. Buenos Aires é rica em restaurantes italianos).

domingo, 25 de outubro de 2009

Nas Asas da Crítica

Sei que muita gente odeia de morte a crítica de arte. Eu, ao contrário, sou extremamente grato a uma parcela de críticos esclarecidos, cultos e bem informados.

Devo boa parte da minha formação musical e cinematográfica aos críticos e jornalistas das revistas BIZZ e SET.

Na década de 80, quando estas revistas começaram a circular no Brasil, os críticos não tinham medo de ser eruditos. Citavam em suas críticas poetas, filósofos, bandas e diretores obscuros. Instigavam muito mais que entregavam o prato pronto. Traçavam paralelos fascinantes. Uniam informação com opinião pessoal de uma forma prazerosa e estimulante. Quem quisesse e tivesse curiosidade que fosse atrás.

Foi desta forma que descobri artistas fundamentais como Nick Cave, 10.000 Maniacs, Cowboy Junkies, The Stooges, The Byrds, Marvin Gaye e Leonard Cohen.

Folheando as páginas recheadas de (boas) informações da SET é que tive vontade de assistir a filmes como o holandês O Homem da Linha, o inglês Rita, Sue e Bob Nu, os americanos Confiança e Daunbailó, e o dinamarquês A Festa de Babette.

Isso sem falar nas inesquecíveis fichinhas com cartazes e informações técnicas de filmes, que vinham encartadas na SET. Era uma verdadeira loucura correr atrás de cada título (na época, uma boa locadora resolvia nossa vida) e ter aquela indescritível sensação de já ter assistidos a TODOS (no meu caso, a quase todos).

É claro que por conta de muita crítica entusiasmada comprei discos dos quais acabei me desfazendo, e assisti a filmes que eram um verdadeiro pé no saco, mas, no balanço geral, acho que tudo valeu muito à pena.

Fica aqui, então, meu agradecimento a gente como Ana Maria Bahiana, José Augusto Lemos, José Emilio Rondeau, André Barcinski, Luis Nazário, Inácio Araújo e tantos outros.

Sem eles, meu mundo seria significativamente mais pobre e triste.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A “Suerte” de Shakira

Recebo por e-mail uma resenha irada sobre o novo cd da cantora e compositora colombiana Shakira, retirada do blog andremans.blogspot.com . Não ouvi - e nem pretendo – o tal disco.

Shakira se perdeu para mim depois que se tornou “americana”. Quando sua música ainda era colombiana, gravou boas canções e um ótimo disco – Donde Están Los Ladrones – em que mostrava um grande talento para filtrar influências de música pop estrangeira (leia-se americana e inglesa), por um viés inegavelmente latino.Quando resolveu se aventurar no milionário mercado americano, eu sabia que algo sairia errado.

As pistas foram dadas pela versão em inglês de Suerte, que virou no idioma de Shakespeare Whenever Whatever. Como uma mesma canção podia soar tão absurdamente diferente em suas duas versões? A resposta era clara: Shakira cantando em inglês não era Shakira. Pouco a vontade com uma língua estrangeira, até mesmo sua voz saía adulterada.

Não bastasse esse tropeço linguístico, a Shakira versão ianque é uma mulher ultra-sensual que, em muitos clipes, trafega na fina fronteira entre erotismo de bom gosto e pornografia disfarçada.
Nada de se espantar, afinal de Beyoncé até Nelly Furtado, uma coisa se mostra muito evidente no pop de hoje: se não vender sexo não vende música. Mas, não sei por que, me fica a impressão de que também nesse quesito Shakira se sente inadequada.

Os mais cínicos poderiam dizer que, com uma fortuna que só faz crescer e uma popularidade mundial sem precedentes para uma cantora de origem sul-americana, Shakira não deve se sentir nada inadequada.

Pode ser. Talvez inadequados nos sintamos eu e o André Mans por ver uma artista tão promissora se prostituindo de forma tão descarada.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sem Cortes

Não sei se estou errado, mas me parece que a primeira década dos anos 2000 só termina em 31 de dezembro de 2010. Certo? Bom, para uma parcela da imprensa musical gringa, ela está terminando em 31 de dezembro deste ano.

No afã de sair na frente da concorrência, a revista inglesa UNCUT divulgou em sua edição de outubro, uma lista com os 150 melhores discos da década.

Como sempre, quando se trata de UNCUT, o trabalho é meticuloso, amplo, informativo e rico.

A banda campeã da lista é sem dúvida o White Stripes, que teve todos os seus discos relacionados e faturou o número um, com o ótimo White Blood Cells.

Há muitos discos de Bob Dylan, Neil Young, Radiohead – estes, para mim, autores dos melhores álbuns dos últimos tempos: Hail To The Thief e In Rainbows, respectivamente 134ª e 15ª posições -, além de álbuns que acho bem fracos (A Bigger Bang, dos Rolling Stones, um disco esquecível e que não acrescenta nada à carreira de Jagger/Richards, por exemplo), e outros que só a crítica especializada consegue gostar, como Merriweather Post Pavilion do grupo americano Animal Collective e Ys da harpista e cantora Joanna Newson, um disco conceitual de músicas longas, lentas e muito, mas muito chatas mesmo.

Segue a relação dos 20 primeiros colocados. Se você não concorda – como é o meu caso – vale como sugestão de audição. Afinal, em termos de jornalismo musical não existe nenhuma publicação no mundo, atualmente, que chegue aos pés desta revista incrível:
20 - Amy Winehouse. Back to Black
19 - Bruce Springsteen. The Rising
18 - Kate Bush. Aerial
17 - The White Stripes. Elephant
16 - LCD. Soundsytem Sound of Silver
15 - Radiohead. In Rainbows
14 - Primal Scream. XTRMNTR
13 - Gillian Welch. Time (The Revelator)
12 - Portishead. Third
11 - The Flaming Lips. Yoshimi Battles the Pink Robots
10 - Fleet Foxes. Fleet Foxes
9 - Ryan Adams. Heartbreaker
8 - Bob Dylan. Modern Times
7 - The Arcade. Fire Funeral
6 - Robert Plant & Alison Krauss. Raising Sand
5 - The Strokes. Is This It
4 - Brian Wilson. Smile
3 - Wilco. A Ghost is Born
2 - Bob Dylan. Love and Theft
1 - The White Stripes. White Blood Cells

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Capas Clássicas

Quando o vocalista original do AC/DC, Bon Scott, morreu em 1980, ninguém poderia imaginar que a banda australiana teria uma segunda vida.

Com o inglês Brian Johnson no microfone, o AC/DC não só teve uma segunda chance como expandiu seu público absurdamente e se tornou um fenômeno mundial.

Back In Black é um clássico absoluto do rock inconsequente e, muitas vezes, estúpido praticado pelo grupo. Obcecados por temas caros ao imaginário rock’n roll – bebedeiras e sexo, basicamente – os irmãos Young e seu novo cantor perpetraram verdadeiros ícones do peso como Rock and Roll Ain’t Noise Pollution, Hells Bells e, logicamente, a excepcional faixa-título.

Como todo disco marcante, Back In Black traz uma capa que, sem sombra de dúvida, fez escola. Sem maiores elaborações, o grupo foi direto ao ponto e concebeu uma arte simples e minimalista, como, aliás, seu próprio som.

Apenas os nomes da banda e do disco aparecem desenhados sobre um fundo totalmente negro. Se o objetivo era passar uma mensagem de total volta ao básico, o grupo não poderia ter sido mais bem sucedido.

Jovens do mundo inteiro aderiram sem pestanejar ao visual calça jeans e camiseta preta do grupo – com exceção, obviamente, do visual colegial endiabrado do guitarrista Angus Young, marca registrada do AC/DC – e foram bater cabeça nos espetáculos ensurdecedores promovidos pela banda.

Álbuns “negros” não eram novidade no design de capas de discos (o Velvet Underground, sempre pioneiro, já havia lançado seu dificílimo White Light White Heat, em 1968, embalado por uma capa completamente preta), mas nenhum teve a popularidade – mais de 20 milhões de unidades vendidas somente nos Estados Unidos – e o alcance desta pedrada de 1980.

domingo, 18 de outubro de 2009

Tanto Tempo Longe de Você...

Foi necessário que se passassem quase 40 anos para que eu admitisse abertamente e, principalmente, para mim mesmo, que eu sou um dos milhões de apaixonados pela música de Roberto Carlos.

Durante toda minha infância, nenhum artista foi tão presente na minha casa quanto ele. Eu tinha a clássica tia hipocondríaca que só parava de falar em doença quando tocava alguma coisa de Roberto no rádio, as primas que colecionavam recortes de revistas, a irmã que sabia todas as letras, um primo que tocava no violão as canções que ele fez para a gente, outro que o imitava horrivelmente, enfim, tinha fã de todas as espécies por perto.

Mas chegou a adolescência e Roberto virou, para mim, o símbolo de tudo que estava errado com a música brasileira. Pô, o cara já havia sido o rei do rock no Brasil e, de repente, grava uma "coisa" como Caminhoneiro!

Para quem estava mergulhando de cabeça em Led Zeppelin e Rolling Stones, não havia mais sentido em ficar babando por uma figura que fazia especiais pavorosos todo final de ano na Rede Globo, lançava discos a cada natal como se fosse um burocrata batendo o ponto e ia se tornando um católico mais fanático a cada ano que passava - nada contra católicos, mas tudo contra fanáticos.

Só mais recentemente, com o Acústico MTV, é que eu fui redescobrir pérolas como Todos Estão Surdos e Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos. Que muito além das músicas sobre mulheres gordas ou de óculos, havia experimentos com a soul music americana no final da década de 60 e início da de 70, que originaram temas até hoje bastante regravados como Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo e Não Há Dinheiro Que Pague. E que nunca se escreveram versos tão bonitos em nosso cancioneiro como os de Detalhes e Cavalgada.

Na última sexta-feira, dia 16 de outubro, eu fiz de vez as pazes com esse passado mal resolvido, indo assistir ao meu primeiro espetáculo ao vivo do Rei.

Acho que só quem já esteve num show de Roberto pode entender plenamente o que é essa celebração emotiva, a comunhão de milhares de pessoas em torno de uma figura muito simples, de gestos comedidos e carisma gigantesco.

Ao longo de um set list que englobava desde sucessos da jovem guarda até o auge de suas músicas românticas, passando também pela fase mais brega de sua carreira, me peguei várias vezes com lágrimas aflorando aos olhos.

Voltei a ser menino sem dó nem piedade. Lembrei do meu avô, que morreu quando eu tinha 10 anos e de como minha mãe se emocionava quando ouvia Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo. Lembrei da Escola Classe da 304 Norte e de uma Brasília que não existe mais.

E isso tudo foi muito bom. Anos de terapia não teriam resolvido tão bem o que esse senhor fez por mim em apenas 2 horas!

Do alto de seus 50 anos de vida artística, Roberto Carlos permanece um caso de popularidade e paixão único em nosso país. Vendo-o, ao vivo, pude compreender tal fenômeno em sua totalidade.

Afinal, como já disse Caetano Veloso, não é à toa que a gente o chama de Rei...