Amigos todos:
Vou ter saudades, aqui, desta página. Pois é. É chegada a hora. Do fim.
Vou fechar, hoje, dia 12 de novembro de 2010, esta Vitrola Encantada.
Que ela já andava meio bamba.
Houve algo? Não. Apenas acho que a Vitrola já deu. O que tinha de dar.
Tantos meses. A falta de vontade uma hora chega.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Coleção de Respeito
Uma vez ou outra na vida, a gente vê uma coisa boa acontecendo na indústria cultural brasileira.
A Abril Coleções, por exemplo, começou na semana passada a editar uma série de álbuns antológicos de um dos maiores compositores da nossa música, Chico Buarque.
Ao todo serão 20 discos, que cobrem desde os primeiros registros, ainda na década de 1960, até trabalhos mais recentes – antes de Chico enfiar na cabeça que agora é romancista.
O primeiro do lote é simplesmente uma maravilha. Alinhavando sucessos marcantes da carreira de Chico, como Cálice, Trocando em Miúdos, Até o Fim e Pedaço de Mim, é um disco que traz o adjetivo clássico impresso em cada uma de suas faixas.
Sempre que escuto um disco brasileiro como este, fico a pensar na riqueza que já foi nossa música.
Não é saudosismo nem nostalgia. É simplesmente uma constatação. Nem Chico fará algo assim novamente (e nem precisa, na verdade).
Esperar de outros, então, é como esperar pela segunda vinda do Messias...
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Discos e Arte
Um dos melhores discos lançados em 2009 tem também uma das mais belas capas dos últimos tempos: Journal For Plague Lovers, do grupo galês Manic Street Preachers.
Verdadeira instituição roqueira lá pelas ilhas britânicas, o Manic é pouco conhecido no resto do mundo. Aqui no Brasil, a cada disco lançado, dois ficam a ver navios. O grupo é uma espécie de The Clash do século XXI, sempre carregando seus álbuns com fortes mensagens políticas e uma paixão cada vez mais rara no mundo cínico da música pop.
Suas capas também impressionam. Em This Is My Truth Tell Me Yours a banda é fotografada em uma praia deserta, uma bela composição que lembra outra capa clássica, a de Heaven Up Here, do Echo And The Bunnymen. No outro extremo há capas ilustradas por pinturas fortes e quase incômodas.
Suas capas também impressionam. Em This Is My Truth Tell Me Yours a banda é fotografada em uma praia deserta, uma bela composição que lembra outra capa clássica, a de Heaven Up Here, do Echo And The Bunnymen. No outro extremo há capas ilustradas por pinturas fortes e quase incômodas.
A artista britânica Jenny Saville, uma herdeira direta do realismo cru do pintor Lucien Freud, emprestou uma obra forte e sem retoques para a capa do álbum The Holy Bible, considerado por alguns o grande momento do Manic ainda com o guitarrista Richey Edwards, que pouco tempo depois desapareceu misteriosamente e nunca viria a ser encontrado.
Em Journal For Plague Lovers, uma outra pintura de Saville, Stare, aparece na capa do álbum. A imagem, ao mesmo tempo simples e extremamente complexa, foi eleita em vários sites como a capa do ano. Curiosamente, o disco recupera as últimas letras escritas por Edwards antes de sumir do mapa. Talvez por conta disso os membros restantes do grupo resolveram recorrer novamente ao trabalho inquietante desta grande artista inglesa. Para um álbum de impacto, uma capa igualmente forte.
Em Journal For Plague Lovers, uma outra pintura de Saville, Stare, aparece na capa do álbum. A imagem, ao mesmo tempo simples e extremamente complexa, foi eleita em vários sites como a capa do ano. Curiosamente, o disco recupera as últimas letras escritas por Edwards antes de sumir do mapa. Talvez por conta disso os membros restantes do grupo resolveram recorrer novamente ao trabalho inquietante desta grande artista inglesa. Para um álbum de impacto, uma capa igualmente forte.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
O Amor e a Cidade
Na canção Vambora, a cantora Adriana Calcanhoto diz que tem o cheiro da pessoa amada “dentro de um livro”.
Músicas, filmes e livros são realmente pequenas urnas nas quais depositamos recordações, cheiros, vozes, amores e ressentimentos.
Acho que, por acreditar nisso, me apaixonei de maneira tão intensa pelo filme Paris, Je T’aime. Composto de historietas de cinco minutos dirigidas por realizadores de várias nacionalidades, o filme presta uma homenagem terna a uma cidade que pode se gabar de ser a mais romântica do mundo.
Mas o filme não é exatamente uma comédia romântica ou mesmo um filme de amor. Em meio a tantos sentimentos abordados é a solidão e o desamparo que sobressaem de forma mais contundente. Sobretudo no último trecho, no qual uma americana narra num francês macarrônico sua primeira viagem à capital francesa.
Em apenas cinco minutos, um verdadeiro mundo de emoções aflora num texto tão lindo que só de me lembrar, fico arrepiado. Naqueles momentos finais de um filme já memorável, me reconheci na solidão e na tristeza da personagem. Mas, junto com ela, relembrei também a felicidade de descobrir uma cidade que ilumina a vida de quem já esteve ali para sempre.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
"The Songs That Saved Your Life": as melhores canções de Morrissey e The Smiths
1 – I Know Is Over (The Smiths): a peça central de um dos melhores discos de todos os tempos, a terceira faixa de The Queen Is Dead disseca com poesia e arranjo impecável a celebrada dificuldade de Morrissey em lidar com o amor, seja no plano espiritual, seja no físico. Há uma versão ao vivo no álbum Rank que expande as possibilidades da canção, levando-a a picos de beleza ainda maiores.
2 – Seasick, Yet Still Docked (Morrissey): se The Queen Is Dead é a obra-prima dos Smiths, Your Arsenal é o ápice da carreira solo de Morrissey. Todas as canções do disco são excelentes, rocks redondinhos e espertos, mas Seasick... se impõe por sua delicadeza e tom confessional.
3 – How Soon Is Now (The Smiths): uma das canções-chave do rock inglês da década de 1980, este compacto que viria a integrar o álbum Hatfull of Hollow é, até hoje, uma das músicas mais influentes compostas por Morrissey/Marr. O trabalho de guitarra de Johnny Marr foi imitado e homenageado à exaustão, mas jamais igualado. Inclusive por ele próprio.
4 – The More You Ignore Me, The Closer I Get (Morrissey): à medida em que sua carreira solo progredia, Morrissey foi confirmando sua fama de Oscar Wilde do rock independente. Suas letras variam do escárnio ao cinismo, passando por momentos de puro romantismo desesperado. Esta música é um dos seus melhores momentos, uma perfeita combinação desses dois extremos.
5 – Panic (The Smiths): uma canção que não perdeu nada de sua atualidade. Impossível não concordar com Morrissey quando ele nos conclama a enforcar os estúpidos DJ’s que nos obrigam a escutar as mesmas porcarias dia após dia.
6 – Everyday Is Like Sunday (Morrissey): Viva Hate, o primeiro solo de Morrissey, surpreendeu muita gente que não esperava nada de Morrissey sem Johnny Marr. Não só o recluso vocalista mostrou personalidade própria como ainda cravou dois verdadeiros clássicos em nossos corações órfãos: Suedehead e Everyday Is Like Sunday, esta última uma lindíssima evocação de dias cinzentos e manhãs morosas passadas diante do mar.
7 – I Won’t Share You (The Smiths): esta canção pouco conhecida dos Smiths é a faixa de encerramento do último disco da banda, Strangeways Here We Come. Simples e emocionante, confirma a crença de que o melhor é sempre guardado para o final.
8 – November Spawned A Monster (Morrissey): muita gente considera este o mais refinado momento do Morrissey pós-Smiths. A letra fala mais uma vez de pessoas desprezadas, tímidas e rejeitadas. No final, entretanto, Morrissey se permite algum otimismo: qualquer dia desses, sua maltratada personagem sairá por aí feliz da vida, vestida com as roupas que ela mesma escolheu.
9 – There Is A Light That Never Goes Out (The Smiths): é difícil falar de The Smiths sem mencionar esta canção. Seja pela letra sublime, seja pelo arranjo orquestral inesquecível, tudo em There Is A Light... é clássico, imortal, perfeito, emocionante etc etc etc.
10 – Come Back To Camden (Morrissey): outro momento arrepiante da pena afiada de Morrissey, Come Back... é a balada definitiva de um álbum, You Are The Quarry, em que boas baladas são abundantes.
2 – Seasick, Yet Still Docked (Morrissey): se The Queen Is Dead é a obra-prima dos Smiths, Your Arsenal é o ápice da carreira solo de Morrissey. Todas as canções do disco são excelentes, rocks redondinhos e espertos, mas Seasick... se impõe por sua delicadeza e tom confessional.
3 – How Soon Is Now (The Smiths): uma das canções-chave do rock inglês da década de 1980, este compacto que viria a integrar o álbum Hatfull of Hollow é, até hoje, uma das músicas mais influentes compostas por Morrissey/Marr. O trabalho de guitarra de Johnny Marr foi imitado e homenageado à exaustão, mas jamais igualado. Inclusive por ele próprio.
4 – The More You Ignore Me, The Closer I Get (Morrissey): à medida em que sua carreira solo progredia, Morrissey foi confirmando sua fama de Oscar Wilde do rock independente. Suas letras variam do escárnio ao cinismo, passando por momentos de puro romantismo desesperado. Esta música é um dos seus melhores momentos, uma perfeita combinação desses dois extremos.
5 – Panic (The Smiths): uma canção que não perdeu nada de sua atualidade. Impossível não concordar com Morrissey quando ele nos conclama a enforcar os estúpidos DJ’s que nos obrigam a escutar as mesmas porcarias dia após dia.
6 – Everyday Is Like Sunday (Morrissey): Viva Hate, o primeiro solo de Morrissey, surpreendeu muita gente que não esperava nada de Morrissey sem Johnny Marr. Não só o recluso vocalista mostrou personalidade própria como ainda cravou dois verdadeiros clássicos em nossos corações órfãos: Suedehead e Everyday Is Like Sunday, esta última uma lindíssima evocação de dias cinzentos e manhãs morosas passadas diante do mar.
7 – I Won’t Share You (The Smiths): esta canção pouco conhecida dos Smiths é a faixa de encerramento do último disco da banda, Strangeways Here We Come. Simples e emocionante, confirma a crença de que o melhor é sempre guardado para o final.
8 – November Spawned A Monster (Morrissey): muita gente considera este o mais refinado momento do Morrissey pós-Smiths. A letra fala mais uma vez de pessoas desprezadas, tímidas e rejeitadas. No final, entretanto, Morrissey se permite algum otimismo: qualquer dia desses, sua maltratada personagem sairá por aí feliz da vida, vestida com as roupas que ela mesma escolheu.
9 – There Is A Light That Never Goes Out (The Smiths): é difícil falar de The Smiths sem mencionar esta canção. Seja pela letra sublime, seja pelo arranjo orquestral inesquecível, tudo em There Is A Light... é clássico, imortal, perfeito, emocionante etc etc etc.
10 – Come Back To Camden (Morrissey): outro momento arrepiante da pena afiada de Morrissey, Come Back... é a balada definitiva de um álbum, You Are The Quarry, em que boas baladas são abundantes.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Canção Essencial
A revista inglesa Q, em sua última edição, lista 1001 canções imprescindíveis em qualquer boa coleção.
Entre músicas escolhidas por figuras como os comediantes Ricky Gervais e Russel Brand (autor de um belo artigo sobre Morrissey e The Smiths) e por músicos das mais diversas áreas, uma foi eleita pela própria revista como a única que não pode faltar em nenhuma coleção: Good Vibrations do grupo americano The Beach Boys.
Lançada em plena efervescência da psicodelia, época em que LSD era consumido como se fosse balinha de hortelã, Good Vibrations foi o último grande sucesso dos Beach Boys, antes de Brian Wilson, gênio e louco do grupo, pirar de vez.
Em apenas três minutos são condensadas todas as experiências musicais levadas a cabo pelos artistas da época. São tantas idéias juntas que, muitas vezes, fica a impressão de que a música poderia durar uma hora. Wilson inclusive dizia que sua ambição era compor sinfonias adolescentes para Deus.
Com Good Vibrations ele chegou lá. Se Deus a escutou, é impossível dizer, mas para nós, pobres mortais, é a verdadeira prova de que Ele, de fato, existe.
Entre músicas escolhidas por figuras como os comediantes Ricky Gervais e Russel Brand (autor de um belo artigo sobre Morrissey e The Smiths) e por músicos das mais diversas áreas, uma foi eleita pela própria revista como a única que não pode faltar em nenhuma coleção: Good Vibrations do grupo americano The Beach Boys.
Lançada em plena efervescência da psicodelia, época em que LSD era consumido como se fosse balinha de hortelã, Good Vibrations foi o último grande sucesso dos Beach Boys, antes de Brian Wilson, gênio e louco do grupo, pirar de vez.
Em apenas três minutos são condensadas todas as experiências musicais levadas a cabo pelos artistas da época. São tantas idéias juntas que, muitas vezes, fica a impressão de que a música poderia durar uma hora. Wilson inclusive dizia que sua ambição era compor sinfonias adolescentes para Deus.
Com Good Vibrations ele chegou lá. Se Deus a escutou, é impossível dizer, mas para nós, pobres mortais, é a verdadeira prova de que Ele, de fato, existe.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Do Trip Hop para o Universo
O Massive Attack foi um dos grupos mais influentes e instigantes da década de 1990. Seus três discos lançados então – Blue Lines, Protection e Mezzanine – são nada menos que obras-primas.
Rotulados como um grupo de trip hop, o Massive está muito além de qualquer barreira imposta por categorizações.
Na sonoridade arrojada do grupo formado na cidade de Bristol, na Inglaterra, entram reggae, hip hop, música eletrônica e rock, numa mistura absolutamente única. No meio de sua oficina de lapidação de pedras preciosas, brilham vocalistas convidados do naipe de Shara Nelson (que eternizou sua voz na maravilhosa Unfinished Sympathy), Tracey Thor (magnífica em Protection e The Hunter Gets Captured By The Game) e o permanente colaborador Horace Andy, este um capítulo à parte. Veterano cantor de timbre peculiar, Horace foi resgatado da obscuridade para emprestar seu vocal inconfundível a pérolas como Man Next Door e Angel.
Os anos 2000 viram um Massive Attack excessivamente sombrio e sorumbático no disco 100th Window, um trabalho que, mesmo contando com Sinéad O’Connor, não disse muito a que veio.
A redenção vem sete anos depois, com o excepcional novo trabalho, Heligoland. Horace Andy está de volta, além de Damon Albarn (Blur) e Guy Garvey (Elbow), que dão um sabor ainda mais inusitado ao som de Dej Naja e Marshall – o núcleo do grupo.
Cada canção é uma obra cuidadosamente burilada, num artesanato musical cada vez mais sofisticado e raro em nossos dias.
O Massive Attack está de volta. E desta vez mais em forma do que nunca.
Marcadores:
Chan Marshall,
Damon Albarn,
Dej Naja,
Guy Garvey,
Hip Hop,
Horace Andy,
Massive Attack,
Música Eletrônica,
Reggae,
Shara Nelson,
Sinéad O'Connor,
Tracey Thor,
Trip Hop
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Escorpiões sem veneno
A propósito da iminente visita do grupo alemão Scorpions ao Brasil (em Brasília a apresentação acontecerá em 22 de setembro), devo confessar, com um tantinho de incredulidade, que já fui muito fã.
Lembro, especialmente, de um disco duplo ao vivo chamado World Wide Live que era simplesmente o Santo Graal do rock pesado para minha imaginação de 15 anos de idade. Eu e minha prima Aldeniza (cadê você, mulher?) escutávamos os quatro lados do vinil embasbacados com tamanho peso: as guitarras altíssimas, os vocais impecáveis de Klaus Maine, o ritmo destruidor, enfim um verdadeiro deleite. Até quando faziam baladas – quem não se lembra da mega-ultra-super balada Still Loving You? – o grupo caprichava na batida forte e intensa.
Bem, os anos se passaram e eu acabei descobrindo que o Santo Graal era um pouquinho mais difícil de se encontrar, mas a busca trazia recompensas incríveis. E nisso a velha picada dos escorpiões ficou perdida em meio aos discos guardados. Até que um dia escutei no rádio a balada Wind Of Change. Quase não consegui acreditar que aquele grupo que tanto me havia fascinado podia ser tão bundão e brega. Aquele assobio no início e no final da música era simplesmente inadmissível! Voltei correndo para o meu querido World Wide Live e – surpresa! – não é que o veneno tinha se perdido para sempre?
Pois é. O tempo não perdoa nada. A atual turnê foi anunciada como a última. Quem é fã de rock sabe que quase todo grupo tem pelo menos umas três últimas turnês antes de se aposentar por morte ou coisa parecida. De qualquer maneira, prefiro manter distância.
Melhor lembrar do Scorpions como aquela banda que abriu as portas do rock pesado para mim. Ao menos este mérito eles tiveram...
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Música e Política
As eleições estão aí e, ainda que se sinta no ar uma total descrença em relação à política, o fato é que não se pode escapar muito do assunto.
Eu, de minha parte, ando com tamanho abuso de candidatos, novatos ou veteranos, que até ver um santinho colado no retrovisor do carro me causa náusea. O jeito é escutar alguns discos nos quais boa música e política andam de mãos dadas.
O namoro entre temas políticos e música é longo e remonta aos trovadores folk que, munidos apenas de um violão, desafiavam o status quo com muita poesia, revolta e desejo de mudança. Um dos pais do gênero, o cantor Woody Guthrie, tinha a frase “esta máquina mata fascistas” gravada em seu violão.
Não por acaso, um dos herdeiros mais importantes de Woody é Bob Dylan, músico que expandiu a paleta de temas do rock, abrindo espaço para canções de protesto, críticas agudas aos poderes estabelecidos e libelos contra as guerras.
John Lennon escutou e certamente teve um choque. Embora em sua emblemática canção God, na qual declara sua descrença em relação a todos os credos, fale claramente que não mais acredita em Dylan, não pode existir dúvida que a escrita daquele foi fundamental na transformação operada nas letras e nos posicionamentos do ex-Beatle.
Lennon, aliás, enfrentou problemas com as autoridades americanas por conta de sua oposição à guerra do Vietnã e à política bélica americana. Ainda que muitas de suas formas de protestos hoje pareçam um tanto ridículas (ficar deitado por dias num quarto de hotel? Eu heim...), não se pode negar a influência de canções pacifistas como Imagine e Happy Xmas (War Is Over).
A década de 70 foi pródiga em artistas que saíram de seus casulos para questionar a realidade circunstante. Do reggae de Bob Marley ao punk do The Clash, muita gente reclamou para o rock uma posição de destaque na luta pelos direitos civis. Discos clássicos dessa vertente são What’s Going On (Marvin Gaye), Innervisions (Stevie Wonder), Superfly (Curtis Mayfield), Exodus (Bob Marley), o primeiro do The Clash, Entertainment (Gang Of Four) e Fresh Fruit For Rotting Vegetables (Dead Kennedys), os dois últimos já na década de 1980.
Os tempos atuais, embora mais céticos e cínicos, não têm se furtado ao enfrentamento de arbitrariedades e desmandos em geral.
O governo do ex-presidente americano, George W. Bush, por exemplo, foi um prato cheio para músicos das mais variadas vertentes. Até um gênero tradicionalmente mais alienado como o country encontrou no grupo feminino Dixie Chicks uma voz contra as guerras arquitetadas pelo doce Bush. American Idiot (Green Day), Living With War (Neil Young), At War With The Mistics (The Flaming Lips), The Rising (Bruce Springsteen), Around The Sun (R.E.M.) e New Wave (Against Me!) estão entre os muitos trabalhos que escancararam a hipocrisia e a violência da administração Bush. Alguns capturaram a insatisfação de parte dos americanos com sucesso (American Idiot e The Rising), enquanto outros apenas geraram revolta nos setores mais conservadores da sociedade (Living With War), o que, de qualquer forma, devia ser o objetivo primeiro dos seus autores.
Entre acertos e erros, no entanto, a nova onda de discos políticos foi fundamental para reestabelecer o rock como plataforma de idéias e veículo de mensagens de insatisfação.
Eu, de minha parte, ando com tamanho abuso de candidatos, novatos ou veteranos, que até ver um santinho colado no retrovisor do carro me causa náusea. O jeito é escutar alguns discos nos quais boa música e política andam de mãos dadas.
O namoro entre temas políticos e música é longo e remonta aos trovadores folk que, munidos apenas de um violão, desafiavam o status quo com muita poesia, revolta e desejo de mudança. Um dos pais do gênero, o cantor Woody Guthrie, tinha a frase “esta máquina mata fascistas” gravada em seu violão.
Não por acaso, um dos herdeiros mais importantes de Woody é Bob Dylan, músico que expandiu a paleta de temas do rock, abrindo espaço para canções de protesto, críticas agudas aos poderes estabelecidos e libelos contra as guerras.
John Lennon escutou e certamente teve um choque. Embora em sua emblemática canção God, na qual declara sua descrença em relação a todos os credos, fale claramente que não mais acredita em Dylan, não pode existir dúvida que a escrita daquele foi fundamental na transformação operada nas letras e nos posicionamentos do ex-Beatle.
Lennon, aliás, enfrentou problemas com as autoridades americanas por conta de sua oposição à guerra do Vietnã e à política bélica americana. Ainda que muitas de suas formas de protestos hoje pareçam um tanto ridículas (ficar deitado por dias num quarto de hotel? Eu heim...), não se pode negar a influência de canções pacifistas como Imagine e Happy Xmas (War Is Over).
A década de 70 foi pródiga em artistas que saíram de seus casulos para questionar a realidade circunstante. Do reggae de Bob Marley ao punk do The Clash, muita gente reclamou para o rock uma posição de destaque na luta pelos direitos civis. Discos clássicos dessa vertente são What’s Going On (Marvin Gaye), Innervisions (Stevie Wonder), Superfly (Curtis Mayfield), Exodus (Bob Marley), o primeiro do The Clash, Entertainment (Gang Of Four) e Fresh Fruit For Rotting Vegetables (Dead Kennedys), os dois últimos já na década de 1980.
Os tempos atuais, embora mais céticos e cínicos, não têm se furtado ao enfrentamento de arbitrariedades e desmandos em geral.
O governo do ex-presidente americano, George W. Bush, por exemplo, foi um prato cheio para músicos das mais variadas vertentes. Até um gênero tradicionalmente mais alienado como o country encontrou no grupo feminino Dixie Chicks uma voz contra as guerras arquitetadas pelo doce Bush. American Idiot (Green Day), Living With War (Neil Young), At War With The Mistics (The Flaming Lips), The Rising (Bruce Springsteen), Around The Sun (R.E.M.) e New Wave (Against Me!) estão entre os muitos trabalhos que escancararam a hipocrisia e a violência da administração Bush. Alguns capturaram a insatisfação de parte dos americanos com sucesso (American Idiot e The Rising), enquanto outros apenas geraram revolta nos setores mais conservadores da sociedade (Living With War), o que, de qualquer forma, devia ser o objetivo primeiro dos seus autores.
Entre acertos e erros, no entanto, a nova onda de discos políticos foi fundamental para reestabelecer o rock como plataforma de idéias e veículo de mensagens de insatisfação.
Marcadores:
Beatles,
Bob Dylan,
Bob Marley,
Bruce Springsteen,
Country,
Curtis Mayfield,
Dead Kennedys,
Dixie Chicks,
Folk,
George W. Bush,
Green Day,
John Lennon,
Marvin Gaye,
Stevie Wonder,
The Clash,
Woody Guthrie
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Doces Vozes: Kate Bush
Seu disco de 1985, Hounds Of Love, é considerado um verdadeiro marco do pop inglês da década de 80, uma mistura excitante de experimentalismos musicais, sonoridades celtas e poesia clássica. Na faixa Running Up That Hill e na canção-título Kate faz uma síntese impecável de tudo isso.
Também gosto muito do disco Aerial, um trabalho duplo mais suave e delicado, mas igualmente belo. Aerial é, até agora, o último lançado por Kate. Como ela costuma dar intervalos longos entre seus álbuns – foram 14 anos entre os discos The Red Shoes e Aerial – ainda podemos esperar muito desta artista instigante e imprevisível.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Rádio Pirata
Toquem o meu coração
Façam a revolução
Está no ar, nas ondas do rádio
No submundo repousa o repúdio
Que deve despertar
Rádio Pirata, RPM
No Reino Unido da década de 1960, em plena efervescência da beatlemania, as rádios oficiais britânicas tocavam uma porcentagem mínima do rock e do pop produzido nas Ilhas e na matriz americana.
Em socorro de uma nação sedenta por renovação musical, navios navegando as águas do Mar do Norte transmitiam uma programação musical totalmente voltada para o novo estilo da juventude da época.
Essas rádios, que ficaram conhecidas como rádios-piratas, divulgaram novos artistas tanto das Ilhas Britânicas quanto os vindos dos Estados Unidos, mas foram perseguidas e combatidas pelo sisudo Parlamento Inglês, assim como os antigos piratas dos mares o foram pela Marinha de Sua Majestade.
É esse o pano de fundo - real - do enredo do filme Piratas do Rock (The Boat That Rocked, Inglaterra, 2009). A trama romantiza o estilo de vida alternativo e contracultural dos dj’s, vistos aqui como verdadeiros heróis dispostos a tudo para levar seus ídolos ao carente público inglês. É claro que há muita liberdade poética e nem sempre a trilha sonora corresponde ao período em que se passa a história (1966).
Aliás, a trilha é um capítulo a parte: de The Kinks a Rolling Stones, passando por Beach Boys e The Hollies, o filme faz um passeio por uma época dourada da música jovem, na qual atitude e rebeldia caminhavam lado a lado com talento e criatividade.
Um filme para se ver com o volume da televisão ligado no máximo.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Filha de Peixe
Ter um sobrenome famoso é uma bênção e uma maldição. Deve facilitar absurdamente as coisas, mas por outro gera um imenso peso e uma eterna comparação.
Na maioria das vezes, artistas que se valem de parentes brilhantes para chamar a atenção são uma farsa.
Aqui no Brasil, muito mais que isso, são uma verdadeira praga. Pensemos, por exemplo, em Preta Gil. Qual o talento da moça? Cantar, não canta. Como atriz é um vexame. Como apresentadora limita-se a encarnar um modelo de mulher-viado que existe aos montes por aí. No entanto, a bela – sim, eu a acho bonita – não sai dos holofotes desde que entrou no meio artístico. Se não fosse filha de quem é, fico imaginando quanto tempo teria durado essa carreira baseada na abundância da falta de talento (é paradoxal, mas é isso mesmo).
Lá fora, onde a concorrência e o profissionalismo ditam as regras, o buraco é bem mais fundo.
Não que não exista nepotismo e gente sem talento sendo empurrada pela goela do público. Mas para se estabelecer é bem mais complicado. Michael Douglas, só para falar de um caso clássico, passou anos amargando comparações com seu pai, o grande Kirk Douglas, até se afirmar como ator de respeito e produtor ousado.
O mesmo peso deve ter perseguido a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg. Filha de um dos maiores ícones da cultura popular francesa, o multimídia Serge Gainsbourg, Charlotte estreou ainda pré-adolescente num dueto com o próprio pai, escandalosamente intitulado Lemon Incest. Obviamente que Serge, sendo um dos maiores provocadores de todos os tempos, não poderia deixar passar em branco a chance de chocar moralistas e hipócritas de todos os matizes.
Mas Charlotte é uma artista com vida própria. Recentemente cometeu seu próprio momento ultrajante ao revoltar platéias do mundo inteiro, que se indignaram com as cenas de mutilação genital mostradas no filme O Anti-Cristo, de Lars Von Trier. Para lá da polêmica, quem tem a cabeça um pouco mais arejada conseguiu perceber uma atriz forte, corajosa e de complexos recursos. Para mim, é a grande estrela do filme, de resto uma obra menor de Trier.
No campo da música, Charlotte também tem se revelado uma cantora muito interessante. Não que ela cante exatamente. Na tradição de sua mãe, a inglesa Jane Birkin, Charlotte sussurra, geme e desafina em iguais doses. O truque é a habilidade para usar essa voz pequena e limitada para criar mágica.
No seu primeiro disco, 5:55, Charlotte fez um trabalho ancorado no pop da dupla francesa Air, com o auxílio luxuoso do cantor e compositor Jarvis Cocker. É, portanto, um disco bastante francês, apesar de boa parte das letras serem cantadas em inglês. Tudo é muito lânguido, as texturas são muito delicadas e os arranjos são feitos sob medida para o balbucio de Gainsbourg.
O novo disco, Irm, vem produzido pelo enfant terrible da música americana, Beck. Como no trabalho anterior, as inclinações artísticas do produtor dão a tônica, com mais experimentalismos e batidas eletrônicas desta vez. A favor de Charlotte, deve-se dizer que ela está mais solta como intérprete.
Só me pergunto se, deixada sozinha sem a ajuda desses gênios do estúdio, a moça conseguiria gravar ao menos uma música que se salve.
É esperar para ver.
Marcadores:
Air,
Beck,
Charlotte Gainsbourg,
Cinema Encantado,
Jane Birkin,
Jarvis Cocker,
Kirk Douglas,
Lars von Trier,
Michael Douglas,
Preta Gil,
Serge Gainsbourg
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Sweet Soul Music
.jpg)
Já falei dela aqui no Vitrola, mas nunca é demais relembrar o incrível talento desta cantora americana e de seu soberbo grupo de apoio. Estou me referindo a Sharon Jones & The Dap Kings, que estão de disco novo, o excelente I Learned The Hard Way.
Uma parte da crítica continua torcendo o nariz para eles, acusando-os de simplesmente requentar as fórmulas consagradas da soul music e do funk, sem acrescentar nada de contemporâneo ou de pessoal.
Quem não está nem aí devem ser eles, que continuam fazendo sua música deliciosamente dançante e, porque não, absolutamente retrô.
O novo disco não apresenta mudanças significativas em relação aos ótimos 100 Days, 100 Nights e Naturally, mas enquanto nos trabalhos anteriores a sonoridade era puro anos 60, agora sente-se mais presente a estética pesada e suja dos anos 70.
Seja como for, Sharon continua sendo a melhor cantora de soul da atualidade (sua única concorrente de peso é Amy Winehouse, mas esta parece estar mais preocupada com os tablóides que com o novo disco) e os Dap Kings o melhor grupo de apoio que uma fofa pode desejar.
Irresistível!
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Animados e Sonorizados
Meu personagem preferido de desenho animado é um tubarão gigantesco que atendia pela alcunha de Tutubarão.
Contrariando o mito de fera dos mares, o tubarão animado é um animal covarde, desajeitado, efeminado e absolutamente adorável.
Para completar, Tutu toca bateria num conjunto musical formado por jovens que, invariavelmente, se envolvem em mistérios e confusões. Tudo isso passado num mundo submarino futurístico.
A fórmula é a mesma criada no desenho Scooby Doo e imitada em incontáveis desenhos desenvolvidos pela Hanna-Barbera na década de 1970. Mas Tutubarão é muito mais divertido e cativante que o cão medroso imortalizado por Scooby.
Desenhos com bandas musicais foram uma verdadeira moda a partir do final da década de 1960. Em The Archie Show , a banda adolescente The Archies conseguiu perpetrar um sucesso mundial com a simpática canção Sugar, Sugar.
De lá para cá, surgiram outras bandas clássicas como Josie e As Gatinhas e até mesmo os garotos do Jackson 5 acabaram virando personagens animados, sempre embalados por músicas antológicas como ABC e I Want You Back.
Recentemente, uma banda virtual alcançou um sucesso e uma projeção pelos quais muitos grupos “reais” dariam um braço e uma perna. O Gorillaz era um projeto despretensioso do vocalista do Blur, Damon Albarn junto ao cartunista Jamie Hewlett.
Com Albarn no comando das criações musicais e Hewlett responsável pelo visual, o grupo formado pelo melancólico 2-D, o misto de Syd Vicious com Keith Richards chamado Murdoc mais a diminuta Noodle e o peso-pesado Russell vendeu cerca de 20 milhões de discos de seus dois primeiros trabalhos (Gorillaz e Demon Days) e já está com um novo registro nas lojas (Plastic Beach).
Acho o Gorillaz 50% lixo e 50% luxo. Em meio a muita bobagem e ao excesso de hip hop, há maravilhas que arremessam a música pop para o futuro. Sobretudo nas colaborações, o Gorillaz encontra o meio termo perfeito entre as aspirações artísticas nem sempre muito claras de Albarn e a concepção de uma música pop contemporânea altamente inteligente e ousada.
Basta escutar, no novo disco, a perfeição de Stylo, que junta o rapper Mos Def e o mestre do soul Bobby Womack. O resultado é tão surpreendente que chega a assustar.
Marcadores:
2-D,
Blur,
Bobby Womack,
Damon Albarn,
Gorillaz,
Hanna-Barbera,
Jackson 5,
Jamie Hewlett,
Keith Richards,
Mos Def,
Murdoc,
Noodle,
Russell,
Syd Vicious,
The Archies,
Tutubarão
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Cru e radical
Exile On Main Street (Stones), Tapestry (Carole King), I Do Not What I Haven´t Got (Sinéad O´Connor), todos chegaram novamente às loja em edições duplas remasterizadas e com belo tratamento gráfico.
Agora é a vez de Raw Power, álbum histórico de Iggy Pop e seu louquíssimo grupo The Stooges. Que eles são responsáveis por muita coisa boa que surgiu a partir do final dos anos 70 – e estou falando do glam, do punk, do gótico, do grunge e do rock experimental – já é um fato pacífico, mas a pergunta que eu me faço é: quantas pessoas realmente conhecem o som dos Stooges?
Donos de uma discografia pequena, os caras talvez assustem um pouco por conta de sua sonoridade suja, agressiva e intensa. A imagem de Iggy coberto de sangue, em confronto direto com sua audiência talvez seja a tradução perfeita do que é um disco dos Stooges.
Não é para qualquer um, mas definitivamente traz recompensas imensas para quem se dispõe a adentrar neste universo de noites regadas a drogas, sexo, perigo e marginalidade.
domingo, 11 de julho de 2010
Música e Cinema - O Lado "B"
Por Lázaro Luis Lucas
Muito antes mesmo de ter acesso a uma cópia de Cannibal Holocaust, lançado há alguns meses atrás no Brasil pela Platina Filmes, pude, por meios ilícitos, ouvir a maravilhosa trillha sonora composta pelo italiano Riz Ortolani para o longa-metragem do diretor Ruggero Deodato, de 1980. Os dois trabalhariam ainda juntos naquele mesmo ano em La Casa Sperduta Nel Parco - em inglês House On The Edge Of The Park.
E é exatamente em razão do lançamento da obra máxima de um cineasta tão desinteressante quanto reverenciado por críticos e cinéfilos de todo o mundo, que apresento-me aqui diante dos leitores do Vitrola Encantada para expressar a minha paixão pela composição de Riz Ortolani para o filme Cannibal Holocaust.
Antes de tudo, porém, quero deixar bem claro que não tenho nenhum tipo de formação musical. Sou apenas um apaixonado por filmes e suas trilhas sonoras, como muitos de vocês aqui.
Nascido em 1931, o compositor e regente Riziere "Riz" Ortolani iniciou sua carreira no cinema em 1962 com o pseudo-documentário Mondo Cane, dirigido por Franco Prosperi, Gualtiero Jacopetti e Paolo Cavara.
À época, o enorme sucesso da música-tema More, composta por Ortolani e Nino Oliviero e com uma nova letra, agora em inglês, escrita por Norman Newell, viabilizou sua indicação ao prêmio de Melhor Canção no Oscar de 1964. Antes porém, o filme já havia conseguido a proeza de disputar a Palma d'Ouro no 15º Festival de Cinema de Cannes, perdendo-a para O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte.
Bastante produtivo, Riz Ortolani colaborou com todo tipo de cineasta. Dos bagaceiras Lucio Fulci e Umberto Lenzi aos autorais Vittorio de Sica e Dino Risi. Trabalhou ainda com os acadêmicos Edward Dmytric e Lamont Johnson e com o "1001 utilidades" Damiano Damiani, cineasta, infelizmente, subestimado por críticos e fãs de cinema. A produção era tamanha, que só em 1969 foram 14 trilhas sonoras assinadas por ele.
Compôs, ainda, em 1970 a trilha internacional para o filme O Cangaceiro, de Lima Barreto. A original, é bom deixar registrado, é de Gabriel Migliori (1909-1975). Não raro, suas composições musicais superavam em qualidade as obras cinematográficas a que serviam.
Assim, em 1980, com prestígio dentro e fora da Itália, Ortolani une-se a Ruggero Deodato em duas empreitadas cinematográficas. Naquele ano, e nos anos seguintes, são lançadas em todo "mundo livre" as obras La Casa Sperduta Nel Parco e Cannibal Holocaust.
Desagrando a todo tipo de segmento social existente à época, em particular grupos ligados à defesa e à dignidade da mulher e as sociedades protetoras dos animais, ora os filmes eram reeditados ora censurados.
Em alguns países, os filmes eram retirados de cartaz e em outros nem chegavam a entrar. Decisões mais radicais os baniam de vez. Ruggero Deodato chegou, inclusive, a ver o sol nascer quadrado por conta de Cannibal Holocaust. Alguns afirmam que há, ainda hoje, algum mandado de prisão para ser cumprido contra o cineasta.
A verdade, depois de se abstrair toda a lenda urbana em torno dos filmes e de seu realizador, é que estamos diante de filmes muito ruins, mas, em particular no caso de Cannibal Holocaust, obrigatórios para todo cinéfilo de respeito.
Em Cannibal Holocaust, a inesquecível música de Riz Ortolani combinada à excelente edição de Vincenzo Tomassi e ao trabalho do fotógrafo Sergio D'Offizi faz o contraponto necessário à canastrice do elenco principal e de apoio, ao roteiro ridículo - admito que a ideia central é bastante original - e à direção pífia de Deodato.
Observe que Ruggero Deodato faz uso dos mesmos golpes baixos que o personagem Alan Yates (Gabriel Yorke), um documentarista pilantra e mau-caráter, na busca incessante por fama e fortuna.
Quanto ao trabalho de Riz Ortolani, as composições Cannibal Holocaust (Main Theme), Adulteress' Punishment - presente em um dos momentos mais desagradáveis do filme - e Crucified Woman - fundo musical para o pseudo-documentário The Last Road To Hell - não só imprimem dramaticidade aos momentos mais marcantes - em todos os sentidos - do filme como enriquecem o vasto universo das trilhas sonoras compostas originalmente para o cinema.
Uma obra-prima, sim, a música de Cannibal Holocaust.
Marcadores:
Anselmo Duarte,
Cinema Encantado,
Damiano Damiani,
Dino Risi,
Franco Prosperi,
Gabriel Migliori,
Lucio Fulci,
Paolo Cavara,
Riz Ortolani,
Ruggero Deodato,
Umberto Lenzi,
Vincenzo Tomassi,
Vittorio de Sica
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Letra e Música
Tendo como mote a iminente visita de Lou Reed à próxima Flip – Festa Literária de Parati – o texto do jornalista Artur Dapieve tece um breve histórico das mudanças sofridas pelas letras, mas falha ao não retratar o contexto político-social que permitiu o surgimento de mestres como Bob Dylan e o próprio Reed.
Sim, porque grandes letristas que são, nem Dylan nem Reed seriam possíveis sem a erupção social e cultural que balançou o mundo nos anos 60. E também é meio que forçar a barra chamar Lou Reed de “filho” de Dylan.
Uma diferença de poucos anos separa os dois e pode-se dizer que representam lados opostos do mesmo fazer poético. Dylan, com sua pena mais politizada e erudita, é uma versão moderna de trovadores medievais, bardos renascentistas e artistas de tradição folk que usavam sua música como arma contra a opressão.
No lado oposto, Reed está muito pouco preocupado com as misérias deste mundo. Sua lírica investe pesado em temas mais urbanos como prostituição, drogas e sadomasoquismo. Seu universo contempla travestis, moradores de rua, o submundo de Berlim e de Nova Iorque.
Se Dylan eternizou-se com um violão e uma gaita, Reed distorceu sua guitarra de forma ensurdecedora e pariu, de uma tacada só, o punk e o rock alternativo.
O que é inquestionável tanto em um como no outro é a qualidade de suas produções poéticas, a influência de seus discos e a importância de suas carreiras.
O que nos leva a pensar no estado de nossa própria produção musical. Que seja cada vez mais claro que o futuro não nos reserva nada da qualidade de um Caetano Veloso ou de um Chico Buarque, isso é evidente.
O terreno sempre movediço da música popular permite o aparecimento aqui e ali de focos de inteligência e sensibilidade. Genialidade e clarividência, no entanto, são coisas do passado.
Num país em que se lê muito pouco e no qual a educação pública vive um processo de total desmantelamento, o que se assiste é um empobrecimento radical dos textos cantados. Seja pela adoção da linguagem sintética vinda da internet ou por simples preguiça intelectual, o fato é que não se aproveita quase nada dos escritos desses jovens que fazem música por aí.
Será realmente a geração do “puta falta de sacanagem”, que devora Harry Potter e faz fila para ver Crepúsculo, quem carregará a tradição de grandes letras na nossa música? Acho difícil.
Ou alguém acredita que o Restart e o NXZero ainda farão uma letra que chegue aos pés de Índios?
Marcadores:
Artur Dapieve,
Bob Dylan,
Caetano Veloso,
Chico Buarque,
Cinema Encantado,
Crepúsculo,
Festa Literária de Parati (Filp),
Folk,
Harry Potter,
Lou Reed,
NXZero,
Punk,
Renato Russo,
Restart,
Revista Bravo
O Exagerado
terça-feira, 6 de julho de 2010
O Homem de Preto
Estima-se, por exemplo, que Elvis Presley tenha vendido muito mais depois de morto que quando rebolava seu famoso quadril nos hotéis de Las Vegas.
A mesma praga parece assombrar outra lenda da música americana, o cantor Johnny Cash. Desde sua morte em 2003, incontáveis coletâneas cobrindo a carreira do primeiro e único “Homem de Preto” pipocaram e até mesmo um filme sobre sua infância e início de carreira foi lançado (Johnny e June, que rendeu, inclusive, um Oscar à atriz Reese Witherspoon).
Mas há dois lançamentos póstumos que podem ser colocados acima de qualquer suspeita: o disco de 2006, A Hundred Highways e o recém-lançado Ain´t No Grave. Ambos pertencem à magnífica série gravada por Cash ao lado do produtor Rick Rubin e conhecida como American Recordings. Os quatro discos iniciais da série, lançados a partir de 1994, reapresentaram Cash para uma geração de ouvintes que desconheciam, ou conheciam muito pouco, a obra do autor de dois mitológicos álbuns gravados ao vivo em penitenciárias norte-americanas (At Folson Prison e Live At St. Quentin).
É claro que não se pode esquecer do trabalho de gênio feito pelo produtor Rubin, que apresentou a Cash uma nova safra de compositores e reduziu os arranjos ao mínimo necessário, ressaltando a voz grave e intensa de Cash. Foi assim que surgiram versões magníficas de canções alheias como One (U2), The Mercy Seat (Nick Cave), I Won´t Get Back (Tom Petty) e Rusty Cage (Soundgarden), ao mesmo tempo em que emergiam as belíssimas composições do próprio Cash.
Todos os cinco discos da série são indispensáveis, retratos irretocáveis de um grande artista exorcizando seus demônios e renascendo como intérprete. Nesse sentido nada pode ser mais tocante que a recriação da canção Hurt, do Nine Inch Nails.
Presente no quarto álbum da série, The Man Comes Around, Hurt aparece despida dos adereços eletrônicos presentes no original, revelando cada mínima nuance de um homem já lentamente destruído pela doença que o levaria alguns meses depois. O vídeo da canção mostra a fragilidade do homem. Mas o que fica na cabeça é a fortaleza e a grandiosidade do artista.
Assinar:
Comentários (Atom)

