quarta-feira, 17 de junho de 2009

Meus Discos Preferidos: Brasil

1 DoisLegião Urbana (1986)
A capa simples e minimalista, o clipe em preto-e-branco de Tempo Perdido, as letras intrincadas, poéticas e perfeitas de Renato Russo, a musicalidade direta (ou seria pobre?) de Eduardo e Monica, Índios e Música Urbana II, em suma, o disco-símbolo dos anos 80 e o álbum mais marcante do chamado rock brasileiro. Pelo menos, para quem tinha 16 anos na época...

2Fruto ProibidoRita Lee e Tutti Frutti (1975)
Dona de um passado brilhante junto à pioneira banda Os Mutantes, Rita Lee não tinha muito o que provar em sua carreira solo. Mas ela ousou construir uma discografia de luz própria. Fruto Proibido é o auge dessa busca. Pop e também muito rock – elemento que se perderia nos anos subsequentes – este disco reúne gemas como Ovelha Negra, Luz Del Fuego e Agora Só Falta Você.

3Roberto Carlos (Detalhes) – Roberto Carlos (1971)
Ele já era o “Rei” quando lançou este marco de uma extensa carreira, que se confunde com a história da música brasileira. Não existe nenhum artista que tenha tantas músicas gravadas no inconsciente coletivo nacional quanto Roberto. Ainda que sua produção dos últimos 25 anos seja, no mais das vezes, medíocre, isso não anula o intenso brilho de seu período mais criativo, do qual este disco de 1971 é o maior representante. Mesclando romantismo de fina elegância (Detalhes) com soul music (Como Dois e Dois, de Caetano Veloso) e gospel (Todos Estão Surdos, uma de suas músicas mais originais), é um trabalho irrepreensível.

4Vivendo e Não AprendendoIra! (1986)
Um grande ano para o rock nacional, talvez o ápice para uma geração que tirou as guitarras da garagem e levou sua insatisfação para o grande público. O Ira! foi um grupo que teve um impacto imenso para mim, pela garra e paixão com que tocava. Ainda que depois tenha me desiludido com muitas declarações racistas e idiotas do grupo, a inocência e poesia impressas neste belo trabalho resistiram bravamente às intempéries da vida.

5Bora BoraOs Paralamas do Sucesso (1988)
Os Paralamas foram o primeiro grupo do rock made in the 80’s que soube incorporar ao seu som a rica herança da música brasileira, além de acolher elementos outros, como ritmos latinos e africanos. Bora Bora faz com brilhantismo a ponte Brasil-África, com escala nas Ilhas Caribenhas. É também o disco com as melhores letras de Hebert Vianna, um compositor que sabe falar tão bem de violência urbana (em O Beco) quanto de amor (Quase Um Segundo).

6Secos e MolhadosSecos e Molhados (1973)
É curioso que, em plena ditadura militar, estes caras malucos tenham conseguido um sucesso gigantesco, cantando maquiados e vestidos de maneira, digamos, pouco convencional. Como se não bastasse a ousadia visual, ainda contavam com um cantor de voz feminina e atitude desafiadora, o jovem Ney Matogrosso. O som é quase todo acústico, com os belos vocais de Ney enfeitiçando todos em pequenas pérolas como Sangue Latino e Rosa de Hiroshima.

7CaetanoCaetano Veloso (1987)
Este talvez seja um disco menos festejado do festejado músico baiano, mas, acho que por isso mesmo, é um dos meus preferidos. Sem bobagens típicas de seus trabalhos mais “cabeça” ou concessões ao óbvio -, a exemplo de seus incontáveis discos ao vivo lançados nos últimos anos -, Caetano é um disco maravilhoso, seja pela simplicidade dos arranjos, seja pelas letras inspiradíssimas (é deste disco a arrepiante O Ciúme), seja pelas regravações de ótimo gosto (Fera Ferida, de Roberto e Erasmo Carlos).

8Acabou ChorareOs Novos Baianos (1972)
Frequentemente apontado como um dos dez melhores discos brasileiros de todos os tempos, Acabou Chorare é obra de uma época em que viver em comunidade, fazer amor e música e fumar um baseado caminhavam lado a lado com muita criatividade e ousadia musical. O que estes baianos arretados fizeram foi casar suas raízes nordestinas com a modernidade do rock e um certo despojamento herdado da bossa nova (não se pode esquecer, afinal, que eles foram apadrinhados por João Gilberto). O resultado disso pode ser ouvido em Preta Pretinha, uma das músicas mais irresistíveis já gravadas num vinil brasuca.

9Cabeça Dinossauro Titãs (1986)
Cabeça Dinossauro é o disco de rock que toda banda brasileira deveria aprender a fazer: instigante, variado, antenado com seu tempo, bem tocado e bem produzido. Os Titãs ainda gravaram outros ótimos discos como Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas e Õ Blésq Blon, mas o status de obra-prima do álbum de 1986 jamais seria alcançado novamente.

10Da Lama ao CaosChico Science & Nação Zumbi (1994)
O último suspiro de criatividade da música jovem brasileira, o Mangue Beat tinha tudo para acabar com a pasmaceira da cena pop nacional e se alastrar mundo afora. A morte estúpida de Chico Science brecou esse processo, mas ficaram dois belíssimos trabalhos, nos quais maracatu, música eletrônica, guitarras pesadas e percussão frenética geram uma sonoridade singular. A abertura de Monólogo ao Pé do Ouvido seguida de Banditismo por uma Questão de Classe está entre os momentos mais antológicos dos anos 90.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Que Terá Acontecido a... The Mission

Em 1962, o diretor Robert Aldricht lançou um filme marcante não só por sua história de sordidez, fracasso e relações familiares doentias, mas sobretudo pelo duelo de interpretações das duas protagonistas, Bette Davis e Joan Crawford. Supostamente, as duas atrizes se odiavam de verdade, e isso acaba transparecendo na dinâmica sufocante desenvolvida diante das câmaras.

O nome do filme é O que teria acontecido a Baby Jane e se trata, sem dúvida, de uma das obras-primas do cinema americano, daqueles que não perdem sua atualidade e importância nunca.

Inspirado por esse filme, resolvi criar uma nova série: O que terá acontecido a..., sobre artistas sumidos ou longe dos holofotes.

A banda de estréia é o The Mission, também conhecido como The Mission UK.

Formado por Wayne Hussey e Craig Adams, após deixarem o Sisters of Mercy – outra banda que poderia dar as caras por aqui –, o The Mission integrou um lote de grupos que ficaram conhecidos como góticos ou dark.

Lançaram o primeiro trabalho em 1986. E logo alcançaram o sucesso com a música Severina – e só imagino as chateações que as muitas Severinas espalhadas Brasil afora tiveram que aguentar por conta dessa canção.

Na época, a molecada incorporou roupas pretas, maquiagem pesada e um pessimismo totalmente falso, numa importação meio forçada de um movimento que já dava claras mostras de exaustão na Inglaterra – país berço de muitos modismos que passaram como uma nuvem.

Acontece que as ilhas britânicas são realmente um lugar meio para baixo: chove horrores, faz um frio lascado praticamente o ano inteiro e, na primeira metade da década de 80, ainda vivia sob o astral nefasto dos anos da administração Thatcher.

Além do mais, há uma tradição literária que remonta às peças mais sombrias de Shakespeare, passa pelo ultra-romantismo e pela própria literatura gótica, ou seja, toda a onda dark pode parecer meio ridícula, mas faz um grande sentido para eles. Já no Brasil...

Seja como for, o The Mission fez um sucesso doido por estas plagas. Sucesso que durou até o disco Children, de 1988, que contou com o auxílio luxuoso do ex-baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones. Depois disso, o grupo sumiu e nunca mais ouvi falar nada dos moços.

Em julho de 2008, numa loja em Portugal, encontrei um disco deles e, de certa forma, revivi um pouco da inocência com que eu absorvia tudo que vinha de fora, quando tinha uns 15 anos.

O The Mission continua sendo um símbolo de uma época de muitas descobertas e de formação de gosto pessoal.

Uma pena que se perderam em meio às trevas que eles próprios enalteciam...

domingo, 14 de junho de 2009

Entre Versos

Eu sei que o amor é bom demais
Mas dói demais sentir
Olhar você e não saber
Que você é a pessoa mais linda do mundo
Eu queria alguém lá no fundo do coração
Ganhar você e não querer
É porque eu quero que nada aconteça
Deve ser porque eu não ando bem da cabeça
Ou eu já cansei de acreditar
Ou eu já cansei...
O meu medo é uma coisa assim
Que corre por fora entra, vai e volta sem sair, oh, oh !
Oh, não ! Não tente me fazer feliz
Eu sei que o amor é bom demais

Pessoa. Gravado por Marina Lima, no disco O Chamado (1993). Composição de Dalto e Cláudio Rabello.

sábado, 13 de junho de 2009

Disco da Semana

É incrível que a máxima de que na natureza nada se cria, se repita miseravelmente em relação às artes.

Enquanto, hoje, muita gente – inclusive eu - fica babando por artistas como Bon Iver, Fleet Foxes e Iron& Wine, a verdade é que a musicalidade “pura” e orgânica desses artistas já havia sido explorada muitas décadas antes.

Exemplo disso é o disco If I Could Only Remember My Name, do músico americano David Crosby. Lançado em 1971, trata-se do primeiro registro solo de Crosby, que, na década de 60, foi pioneiro do folk eletrificado à frente do The Byrds, grupo que eternizou canções de Bob Dylan como Mr. Tambourine Man e My Back Pages.

Junto a Neil Young e, mais frequentemente, Stephen Stills e Grahan Nash, formou o primeiro super-grupo da história e, ao longo de uma carreira de mais de quatro décadas, consumiu mais drogas e se envolveu em mais escândalos do que produziu boa música.

If I Could Only Remember My Name é seu testamento musical, o disco pelo qual Crosby será sempre lembrado. Dono de uma sonoridade cristalina, é um trabalho na qual a bela voz de Crosby mergulha o ouvinte em doces sonhos, em que o ideário hippie ainda está impresso em cada letra.

Mesmo em rocks mais pesados (como Cowboy Movie, de longos e inebriantes 8 minutos), Crosby parece querer nos levar para uma terra prometida, onde se come o que se planta, a natureza é respeitada e o amor é livre e incondicional.

Ingênuo e piegas? Pode ser, mas cantado por esse velho hippie, tudo fica absurdamente crível e prazeroso.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

De Boas Intenções...

Há dois sérios problemas com o filme Budapeste (Brasil, 2009).

O primeiro é a direção pouco segura de Walter Carvalho. O segundo é ser um filme muito fiel ao livro no qual se baseia, a obra homônima de Chico Buarque.

O primeiro pecado, até que se perdoa, afinal Walter Carvalho tem sua primeira experiência dirigindo sozinho e há, aqui e ali, alguns bons momentos. Além do mais, provando sua excelência como diretor de fotografia, Walter brinda o público com imagens de babar (sobretudo as cenas filmadas na capital da Hungria).

Agora, quanto ao segundo...

O livro de Chico Buarque foi muito elogiado. Até o Nobel de Literatura, José Saramago, soltou delicadezas sobre a "obra". Mas, sinceramente, acho uma grande chatice.

Para mim, existe um imenso medo de se falar mal ou de criticar Chico Buarque. O cara virou um monstro sagrado. E não pode haver nada mais insuportável que a veneração boba que existe em torno de uma tal criatura. Os monstros sagrados são como seres mitológicos: eles habitam mundos fantásticos, realizam atos prodigiosos e desaparecem da nossa imaginação assim que a gente cresce um pouquinho.

Se os livros de Chico fossem analisados sem se levar em conta o nome do autor, seriam abominados ou então relegados ao esquecimento.

Estorvo tem o título mais adequado de seus quatro romances: não consegui passar das 20 primeiras páginas – e olha que sou um leitor bastante persistente!

Sobre Benjamim, me calo, porque, depois do trauma do primeiro, preferi passar longe do segundo.

Mas resolvi me dar uma segunda chance com Budapeste. Tempo perdido. Não sou crítico literário, muito menos escritor, mas não tenho medo de opinar sobre o que leio. E, no fundo, leio também para isso. Acho Budapeste um equívoco da primeira à última página. Pretensioso, verborrágico, vazio e cansativo, o livro só conseguiu me despertar uma imensa antipatia pelo protagonista, um homem em crise que parece buscar nas palavras uma salvação para o fracasso de sua vida.

A antipatia se repete na tela. Leonardo Medeiros, um bom ator que ainda não achou um papel à altura de seu talento, desenha um personagem por vezes detestável.

Para piorar, o texto rebuscado e pedante do livro marca presença numa narração em off que não contribui em nada para melhorar o roteiro (roteiro? que roteiro?).

Curioso que no mesmo dia, assisti a um filme uruguaio curtinho, simples e despretensioso, Viaje Hacia El Mar. Nada de excepcional, mas se os brasileiros aprendessem com os vizinhos a fazer cinema, com um pouquinho mais de alma e um bocado menos de arrogância, já teríamos dado um grande passo.

Entre Versos

É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor


A Linha e o Linho. Composição de Gilberto Gil (1983).

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Meus Discos Preferidos: Black Music

1 What’s Going OnMarvin Gaye (1971)
Este disco já foi eleito pelo jornal inglês New Musical Express como o melhor de todos os tempos. Uma escolha pouco usual, mas não exatamente equivocada. What’s Going On é o momento em que as músicas certinhas da fábrica de hits da Motown se deparam com a dura realidade de um mundo em guerra, com sérios problemas ambientais e muita violência nas grandes cidades. Tudo conduzido pela voz mágica do maior cantor que esse planeta já conheceu.
2 I Never Loved A Man The Way I Love YouAretha Franklin (1967)
Uma cantora extraordinária, uma coleção de canções inesquecível. Ninguém nunca pediu para ser respeitada com tamanha urgência – em Respect, de Otis Redding - ou gritou pela necessidade de mudanças sociais com a alma inteira saindo pelas cordas vocais – em A Change Is Gonna Come, o monumento de Sam Cooke, em sua versão definitiva. Todo mundo devia escutar este disco ao menos uma vez na vida.
3SuperflyCurtis Mayfield (1972)
Trilha sonora para um dos grandes sucessos do gênero cinematográfico, que ficou conhecido como Blaxploitation, Superfly é também a obra-prima de um dos gigantes da música negra americana, Curtis Mayfield. Recheado de fortes comentários sociais – criminalidade, a vida nos guetos, tráfico de drogas -, Superfly permanece tão atual quanto à época de seu lançamento. Não é para menos: os arranjos orquestrados, as guitarras espertas e, sobretudo, a voz doce de Mayfield brilham intensamente em qualquer tempo e lugar.
4 Fulfillingness’ First FinaleStevie Wonder (1974)
Outro garoto de ouro da Motown, que virou a mesa e passou a fazer discos altamente pessoais, Stevie Wonder é uma figura de uma musicalidade impressionante. Não bastasse sua voz única – um misto de masculino e feminino que tem intrigado há décadas -, Wonder ainda é um músico ousado e curioso o suficiente para juntar num mesmo disco, gospel (Heaven Is 10 Zillion Light Years Away), funk (Boogie On Reggae Woman) e puro romantismo (Too Shy To Say).
5 Live At The Harlem Square Club, 1963Sam Cooke (1985)
Lançado mais de vinte anos após sua gravação, esse disco incrível é o registro definitivo de um cantor que influenciou 10 entre 10 cantores negros americanos (e ouso dizer, muitos brasileiros). Ao vivo, Sam Cooke era pura dinamite, um mestre de cerimônias elegante e sensual que conduzia a platéia com entusiasmo e grande energia. Para ouvir e lembrar que um dia a música para bailar – como se dizia naquelas épocas – era feita também para se cantar junto.
6 High Priestess Of SoulNina Simone (1966)
Apropriadamente intitulado Alta Sacerdotisa do Soul, este disco é um monumento a uma voz nascida para enfeitiçar e maravilhar todos que a ouvem. Simone foi um farol na luta pelos direitos de igualdade civil dos negros americanos, e isso transparece em cada uma de suas interpretações. Ainda que, por vezes, os arranjos de algumas canções sejam melosos e sem originalidade, a qualidade vocal dessa cantora divina é sempre imperdível.
7 Off The WallMichael Jackson (1979)
Este foi o disco que consolidou a carreira solo do promissor garoto-prodígio dos irmãos Jackson. O repertório é divido entre músicas para cair na pista de dança e outras mais lentas. Para mim, Michael Jackson nunca convenceu como cantor romântico – ele sempre foi uma figura meio assexuada – ,mas quando acelera o ritmo, é simplesmente irresistível.
8 Purple RainPrince (1984)
Poucos artistas conseguiram unir ousadia com potencial comercial como Prince. Durante a década de 80, ele parecia imbatível em sua alquimia de rock, funk, soul e pop. Purple Rain não é exatamente uma trilha sonora. É mais um disco que deu origem a um filme, portanto um trabalho que está além das bobagens perpetradas por Prince na tela (o filme, para mim, é um verdadeiro horror). Se tivesse apenas a emblemática When Doves Cry e a grandiosa faixa-título, esse disco já seria um clássico.
9 On How Life IsMacy Gray (1999)
Um caso raro de disco contemporâneo feito com o espírito e a emoção dos grandes mestres do funk e do soul, On How Life Is lançou Macy ao estrelato, vendeu milhões de cópias e rapidamente caiu no esquecimento. O que prova, apenas, que vivemos numa época de memória curta e de casos de amor de rápida duração. A qualidade de canções como I’ve Committed Murder, I Tried e I Can’t Wait To Meetchu, entretanto, permanece inalterada e pronta para uma redescoberta.
10Going To A Go GoSmokey Robinson & The Miracles (1965)
Chamar Smokey Robinson de gênio é um lugar-comum, mas não deixa de ser uma constatação importante. Compositor de mão cheia, poeta premiado, cantor de voz suave e envolvente, Robinson é um verdadeiro pilar da música americana. Suas canções já foram regravadas incontáveis vezes, e ele permanece uma referência de pop de qualidade atemporal. Para entender tudo isso, basta apenas escutar The Tracks Of My Tears, faixa de abertura deste disco, de 1965, e uma das marcas registradas de Robinson.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Gig Posters

Um site incrível para quem curte artes gráficas, design e música é Gig Posters (http://www.gigposters.com/).

São mais de cem mil posters de concertos de rock catalogados, separados por ordem alfabética de banda.

Há desde bandas totalmente obscuras até blockbusters como U2 e Coldplay.

Uma viagem fascinante por um universo de estilos que abarcam a explosão cromática de nítida inspiração psicodélica, a funcionalidade fria da arte russa e da Bauhaus, o expressionismo abstrato americano e a estética dos quadrinhos.

Vale conhecer.

Capas Clássicas

Quando Bruce Springsteen lançou Born To Run, em 1975, ele ainda era um artista praticamente desconhecido nos Estados Unidos.

A dimensão épica das canções do disco, junto com letras claramente inspiradas pela literatura beatnick – o movimento artístico no qual despontou o escritor Jack Kerouac, autor do clássico On The Road-, bateu fundo no coração da América e rapidamente Bruce apareceria na capa de revistas de circulação nacional, como Time e Newsweek.

A foto do álbum, na qual Bruce aparece apoiado no saxofonista da E Street Band, Clarence Clemons, é uma imagem perfeita para a mitologia rock e estrada fundada com este disco.

Springsteen sempre foi mais um músico de palco que de estúdio. Seus shows são maratonas que, às vezes, duram 4 horas. Sua interação com a E Street Band – grupo de excepcionais músicos que o acompanham desde a década de 70 –, é caso de raro entendimento musical e amizade que se estende por quase 40 anos.

Na capa de Born To Run essa mistura de dependência, camaradagem e gosto pela música, está magicamente expressa numa imagem em preto-e-branco simples, enxuta e inesquecível.

Como a própria música de Springsteen.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A Sangue Frio

Um casal é atacado, sem motivos aparentes, por um grupo de três pessoas mascaradas, em uma casa na floresta. Este é a trama de Os Estranhos (The Strangers, EUA, 2007), filme a que eu assisti recentemente, junto a um clássico do terror do início da década de 80, Pague Para Entrar, Reze Para Sair (Funhouse, EUA, 1981), do diretor Tobe Hooper, autor de outra película fundamental do gênero, O Massacre da Serra Elétrica, de 1974.

O roteiro de Funhouse não difere essencialmente de 90% dos filmes do gênero (inclusive Os Estranhos): um grupo de adolescentes fica preso em um parque de diversões, onde é atacado por um rapaz de aspecto monstruoso, que os persegue violentamente até o final da fita.

O que na verdade esses filmes me despertaram, além de alguns de momentos de tensa diversão, foi uma profunda reflexão a respeito da natureza do medo e da crueldade humana.

Não pude deixar de lembrar da obra-prima de Truman Capote, A Sangue Frio, na qual o genial escritor americano mergulhou fundo na investigação de um crime bárbaro, cometido por motivos fúteis.

Capote teve acesso aos acusados, tendo inclusive desenvolvido um relacionamento de caráter ambíguo com um deles. O impacto da publicação de seu livro mais famoso, traria luz não apenas sobre o ato criminoso como também sobre a psicologia um tanto labiríntica dos criminosos.

Ler A Sangue Frio é uma experiência que nos coloca em contato direto com o lado mais obscuro e selvagem do ser humano. Impossível ficar indiferente.

Não que os filmes citados tenham a complexidade da obra de Capote, mas, para mim, o que esse tipo de filme faz é entregar para as massas um produto em que se purga o terror, sem precisar entrar em contato com nossa porção mais nefasta.

É, de certa forma, o mesmo efeito produzido por música muito violenta ou extremamente barulhenta. Acho que vem daí o fascínio de muito adolescente pelo heavy metal, o trash, o rock de inspiração satânica e outros subgêneros musicais.

Cada vez mais, me parece que, tanto os filmes de terror quanto o heavy metal são, para adolescentes e jovens adultos, como um espelho. O reflexo que ele produz pode parecer um tanto distorcido para quem já passou por essa fase, mas para quem a vive, é real, intenso e profundamente vital.

domingo, 7 de junho de 2009

Entre Versos

Para provar que não tenho má vontade com a música brasileira, resolvi selecionar um grupo de canções que eu gosto muito, com os versos mais significativos de cada uma delas (perdoia-nos, Camões...):

1- Detalhes - Roberto Carlos
Eu sei que esses detalhes
Vão sumir na longa estrada
Do tempo que transforma
Todo amor em quase nada
Mas "quase"
Também é mais um detalhe
Um grande amor
Não vai morrer assim
Por isso
De vez em quando você vai
Vai lembrar de mim
(...)
2- Vambora - Adriana Calcanhotto
Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Prá mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva
(...)
3- Índios - Legião Urbana
Eu quis o perigo
E até sangrei sozinho
Entenda!
Assim pude trazer
Você de volta pra mim
Quando descobri
Que é sempre só você
Que me entende
Do início ao fim.
4- O mundo é um moinho - Cartola
Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés.
5- Preciso me encontrar - Candeia
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver
(...)
6- Só nos resta viver - Ângela Rô Rô
Quem dera pudesse
A dor que entristece
Fazer compreender
Os fracos de alma
Sem paz e sem calma
Ajudasse a ver
Que a vida é bela
Só nos resta viver.
7- Sampa - Caetano Veloso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva.
8- Super-homem, a canção - Gilberto Gil
Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher.
9- Outra vez - Roberto Carlos (com letra de Isolda)
Das lembranças
Que eu trago na vida
Você é a saudade
Que eu gosto de ter
Só assim!
Sinto você bem perto de mim
Outra vez
(...)
10- Para um amor no Recife - Paulinho da Viola
Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria minha dor
Meu amor eu não esqueço
Não se esqueça por favor
Que voltarei depressa
Tão logo a noite acabe.
11- Sonhos - Peninha
Mas não tem revolta não
Eu só quero
Que você se encontre
Ter saudade até que é bom
É melhor que caminhar vazio
A esperança é um Dom
Que eu tenho em mim
Eu tenho sim
Não tem desespero não
Você me ensinou
Milhões de coisas
Tenho um sonho em minhas mãos
Amanhã será um novo dia
Certamente eu vou ser mais feliz
(...)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Do Baú

Sou aquilo que costumam de chamar rato de sebo. Sempre tive o saudável hábito de xeretar, em meio a prateleiras empoeiradas, discos e livros novos e antigos. Alguns de meus discos mais queridos, foram adquiridos em sebos tanto brasileiros quanto estrangeiros (quando viajo, já saio com uma lista de lojas no bolso).

Recentemente, encontrei em um dos mais tradicionais sebos de Brasília, um trabalho que tinha escutado uma única vez, mas que havia me impressionado bastante: Cida Moreyra Interpreta Bertold Brecht.

O disco me havia sido apresentado por uma professora de história de teatro, na Universidade de Brasília (UnB), durante uma aula sobre o chamado teatro épico, do grande dramaturgo alemão Bertold Brecht. Na época, já conhecia a obra de Brecht por meio de uma montagem de Mãe Coragem, vista no Teatro Dulcina, e pela leitura da obra-prima Galileu, para mim um dos maiores textos de literatura dramática já escritos.

A descoberta das músicas compostas por ele junto a Kurt Weill foi um achado inesquecível. Fico imaginando a montagem de suas peças nas décadas de 20 e 30, com toda a efervescência cultural da Alemanha pré-nazismo, o engajamento sócio-político dos trabalhos, as canções comentando e expandindo as possibilidades dramáticas de cada cena, enfim, uma revolução embrionária que foi abortada pela truculência do regime de Hitler.

No disco de Cida, a grande maioria das canções está traduzida para o português pelo diretor teatral Cacá Rosset e são, quase que exclusivamente, acompanhadas apenas pelo ótimo piano da própria Cida. Com toda sua experiência prévia como atriz, ela soube dar o tom exato de teatralidade a cada canção.

Habilmente, Cida costura comédia, drama e musical num disco brilhante.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Meus Discos Preferidos: Anos Dois Mil

Gimme FictionSpoon (2005)
Os americanos dominam de forma avassaladora a música de boa qualidade que se faz hoje. Enquanto os ingleses ficam choramingando e se lamentando, seus colegas nos Estados Unidos experimentam todas as possibilidades de se fazer música excitante, inteligente e altamente prazerosa. O Spoon já possuía alguns anos de estrada quando atingiu o pico criativo com esse instigante Gimme Fiction. O que o coloca, para mim, no topo da lista é o ótimo vocalista e principal compositor Britt Daniels, capaz de cantar em falsete na ótima I Turn My Camera On, soltar a voz em My Mathematical Mind e ainda se converter num ótimo crooner pop em Sister Jack.

Dear Science – TV On The Radio (2008)
Mais uma excelente banda, essa vinda do Brooklin, NY. Admirado por gente como David Bowie, o grupo começou altamente experimental, mas foi, aos poucos, dosando ousadia musical com um instinto pop invejável. Num mundo perfeito, Dear Science venderia horrores, tocaria sem parar no rádio e seria recebido pelo grande público como se fosse, digamos, um disco de Mariah Carey. Sem os gritos e as caras e bocas, é claro.

ElephantThe White Stripes (2003)
Uma das figuras mais produtivas da cena atual, Jack White vai gravando um disco atrás do outro (com ou sem sua parceira Meg), sem dar sinais de fadiga criativa. Elephant não é em nada diferente da mistura de blues, country e rock ensurdecedor que marcou os discos anteriores do grupo, mas é aqui que se encontram Seven Nation Army, The Hardest Button To Button e Girl, You Have no Faith In Medicine, para mim, as três melhores canções de Jack e Meg.

A Rush Of Blood To The HeadColdplay (2002)
A melhor banda inglesa de pop rock dos últimos anos, o Coldplay desperta reações apaixonadas: tem gente que acha um saco o som “sensível” do grupo, enquanto outros simplesmente se deixam levar pela qualidade – indiscutível – das canções compostas por Chris Martin e Cia. Eu sou assumidamente do segundo grupo. Acho que eles são brilhantes compositores, que Martin canta com todo coração e que, sim, ainda existe espaço para sensibilidade na música pop.

Franz FerdinandFranz Ferdinand (2004)
O melhor debut da década, este disco é a suprema união entre o guitar rock típico dos anos 90 com as batidas dançantes das bandas pop da década de 80. As influências apontadas aqui vão de Duran Duran a Gang Of Four, mas o que vale mesmo é a alquimia que estes escoceses realizam em canções já clássicas como Take Me Out e Darts Of Pleasure.

American IdiotGreen Day (2004)
Num ano de grandes estréias, os já veteranos rapazes do Green Day fizeram um épico punk que radiografou a era Bush de maneira brilhante. Ambicioso, intenso, recheado de canções de qualidade atemporal , American Idiot é uma dessas obras que já nascem clássicas.

Rated RQueens Of The Stone Age (2000)
Chamado à época do lançamento deste disco de novo Nirvana, o QOTSA não precisou de comparações tolas para impor seu rock setentista, chapadão e pesado. A primeira faixa traz sob o irônico título de Feel Good Hit Of The Summer, uma letra que somente lista uma série de drogas lícitas e ilícitas, enquanto que em Better Living Through Chemistry, o grupo ressuscita a psicodelia com um peso e uma pegada que remetem ao som do Led Zeppelin e do Black Sabbath.

Gang of Losers - The Dears (2006)
Esta última década tem sido testemunha de uma extraordinária ascensão do rock vindo do Canadá. The Dears é uma das melhores bandas de uma cena que inclui nomes como New Pornographers, Broken Social Scene e Feist. Girando em torno do ótimo vocalista Murray Lightburn, o grupo limou excessos e vícios dos discos anteriores e lapidou, em Gang of Losers, um diamante perfeito, que brilha da primeira à última faixa.

Live a LittlePernice Brothers (2006)
Joe Pernice é uma figura singular: faz música simples, de melodias assobiáveis, letras delicadas e arranjos cristalinos. Live a Little é seu sexto disco e o exemplar mais bem acabado de uma estética que despreza modismos e modernices, em favor de espontaneidade e sinceridade raramente vistas. Toda vez que bate uma certa melancolia, coloco este disco no player, seleciono a 3ª faixa, Somerville, e logo me sinto mais confortado.

The Dirty SouthDrive-By Truckers (2004)
Sexto trabalho desta excepcional banda do Alabama, The Dirty South é um disco para quem gosta de rock puro e dos bons, sem frescuras ou maiores invenções. Tudo tem nítido sabor sulista, aquele rock básico meio caipira, com um pé no country e outro no blues. É um disco longo (quase 80 minutos!), mas que não cansa ou se repete. E ainda tem uma emocionante homenagem aos vocalistas do The Band, na bela Danko/Manuel. Para quem quer saber como se faz rock’n’roll de verdade, hoje em dia, este é o disco.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Para Ouvir e Se Arrepiar

Na década de 70, as rádios A.M. eram a principal fonte de informação, música e entretenimento para muitos brasileiros. Foi, também, a minha trilha sonora até mais ou menos os 10 anos de idade.

Mas não se resumia apenas à música.

Existia, na época, um programa que fez o terror de muitas das minhas noites, além de alimentar muitíssimo minha fértil imaginação: As Histórias Que o Povo Conta.

Tratava-se de um programa em que cartas enviadas pelos ouvintes relatavam causos, acontecimentos sobrenaturais, casos de possessão demoníaca e outras lendas urbanas e rurais. A narração era lúgubre e acompanhada por um fundo musical chupado de filmes de terror.

Hoje, fico imaginando que tudo devia ser absolutamente tosco, mas para um moleque de 7, 8 anos de idade, aquilo era o máximo de suspense e terror.

Quantas noites foram passadas em claro, assombrado pela canastrice dos locutores, que descreviam mulheres sedutoras que voltavam do túmulo, fantasmas que perseguiam motoristas em noites frias e solitárias e inocentes criancinhas que eram possuídas pelo diabo (cruzes!).

Outro programa que eu achava espetacular, era o romântico Para Ouvir e Amar, no qual canções melosas nacionais eram alternadas com outras em inglês, que eram traduzidas simultaneamente por um locutor cheio de amor para dar. Isso, sem falar nas cartas apaixonadas, todas lidas com a dose obrigatória de sacarina e pseudo-sensualidade.

Lembro que quando assisti a Domésticas, o Filme (Brasil, 2001, diretores: Nando Olival e Fernando Meirelles), muito desse passado veio à mente. Talvez porque na infância tenha convivido muito com empregadas domésticas, inclusive tendo ajudado a escrever muitas cartas de amor para seus pretendentes, e escutado os clássicos da música brega junto com elas.

Daí, também, muito da minha admiração por artistas como Sidney Magal, Gretchen, Fernando Mendes e Odair José. Desprezados pela elite pensante e culta, eles eram o lado doce no amargo dia-a-dia de grande parte de nossa gente.

Se hoje não consigo parar, por mais de 15 minutos, em qualquer estação de rádio, não posso deixar de ter uma recordação afetuosa de uma época em que o rádio era uma das partes mais ternas, excitantes e assustadoras da minha vida.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Discos e Arte II

Uma imagem icônica para o rock: uma figura desesperada projeta um grito, que distorce tudo ao seu redor.

A capa do primeiro álbum do King Crimson, lançado em 1969, já despertou muita especulação sobre seu sentido. E continua intrigando e fascinando.

O disco, clássico, é um conjunto de apenas 5 longas faixas, exaustivamente trabalhadas, que estabeleceriam o padrão para o chamado rock progressivo. Mas, ironicamente, a capa é mais lembrada que a própria obra.

Para mim, a beleza dessa pintura só encontra paralelo em outro quadro sobre angústia, desespero e dor, O Grito, do norueguês Edvard Munch, exposto pela primeira vez em 1893 e, desde então, uma das imagens mais conhecidas da arte ocidental.

Munch, que teve a vida marcada pela depressão e por perdas precoces de pessoas queridas, traduziu perfeitamente o sentimento de inadequação e desamparo do homem moderno.

Mais de 70 anos depois, o King Crimson captaria novamente esse sentimento em sua magnífica estréia.

A euforia de paz e amor dos anos 60 já dava claras mostras de cansaço no final de uma década que, em retrospecto, se revelaria violenta, conturbada e sangrenta.

Novamente, o único ato possível, nesse contexto, é gritar para o vazio.

Pelo menos, dessa vez, havia uma bela trilha sonora de fundo...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Tristes Trópicos

Dia desses, estava o rádio do meu trabalho ligado numa dessas estações que tocam o melhor da música brasileira, quando escuto a versão de uma canção que já devia ter sido sepultada para sempre.

O tal cover era de Um Dia de Domingo, sucesso bregoso interpretado originalmente por Gal Costa e Tim Maia. Pois não é que a música foi regravada por uma das figuras mais nefastas da atual cena pop brasileira, Ana sou bi e daí Carolina.

Ana não é nada burra e deu aquela roupagem voz e violão que muita gente acha o máximo do despojamento e sofisticação sonoros e, pronto, lá está a onipresente mineira berrando para quem quiser ouvir que tudo vai ficar por conta da emoção (argh!!!!!!!!!!!).

Na verdade, Ana Carolina não é o grande problema da música brasileira de grande consumo. O problema é a indústria querer vendê-la como ótima cantora e compositora, são as rádios que executam suas canções de hora em hora, é a televisão que a promove incessantemente.

É uma massificação do gosto raso da maioria, que só encontra paralelo na baiana Ivete Sangalo, essa, sim, um caso criminoso de imposição de uma estética burra, que privilegia somente o entretenimento e coloca a música em último lugar.

Não à toa, os espetáculos de Sangalo são cada vez mais superproduzidos, uma imitação grosseira de grandes shows internacionais. Nada contra música como pura diversão, mas há um sério risco para a cultura de um país quando toda arte se resume a mero passatempo.

Sei que não sou exatamente um entusiasta da nossa música. Acho que os grandes luminares do cancioneiro brasileiro são, em sua grande parte, pedantes e pretensiosos, mas reconheço a importância de Chico Buarque, de Caetano Veloso, de Gilberto Gil e de João Gilberto. E até tenho um grande afeto pela fase jovem guarda de Roberto Carlos, além de achar a produção de Rita Lee, na década de 70, fantástica.

Bem ou mal, toda essa geração, que hoje se encontra com mais de 60 anos de idade, deixou um legado. O mesmo se pode dizer, com certas ressalvas, da galera do rock oitentista.

Quanto a essa gentalha que anda sugando o resto de energia da agonizante indústria fonográfica nacional, penso que seu legado será a destruição de toda fagulha de criatividade e originalidade que ainda possa existir pelos rincões deste imenso País.

Talvez, a luz no final do túnel esteja no underground, nas grandes festas populares e nas pequenas manifestações artísticas, que se mantém à parte da mídia.

Está mais do que na hora de um levante.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Dica

Um dos discos mais bonitos que escutei nos últimos tempos é Hold Time, do músico americano Matthew Stephen Ward, que assina seus trabalhos simplesmente com M. Ward.

Ward já havia encantado seus fãs com o disco Post-War, de 2006, uma fantástica viagem por um universo onde country, surf music e rock independente se fundem para criar um som único.

Hold Time não traz novidades para esse formato, mas as composições de Ward evoluíram muitíssimo. Suas músicas estão mais bem estruturadas e as boas canções vão se acumulando num crescendo, em que se destacam as faixas Never Had Nobody Like You (com participação da atriz e cantora Zooey Deschanel) e Oh Lonesome Me (esta com a sublime cantora Lucinda Williams).

É difícil escutar Hold Time sem se imaginar numa praia ensolarada, com uma leve brisa soprando e uma imensa sensação de bem estar e paz na vida. E uma ocasional melancolia, é verdade...

Para quem tem interesse em musicalidades inclassificáveis, doces melodias e um pop bastante diverso do que se faz atualmente, vale também checar o disco Volume 1, a faixa She And Him, no qual Ward se juntou a Zooey Deschanel para uma revisão bastante livre da country music americana, além de ótimas releituras de clássicos como I Should Have Known Better, dos Beatles, e You Really Gotta Hold On Me, de Smokey Robinson.

Meus Discos Preferidos: Anos Noventa

1Ok Computer Radiohead (1997)
A trilha sonora perfeita para os gélidos anos 90, este disco é uma espécie de Dark Side Of The Moon, atualizado para a geração internet. Radiografia precisa de um mundo tecnológico e impessoal, Ok Computer preserva seu status de obra-prima da década por aliar experimentação musical com uma habilidade invejável para gerar grandes canções (os dois melhores exemplos são Karma Police e Lucky).

2 Odelay Beck (1996)
Um artista que representa o lado mais ousado e criativo de uma década em que as fronteiras que separavam estilos musicais foram para o espaço, Beck teve seu ápice no seu segundo registro em estúdio. Odelay é um disco em que rock, hip hop, country, blues e eletrônica convivem em perfeita harmonia.

3 NevermindNirvana (1991)
Talvez este seja o disco mais influente feito nas últimas duas décadas e, ao que parece, seu espectro não dá mostras de desaparecer tão cedo. É um daqueles casos raros em que sucesso de vendagem vem de mãos dadas com uma qualidade artística imensa. Smells Like Teen Spirit, Come As You Are, Polly e Lithium são polaroids de um tempo no qual o mundo inteiro passou a viver em Seattle. Vestindo camisa xadrez e calça jeans surrada, é claro.

4 XOElliott Smith (1998)
Uma perda menos sentida que a de Kurt Cobain, mas igualmente triste, o suicídio desse brilhante cantor e compositor americano, interrompeu uma carreira que apenas começava a decolar, com este lindíssimo trabalho de 1998. Smith cantava com o coração vibrando em suas cordas vocais. As canções deste disco são pequenos contos de desesperança e solidão, que revelam uma delicadeza e uma fragilidade que não poderiam resistir durante muito tempo mesmo...

5 Car Wheels On A Gravel Road Lucinda Williams (1998)
Muito rock para o público country e muito country para o público roqueiro, Lucinda Williams vinha de uma longa carreira de belos discos e pouca – ou nenhuma – repercussão, quando lançou essa maravilha chamada Car Wheels On A Gravel Road. O mundo descobriu, então, uma compositora incrível, que sabia falar das dores do coração, do aconchego do lar, da vida na estrada e da felicidade de se tocar uma guitarra, sem nunca desandar para o piegas.

6Début Bjork (1993)
Uma artista que dominou toda a década de 90, sem jamais cair na repetição ou auto-indulgência, Bjork é um desses milagres artísticos que conseguem nos surpreender, mesmo quando tudo parece estar perdido. Début é seu disco mais apaixonante porque preserva uma certa ingenuidade. É como se este pequeno duende islandês estivesse brincando de fazer música. Só que o resultado é uma musicalidade madura e altamente elaborada, que se revela nos pequenos detalhes de Human Behavior, Aeroplane e Venus as a Boy.

7TenPearl Jam (1991)
Um monstro que fundiu no seu corpo o heavy rock da década de 70, a intensidade do levante punk e o rock clássico de artistas como Bruce Springsteen, o Pear Jam já começou sua carreira de forma superlativa, vendendo horrores e arrastando multidões para seus shows. No coração dessa avalanche encontra-se a supremacia de canções como Black, Even Flow e Alive. Qualidade e perfeição que a banda jamais conseguiria superar.

8 DryPJ Harvey (1992)
Um som cerebral, pesado e inteligente era a arma principal da inglesa Polly Jean Harvey para se diferenciar de suas colegas em meio a maior invasão feminina que o rock já viu. Se, até a década de 80, mulheres eram ainda artigo esparso no reino das guitarras, os anos 90 viram esse panorama mudar radicalmente. PJ estabeleceu o padrão pelo qual todas as garotas que queriam fazer música teriam que se guiar. Só na década passada, gravou três discos imprescindíveis. E segue com sua criatividade intacta e cada vez mais ativa.

9 BandwagonesqueTeenage Fanclub (1991)
Mestres em criar melodias doces e grudentas, esses rapazes escoceses foram uma espécie de bálsamo, numa época em que as guitarras barulhentas voltaram a imperar. Fundindo influências que iam do power pop do Big Star até as harmonias gloriosas do The Byrds, o Teenage construiu uma carreira que, mesmo sem conseguir repetir o sucesso deste Bandwagonesque, se manteria coerente na sua proposta de fazer música simples e, em seus momentos mais inspirados, inesquecível.

10 The Soft BulletinThe Flaming Lips (1999)
O disco mais viajante da década, The Soft Bulletin tirou o Flaming Lips do anonimato e marcou indelevelmente a vida de todos que se aventuraram neste álbum mezzo conceitual, mezzo rock independente. Criando um universo à parte em que uma colherzinha pesa uma tonelada e o super-homem está cansado de salvar a Terra, o vocalista Wayne Coyne e seus asseclas forjaram uma obra-prima psicodélica, pomposamente orquestrada e poeticamente instigante.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Capas Clássicas

A imagem diz tudo: 4 caras maquiados, vestidos como personagens de história em quadrinho, tocando um rock insano.

O disco é Alive!, lançado pelo Kiss, em 1975, e que, em pouco tempo, transformaria o grupo em superastros nos Estados Unidos.

Hoje, o Kiss virou uma máquina de fazer dinheiro cínica e aproveitadora. Nada contra, acho que os caras podem morrer fazendo o que fazem – se ainda houver quem queira vê-los -, mas a mágica do período compreendido entre 1973 e 1977, se perdeu para sempre.

Ainda bem que temos Alive! – o melhor disco ao vivo de todos os tempos –, e sua clássica capa para nos lembrarmos de que um dia eles foram a maior banda de rock do mundo.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Tragédia Revisitada

Poeta, homossexual assumido, marxista convicto e cineasta inquieto, o italiano Pier Paolo Pasolini dirigiu alguns dos filmes mais interessantes da segunda metade do século XX.

Sua carreira contempla estilos diferentes, indo do cinema de temática social fortemente influenciado pelo neo-realismo, até adaptações de clássicos da literatura e de tragédias gregas.

Entre estes últimos, estão sua releitura muito pessoal de Medeia – estrelado pela cantora lírica Maria Callas – e de Édipo Rei.

A história de Édipo – o filho que mata o pai e se casa com a própria mãe –, é uma das mais conhecidas da tragédia clássica, muito graças às teorias de Freud, que se apropriou do mito grego para fundar a Psicanálise.

Justamente por isso, é interessante conhecer a visão de Pasolini.

Sem um respeito exagerado por um texto tão caro ao inconsciente coletivo do Ocidente, mas, ainda assim, mantendo-se fiel à trajetória do herói helênico, Pasolini nos apresenta um Édipo intenso, vivo e real.

É também curiosíssima a opção da transposição da Grécia Clássica para um deserto bárbaro, onde profecias terríveis acontecem em meio a danças tribais e assassinatos sangrentos são presenciados por deuses mudos.

A profunda compreensão do cineasta de que o terreno da tragédia é, na verdade, a alma humana, se traduz em imagens de grande impacto.

Daí, talvez, o deserto, o ermo, o horizonte perdido em que Édipo vaga desesperado ao final de seu drama.

Cego, humilhado e perdido para sempre, Édipo é nós todos: seres ridículos tateando no escuro da existência.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Meus Discos Preferidos: Anos Oitenta

1 - CloserJoy Division (1980)
Um disco enigma, um modelo que seria absurdamente copiado (e jamais igualado), e o nascimento de um mito. O suicídio do vocalista Ian Curtis tornaria este segundo e último álbum do Joy ainda mais cultuado, mas a força e a beleza das derradeiras canções registradas por Curtis têm vida própria e se impõem acima de qualquer mórbida adoração e culto da morte (um pecado no qual muitos fãs de rock parecem incorrer).

2 The SmithsThe Smiths (1984)
O primeiro disco lançado por Morrissey e cia beira a perfeição e tem canções absolutamente clássicas, como This Charming Man, Still Ill e What Difference Does It Make . Ainda que eles tenham atingido a maturidade com o terceiro trabalho, The Queen Is Dead, de 1986, The Smiths é repleto de uma inocência e lirismo que se perderiam um pouco ao longo do caminho. E há também a fantástica capa - belo trabalho gráfico que criou uma identidade visual, que marcaria para sempre a carreira da banda.

3DocumentR.E.M. (1987)
Até hoje, o melhor disco da grande banda americana e também aquele com o maior número de canções clássicas (The One I Love, The Finest Worksong e a definitiva It’s The End Of The World As We Know It), Document colocou o rock independente veiculado em rádios universitárias nas paradas, chamando a atenção do resto do mundo para a banda do vocalista Michael Stipe. É bem verdade que eles nunca igualariam a energia e a pegada alcançadas aqui, mas o R.E.M. tem o mérito de ter permanecido fiel a sua ética de independência e integridade artística. Além de, é claro, terem gravado outras músicas perfeitas...

4 WarU2 (1983)
Durante muito tempo, o melhor disco da década de 80, foi, para mim, The Joshua Tree, lançado pelo U2 em 1986. Mas, curiosamente, esse foi um disco que não resistiu tão bem ao teste do tempo quanto o terceiro trabalho da banda, War. Vigoroso, recheado de músicas que até hoje compõem o set list dos shows do U2, War perdeu muito de sua importância como disco político e contestatório, mas permanece inalterado em sua qualidade musical.

5 Ocean RainEcho & The Bunnymen (1984)
Se tivesse apenas a faixa-título – uma canção grandiosa, que parece querer atingir o céu – e a emblemática The Killing Moon – a perfeição em formato de canção-pop – este disco já seria imprescindível. Mas há muito mais para se deleitar na fórmula pós-punk psicodélica manipulada com precisão por Ian McCulloch e os Homens-Coelho. Ambicioso, poético e altamente viciante.

6 Low LifeNew Order (1985)
O New Order poderia ter se tornado apenas um “sub Joy Division”, mas, ao invés disso, preferiu se arriscar e acabou burilando um som totalmente novo e que teria grande influência em todos os sons que misturam rock com música eletrônica. A diferença entre o New Order e seus seguidores, é que seus integrantes tinham um imenso talento para criar pérolas pop, coisa que Low Life tem aos montes. De Love Vigilantes até o encerramento com Face Up, este disco se revela uma aula de como fazer música para chacoalhar o corpo, sem esquecer de alimentar a mente. Brilhante!

7 Surfer RosaPixies (1988)
De todos os discos que conheci, no final da década de 80, nenhum foi tão marcante quanto Surfer Rosa. Embora, a rigor, o Pixies não apresentasse nada de novo, o impacto de sua surf music insana foi imenso. Durante alguns anos, eles foram tudo que se pode esperar de uma banda de rock: rebeldes, pesados, iconoclastas e surpreendentes. E autores de algumas das melhores canções daqueles anos.

8 Let It BeThe Replacements (1984)
Ao lado do R.E.M, esta talvez seja a mais importante e influente banda surgida no underground americano. Nirvana, Pearl Jam, Smashing Pumpkins, enfim, todos os grandes grupos surgidos nos Estados Unidos, na década de 90, devem alguma coisa aos Replacements. Let It Be é o disco para começar a gostar deles. Tudo está aqui: do rock certeiro de I Will Dare até o cover esperto de uma canção obscura do Kiss, Black Diamond, o grupo não dá uma fora. Um disco de rock direto e sem frescuras.

9PsychocandyThe Jesus And Mary Chain (1985)
O ruído como forma de expressão artística não era exatamente uma novidade. O Velvet Underground já havia incorporado sons pouco usuais ao seu rock de vanguarda. Mas os irmãos Reid levaram essas experiências embrionárias a níveis realmente inesperados. Profundamente influenciados por Beach Boys, pelos grupos femininos da década de 60 e pelo Velvet, o Jesus recuperou a canção de 3 minutos como pedra fundamental do rock, e acrescentou a esse formato muita distorção, microfonia, ruídos diversos e uma barulheira infernal. No meio de camadas e mais camadas de guitarras, o grupo se sai com pequenas maravilhas como Some Candy Talking e Just Like Honey.

10Kicking Against The Pricks Nick Cave And The Bad Seeds (1986)
Este disco marcou muito meu final de adolescência. Acho que o escutava três, quatro vezes seguidas, tentando entender o que me fascinava tanto. Hoje, percebo que o tratamento entre irônico e reverente que Cave e sua banda dão às 14 músicas alheias que compõem este disco, era algo muito novo e surpreendente para mim. Antes de tudo, a fantástica habilidade deste artista australiano de transformar cada um desses covers em obra totalmente sua, é que faz o brilho e a qualidade perene deste Kicking Against The Pricks.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Doces Domingos

Eles são um casal casado, ambos cegos e músicos de uma longa carreira na distante Mali, na África.

Foi preciso a interferência do músico francês Manu Chao para que a dupla africana Amadou e Marian se tornasse conhecida no resto do mundo. Chao produziu o disco Dimanche a Bamako, e introduziu na música sinuosa e dançante do casal seu liquidificador de ritmos variados, criando assim uma obra de aceitação pop instantânea.

Chao não se limitou a simplesmente sentar atrás da mesa de som. Sua participação no disco é bem mais efetiva. Ele canta e co-escreve várias das canções. A quem diga que é muito mais um disco de Manu Chao com Amadou e Marian do que o contrário. Mas, embora o estilo “tudo ao mesmo tempo agora”, de Chao, seja onipresente no disco, não é ele quem faz o seu brilho.

As estrelas aqui são, sem sombra de dúvida, Marian que, com sua voz pequena e quase infantil, consegue encantar mais que muita Celine Dion da vida, e Amadou, um guitarrista cheio de ginga e balanço.

Escutar faixas como M’Bife e Beaux Dimanches é não apenas um grande prazer, mas principalmente, a descoberta de uma musicalidade rica e apaixonante.

sábado, 16 de maio de 2009

Discos e Arte

Quando o genial artista pop americano Andy Warhol resolveu apadrinhar uma banda de rock, ele escolheu justamente a mais marginal, perigosa, ousada e, como o tempo viria a provar, influente de todos os tempos, o Velvet Underground.

Para ilustrar o primeiro disco do Velvet, gravado em 1967 com o acréscimo da cantora alemã Nico, Warhol presenteou o grupo com uma capa que entraria definitivamente para a história do rock e redefiniria o design de embalagens de discos.

Indo na contramão da colorida arte que enfeitava os álbuns de rock psicodélico, Warhol concebeu um projeto minimalista e de uma simplicidade absoluta. Sobre um fundo branco, uma banana rigidamente desenhada e a assinatura do artista. Só.

Se hoje parece sem grande originalidade, é só dar uma passeada pelas capas de discos feitas então. A ousadia de Warhol salta aos olhos.

Pelo que já li sobre esse importantíssimo disco, a banana da capa era descascável, detalhe que se perdeu no formato cd, mas que certamente tornava o trabalho do papa da pop arte ainda mais interessante e único.

Deu no Noblat

Enviado por Ricardo Noblat

16.5.2009

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/
11h00m

vale a pena acessar

Dica de blog - Vitrola Encantada

Blog Vitrola Encantada
Desde primeiro bolachão de vinil, no início da década de 80, até os mais obscuros downloads que se podem achar na rede, este blog é uma viagem de Luis Valcácio ao universo encantado da música pop e do rock de todos os tempos. Sugestão de Afonso Celso Machado.

Sugiro diariamente sites, blogs e fotologs que valham a pena ser acessados.

Mandem sugestões para noblat@uol.com.br

Agradeço desde já.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Meus Discos Preferidos: Anos Setenta

1 Dark Side Of The MoonPink Floyd (1973)
Para mim, este disco é uma espécie de totem, um oráculo sagrado ao qual eu sempre recorro. Viajante, progressivo sem ser tedioso, poético e perfeito em sua concepção musical, Dark Side é uma longa ode ao ex-vocalista do Floyd, Syd Barrett, àquelas alturas já perdido para o mundo e habitando um universo completamente à parte.
2Led Zeppelin IIILed Zeppelin (1970)
É muito difícil escolher entre os 4 primeiros discos do Zeppelin. São todos perfeitos e é incrível perceber a evolução do grupo desde o heavy blues do primeiro trabalho até a maturidade musical alcançada em 1971, com o emblemático quarto álbum. Mas o meu preferido segue sendo o terceiro. Talvez, porque seja o menos pesado. Talvez, porque tenha Since I´ve Been Loving You . Não sei, mas o fato é que toda vez que penso em ouvir Zeppelin , corro para o III.
3 The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars David Bowie (1972)
O mais genial artista da década de 70 passou por várias fases: foi folk no primeiro disco, hard no segundo, inclassificável no ótimo Hunky Dory e, finalmente, um mutante alienígena travestido de rock star em seu quarto e melhor álbum, Ziggy Stardust. Auge da estética glam, o disco alinhava 11 canções matadoras, que tornaram Bowie um super-astro na Inglaterra e, cumprindo as profecias de Ziggy, um mito do rock.
4London CallingThe Clash (1979)
A antítese da pompa e da pretensão de grande parte dos artistas da década, o The Clash era uma metralhadora de criatividade, cuspindo uma variedade de estilos que iam da mais pura explosão punk ao reggae e ao rockabilly. London Calling é o auge de sua estética suja e politizada. Intenso demais para durar, o grupo sucumbiria a divergências internas e ao declínio do ideário punk. Mas a sua marca já estava registrada na história do rock.
5 HorsesPatti Smith (1975)
Espécie de mãe espiritual de todos os rebeldes que surgiram na segunda metade da década, Patti tinha experimentado outras linguagens artísticas antes de lançar seu primeiro e mais importante disco. Horses combina à perfeição suas ambições poéticas com a urgência musical de sua banda. Sem falar que Smith canta muito. Um disco para escutar com a sensibilidade à flor da pele.
6 Harvest Neil Young (1972)
O gênio de Young já dava mostras de seu alto poder desde a década de 60, mas seu auge se encontra, realmente, na primeira metade da década seguinte. Harvest é seu disco mais bem-sucedido comercialmente, e uma pérola de delicadeza e de sutis revelações que vão nos envolvendo e apaixonando a cada faixa. Tão marcante, que Young faria duas continuações: Harvest Moon, em 1992, e Prairie Wind,em 2005.
7 Burnin’ Bob Marley And The Wailers (1973)
Um grande feito: um artista de terceiro mundo alcança êxito mundial e se converte numa influência fundamental para toda a música pop que se faria a partir daí. Burnin’ captura Marley e sua ótima banda em estado bruto, entoando canções que são como uma espécie de canto religioso, tocado num ritmo lento e cadenciado. Isso sem falar na forte mensagem política. Grande disco.
8 Born To RunBruce Springsteen (1975)
Quando lançou este disco, em 1975, Springsteen era apenas um aspirante a astro, entre tantos nos Estados Unidos. Mas Born to Run o tornou não apenas um astro, mas também uma lenda, o cara simples e batalhador que conhece de perto o outro lado do “sonho americano”. Para alguns críticos mais severos, Bruce não passa de um Dylan requentado, mas a verdade é que a paixão e a sinceridade que encontramos em cada uma de suas canções, o credenciam como um artista de mérito próprio.
9Marquee MoonTelevision (1977)
O punk como obra de arte bem acabada. Por mais paradoxal que possa parecer, o Television conseguiu isso com sua obra-prima, Marquee Moon, um disco que preserva a energia bruta das ruas típica do punk, acrescentando a sofisticação instrumental dos guitarristas Tom Verlaine e Richard Lloyd.
10 Goodbye Yellow Brick RoadElton John (1973)
O lado mais triste e melancólico da década encontra neste álbum duplo extraordinário seu exemplo mais perfeito. Melodias grudentas em canções que só podem ser comparadas com as de outros gênios pop, como os Beatles e os Beach Boys.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Diamante Negro

Amy Winehouse, Duffy, Estelle, Adelle. Todas britânicas, todas herdeiras – ou simples imitadoras? – da grande tradição da soul music americana.

Grandes cantoras, sem dúvida, mas seu maior mérito é o de atualizar a linguagem do estilo e entregá-lo com ares de modernidade para o grande público.

A melhor sacada dessa revitalização do soul foi, é claro, de Winehouse, que escolheu o estilo para falar de suas falidas relações amorosas e seus problemas com o álcool e as drogas. Não à toa, colheu lucros e dividendos, e hoje é uma das cantoras mais populares do mundo – mas, talvez, não exatamente por suas qualidades vocais, e sim por sua agitada e escandalosa vida pessoal.

Do outro lado do Atlântico, onde a soul music nasceu e floresceu, o panorama não é tão animador, mas há um diamante bruto que, fosse o mundo um lugar justo, destronaria todas aquelas branquelas inglesas: Sharon Jones.

Junto à banda The Dap Kings, Sharon vem gravando uma série de discos onde sua voz é parte central. Dona de uma interpretação vigorosa, em que ódio e amor convivem lado a lado, Jones carrega nas cordas vocais o peso de seus mais de 50 anos e do reconhecimento já um tanto tardio de seu talento.

O disco 100 Days, 100 Nights, lançado em 2007, é a introdução ideal ao universo de Sharon e dos Dap Kings. Pura Black Music calcada nos mestres do soul e do funk das décadas de 60 e 70, a música do grupo brilha em faixas como Answer Me, Be Easy e, principalmente, na arrasadora canção-tema, em que Sharon devaneia sobre a incomunicabilidade entre homens e mulheres, sobre uma base de metais que é como uma cama macia para seus vocais cheios de energia.

Que a pequena popularidade alcançada por esse disco se alastre. E que Jones ocupe o lugar que sua voz singular merece no panteão das grandes divas negras americanas.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Meus Discos Preferidos: Anos Sessenta


1 RevolverThe Beatles (1966)
Tudo que os Beatles gravaram é indispensável para se entender os anos 60, mas REVOLVER é o disco em que eles viraram a própria mesa e deixaram de ser uma boy band para se tornar uma banda “artística”. Todo o desbunde psicodélico que viria a seguir só foi possível porque, antes, eles gravaram canções como Eleanor Rigby, Tomorrow Never Knows, Here There And Everywhere, todas presentes em REVOLVER.
2Pet Sounds The Beach Boys (1966)
A história mais bizarra do rock: a obra-prima dos Beach Boys passou batida no seu lançamento e, de certa forma, precipitou o processo de alienação mental do genial Brian Wilson. Hoje, PET SOUNDS é reconhecido como um dos mais importantes e reverenciados discos já feitos. Sofisticado e, ao mesmo tempo, muito simples, é uma obra de beleza perene, um disco que precisa ser descoberto e redescoberto sempre.
3 Highway 61 RevisitedBob Dylan (1965)
O bardo americano já havia revolucionado – e revoltado – o mundo da música com seu disco anterior, o igualmente essencial BRINGING IT ALL BACK HOME, mas HIGHWAY 61 expande os limites e leva o folk-blues personalíssimo de Dylan a níveis inesperados. É interessante ouvir este disco e assistir, em seguida, a NÃO ESTOU LÁ, cinebiografia ultrafragmentada do mito, realizada pelo diretor Todd Haynes, para se ter uma idéia precisa do abalo sísmico causado pelo jovem Bob.
4 Let It Bleed The Rolling Stones (1969)
Os Rolling Stones atingiram a maturidade musical no ano anterior, com o excepcional BEGGAR’S BANQUET, mas a máquina turbinadíssima da dupla Jagger-Richards parecia não dar mostras de fatiga, como provou o trabalho de 1969, LET IT BLEED. Da abertura matadora com Gimme Shelter – para mim a melhor canção dos Stones –, até o encerramento grandioso de You Can’t Aways Get What You Want, o quinteto inglês dá um banho de rock, blues, country e soul, sem escorregar uma única vez. Inesquecível.
5 The Velvet Underground And Nico (1967)
Para se entender este disco é preciso esquecer todos os clichês sobre os anos 60. O Velvet colocou conceitos como “paz e amor”, “flower power” e outras utopias da época no lixo e gravou um épico sombrio sobre sexo, violência, drogas pesadas e psicoses urbanas. O resultado é perturbador até hoje. E sua influência inexorável continua se insinuando em milhares de bandas mundo afora.
6 Are You Experienced? Jimi Hendrix (1967)
O maior guitarrista de todos os tempos já debutou com um disco perfeito, cada faixa uma pequena maravilha executada com maestria. Com apenas três discos gravados, Hendrix deixou um legado imenso. Fica-se só imaginando o que teria aprontado se não tivesse morrido de maneira tão estúpida aos 27 anos.
7 The Doors (1967)
Uma das bandas mais conhecidas da época, graças em grande parte à mitificação em torno do vocalista Jim Morrison, os Doors gravaram excelentes canções, mas seus discos são um tanto desiguais. A exceção é o magnífico disco de estréia. Impregnado de uma certa mitologia californiana de liberdade ilimitada, é um disco raro em que poesia e música se casam de forma brilhante. Alusões a Sófocles, Brecht e William Blake não tornam o disco pedante, mas antes, extremamente rico e instigante.
8 Music From Big Pink The Band (1968)
É difícil escolher entre os dois primeiros discos desta banda incrível, que tocou com Bob Dylan e fez história na década de 60. Mas Music From Big Pink sobe uns poucos pontos na escala, pela presença de canções como I Shall Be Released, Wheels On Fire e The Weight. Um disco tão bom e influente que não se consegue imaginar metade do rock alternativo que se faz nos Estados Unidos hoje, sem a sua imensa sombra.
9Younger Than YesterdayThe Byrds (1967)
Outra obra capital do rock americano, Younger Than Yesterday traz os Byrds ainda em sua formação original e com seus membros no auge de sua capacidade criativa. Covers de canções de Bob Dylan convivem em harmonia com as criações próprias de Roger McGuinn, David Crosby (autor da belíssima Everybody’s Been Burned) e Chris Hillman, num disco bastante representativo de uma vertente do rock psicodélico que valorizava mais os vocais e as harmonias, em detrimento do barulho e da experimentação.
10 The Piper At The Gates Of DawnPink Floyd (1967)
O Pink Floyd do vocalista Syd Barrett tem pouco a ver com a banda que se consagraria na década de 70, com discos como Dark Side Of The Moon. Tragicamente, Barrett sucumbiria a seus próprios excessos, mas seu nome está definitivamente inscrito na história do rock, graças a essa coleção incrível de canções louquíssimas e muito, muito bonitas. Para mim, o melhor disco de rock psicodélico de todos os tempos.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Essa Voz Tamanha

Intenso, emotivo e de uma fragilidade apenas aparente, o canto do excepcional vocalista Antony Hegarty tem encantado a todos que têm a chance de escutá-lo.

Sua voz, entre o masculino e o feminino, lembra, por vezes, grandes divas do soul e do jazz. Há algo de etéreo e de angelical em cada uma de suas canções.

Seu novo disco junto à banda The Johnsons não consegue superar a beleza arrepiante do trabalho anterior, I’m A Bird Now, mas o confirma como um dos mais interessantes e singulares artistas da atualidade.

The Crying Light tem instrumentação esparsa e arranjos minimalistas, mas o foco é, como sempre, a interpretação única de Hegarty. Em One Dove e Another World ele prova definitivamente que é o melhor cantor dessa nova geração.

Artistas brilhantes como Bjork, Lou Reed, Rufus Wainwright e Joan Wasser são fãs do trabalho de Antony.

Não é para menos. Quando escutamos seu dueto com o ex-vocalista do Culture Club, Boy George, na canção You Are My Sister (do disco I’m A Bird Now), é impossível não deixar a emoção vir a tona.

Que ela continue aflorando por muitos anos...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O Som e a Fúria

Filmes sobre músicos tendem a ser chatos, elegíacos e superficiais. Há algumas exceções, é claro. Recentemente assisti a uma delas, a cinebiografia Control, sobre a vida do vocalista do Joy Division, Ian Curtis.

Dirigido pelo extraordinário fotógrafo holandês Anton Corbijn, Control chama a atenção, inicialmente, pelas belíssimas imagens em preto-e-branco. Mas, lentamente, o filme vai seduzindo pelo delicado retrato de seu biografado.

Corbijn não tentou mitificar Curtis. Ou pintá-lo como um poeta atormentado e inatingível. Pelo contrário, o que se vê na tela é um homem comum, com uma sensibilidade artística especial, mas com problemas de saúde graves, que acabaram por debilitar ainda mais uma personalidade já naturalmente frágil.

Do casamento precoce ao início do sucesso à frente do Joy Division, o filme vai fazendo a ponte entre a vida pessoal de Curtis e suas letras aparentemente herméticas e incompreensíveis. É nesse ponto que, para mim, Control se diferencia de outras biografias de rock. Ao invés de ficar romantizando a vida de um ídolo, Corbijn optou por nos mostrar a gênese do artista e sua evolução. E a cada música exibida no filme, vem aquele inevitável pensamento: “puxa vida, como o Joy Division era bom!”

Em sua curtíssima carreira, gravaram apenas dois discos e alguns compactos, mas, com certeza, fizeram mais pela música que muita banda consegue fazer ao longo de vinte anos. Unknow Pleasures e Closer são clássicos absolutos, discos imprescindíveis para qualquer pessoa em busca de bons sons.

No show que o New Order – banda formada por três quartos do Joy Division e que conseguiu forjar um som próprio e igualmente inesquecível – apresentou aqui em Brasília, há uns três anos, lembro-me de um cara, próximo de mim, que gritava enlouquecido toda vez que a grupo tocava alguma preciosidade do Joy (e eles tocaram três canções, se não me engano: Atmosphere, Transmission e Love Will Tear Us Apart).

Foi, certamente, para sujeitos como aquele, que Corbijn fez Control. E também para tipos como eu, que, ao contrário do outro, escutava a cada música caladinho, caladinho... Em êxtase.